quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Desabafos com o meu amigo AE

De como eu não fui presa (mas se tivesse sido tinha compreendido)...
Anarquia do transito na anedota do meu mano AE
Primeiro tenho de confessar um pecado:
Falo ao telemóvel enquanto conduzo. E como não oiço nada com o auricular, não o uso. E o alta voz é uma trampa, por isso também não uso. Falo e falo com o telefone colado ao ouvido. Pronto. Já disse.Sei que está errado, é proibido e é perigoso, mas em abono próprio posso dizer que há coisas piores –, não bebo de manhã e fico quase sempre parada enquanto me maquilho. Vá, também não falo muito, é só quando é preciso.
Aqui há tempos encontrei o meu marido à entrada da A5. Ele fez-me sinal para ir atrás dele. Já tínhamos combinado que um dia ele me ensinava um atalho complicado para fugir à rolha ali a seguir às portagens de Carcavelos.
Saímos em Oeiras e uns metrinhos à frente já eu não sabia dele...
Como não queria voltar para trás, decidi ligar-lhe a pedir orientações. Dá-me ideia que para os morcegos poderem ser cegos tiveram de roubar o sentido de orientação a algumas pessoas. Eu fui uma das gamadas. Explicar- me uma direcção em português, é o mesmo que fazê-lo em mandarim ou aramaico. Digo que sim, agradeço e fico na mesma.
Parei o carro para procurar o telemóvel na minha mochila do Sport Billy, mas ela estava no chão, tive de tirar o cinto para a apanhar. Como estava com pressa fiz a chamada e arranquei ao mesmo tempo.
O Filipe, que sabe dos meus problemas, atendeu logo, e estava a esforçar-se para me orientar. Como se a minha incapacidade crónica de ir daqui para ali não bastasse, havia uma sirene em cima dos meus ouvidos que não me deixava ouvir nada do que ele dizia. Mas era tal a barulheira que decidi olhar pelo espelho para ver onde era a crise. Nessa altura oiço ao altifalante “ por favor encoste a viatura”.
Entrei em pânico. Atirei o telemóvel de pantanas, parei a "viatura" e arvorei o meu semblante mais cândido.
O guarda era uma espécie de Dunga misturado com Bruno Nogueira. Parecia simpático.
- Bom dia, minha senhora ( Ai como detesto que me tratem por “minha senhora”!)
- Bom dia, senhor guarda. (sorriso cintilante)
- Sabe porque é que a mandei parar não sabe?
- Pois, senhor guarda, era porque eu vinha ao telefone, imagino. Mas é que eu estava só a avisar na minha empresa que estou atrasada. Já viu este trânsito?
- Pois, mas reparou que está sem cinto, ou não?
- Ah, estou? É que parei aqui atrás e tinha mesmo acabado de arrancar quando os senhores apareceram.
- Hum...documentos – seus e da viatura.
Drama. Não fazia ideia nenhuma.
- Senhor guarda, deixe ver... sabe o carro é da empresa, não sei bem onde guardam essas coisas...
- Enquanto falava atirei para o chão as três toneladas de papéis e lixo que ocupavam o porta-luvas. No fundo estava uma pastinha verde. Entreguei-a ao guarda. Ele consultou-a e depois observou enfadado que aquilo era o livro de registo das revisões...

  • Eu desculpei-me:
- Sabe, senhor guarda, se me disser qual o aspecto daquilo que procuro é mais fácil...
O guarda devia estar a achar que eu era estranha e decidiu mudar a estratégia.
- Então dê-me antes os seus documentos, por favor. BI e carta de condução.
Aposto que explicou quais eram os meus documentos para evitar que eu fosse outra vez procurar no porta-luvas. Para chegar a essa secção tive de escavar outra vez na mochila do Sport Billy. Encontrar a carteira foi complicado mas lá apareceu. Vasculhei todo o interior e, no meio de uma miríade de talões da Zara, da lavandaria e da farmácia lá encontrei o que ele pedia. Mas o senhor estava num dia atento e observou que as moradas dos documentos não condiziam.
Lá fiz o meu ar mais espantado, que não sabia, que era um horror, que ia mudar amanhã.
Entretanto o colega, mais velho, gorducho e sorridente, tinha aparecido e estava a observar atentamente o vidro da frente. Aproximou-se.
- Selo.
- Selo?
- Sim, selo. É obrigatório.
- Ah, o selo! Eu sei. (risinho nervoso). É que o carro é da minha empresa e não me devem ter entregue isso, tenho de ver. Não sou grande coisa com papeladas, sabe?
- E, já agora, o dístico do seguro, também não está aqui.
Parece-me que ele também já estava a ficar um bocadinho nervoso.
- Mas olhe, que o carro tem seguro pode ter a certeza, pois se é de serviço..., disse eu.
- Sim, acredito, mas onde está ele?
- Deve estar aqui na minha carteira.
Desatei outra vez a escarafunchar na carteira até que descobri um papel verde dobrado em quatro. Triunfante entreguei-lho.
- Ufa!Tome, aqui está.
Ele desdobra o papel, olha para mim como se eu fosse azul e tivesse os olhos pendurados nas orelhas e diz:
- Menina, isto é uma multa.
Aí fiquei mesmo sem saber o que fazer. Esgotaram-se-me os sorrisos cristalinos e cintilantes e o arzinho ingénuo ou apatetado, ou lá o que era.
- Vou presa?
- Devia.
E sorriu.
- Vá-se lá embora e tenha juízo.
E foi assim que não fui presa, mas se tivesse sido tinha compreendido!

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