sexta-feira, 5 de março de 2010

Velharias e colecionismos

Interiorizo na integra o consumismo em exagero colocando em causa o próprio espírito do coleccionismo. Alguns ganharam o hábito de espreitar os contentores das obras para encontrar azulejos antigos em Lisboa, eu já encontrei uma prateleira e,...
Deplorável o espetáculo arrepiante de recheios de casas de pessoas recentemente falecidas atirados ao lixo -, louças, panelas, toalhas, roupa de cama e resmas de fotografias... Há pessoas cada vez mais desapegadas dos objetos...
Apesar de muita gente cada vez mais pensa na Morte, e o que farão com as suas coisas que os filhos não querem...supostamente a maioria nunca os terem ensinado sobre os valores e a tradição dos objetos  na família, mas pior quando não tem filhos...Porque quem cuidaria?O caminho mais provável será o ecoponto mais próximo ou venda do recheio da casa ao desbarato...
Citando uma história que me entristeceu, apesar de parecer macabra é muito comum: "a minha vizinha do 1º tem uma amiga que mora no Bairro das Estacas (aquele junto ao King) assim que sabe de alguém na vizinhança muito doente prestes a morrer começa a rondar as portas e os ecopontos, pois sabe, que quando a pessoa partir os descendentes, mais dia menos dia, deitam tudo fora. Foi assim que já encontrou lençóis de linho, toalhas, serviços de porcelana, copos de cristal, é assim que se veste..."
De cortar o coração passar na rua e constatar juntos dos contentores uma vida no chão estatelada,devassada,vasculhada, igual cenário em estaminés da feira da ladra.
Dir-se-à que nada disso retira o prazer de as possuir nesta vida. Também o mesmo direi -, trato com todo o carinho os pertences que foram dos meus pais e dos meus avós, e continuo a comprar outros que não são absolutamente necessários (?) podendo ser necessário por razões místicas, e as faianças que não resisto... Nos meus caminhos procuro algo que transcenda a matéria, e que se eternize para além dela, que me cative e apaixone ao primeiro olhar. Na feira-da-ladra já vivi calafrios com as centenas de fotografias antigas que por ali andam ao desbarato;o retrato do bebé que esteve na cómoda da madrinha tantos anos, a fotografia dos avós, o instantâneo do irmão que morreu novo, tudo acaba no lixo ou vendido em lote. O que parece é que ninguém quer saber do seu passado para nada!
Claro que todos nós estamos sujeitos a ver a nossa vida deitada num contentor do lixo e mais ainda aqueles que não tem descendentes. Pessoalmente tentei educar a minha filha no respeito pelo património e pelo passado, e acredito ter sucesso. Já lhe expliquei que algumas das velharias ou antiguidades tem algum valor, com o tempo poderão ainda ter mais, nesse sentido poderão ser encaradas como um investimento duradouro, cujo benefício reverterá para ela. Certamente são um investimento mais seguro e menos perecível que automóveis enormes para dar nas vistas, plasmas e telemóveis de 5ª ou 6ª geração.
Porque outros que pensam como eu sabemos bem que os objetos são apenas vãs vaidades e que nada fica depois da morte, mas quem quer saber da morte?
Quero continuar a gozar as minhas velharias, admira-las, estuda-las e conserva-las, pois o presente cada vez me aborrece mais, tenho vendido algumas, para outros as admirarem como eu já admirei -, e essa partilha é salutar !
  • O que se lamenta é que nem todos tem capacidade financeira para ter um espaço museológico para expor as suas coleções.

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