quinta-feira, 23 de abril de 2009

Tradições e rituais que vivi por Ansião

À laia da labuta da formiga também em terras de Ansião se arrecada sustento no verão para o inverno. Antigamente no meu tempo de miúda na loja da nossa casa no início do verão acomodavam-se mantimentos para surtir o inverno em arcas, pias e talhas de barro.
Os queijos do Rabaçal, eram guardados em azeite, comprados às mulheres de Albarrol e da Portela  de março a maio -, os melhores naquele tempo, à exceção dos que se faziam no Escampado Belchior na casa do primo da minha mãe, o Fernando Lucas nascido em Lisboinha, casado e sem filhos, anos houve que oferecia um avio de dez pelo prado da Ferranha. Queijos perfeitos, lisos de casca fina sem poros, delicadamente limpos, redondos, amanteigados, feitos com o melhor leite, o de abril. Quando frequentei o colégio religioso no Monte Estoril, a minha mãe enviou-me dois numa encomenda pelos meus 15 anos, em maio. Encomenda que jamais se esquece pelo cheiro do queijo a vir ao de cima, deliciosamente a derramar manteiga, ficaram colegas e freiras maravilhadas, não conheciam, o provaram  pela primeira vez -, queijo do Rabaçal. Bem-haja à alma da prima Ti Albertina, mulher que os sabia fazer como nenhuma outra, tinha umas mãos por certo frias e um saber, como até hoje não vi igual.
Ao fundo da loja de encosto à parede havia um caixote de compartimentação, onde se guardavam as leguminosas: favas, feijão da velha, grão-de-bico, feijão catarino e feijão branco. A arca do milho em agosto era cheia para as galinhas.
Na arca velha da avó com dobradiças de ferro feitas por alguém que tinha jeito, guardavam-se as nozes apanhadas em setembro, na altura não se usavam luvas, a casca grossa e verde deixavam marcas pretas na pele por muito tempo, depois de descascadas eram lavadas no carro de mão de ferro em frente da loja-, em 76 passavam na estrada dois belos rapazes -, o Fernando do Pinhal e o seu primo Fernando Manuel o "retornado" que fizeram o favor de gozarem comigo e com a minha irmã por andarmos na labuta das nozes. Finalmente eram postas a secar em cima da manta no patim, umas vendiam-se para Lisboa, outras para consumo, ainda ofertas e para bolos.Também era tempo do trator carregado de lenha para o inverno que o Ti Alfredo cortava no "burro", feito pelas suas mãos com toros de pinho, ensinou-me a empilhar as cavacas, azáfama em fazer pilhas direitas em cruz para não caírem no alpendre. Numa dessas tardes apareceu aos meus gritos o Zé Emídio com o "Toino Tarouca" andavam com a pressão de ar aos passaritos na escadaria do adro, o tratorista ao levantar o atrelado derrubou a ameixeira que eu tinha plantado...Rapazolas crescidos de ar uns gozões, riam-se ao verem-me aflita a tentar tirar sem êxito a lenha para a salvar ( que salvei, ficou com o tronco torta e sobreviveu anos) e no suor que me escorria… Ao entardecer ia-se pelos pinhais fora de portas, nos melhores terreiros limpos de mato com o ancinho juntava-se a caruma, aqui chamada de "munha", trazida numa manta de serapilheira, atadas as quatro pontas, entalado o ancinho à cabeça, na mão uma saca de pinhas para acender o lume. Não faltava a adega com os pipos de vinho, a cuba da água pé e o garrafão de aguardente em finais de setembro. A apanha da azeitona acontecia em finais de novembro, antes era escolhida da galega de pele enxuta, para retalhar na talha vidrada por dentro, em tons esverdeados e laivos amarelos, onde não faltavam os temperos; raminhos de tomilho a que na nossa terra se chama erva de Santa Maria, folhas de louro, dentes de alho e água da fonte do Ribeiro da Vide, ao fim de um mês era mudada, seguida de outras mudas de água, até ficarem bem curtidas, até deixarem de ficar amargas para se comerem, havia anos que se punham orégãos apanhados na serra da Senhora de Estrela para as bandas do Alvorge. As pias de pedra  se enchiam em dezembro com azeite novo e fazia-se a marcação do dia da matança do porco. Na tradição, o "massacre" do animal que era morto a seco, com punhal certeiro ao coração este ritual só aconteceu uma única vez na minha casa. Tudo por culpas ao meu pai -, amigo de dar  tudo o que tinha aos amigos “umas mãos largas" esquecia-se do trabalho de o engordar, da distância do curral ao cimo do quintal, do trabalho de andar acima e abaixo pelo carreiro com baldes pela mão de lavagem, fizesse frio, chuva ou calor. Aconteceu o imprevisto ao dar a carne num virote aos amigos. Desesperada a minha mãe fez uma promessa de nunca mais fazer a matança. Preferia vende-lo na feira dos quinze, no largo do Ribeiro da Vide, e assim foi nos anos seguintes. Recordo de ver o animal de patas amarradas em cima da banca de madeira num chiar ensurdecer, sem dó nem piedade um homem desferiu uma estucada a frio direto ao coração, no chão ao endireito das golfadas de sangue estava o alguidar envinagrado que uma mulher mexia com a colher de pau para não coagular para  se fazer as morcelas. Na cozinha, em cima do banco de espaldar em frente ao lume a minha mãe cortava o lombo em pedacinhos muito pequenos, enquanto isso eu barafustava com a minha irmã no depenicar das folhas de louro e no esfarelar com o dedo o colorau doce do cartuchito de papel aviado na mercearia. Depois da carne cortadinha tudo era regado em vinha-d’alhos com sal e ficava a marinar. 
Fazer as chouriças? Era uma festa, de funil em punho de um lado eu, do outro a minha irmã, enchíamos a tripa seca, demolhada, comprada na mercearia da tia Carma. Com a ajuda do dedo empurrava-se a carne, de guita na mão a nossa mãe ia-as atando, dando-lhes a forma de ferradura... 
Já as morcelas as via fazer com a mistura do sangue do porco, farinha, carne entremeada, salsa fresquinha apanhada no rebordo do poço, sal e cominhos… As farinheiras levavam gorduras frescas do porco misturado com farinha, alho, pimenta e sal. Os presuntos eram salgados durante três semanas, a seguir curavam no fumeiro mais de dois meses, finalmente eram barrados com colorau. Gozo maior era a tarefa de enfiar os enchidos nas varas de loureiro que se estendiam no estendal debaixo da chaminé da lareira, onde se curavam com o fumo das cavacas de carvalho ou oliveira, havia dias que choravam e nos sujavam de pingos gordos…Ao tempo o porco alimentava-se com abóboras, figos, beterrabas, couves migadas, bolotas, sêmeas, e restos dos escolhidos da cozinha. A carne era muito saborosa e os enchidos únicos. Desespero sentia ver a caparem os bácoros - chegava-se o capador e do bolso tirava uma navalha larga de lâmina, entrava no curral apanhava o leitão e prendia-o entre as pernas para em ato sem pedir licença puxar os colhões do pobrezito - zás e cortava – coitadinhos, os deixava a chiar, e eu sem poder fazer nada, questionava a minha mãe que me dizia “ tem de ser capados para quando fossem crescidos a carne não saber a barrascum” - demorei tempos a perceber! 
Ritual do matar do porco na casa da tia Maria acontecia todos os anos ao cimo do quintal junto à eira. Chamuscado e raspado exalava um cheiro a carne queimada. No barracão o via pendurado enfiado no chambaril pelos tendões das pastas dianteiras, o seu fim era depois de escorrido ser aberto de alto a baixo para desmanche de carnes.
Vísceras eram postas no tabuleiro de madeira, com elas se cozinhavam pratos típicos no dia da matança: papas de sarrabulho, cachola, iscas com elas e fressura assada na brasa, que nós chamávamos "passarinha". 
Tripas eram lavadas na ribeira do Nabão junto ao canil municipal, ficavam branquinhas viradas com a ajuda de um vime, depois de volta a casa, nelas se enchiam em morcelas, chouriças, farinheiras e paios. 
O entrecosto, cabeça, chispes, pernil, toucinho da barriga ia tudo para a salgadeira a fiel guardadora das carnes em sal grosso para se aguentarem para o sustento do inverno. A nossa "arca salgadeira" julgo só serviu para uma matança, e  salmoura ocasional de carne de porco. A minha mãe passou a comprar o lombo para fazer as chouriças depois  que se aguentarem no inverno guardadas na talha com azeite. 
Comia-se o bom do cozido à portuguesa aos domingos no inverno. Depois do meu avô enviuvar era convidado o meu avô "Zé do Bairro" para almoçar em nossa casa o seu prato favorito -, vaca cozida com hortelã como gostava. Atarefada na cozinha a minha mãe mandou-me ir comprar arroz à mercearia do Ti Piloto. Entrei pela taberna, a Fernanda a lavar copos de três na pia de pedra de lioz cor de tijolo, na mercearia a Bina aviou-me um cartucho de papel pardo com arroz carolino. Vinha eu a saltar e a brincar depois de passar a fonte do Ribeiro da Vide, rez vez o alcatrão acabar quando tropeço no macadame e o cartucho se estateloue à minha frente no chão, ligeira apressei-me a apanhá-lo conforme pude e fui para casa, sem contar nada do sucedido. Durante o almoço o avô dizia, "raios parta a merd..do arro, está cheio de pedras"…eu de boca caladita "não falasse o "cú" que da boca também não…"
Outros comeres de antanho: Arroz de bacalhau com um nadita de colorau e um pinguito de vinagre, também da massa de cotovelinhos com o fiel amigo, ainda na receita à Gomes de Sá no tabuleiro no forno, ou cozido com batatas e feijão-verde o mesmo com a raia; jardineira de frango ou vaca, ensopado de borrego, caldeirada de cabrito ou assado no forno com batatinhas e grelos o mesmo com a galinha corada, frango na púcara; arroz de cabidela; galinha estufada à Moda de Ansião com couve branca, a receita pobre da perdiz à Moda de Coimbra ; arroz de coelho ou estufado; sardinha assada com batata cozida com a pele e pimentos; atum com feijão-frade, batatinha e cenoura e cebola picada com gomos de tomate e azeitonas; favas com entrecosto; ervilhas com ovos escalfados e chouriça.Nos casamentos comia-se outros comeres mais antigos da nossa terra: Cacholada, Papas de Sarrabulho, Verde e,… As sopas, no meu tempo tinham a função de "tranca da barriga": grão-de-bico, feijão-verde, feijão da velha com repolho, caldo verde, e sopa à lavrador,ou de entulho ou à moda da terra, ou da panela, tantos nomes para a sopa da pedra com feijão, hortaliça, ossos, enchidos e barriga de porco. 
Nesse tempo em minha casa só se comiam produtos da estação da agricultura de subsistência que os meus pais mantinham no quintal e fazendas.Hábito de sempre em casa se comia a fruta e legumes da época e as leguminosas amolecidos de um dia para o outro em água, depois de inchadas prontas a cozinhar. No tempo das favas e ervilhas, comiam-se todos os dias, igual no tempo do feijão-verde, dos grelos, e da couve nabo que se chamam " grelos couveros". E claro a couve galega era rainha.
Desde miúda despertava em mim outras vontades que não os estudos -, de saber fazer e questionar coisas ligadas à terra. A meu pedido, o meu pai disponibilizou um canteiro de terreno atrás da casa para eu fazer as minhas sementeiras. 
O que restava do triciclo vermelho da minha irmã servia de trator. 
Orgulho sentia das minhas batatas -, as primeiras a serem consumidas em casa, o meu feijão-verde fazia questão no dia da festa de Santo António em junho fazer a primeira colheita para oferecer na fogaça. Que danação sentia a tia Maria de o dela ainda nem florir, esquecia-se, que eu o semeava mais cedo, de volta dele andava por causa do piolho, quantas vezes o voltava a semear, tal a insistência e carinho, só assim possível, também porque estava abrigado o raças do canteiro!
Nostalgia sinto de não mais voltar a ver as noras a trabalhar com  mulas ou burros andar à roda do poço a fazer rodar o sem-fins, no louco vaivém dos alcatruzes graciosos a despejar água na pia de pedra, para os ver de novo no voltar a descer ao poço e voltar a encher, voltar a subir e despejar. Magia da água a correr de mansinho pelo rego, também dos balanços nos poços, e de andar descalça a regar milho.

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