sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Espaço rural e o fenómeno da emigração

Uma das características do espaço rural português prende-se com o fenómeno da emigração. Por volta dos anos 40, em virtude da guerra, do racionamento e da miséria originou-se um êxodo rural, expresso pela saída em massa da população das aldeias para o litoral e Lisboa à procura de melhores condições de vida. Muitas famílias abandonaram as aldeias, por lá apenas insistiram em permanecer os mais velhos, outras ficaram praticamente desertificadas. A partir dos anos 50 e 60 deu-se outro surto migratório para fora do país, nomeadamente França, Suíça, Alemanha, Luxemburgo, núcleos mais significativos de comunidades migrantes de portugueses. A população residente no espaço rural que teimou permanecer continuou a viver de uma agricultura de subsistência, pastoreio, e floresta.
Algumas aldeias sobreviveram até hoje, outras porém encontram-se desabitadas e abandonadas, desde que morreu o seu último habitante. Também muito por culpa das autarquias e Juntas de Freguesia que durante décadas não apostaram em infra-estruturas. No entanto, uma nova geração de pessoas oriundas de vários países da União, a partir dos anos 80, muitos reformados optaram por vir viver em Portugal. Gostam sobretudo de isolamento, das aldeias recônditas, adquirem casas velhas com quintais, procedem a restauros, apostam no cultivo de ervas aromáticas, culturas biológicas e árvores de fruto, no mesmo espaço rural que antes estava abandonado.
Desde sempre espaços rurais como o Parque da Peneda/Gerês e Serra da Estrela sempre tiveram alguma capacidade de oferta de actividades para os seus visitantes, o mesmo não acontecia noutras zonas do país, considerado `laia de gozo” o resto é paisagem”.
No entanto algo mudou nas últimas décadas, tem-se assistido a uma significativa alteração destes roteiros inicialmente dispersos, hoje encontramos uma oferta mais estruturada a nível do país que passou a estar na moda com a descoberta de novos encantos como os Açores, Alentejo, entre outros. Também o crescente fenómeno da oferta de turismo rural desde casas em pedra, palacetes, azenhas, moinhos, adegas, quintas, onde são desenvolvidas actividades diversas em que os turistas podem participar na azáfama do quotidiano da quinta ou da casa de lavoura como a vindima, apanha de fruta, castanha, ou na produção artesanal do pão cozido a lenha, mugir ovelhas e cabras, conhecer o ritual da arte de fazer queijo, coalhar o leite ao lume no pote de barro vidrado a que se junta flor de cardo seca, após o leite estar coalhado enchem-se cinchos em folha-de-flandres, aperta-se para retirar o almeice, tipo requeijão esfrangalhado, que se pode comer com açúcar ou em sopas. Ultimamente tem surgido novas ofertas suplementares como desportos radicais, escalada, montanhismo, descidas de rápidos em canoas, caminhadas em grupos para conhecer a botânica e andar de bicicleta.
Muitos são aqueles que tem enveredado por este ramo de negócio, criando infra-estruturas de apoio como página na internet, e e-mail para marcações de reservas, com slides ilustrativas do local para cativar o cliente.
Surgiu assim um novo modelo empresarial para quem tem estes tipos de espaço, alguns recebidos de herança difícil de dividir, sendo esta uma excelente oportunidade de rendimento para os donos poderem proceder à sua manutenção do património muito onerosa que doutra forma não o conseguiriam.
Nasceram assim novas apostas de negócio com grande relevância e peso na economia nacional. Uma grande oportunidade que surge para revitalizar espaços rurais, dando-lhes nova vida, que no contraponto ameaças, o discurso dos ambientalistas e ecologistas deveria ser entendido e executado pelas entidades competentes em esclarecer e apresentar propostas de viabilidade para a crescente degradação ambiental, em particular para a desflorestação e perda de biodiversidade. Sendo que as maiores ameaçam no momento são:
O espaço rústico super dividido em minúsculas propriedades de parcelas e parcelinhas separadas por muros de pedra, o que inviabiliza e dificulta a sua continuidade e preservação, em virtude de muitos proprietários ao longo das últimas décadas por falta de rendimento e de interesse, os deixaram ao completo abandono. Situações, que no futuro será difícil de sustentar, mesmo impensável continuar, que propicia uma segunda ameaça, os incêndios. Calamidade brutal na devastação florestal, da vida animal, da flora e até de bens pessoais das pessoas. Por último uma terrível ameaça a excessiva plantação de eucaliptos, espécie infestante, nasce em qualquer terreno, destruindo toda a flora rasteira, de raízes profundas esgota os lençóis freáticos, e ainda a erosão dos cumes das serras. As águas das chuvas não se infiltram por falta da flora rasteira e de raízes que consigam suster a mesma no solo, assim, descem abruptamente pelas encostas nuas de vegetação e falta de biodesividade diversa sem hipótese de o terreno a absorver. Outro factor negativo é o lixo deixado arbitrariamente por todo o lado. É uma aposta de sucesso, optimizar espaços rurais transformando em ambiente rural armazéns e celeiros desocupados, casas em xisto, granito, calcário, terracota e agora na moda, casas de madeira, de todas as mais ecológicas que se enquadram em ambientes de sustentabilidade.

- O espaço rural caracteriza-se como aquele que sofreu pequenas alterações ao longo dos tempos, mantendo ainda na essência as mesmas condições de vida primitiva dos seus habitantes. As aldeias ao longo dos tempos distribuíram-se em tipologia grupal, outras isoladas em linha ao longo das estradas, intercaladas por terrenos de cultivo e floresta. Apesar da miséria em que viviam, cada um tinha a sua casa, aparentemente felizes, havia o tanque de lavar roupa, minas de água, capela e taberna com mercearia. Já lá vai o tempo de vida agitada nas aldeias, bailes nas varandas de sobrado, namoricos na mina, conversa fiada na taberna, rir à gargalhada com homens a cambalear esquinados de vinho, mulheres que gritam com cachopos, demoram com as cântaras de água. Matreiros de ouvidos moucos escapam por carreiros das hortas, roubam por todo o lado fruta verde, saciam a fome. Saudades da partilha de ajuda laboral nas tarefas agrícolas, descamisadas, vindima, sementeiras da batata e do milho, dormir na eira como guardador da colheita, sentir o cheiro da broa e das merendeiras de açúcar e azeite que fumegam no ar vindas do forno, de levar à vizinha a malga do crescente, do mulherio que se junta ao lavadouro cantando à desgarrada desenferrujando a língua. Saudade, do senhor prior no dia de Páscoa, da azáfama dos preparativos, do cheiro a lavado dos” poses” no soalho, da razia de flores de todas as cores espalhadas à laia de tapete na entrada da casa a jeito de convite. Acordar de manhã com o cheiro do leitão entalado no espeto de loureiro, convida a saltar da cama, querer participar na festa. Em jeito apressado, colher a laranja mais reluzente da laranjeira, riste em corte, entalar 5 coroas, pagamento da Côngrua. Ao longe o vento trás o som da campainha, os cachopos juntam-se, em correria pelos caminhos e todos querem chegar primeiro, ajudar o sacristão com as galinhos e os galos, oferendas, pois claro. Estafados com a língua de fora, saudades de recordar a sala da varanda cheia de begónias benza da casa pelo Senhor Prior os gestos rítmicos com raminho de oliveira e água benta. Tempos e vidas que nunca mais voltam, perderam-se para sempre.
Nas últimas décadas, as Juntas de Freguesia têm procedido ao alargamento e asfaltamento de estradas nas aldeias, ao alargamento da rede de abastecimento de água, electricidade e recolha de lixo. É usual ver-se em algumas Juntas de Freguesia a aposta em meios informáticos, com espaço cibernauta gratuito aos utentes, casos há, de instalações em aldeias mais isoladas para os seus habitantes aprenderem a comunicar através da internet com familiares distantes. Também a reabertura e alargamento de antigos caminhos no meio da floresta em terra batida ao abrigo das novas directrizes da União Europeia para prevenção de incêndios, manobras para abate de árvores, lazer para circuitos de moto 4, e caminhadas. A oferta cultural no espaço rural continua escassa, se a aldeia tiver uma capela, no dia do Santo padroeiro fazem a festa religiosa a que associam vários eventos culturais, como musical, banda da Filarmónica, actuações de ranchos folclóricos e exposição de actividades diversas feitas pelos utentes do Lar da freguesia.
É com agrado assistir a novas apostas com o intuito de revitalizar novamente vida nova a espaços rurais. A serra da Lousã viu renascer cinco aldeias em completo abandono, na traça original em xisto para turismo rural. Outras se tem seguido, na Foz do Cobrão para os lados de Vila Velha de Ródão, onde os rios se cruzam e os homens ainda procuram o oiro. Aldeia de S. Simão, concelho de Figueiró dos Vinhos. Tantas outras a renascer por esse Portugal fora. É um fenómeno aliciante, traz gente nova, riqueza, novas oportunidades para gentes que gostam de explorar aldeias recônditas e inacessíveis, vale a pena apostar, e ao visitante apreciar!
O espaço urbano caracteriza-se essencialmente por estar inserido num meio inicialmente planeado e desenvolvido num projecto camarário, densamente povoado, com muitos habitantes por m2, sendo dotado de rede de escolas, centros médicos, serviços camarários, comércio diversificado, rede de transportes, espaços verdes e oferta de trabalho. Com uma diversidade de ofertas de actividades culturais gratuitas, outras não, a toda a população. Espaços verdes para adultos, crianças, e animais, nomeadamente cães. Panóplia diversificada de agenda mensal: espectáculos musicais, dança contemporânea, ballet, ópera, entretimento, circo, teatro, cinema. Diversidade temática de museus que aos Domingos oferecem entrada gratuita até há 1 hora. Exposições variadas de arte: escultura, pintura, joalharia, entre outras. Rol de feiras de artesanato, antiguidades e velharias, e ainda o crescente renascimento de algumas romarias de cariz religioso que, no conjunto, apresentam várias valências de âmbito cultural: Procissão, venda de fogaças, quermesse, jogos tradicionais, tasquinhas, musical, dança e o convívio com forasteiros, conhecidos ou ocasionais também são fenómenos culturais. Também a aproximação de grandes eixos rodoviários que permitem frequentar praias diversas, lugares românticos como Sintra, desfrutar ao limite ao gosto e paladar do utente, assim tenha ele a criatividade e aventura capaz para tal!

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