quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Gostaria de ter nascido no Alvorge!

Gosto muito de Ansião minha terra de adopção,aqui vivi até aos meus 20 anos, mas nasci no Instituto Maternal na Sé Nova em Coimbra.Algumas pessoas interrogam-se pretendendo saber o porquê. Direi que é muito simples, pelo carinho que sinto seja por  Pessoas e  por Pedras...Lamento muitíssimo a atitude dos nossos antepassados, alguns ainda vivos, que por não terem o mesmo orgulho pelas ditas Pedras...diria em jeito de ofensa que as "comeram" ou simplesmente vão vendendo as poucas que ainda restam, empobrecendo ainda mais o concelho-, e todo um Património que apesar de ser na maioria de acriz particular, deveria ser de Todos.

Um dia passado em 2006 fui em passeio com a minha mãe, recordar vivências por Santiago da Guarda, verifiquei com agrado a reconstrução da Casa senhorial dos Condes Castelo Melhor, mas não pude visitar o interior,sem pessoal, estava fechado. Percorri todo o espaço a tentar lembrar-me como era na minha infância quando por aqui passeava aquando da inauguração da estação de correios pela minha mãe. Pelo que vi desagradou-me o facto das obras ainda não estarem finalizadas e já despontam ervas no empedrado da torre -, como sempre afinal a conheci no passado.Uma lástima, diria!
Não gostei mesmo nada da abertura de novas janelas em ferro, se o imóvel até não é muito grande, se estamos em terras de Canteiros e de Pedras, porquê o ferro em detrimento da Pedra?
No imediato o espanto catapultou-me para a reconstrução da Casa dos Bicos em Lisboa, de muito mau gosto.
Lamento que não tenha merecido destaque por ninguém a evolução dos trabalhos no nosso Jornal Serras.Caso para pensar. Tantas novas apostas em estagiárias e nada. Talvez má selecção nas entrevistas (?)...Nomeadamente na descoberta de vestígios romanos de grande importância.No local estiveram arqueólogos ou ainda estarão a completar os trabalhos. Espero que esta descoberta tão importante, com mais de 2 mil anos, desperte paixão em alguém que pesquise mais sobre a passagem deste povo pelo nosso concelho.
À laia de percorrer a história, sem fazer qualquer pesquisa, em rota de passeio turístico com a minha mãe a ...discutir ideias.
No Rabaçal existe um Museu com achados romanos recuperados na envolvente, e vestígios marinhos do tempo que este chão foi fundo de mar há milhões de anos, assim como casas recentemente descobertas de "Patrícios romanos" com a via romana vinda de Conímbriga, Fonte Coberta, que se bifurcava nas imediações da Ribeira de Alcalamouque seguindo uma para nascente a caminho de  Sellium (Tomar) passando pela Tojeira no Pontão e outra mais para poente  na direcção à Ladeia, onde outrora existiu uma Torrinha ou torre pequena, que veio dar o nome à vila do Alvorge, Granja, Santiago da Guarda, Estradinha, Vale Boi, ( onde existe um traçado catalogado) Pinheiro, Façalamir, Costa do Castelo ao Senhor do Bonfim no Escampado, Albarrol, Almoster, Ourém e,...
A testemunhar e credenciar atestam as recentes descobertas na Casa Senhorial de Santiago da Guarda uns painéis de mosaicos que estavam soterrados com mais de dois metros de entulho, apesar de não terem sido encontrados outros vestígios,a que acresce a famosa especulação do "Criptopórtico" e do túnel ao Carvalhal....No meu tempo de estudante foi noticiado que uma ovelha caiu num buraco nuns terrenos do Visconde da Várzea, o Dr Mota que na altura não permitiu que fossem efectuadas pesquisas (?).
Ao longo do traçado referido da dita via romana foram referenciados vestígios em Ansião não catalogados e alguns destruídos no alargamento de estradas, também vestígios de ocupação romana no costado da serra da Costa, a Quinta da Boa Vista, que tinha capela de orago ao Sr. do Bonfim, apenas hoje só é o que resta.
Deixando estas divagações interessantes e Santiago da Guarda, tomei a estrada rumo ao Alvorge.
Parabéns às gentes que tão brilhantemente tem sabido reconstruir as casas dos seus antepassados, registei o facto de haver algumas com painel de azulejos dizendo "Casa dos Avós" lindíssimas.
Desafio a outros conterrâneos a fazerem um passeio até ao Alvorge,e percorrer as ruas em jeito de caminhada, como fiz com a minha mãe, deleitem-se com o bom gosto dum Povo, que nem parece pertencer ao concelho de Ansião. Perguntarão o porquê ? Respondo mais à frente...As pessoas do Alvorge denotam serem amantes das Pedras, das cortinas de linho com rendas, das floreiras nas janelas e, sobretudo muito asseadas, fui à igreja, das mais limpas do concelho, a cheirar a lavado. Falei com as senhoras que procediam à rotina, explicaram-me tudo o que queria saber sobre as imagens e a talha dourada, até à sacristia fui, nos pormenores é que se vê a grandeza do Povo, pois os meus olhos poisaram numa lindíssima toalha de rosto, em linho, com mais de cem anos, com uma das rendas e monograma mais bonitas que jamais pousei o olhar, e olhem que a minha avó paterna Piedade da Cruz, tinha um enxoval de rainha, todo executado por ela na sua máquina de costura.
Bela casa  de 1709 com balcão na tradição de antanho na região
Isto para dizer que me senti muito bem nesta terra.Percorri todas as ruas em calçada, e pergunto?
Porque não existe uma placa informativa defronte da Casa da Misericórdia explicando a sua origem, do brasão, do sino e até das palmeiras, espécie rara em Portugal, dizem que as mais altas estão nos jardins do palácio de Sintra, o das chaminés grandes.
Apreciei com grande emoção várias janelas de avental, algumas com inscrições; da pequena capela, datada do séc.XVI; outra janela ostenta a data de 1707, esta decorei, nem a casa amarela, muito bonita por sinal, mas de cor exageradamente forte, destoa no conjunto, mas se fosse retirado o reboco mostrando a pedra firme a brilhar ao sol seria ainda mais bonita, nem a dezena de outras habitações que apesar de pedra, ainda não sofreram remodelações.Tudo em prol de mostrar a traça tradicional da região.
Deixo um desafio à Junta de Freguesia, falta tão pouco para conseguirem que o centro histórico seja totalmente reabilitado e assim, conseguissem reportar a vila nos roteiros turísticos, apelidada de " Vila de Pedra" conjugando esta beleza com a Cruz também ela em pedra sediada no centro da praça a fazer lembrar um Pelourinho ,incrustado em bloco aparelhado com efeitos a lembrar ondinhas, juntar o artesanato e a gastronomia, o famoso queijo rotulado de "queijo do Rabaçal" as nozes, e apreciar as vistas sobre os outeiros envolventes, finalizando com a requalificação da encosta da Ladeia da Fonte e das ruínas do solar com brasão dos Carneiros Figueiredos datada de 1693, cuja Capela há 50 anos ainda nela se rezava missa -, que visitei quando tinha 9 anos com o meu pai pela altura das festas de agosto, e mais que não sei...
Embora ainda tivesse muito para dizer, vou responder à pergunta anteriormente deixada em aberto; assim: Se os antepassados da vila de Ansião fossem da mesma têmpera dos do Alvorge, todos no concelho nos poderíamos orgulhar também de ter o nosso património de pé e não temos!
Este imenso relato pretende relembrar que os nossos antepassados menosprezaram as Pedras, e só de me lembrar das gentes do Alvorge e no orgulho na sua conservação e preservação,  apetece-me dizer " gostaria muito de aqui ter nascido "Sei que escrevi com o coração, não me socorri de livros históricos nem tão pouco conheço a Monografia do Padre José Coutinho.
Mas deixo rol de alertas à Câmara; Deficiente sinalética e em muitos casos falta da mesma, neste meu passeio. Acho que seria pertinente a organização de fóruns com a população para debate de ideias quando pretendem alterar centros históricos.
As minhas reflexões sobre Pedras, não pretendem de modo algum criar situações de susceptibilidade com quem quer que seja, apenas pretendo alertar os interessados, que ainda se tiverem vontade se poderá fazer alguma coisa para defesa das mesmas, as Pedras...

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