sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

António Paz, Maria Augusta e a filha Isabelinha de Ansião

Família Paz de Ansião com a minha tia Clotilde irmã da Titi
Casamento dos meus tios na Vidigueira, os meus avós maternos estão atras.

Festa de cinquentenário… A primeira vez que assisti a uma, foi a do meu tio António Paz -, jantar em sua casa, a criada Arminda do Casal esmerou-se na mesa engalanada, do armário saiu o serviço da Vista Alegre e o serviço de copos da Marinha Grande. 
Serviu um arroz de marisco num grande tacho de barro a estrear que poisou ao centro da mesa. 

A primeira vez que saboreei este repasto com carapaus de bigodes… as sobremesas, sendo a Titi doceira de mão cheia fez o meu doce predileto, manjar branco, típico de Coimbra e, ainda um grande bolo de camadas recheado de ovos-moles, tudo regado no meu batismo de champanhe ,na mão seguravam todos tacinhas com bolinhas a desfazerem-se, essas marotas fizeram-me cócegas na garganta e, de pé cantou-se os parabéns a você…na hora de despedida, a noite ia longa, ao sair ao rebate da porta, os degraus em meia-lua, qual altar, lindíssimos - então a dar o braço à minha mãe não baloicei...
Prima Isabelinha…Mais velha uns anitos do que eu, filha da Titi e do tio Paz, de seu nome Isabel, carinhosamente tratada por Isabelinha. 
No dia de batizado com os padrinhos a minha mºae e o tio por parte do pai.


Isabelinha ladeada pelos tios pais do Renato
Rocambolesco episódio passado com ela na visita a casa da avó Luz na Moita Redonda, pergunta-lhe onde ficava a casa de banho - aflita a avó em gestos de voz muda, com a mão apontava o caminho do muro do quintal…há muito que a retrete de madeira que o tio Alberto fizera tinha caído, menina habituada a folhas da lista telefónica - teve de se desenrascar com um telhito…
Estudante de Coimbra licenciou-se no curso de Românicas. Amigas. 
Pediu-me que lhe fizesse companhia nas tardes que se deslocava a Pombal quando tirou a carta de condução, íamos e vínhamos na carreira. 
Mais tarde em mãos compilava monografia sobre os costumes rurais e tradições. Não falava sobre o trabalho, convidou-me para lhe fazer companhia até ao Pessegueiro no carro do pai -, Fiat antigo creme e azul, tinha nas costas dos bancos da frente rede tipo porta-luvas.Uma pesquisa e recolha de saberes, retalhos da vida na aldeia, seus costumes, hábitos e tradições - conversa fiada numa de perguntas e respostas sentadas à soleira da porta, velhotas vestidas de preto e lenços pela cabeça, enrugadas, de mãos cansadas - a Isabelinha escrevia sobre os joelhos o relato dos testemunhos, difícil, perceber o linguarejar das velhotas coisa da falta de dentes, pronúncia rural, e modos de antanho. Dia de formatura, filha única, em frente da” torre da cabra “ foto ladeada pelos pais Maria da Luz e António Paz - muito elegante no vestido de laço ao peito, sorriso contagiante, nas mãos segurava linda palma de flores, orgulhosa dos pais a presentearam, nem imaginava outro presente que a esperava em casa, um carro novo a estrear - Fiat 127.

 A Isabelinha tinha sofrido um rude golpe sentimental. O seu namorado colega do tempo do Externato, dos lados de Santiago, chamado a cumprir serviço militar, partira para o Ultramar. Estava eu no Correio, assisti ao sofrimento da Titi, sua mãe que dizia para a minha “ carta com uma notícia arrasadora de fazer chorar as pedras…o rapaz deixou-se enfeitiçar com uma menor, obrigado a desposá-la”…golpe que a Isabelinha não merecia, debelou, seguindo com a vida e os estudos - nesse ano alegrou o carro alegórico da vila, fazia de lavradora, tirava água do poço com um balde de lata preso a um sarilho, regava a horta e as flores… 
Colocada no liceu em Leiria onde conheceu o Quim, um pouco mais novo de beleza incomum, deu nas vistas numa excursão do liceu, enamoraram-se, o pai dela não aprovava o namoro, sonhava para a sua única filha, um médico, doutor… 
Os fins-de-semana vinha passa-los a Ansião e convidava-me nas tardes de sábado para um passeio até Pombal, na verdade marcava de véspera encontro com o namorado, fiz papel de "pau-de-cabeleira" dentro de muralhas do castelo, eles namoravam felizes. Vezes que o Quim vinha a pé ao nosso encontro estrada fora, encontrava-nos a caminho da serra, a primeira vez que o conheci -, lindo arrevesar ator de cinema ou modelo, rapaz de beleza estonteante e, sorriso mordaz deu-me dois beijinhos “prazer em conhecer-te” respondi, igualmente…passei do banco da frente para o detrás.
Primeiro casal de namorados abraçados, a beijarem-se na boca ao vivo, vi sem ver… nas festas do povo em Ansião no certame da gincana automóvel pediu o Vauxhall Viva cor de caramelo ao pai dela para concorrer - exímio condutor, adorava a velocidade, esquecer os piões na Av. Dr. Vítor Faveiro com o cruzamento para o cemitério é que não, lindo o rodopiar em círculos a contornar os pinos, o fumo dos pneus, a gritaria, os aplausos, ganhou o troféu, taça entregue no espetáculo das festas de Agosto no recinto do recreio dos rapazes do Externato - palco em cima das casas de banho, lembram-se? Dia do casamento a noiva lindíssima de vestido branco curto, chapéu e socas altas, o noivo lindo de arrasar uniram-se pelos laços do matrimónio numa cerimónia civil em Leiria, a minha primeira - boda servida no hotel de S.Pedro de Muel, tardinha passada na praia nas furnas, pagode de irreverência na adolescência com a Anabela Paz, outros primos e o Fernando, afilhado dos tios que viveu uns tempos em casa deles, enfermeiro, embarcou no navio hospital Gil Eanes para a faina do bacalhau na Terra Nova, lindo o bebé bacalhauzinho, espalmado e seco que mandou na carta para a sua madrinha, a minha Titi …pela tardinha entrada na discoteca, nunca antes tinha visto uma pista de dança - um dia para mim memorável...os noivos estrearam um pequeno apartamento alugado até se mudarem para outro maior com garagem e cozinha virada a sul, o sol abrilhantava a casa, delicioso petiscar nas tardes de domingo nas visitas que os tios lhe faziam e me levavam. 
Linda a casa em Leiria, muito bem decorada, minimalista, vistoso sofá em amarelo, peças antigas trazidas da casa dos pais que apreciava, não esqueço a cómoda antiga num corredor e os pratos na parede, herança da Titi da Moita Redonda, também ela se encantava com antiguidades.
 Acredito que foi na casa dela que me apaixonei de vez pelas faianças. 
A Isabelinha e o Quim formavam um belo casal de apaixonados, de tão quente paixão nasceram dois filhos - Luciana sedutora como o pai e de beleza rara como a mãe, e o Miguel, menino doce igualzinho à mãe, homem lindo, não vejo há anos e tenho pena. Aprazível era o quarto da Isabelinha de solteira no sobrado da casa, esconso com teto em ripinhas e grande janela de frente para a Quinta do Dr. Faria -, cama e lavatório em ferro, estilo romântico em tons pastel. Amorosa, de beleza rara, delicada, inteligente…
Saudades da Isabelinha, da Titi e do tio-, Deus os levou tão cedo!

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