quarta-feira, 31 de março de 2010

Tempos perdidos na minha infância!

Sei que perdi tempos na minha infância tal como a minha mãe, irmã, e tantas outras mulheres...pagadora de promessas fui vestida de Anjos !

Frequentei a catequese na Paróquia, obedeci aos rituais da Primeira Comunhão, Profissão de Fé e Crisma. 
  • Vestida de "anjinho" fui pagadora de promessas com roupas de aluguer da tia "Carma do Russo" em cetim branco com incómodas asas ornadas com penas de pato presas aos ombros. As lembranças de a ver a guardá-las depois de bem lavadas, passava horas a fazer asinhas esvoaçantes. 
O fato da "Rainha Santa" o meu  predileto. 
  • Um belo dia fartei-me de fazer de "anjinho" resolveram vestir-me de "Sagrado Coração de Jesus"  - trajo vermelho reluzente, tiara em latão em modo de aura de Santo, na palma da mão pequeno e delicado coraçãozinho... cedo descobri um buraquinho na bordadura do cordão de cetim escarlate, derreti-me em prazer maquiavélico ao deixar um rasto de serradura sobre as flores prostradas no chão da procissão… 
 Profissão de Fé …momento de registo na foto no Nelito, envergava  vestido branco alugado em Pombal, véu e grinalda parecia uma noiva, nas mãos missal com o terço de permeio, a minha mãe impôs-me a minha irmã ao meu lado que nunca passou da primeira comunhão -, vestida de seda azul celeste, saia pregueada, sapatos de verniz, meias brancas, franja mal cortada e beiço arrevesado estava comigo, e eu com ela.  

  • Não me lembro nem das catequistas, nem do pouco que aprendi, por mais que me esforce. Ténues lembranças de ouvir o Arcipreste em latim, e de assistir à missa em jejum, também dos achaques pela falta de açúcar no sangue quase desfalecia, sem desmaiar, transpirava imenso, deixava de enxergar até me darem água açucarada.
Festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição… Feriado nacional no dia 8 de dezembro. Grande devoto desta Santa- ,o meu pai dava a cada uma das filhas uma  nota de 20$00 , a nossa oferenda religiosamente posta na caixa de esmolas por cada uma de nós. Missa cantada e procissão que subia a rua, ao passar à casa da tia Carma do alto da escadaria da sua filha Elsa de bandeja na mão lançava sobre o pallium pétalas de rosas em tons pálidos.
O trajeto das procissões não era sempre o mesmo -, na procissão do Senhor dos Passos nem todo o percurso estava enfeitado, segundo a tia Maria quando a instiguei desatou a contar o rol, é antiga a tradição dos Lugares em apadrinhar a ornamentação das ruas "aqui no largo pertence ao Murtal, daquele lado à Sarzedela, além é da Constantina" e, … 
  • Havia no antigamente um costume de gente com posses de fotografar a defunta jovem vestida de anjinha no caixão...vestida assim como as donzelas defuntas só mesmo na minha comunhão solene.
Matriz de Ansião
 Na década de 70 então no colégio de Ansião e na descoberta dos minerais alguém alvitrou irmos fazer espeleologia numa gruta  nas Lagoas.
Alegres e sorridentes quando finalmente chegámos não passámos da entrada, inexperientes nem lanterna tínhamos levado. Lembro que o buraco era ao nível do solo, o que estranhei habituada a grutas escavadas na própria rocha. Aquela entrada era no todo mui diferente envolta com terra, olhando para dentro recordo que tinha um grande vale fundo e estreito, perigoso em jeito de pedir cautelas. Vimos estalactites, uma deu-nos logo a sensação de ser uma Nossa Senhora, tanta fé naqueles tempos, tudo era mote de inspiração divina. Alguns aventavam "postas de pescada" temos de cá voltar, trazer ferramentas, cordas ,lanternas e,...acontece que com grande pena minha nunca mais lá fui, muito por me fazer lembrar aquele nefasto dia...
Ainda me lembro do caminho...mas a gruta foi soterrada para plantio de pinhal. 
A malta da Sardezela estava em casa enquanto nós faziam-se horas de regressar apesar de mãos vazias mas contentes na folia , com isto atrasámos-no, o último transporte para o Marquinho para dois dos colegas já tinha passado.Só lhes restava ir a pé, apanharam uma boleia na caixa aberta de uma camioneta que numa daquelas malditas curvas se desgovernou e o imprevisto aconteceu, um deles faleceu. 
  • No dia seguinte todo o colégio foi em romaria de cabeça baixa vestidos de escuro com ramos de flores brancas percorrer o seu último trajecto, coisa de 5 km2 em rezas consecutivas para nos despedimos tristes do Diamantino...um jovem menino...não ia vestido de branco!

 Procissão das velas ...saia da capelinha de S. Pedro de Além da Ponte com o S. Pedro e a Rainha Santa nos andores, - no dizer do povo vinham dormir à matriz com os demais Santos. Ritual pagão e de cariz erótico, vivido em fé na dita religiosidade …
Capelinha de S. Pedro em além da Ponte
O leito da ribeira era  expurgo e raso com desvio do regato do Nabão, do lado de cima da ponte houve um coreto em ferro forjado , mais tarde retirado, num cortejo alegórico revivido com o condão de ser reposto pela autarquia em testemunho público, tal promessa não vi concretizar, antes o vi apodrecer no antigo estaleiro camarário e, não aprovei. Havia festas que não faltavam balões, a D. Clarisse e o Dr. Vítor Faveiro tantos anos a apadrinharam com vestimentas alugadas em Lisboa com homens vestidos de soldados a rigor com fatos em malha de rede, elmos e espadas percorriam o recinto defronte da sua casa paredes meias com a capelinha do S. Pedro, até parecia ser sua pertença… 
Promessa a Nossa Senhora de Fátima… Reza ,tantas rezas para não ter mais nenhum irmão - sofrer mais, não - bastava eu, a minha irmã e a nossa mãe. Tanto sofremos com o temperamento intempestivo do nosso pai.
Fiel companheiro – Deus, que me ajudou em momentos de aflição, acalmava porque a fé ajuda... com algum jeitinho havia dias com final feliz, em forma de pedir bonança, calmaria prometi uma promessa de ir a Fátima a pé. Muitos anos mais tarde consegui cumprir, ainda assim lamentavelmente por duas etapas.

  •  Peregrina no pequeno trajeto a rondar os cinquenta km, as pernas não aguentaram e os braços também não, arrastei comigo a minha mãe e marido com chuva saímos de casa de chapéu aberto até à Freixianda - ensopados até aos ossos -, estradas sem passeios, fácil era levar banhadas dos carros, também o farnel fora mal aviado, não havia tasca para se comer, a estalagem na estrada real fechada há anos dos primórdios de 17..(?) cuja data exibe na frontaria, pena não a recordar… e depois num fontanário a minha mãe ao beber água sentiu-se mal, ficou branca, parou-lhe a digestão, vimos "o caldo mal entornado" - coitada da minha irmã a correr nos foi buscar de carro... mais tarde voltámos ao mesmo local para recomeçar a etapa mais interessante - vimos gente conhecida, o itinerário era mais alegre nele fui roubando flores dos jardins que ofereci a Nossa Senhora na capelinha das Aparições. Experiência enriquecedora vivida em maio e outubro de 2002. 
  • O inusitado na Capelinha das Aparições no momento de pagar a promessa dei-me conta do ridículo do pedido - tão menina quando pedi tanta ajuda. Finalmente a promessa estava cumprida. 
  • Continuam os ranchos de gente quase todo o ano a caminho do Santuário de Fátima . Deixaram de acampar junto à escadaria do Santo no Ribeiro da Vide onde lavavam os pés no lavadouro público e saciavam a sede na fonte, enchiam barris de água, descansavam pernas, tratavam das mazelas das bolhas nos pés deitados em mantas de tear, muitos pernoitavam na casa da eira do tio Zé André que durante anos lhes deu livre-trânsito de ai se puderem abrigar, de madrugada voltavam à estrada para mais uma esticada, valente caminhada sempre no pensamento cumprir a promessa ao Santuário da Virgem Maria em Fátima!

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