segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Alberto Lucas Afonso filho de Pousaflores



Irmão da minha mãe, a Ricardina -, o terceiro filho a nascer na aldeia de Moita Redonda do casal Maria da Luz Ferreira e José Lucas Afonso, puxou miscelânea às raízes do pai, com descendência nos foragidos invasores franceses do Buçaco -, conta-se que as gentes de Lisboinha onde nasceu, tiveram de abrir as arcas do milho para alimentarem os cavalos, segundo a avó do João Patrício, também na Moita Redonda se abrigaram outros nuns casebres às Hortas.
No dizer do Abel Santos Silva -, homem de trato fino, publicou um livro, um sonho realizado em 1993. Livro - Crónica Histórica de Pousaflores 
Excerto duma mensagem do conterrâneo e grande amigo, o João Patrício, nascido em Lisboinha na mesma aldeia do pai do meu tio Alberto.
"O Ti Alberto Lucas era um sonhador, tinha uma caligrafia impressionante" (aprendeu na escola da Portela com uma Profª de Aveiro D. Maria dos Anjos Peixinho, decorria o ano de 1930, a minha mãe sua irmã, havia ainda de nascer em 1934).
"Sobretudo era um ser humano excepcional...
Condutor da carrinha do Externato de Ansião, levou-me durante 4 anos. 
Viu o seu irmão Carlos assassinado na beira da estrada (eu também vi). 
Declamava Poesia como nunca ouvi, estou a ouvi-lo no poema de Almeida Garrett "

                      Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador? Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador! Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador! Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador. Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!

"Fazia discursos apaixonados, mas por vezes estava em silêncio, como se fosse para outras paragens...
Alucinadamente falava dum tempo que foi a Angola..."
Homem bafejado de belezura pelos traços fisionómicos: olho para o esverdeado e cabelo forte ondulado em castanho raiado de dourados. Possuidor de cariz sentimental, sensível, romântico, poeta, declamador, escritor, tinha o fascínio pela concertina!
Enquanto rapaz foi acometido de enfermidade cutânea de equezema nos cotovelos. A mãe, a minha avó Maria da Luz levou-o depois dele ter ido com o pai que também sofria do mesmo mal às termas de Monfortinho, foi no "banho santo" no tanque para homens debaixo da Ponte da Cal em Ansião, onde correm as águas santas da ribeira do Nabão, que se havia de curar. Espanto e acreditação, a mazela sarou para sempre, fazendo jus ao poder ancestral de cura milagrosa destas águas. Assim o diz a minha mãe.
Dele se comentava ser possuidor de perfil maniento e escarniento, acredito por maquiavélica influência do irmão Carlos. Juntos tinham adoração em atazanar as vizinhas, Ti Joaquina pobre velha vivia com a filha Maria, no leirão abaixo do seu quintal. Certo e sabido andavam sempre com sarilhos na roda da sua casa de sobrado castiça, alpendre e varandim em madeira, sobranceiro ao ribeiro com sombra do choupal, soalheira. A pobre mãe tão pouco queria que os rapazes Lucas se aproximassem da sua Maria, a quem repetia " filha és uma broa inteira, guarda-te para homem que não seja daqui..." Saiu-lhe na rifa um flausino do Vale do Rio...
Hoje se diria do meu tio Alberto -, homem de cariz inteletual, artista, um lírico! 
Difícil será atestar a razão por que não continuou os estudos em Coimbra -, sabendo que o pai fez questão que a sua primogénita Maria Augusta fosse professora, a mandou de malas para cidade dos estudantes, a irmã Rosária tirou o 2º ano, e a minha mãe por ser a mais nova também havia de tirar o 5º por forte influência deste irmão que foi a Coimbra com ela fazer o exame de admissão. 
Julgo que o motivo se prendeu com o outro filho -, o Carlos que não gostava de estudos, em dada altura a pobre mãe encontrou o Prof Cardo, questiona-o sobre o aproveitamento escolar em abono do marido estar fora na arte de paneiro pelo Alentejo -, o Prof. espantado diz-lhe " oh mulher há mais de seis meses que não lhe ponho os olhos em cima do Carlos..." visivelmente furiosa por lhe fazer a bucha todos os dias para ele levar para a escola, havia de o questionar enraivecida -, este responde-lhe com uma grande descontração " oh minha mãe, eu faltei porque não preciso de andar à escola, até lhe digo, sei mais do que o professor"... Já a Maria Augusta apesar de inteligente não tinha sorte nos exames, chumbou anos (?) nunca chegou a ser professora...Atenta e desiludida, um dia até chegou a comentar com o pai " não quero que prejudique os meus irmãos por minha causa..." 
E assim por isto, ou por outras causas -, porque falta de dinheiro não foi -, quem se haveria de prejudicar para sempre foi o Alberto por não ter continuado os estudos! 
Quem sabe se não foi a saudade (?) que dele se apoderou em deixar a sua terra, a sua amada, e por isso não quis frequentar Coimbra... Uma coisa é certa, fazia questão em ir esperar a irmã à carreira nos Portelanos -, fizesse chuva ou sol, no caminho sempre na respinga, cavalheiro trazia-lhe a mala.
A sua mãe mulher beata em demasia batia-lhe, tal a afronta de ele ousar tocar concertina em plena Quaresma... 
Atrevido, gostava de lhe trocar as voltas, para ela não dar conta deste prazer. Escolhia para esconderijo o pocito do engaço no leirão de cima, onde se enfiava, e outras vezes na casa da Ti Teresa às Hortas, onde a minha mãe chegou a levar-lhe o almoço algumas vezes.
Jeitoso de mãos quis presentear a sua mãe pela Páscoa com uma mesinha oval para a salinha da varanda para receber o Sr Padre -, em cima do naperon de linho brilhava a laranja puxada do ramo da laranjeira do quintal onde incisou corte em riste e entalou uma moeda -, a côngrua!
Também foram obras dele na casa: a retrete de madeira no quintal, e o açude no ribeiro em frente da casa para se passar para as Hortas.Outra sua irmã, a Rosária ao tempo Regente Escolar -,com ela andou a minha mãe na primária, alugavam sempre um quarto com serventia de cozinha.
Nunca se fez rogado este irmão Alberto em as visitar pelas terras onde elas andaram, e foram muitas (Albarrol, Maças de D. Maria e Vale do Senhor) ia a pé ou de bicicleta, além de preocupado, levava mantimentos para matarem juntos, saudades de casa.
Uma vez foi para os lados da Arega em Figueiró dos Vinhos, onde se hospedaram em casa rica de grande fartura, a lavoura. A mãe dele ao ter conhecimento da riqueza e das raparigas solteiras do Carapinhal logo o assediou para namorar uma delas...
Mas o Alberto Lucas não queria nenhuma -, apesar de lindas moçoilas, desempenadas, enxutas, e ricas, o seu coração, os seus olhos, só viam a Albertina Rosa da Portela!
Perdido era vê-lo em contemplações horas a fio, especado ao alto do muro de xisto, na ribanceira da eira, sempre de olhar fixo, ao endireito da casa da sua amada da Portela... Sonhava em a ver, como se tal dali fosse possível...
Só queria ser feliz com ela!
A tal ponto que a mãe ao vê-lo apático, sofrido, questiona-o sobre o que o atormenta, ao que ele lhe responde “gosto da Albertina da Portela…” a mãe não aprova a escolha, ele insiste ” oh minha mãe, ela é que ainda não me quer” - ato imediato, a pobre mãe desalentada corre atrás dele, bate-lhe e ainda lhe diz “ oh seu infeliz, então ela é que não te quer? Tens fartura de raparigas ricas, bonitas, vais logo escolher uma, que pouco ou nada tem e, ainda dizes que ela não te quer, logo tu um rapaz formoso, um "pão inteiro" e ainda por cima rico”... 
Não seria muito do seu agrado o modo de vida a percorrer montes alentejanos na carroça com o irmão Carlos, e o pai, na rota sazonal de paneiro. Numa dessas campanhas, as saudades bateram tão fortes que num ato desmesurado em Avis desarvora, volta a casa a pé, haveria depois no caminho comprar uma bicicleta, para mais depressa reaver as saudades da sua mui amada!
Garagem do Chevrolet ao Marco
Alberto de carta de condução tirada em Alvaiázere o pai feliz com um chauffer em casa tratou de comprar um Chevrolet com garagem no barracão de guardar a azeitona sediado no Marco, à beira da estrada. Peregrinação a estreia a caminho de Fátima, também a Avis para conhecer a escassos 5 km em Santo António de Alcônrrego a quintarola alugada, presente dos pais ao irmão Carlos que se tinha casado, até hortelão da Moita Redonda haviam de levar na carroça...
Louco de amores foi o tio Alberto por aquela mulher formosa e meiga de seu nome Albertina, e assim também eu a havia de conhecer!
Admirável atestar a sua personalidade ao tempo -, no privilégio da escolha do AMOR em detrimento da riqueza! 
Penhascos da Nexebra
Nos últimos anos de vida a minha mãe convida-o, e ao tio António do Vale, para irem aos penhascos da Nexebra, ver uns marcos de umas sortes de herança. Ambos acederam ao convite. 
Avia farnel para a jornada que degustaram na sombra do frondoso castanheiro no Leirinho.
O tio Alberto mostrou-se emocionado pelo carinho da lembrança e do repasto lhe saber tão bem que não se cansava de agradecer tal gesto à irmã -,alegres desatam em conversa a falar do tempo que os pais faziam piqueniques na serra sem eucaliptos, cheia de flores, abrigotas e pinheiros, serpenteada pelos outeiros com frondosos castanheiros onde a leitoa degustada era rainha...O padre Melo, o Dom João e outros, eram convidados assíduos.
Na casa debaixo na primeira janela foi o quarto das raparigas, o dos rapazes era virado para a serventia entre as casas.
Já doente, acamado, a minha mãe visita-o em casa. Convito que a doença será passageira (?) mostra-se agarrado à vida e às boas lembranças da sua Moita Redonda, sem nada o fazer prever, agarra na mão da minha mãe, e diz-lhe " Dina se tu quiseres eu convenço a Tilde (irmã Clotilde) para te vender a casa, vais pô-la de pé como foi no nosso tempo, sei que és capaz, não queres voltar a viver lá bons momentos, como dantes?"
Desaponta-o a minha mãe quando lhe diz que já é tarde, se tivesse sido uns anos antes... 
Haveria de me confidenciar que as lágrimas se fizeram em mágoa desabrochar naqueles olhos doces, na mesma mágoa irrompem os dela...
Visivelmente tristes aqueles pares de olhos verdes no comungar da saudade daquela casa, onde nasceram no sopé da Nexebra, depois do barro vermelho nas lajes, o xisto rebenta em fúria na quelha do Vale na Moita Redonda...Sonho mayor desfalecido em ais, em a voltar a ver de novo renascer...Mostra-se desiludido, não esperava o desinteresse da minha mãe -, sabendo que o sonho era dos dois...Mas tardio, naquele agora, pela diferença de idades, a minha mãe com menos 20 anos, sentia no irmão o chegar da doença mortal, que ele no seu achar, julgava maleita passageira...A Moita Redonda só teria valia estando ambos vivos e com saúde, no desfrutar das mesmas cumplicidades!
Homem convito de ideais sentia alto gosto antes de partir desta vida o querer voltar à sua querida Moita Redonda, sentir momentos felizes a ouvir o chilrear dos passarinhos, o sussurrar das águas do ribeiro e de boca doce a contar estórias nas tertúlias fosse na sala da varanda, na cozinha sentados no banco do pai, ou no quintal à sombra da laranjeira...Os mais românticos e sonhadores dos seis irmãos -, com gosto pela escrita, pelas raízes, e pelos amores. 
Sonho demasiado alto, não realizado anos antes por falta de diálogo, quezílias de sortes...Foi pena, porque a família LUCAS merecia! 
Naquele momento selaram o último beijo na sua despedida desta vida!
O tio teve duas lindas filhas: Manuela e a Isaurinda, esta bem passa por filha da minha mãe, de tanto que são parecidas, fomos todas colegas no Externato em Ansião, claro fui ao casamento de ambas. 
Espero que o meu bom amigo João Patrício não se escandalize com a confissão que me deu -, tal prazer senti no deleite da leitura, expô-la aqui -, fecha em glória a crónica a chave d’oiro, qual soneto a Pousaflores... À grandeza das suas gentes e vidas"
As filhas do meu tio;Nélita e Isaurinda na teima de não deixarmorrer a tradição das fogaçeiras
"A Manuela foi uma das minhas melhores companheiras de Escola e a Isaurinda com 12 anos era a menina mais bonita do povoado, com pena minha, muito olhou para mim...A Ti Albertina conheci os pais dela.O meu pai matava o porco em casa da Celeste, sua irmã, que vivia nos Carvalhos.Agora sei que o mote da matança tinha o sentido de ser dois em um -,matar o porco ao pai, e o outro bem melhor, matar desejos proibidos à filha Celeste..."
Prezo demais a Isaurinha, doce como a mãe, no dia do 25 de abril de 74, combinação de véspera me ensinou na arte do crochet, pois só sabia fazer cordão que aprendera nas freiras! 
Herdei do meu tio Alberto e da minha mãe Ricardina alguns gostos... O da escrita, de contar estórias, é só um deles! 
Não menos surpreendente a mensagem que a sua linda neta Ana Lucas me endereçou, nela senti a doçura da avô e o prazer da escrita do avô, não resisti a transcrever um excerto, espero que não me leve a mal divulgar: 
"É com muita emoção que venho agradecer-lhe as palavras que lavrou acerca de meu avô Alberto Lucas Afonso, pai de minha mãe, e sua prima, Isaurinda Lucas. Na verdade, as suas palavras fizeram não só escorrer aquela lágrima de saudade, mas também de orgulho, por sentir que não fui a única a aperceber-me do grande homem que foi o meu querido avô. Foi um grande vazio quando o perdemos, a ele, e à minha doce avó Albertina, e não é por serem meus avós mas... Hoje afirmo que não houve amor mais bonito que eu tivesse conhecido como o que eles partilhavam.Foi a herança mais bonita que me deixaram, a de saber que o ... "e foram felizes para sempre existe mesmo!Obrigada por todas as suas lindas palavras que particularmente me tocaram".
A minha prima Nélita encontrou a minha mãe, transmitiu-lhe que tinha ficado emocionada...
Ora basta falar a verdade com afetividade-, sinónimo de ser dona de bons sentimentos!

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