terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Falar da tradição dos Lenços de Namorados

Os lenços são bordados pela poesia ditada pelo amor em quadras populares que expressam o sentir do coração da bordadeira, e claro também do dono do seu coração a quem ela o oferece.
As quadras traduzem: amor, ternura, desejo, apreço, ansiedade, entrega, sinceridade, saudade, ciúme e desgosto
Raros são os lenços que não apresentam um ou dois dizeres.
As raparigas ouviam o coração -, escreviam com a sabedoria popular, onde os erros de ortografia reinam, pois lembremos que a maioria das bordadeiras não sabiam ler nem escrever, limitavam-se a copiar letras e palavras.
Aqui não se pode procurar concordância ou respeito pelas regras de ortografia, há letras invertidas, letras que faltam ou que sobram, outras indecifráveis, daí que seja necessário interpretar estes dizeres tão próprios do nosso povo. 
No entanto as quadras têm um elo em comum - o Amor - , temática subjacente à própria natureza dos Lenços de Namorados, onde é, na maioria das vezes, expressa por uma promessa de amor, como se pode constatar na quadra seguinte: “A carta que eu te escrevo sai-me da palma da mão a tinta sai dos meus olhos e a pena do coração” ...
 
Alguém escreveu um dia “Quando um homem, ou mulher se encontra fortemente apaixonado, tudo neles é poesia”… 
  • O que me dá motejo para recordar um ritual de antigamente -, em que a mulher é que pedia namoro ao rapaz -, parece  motejo neste agora renascido...
Conta a minha mãe, que se lembra do seu pai José Lucas  nascido em Lisboinha, freguesia de Pousaflores, concelho de Ansião, no distrito de Leiria, ter recebido nos primeiros anos do século XX de uma amada do Vale Cego, aldeia próxima , num arraial do S. Bartolomeu no Pereiro, um grande lenço muito bem bordado a ponto de cruz de cores vivas e quadras de amor. Por a moça não ser do seu agrado, não o pôs ao pescoço -, deveria tê-lo logo devolvido, o sinal do homem que o recebia por não estar nela  interessado no namoro. 
Desobedeceu ao ritual de boas maneiras. Casou com a minha avó, outra mulher da Moita Redonda, em 1910 ano da implantação da Republica, sendo que a minha mãe nasceu  em 35, e do lenço bonito se lembrar de o ver em casa, e dele me falar em miúda -, é surreal a durabilidade do pano e do ponto, ora bordado antes do casamento, sendo em 35 que nasce a minha mãe, se acrescentar mais 8 anos para dele se lembrar, ronda os 40 anos de vida!
  • Os lenços continuam a ser bordados para venda de artesanato no Minho em Vila Verde .
  • Grande lamentação no concelho de Ansião inserida no Maciço de Siçó esta arte popular ter ficado perdida no tempo, ora meninas sem emprego reinventem esta tradição!

foto de cortesia de um blog
Os Lenços continuam a tradição a ser bordados com dizeres e quadras populares dos típicos lenços dos namorados de antanho no ouvir o coração e escrever com a sabedoria popular. Hoje finalmente comprei um lenço dos namorados. Pena que não é para oferecer. Apenas para perdurar no tempo das minhas memórias.


foto de cortesia de um blog


Alguns versos


A carta que eu te escrevo
Sai-me da palma da mão
A tinta sai dos meus olhos
E a pena do coração.
............
Escrevia-te uma carta
Se tu a soubesses ler,
Mas tu dá-la a ler a outrem,
Tudo se vem a saber.
.........
A carta que me escreveste
Inda não ia acabada
Faltava-le pôr no meio
Uma rosa encarnada.
...............
Cartas de amor são mentiras
E amores mentiras são;
Mentira foi teu amor
Que enganou meu coração.
....................
Escreve-me, amor, escreve.
Lá do meio do caminho;
Se não achares papel,
Nas asas de um passarinho.
.....................
E tan certo eu amarte
Como o lenço branco ser
Só deixarei de te amar
Cuando o lenço a cor perder
..................
O meu coracaO/
so a ti adora
So por ti suspiRa/
So por ti chora

Outra das representações encontradas em algumas quadras são as declarações de amor por parte da rapariga:


Ot eu lado satisfeita
Paco o ano uteiudia
Sotus u m e u e ncanto
Am i nhadoce.alegria
.........
(Ao teu lado satisfeita
Passo a noite e o dia
Só tu és o meu encanto
A minha doce alegria)

Não tão comuns mas que ainda se pode presenciar são as iniciativas das bordadeiras em oferecer o seu coração solitário.

Nestas quadras podemos ver duas maneiras de o fazer:
A primeira a bordadeira manda o lenço dar provas das suas aptidões a toda a freguesia para arranjar partido; na segunda mostra a sua lealdade a quem a quiser amar:


Bai lenco da minha mao
Bai currer a freguesia
Bai dar em formações
Da minha sabeduria
...............
Méu curação lial
Quem Mo qizér amar
Merserá gárndeCastigo
Quem no cizér falsiar.

Os Lenços são também formas de as moças expressarem as suas saudades e promessas de amor aos rapazes que se ausentam das suas terras.Podemos ver por exemplo nas seguintes inscrições:


Aqui tens meu coração
E a chabe pró abrir
Num tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir.
...........
Bai carta feliz buando
Nas asas dum passarinho
Cando bires o meu amor
Dále um abraço e um veijinho
............
Meu Manel bai pró Brasil
Eu tamen bou no bapor
Guardada no coração
Daquele qué meu amor
...........
Evidentemente que nesta preciosidade artesanal podemos encontrar além destes, outros estilos de quadras bordados nos lenços.O certo é que os lenços de namorados pelos dizeres que contêm, pelo seu simbolismo e o seu significado sentimental se apresentam como a mais genuína forma de poesia popular utilizada pelas moças do Minho e da Beira Litoral em idade de casar.


O cravo depois de sêco
Senefica amôr perdido
Ainda creira não posso
Tirar de ti osentido
........
A rosa do meu peito
A flor do meu jardim
Deicha de amar a quemAmas
Se me queres amarAmim.
..........
AmorAmor tu es a estrela que a
De guiar o meu sêr pois
Sem ti meu queridoAnjo
eme impocivel viver
...........
Para Lisboa te mandei
Um jenchinho quasi novo
Em cada ponta seu sospiro
No meio dos ais que eu morro
...........
Coração por coração
Amor num troques ó meu
Olha que o meu coração
Sempre foi lial ao teu
...........
Aqui tens meu o meu coração
E a chabe pró abrir
Num tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir
..........
Bai carta felis buando
Nas asas dum pasarinho
Cando bires o meu amor
Dále um abraço e um veijinho
.........
Meu Luís bai pró mar
Eu tamen bou no bapor
Guardada no coração
Daquele qué meu amor.
...........
O amor dá-nos asas
Para nos fazer voar
Rir alto para o além
E para mim de amor rir tamen.
.........
Gosto de ti curação
Porque sim doce mel
E tu com tes medos
Partes ome curação
.........
Pergunta a quem saiba ama
Qual e mais para sentir
Se amar e viver ausente
Se ver i não possuir.
.........
No centro deste lencinho
O teu nome está garbado
Dentro em meu coração
O teu rosto retratado.
.........
Coração, relogio tonto!
Tuas horas sempre são
Desejos das que hão-de vir,
Saudades das que lá vão!
.......

  • Paródiasao jeito do bordado dos Lenços dos Namorados
Azulejo alusivo ao tema que tenho numa das casas de banho
Paródia bordada ao jeito dos lenços dos namorados
Desde sempre algumas ladainhas ainda vivem presentes na minha memória. Enredos vividos com a minha avó e a sua comadre Rosa -, avó do meu marido contadas pela minha mãe.Reproduzi uma delas numa cortina velha comprada na feira da ladra - bordei ao jeito dos típicos Lenços dos Namorados -, não me cuidei no ponto a fazer alusão ao preceito da tradição...com erros  e tudo!

"I’nha madrinha olhe lá o toque da corneta no Fojo, trará notícias de Insião? 
Não, os belozes calharam mal no natal , antes que o pernas aranhão de mina matirasse com a sertã, abalei de cabanejos abarrotar de galinhas que enfeirei no Ovelale, mas ao alto de Lusboinha logo uma me fugiu às alminhas..."
"Ó afilhada Rosa, centa i’nha mensa, ceia mais eu, oremos as duas Padre-nosso e Avé maria, benza a nós mais um bom dia, benza Deus, Amén…"
"N’ho madrinha, u mê cão morreo, morreo…matastese-u…!"
"Ó i’nha filha pouca sorte a tua, arranjaste um home filho má piçalho, um pernas aranhão de mina, não tem inducação nenhuma"
"N’ ho madrinha eu já lhe digo nã gosto qui falem no mêu nome, uvi prá i umas lérias… atão não gostas que falem do tê nome e tu falas no dos outros..."

"Ó mãe se eu viesse do estrangeiro e aparecesse com as minhas meninas, você tirava-as pela pinta? Ai, não, tu eras muito branquinha…"

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