sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

As águas passam e nós mudamos com elas...

Falar sobre mim é falar também sobre nós mesmos, enquanto pessoas refugiadas na sua própria circunstância.Assim prefaciava Dom José Ortega y Gasset que o afirmou com autoridade:
"Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”

Sendo que a compreensão da circunstância é passo essencial para entender o homem, suas carências, sonhos e angústias, compreende-se, portanto, que os homens se matem e se roam pelas suas paixões, porquanto cada ser é ele próprio e a sua circunstância.
A minha circunstância mesmo que imersa no mesmo oceano, difere da circunstância do meu vizinho, embora ambos possamos nadar ou afogar-nos nas mesmas águas. Das águas, e dos banhos, por necessário, e até na alegoria do viver, Heráclito de Éfeso, muitos anos bem antes e bem distante -, nos dissera e ao mundo sempre eterno e transigente:
  • “Ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas”.
As águas passam e nós mudamos com elas.E as águas sempre mudam quando passamos por elas. E nesta mudança sem fim é construída a nossa circunstância, enquanto animal político em meio à barbarização da besta imersa no nosso interior, resistindo ao processo de humanização do ser que propõe a tolerância e a aceitação das diferenças. Porque ainda é tão difícil aceitar o outro, mesmo agora em pleno fastioso científico e cultural!
Porque é terrível conceber o pensar em divergência, nas cores, nas flores e nos horrores? Onde está a humanização do ser tão clamado sem logro por credos iluminados ou por postulados, bem provados e fundamentados, sem logro de medos?

Como fazer o bom debate fluir, criar e esclarecer, se, em tese, pensamentos discordantes são dirimidos por concepções rasteiras e medíocres que desqualificam sem aclarar?
Como também acordar os indiferentes, estes cadáveres insepultos que jazem nos cemitérios erigidos em suas próprias vidas de muitos sonos?
Como despertar o colorido da vida ao nosso redor, se em outros os motivos de sorriso, lhe ressudam o Narciso equivocado, quebrando espelhos, xingando a si e a sua circunstância? Ah Ortega, que não os abandona nos seus recalques, neles raiz dos por raivosos, mesmo que a tudo maldigam, babando aquela fúria rábia que só deveria ser da besta-fera, do inumano, do desumano, do não humano desapaziguado no ser!
É neste contexto de crise em que tento buscar incessantemente a verdade, uma verdade que também seja minha.

Eu que continuo simplisticamente, e até simploriamente, a ver a humanidade repartida entre os que a constroem, os que tudo destroem e os que a tentam conservar.
E a parte destes que ousam fazer algo, há os eternos insatisfeitos, os sempre incomodados com tudo, inclusive os que se crêem cercados por tolos e néscios e que não conseguem atrair para si nem o escarro, nem o escárnio em substituição aos aplausos jamais auferidos.
Mas, eu só desejo falar de aplausos.
Eu desejo aplaudir, efusivamente ovacionar, por merecedor, como só os construtores e os que conservam o merecem.

Em boa hora, vir a lume este tema reflectindo sobre o modo como as escolhas que fazemos, as relações que estabelecemos, as situações que vivenciamos e a teia social e cultural a que pertencemos, configuram a pessoa que somos no nosso viver em terras diferentes, num desafio pessoal e à própria circunstância, para repelir a aridez miúda do mesquinho, fustigando a acomodação pacífica dos que preferem restar na indiferença dos moucos a abafar a rala vaia dos loucos, e se fazer roucos em aplausos e guizos de conquista.

Em boa hora, repito, lembrar-me de velhas histórias dos mais de cinquenta anos da minha vida, refazendo e reconstruindo a minha história, resgatando feitos e destacando factos esquecidos pelo olvidar dos tempos e pela conveniência dos homens que adjectivam e substantivam, desbotando, esmaecendo, desfocando e até apagando os feitos e os heróis em seus relatos.
  • Coisas dos vezos, dos desavezos e dos desprezos do humano.
Mulher de muitas generalidades, direi sem excessos de generosidades, ou outros interesses disfarçados, que Garcia como Gasset, não só se salvou a si próprio, como até a sua própria circunstância, que restou melhor com sua acção e sua passagem entre nós.

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