sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Reflexões sobre profissões dos artistas

Uma reflexão ao tema sobre os caminhos das profissões dos artistas e impacto das políticas culturais públicas como elo para o estudo das formas contemporâneas de emprego, recomposição dos mercados de trabalho nas artes e gestão de carreiras. É por isso necessário conceber uma aproximação sociológica das artes do espectáculo, atenta à situação dos artistas, à sua aprendizagem e gestão da incerteza e do risco, às suas condições de profissionalização, produção das obras e acumulação de saberes, no seio dessas organizações. Outras modalidades, como a história da arte e a economia, são uma resposta pluridisciplinar para o estudo de um maior conhecimento e sensibilidade, no universo das artes.
A minha escolha recai sobre os jovens actores de telenovelas. Sem barreiras fortes de selecção, sem a exigência de uma formação técnica, sem disposições estatutárias que regulamentem o exercício da profissão, entrar é fácil, manter-se é o grande desafio.
A formação de actores é um passo muito importante para a sua socialização e integração no meio profissional. Na fase de selecção as competências requeridas, diz o autor Pierre Michel Menger na Revista de Ciências Sociais, são, a originalidade, expressividade, iniciativa, capacidade de improviso e o talento. Esta etapa sólida, no decurso da carreira do actor aliada à aprendizagem no palco coexiste com o próprio exercício da profissão. No entanto estes jovens apenas fazem castings e entrevistas, sendo que, a maioria é seleccionada pelo aspecto físico. Se, o candidato, além de bonito, for empático com as câmaras, é uma escolha feliz.
No ambiente das filmagens, actores principiantes e experientes trabalham juntos, mantendo-se associados a redes de relações do meio artístico para novos projectos de produção artística. Estas redes profissionais, sempre ligadas ao mercado de trabalho, permitem-lhes ter um acesso rápido e imediato a todo o tipo de outras informações e condições sobre novos papéis, castings, novos projectos, espectáculos, filmes, televisão, publicidade, moda, festas, enfim, os empregos disponíveis.
A forte progressão do número de efectivos e o aumento da taxa de desemprego são duas importantes características de evolução demográfica dos actores, visíveis pela análise das diferentes categorias de artistas. Podemos assim estabelecer um metier no que concerne a incerteza e risco, e à concorrência inter individual, que representa constrangimentos fortes, no principio e no decurso da carreira de actores, mas gera também um certo encetar de magia e estrelato, capaz de seduzir os mais jovens.
Os contornos actuais do mercado de trabalho dos actores, contempla à partida mais candidatos a uma carreira artística com percursos mais enriquecedores, uma profissionalização crescente (alcançável em vários sectores da actividade) sendo ainda, uma capacidade de resposta cada vez mais alargada por parte destes profissionais.

Os actores que resistem no mercado de trabalho durante mais tempo são considerados talentosos e a sua reputação tende a consolidar-se. A combinação do talento com capacidades de se relacionar com os colegas, com as diferentes equipas de trabalho e com os responsáveis é uma condição de permanência e de reconhecimento profissional no mundo artístico.
Em termos de organização, as actuais trajectórias profissionais dos actores descrevem a diversidade e as incertezas que caracterizam as suas carreiras individuais, assinalando a acumulação de funções e a diversificação dos sectores de actividade onde trabalham.
Trabalhar numa panóplia de actividades como o teatro, televisão, cinema, circo, dança, espectáculo de rua, música dita comercial, e outras expressões musicais sem a mesma viabilidade, é ser actor. Os actores associam a esta “desmultiplicação de si”, mecanismos como a mobilidade sectorial e a polivalência profissional com a acumulação de experiências e contratos de trabalho, com diferentes Mestres – Escolas de técnicas de representação, Conservatório, Chapitô, cursos no estrangeiro e outras, decisivas para a inserção e manutenção, dos bons actores no mercado de trabalho.
A situação dos artistas insere-se num regime de emprego “hiper-flexivel”, na medida em que os artistas e os técnicos, ligados ao mundo do espectáculo, trabalham durante períodos de tempo mais ou menos longos, mantendo-se disponíveis e assegurando a flexibilidade da produção artística com desigualdades constantes no meio artístico, no que respeita ao sucesso e à remuneração auferida.
Posso concluir que o tipo de contrato de trabalho predominante no mundo das artes é de precariedade e incerteza. Na profissão de actor falta uma lei regulamentadora específica para a classe, tanto no que toca a regime de contratação, como à segurança social, e à fiscalidade e reforma. Estas carências legitimam a luta dos profissionais em prol de uma carreira mais digna, o seu grito de revolta tem passado pelos vários governos na luta do Estatuto do Artista, mas sem fim à vista…sendo os caminhos das artes uma mais-valia na cultura e saber de um povo, esta atitude não é entendível nos dias que correm.
O envolvimento penetrante do capitalismo na esfera da arte, depois desta última se apresentar como” uma verdade utópica do homem” ou ainda um “agente de protesto contra o capitalismo”.
O estímulo da arte como modelo de inspiração para a inovação e para a divisão social do trabalho, apela à imaginação do público na união de culturas, procurando sensibilizar em particular os jovens, para os actuais desafios da globalização relacionados com a interculturalidade.
A arte como profissão implica a incerteza e o risco. Infelizmente é uma realidade actual!
Como exemplos, avento a actriz Florbela Queiroz que há muitos anos deixou de ser contratada e para sobreviver enveredou pelas artes da astrologia.

Muitos dos jovens actores de telenovelas ficam pelo caminho, porque todos os dias nos castings aparecem centenas de novos potenciais candidatos à procura do sonho dourado.
Os concorrentes de programas de realty show e entretenimento, onde alguns concorrentes vencedores e vencidos, se encantam com o brilho do estrelato, encandeiam-se e muitos perdem-se pela vida, o confronto com a realidade quando acaba o programa com o regresso à realidade é bem diferente daquela que viveram durante o concurso.
Tantos sonhos perdidos…batalhas contra os estereótipos da sociedade, ainda pouco sensível às artes no seu todo.

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