quarta-feira, 21 de abril de 2010

Capela Santo António em Ansião

Lamentavelmente esta foto retrata património do séc. XVII não mereceu aprovação para o Concurso "Olhares de Ansião" na arquitetura do património histórico e natural do concelho, em detrimento da Ponte do Marquinho do séc. XX...
Capela  de 1647
 Os plátanos plantados em meados do século XX pelo meu bisavô Francisco Rodrigues Valente
O escadatório deveria ter sido feito aquando do rasgo ao Largo do Ribeiro da Vide da rua para o hospital, e da estrada para Alvaiázere depois de 1875 quando Ansião assistiu a grandes mudanças.
Vivi de paredes meias com a Capela de Santo António, no tardoz do adro no gaveto à esquerda

Citar o Padre Manuel Ventura, pároco de Ansião na página do Facebook

"Esta capela deve datar dos meados do século XVII. Na soleira da porta que dá da capela para a sacristia, encontra-se a data de 1647, que outrora deveria estar na verga da porta principal mas que para aí deve ter sido deslocada quando foi feita a sacristia. A verdade é que esta capela não aparece na relação de capelas da paróquia de Ansião feita em 1627 pelo pároco da mesma.
O Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Leiria de 1955, da Academia das Belas Artes, refere: «Fica num alto cerca da povoação sobre um escadório de vários lanços. Está quase abandonada, e não tem coisa alguma de interesse artístico.»
Creio que o seu autor, Gustavo de Matos Sequeira, não valorizou devidamente a imagem de Santo António e o Cristo crucificado que devem ser da época da construção.
A Relação do estado das igrejas, confrarias e capelas da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Ansião, redigida pelo Padre José Fernandes da Serra, em 1769, diz o seguinte:
«A Capella de Santo , tem calis, patena, e colher de prata, pedra de ara, quatro toalhas, duas mezas de corporais, seis sanguinhos, huma vestementa de seda de corres [sic], alva, amito, e cordam em bom uzo, dois frontais, hum de seda de corres [sic] muito uzado, e outro de damasco branco, e incarnado quazi novo, a Imagem do Santo em vulto bem esculpida e incarnada, hum Santo Christo bem perfeito, dois castissaes de estanho, e sino; esta forrada de guarda pó.» In “Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas - Ansião”
É provável que esta capela fosse outrora muito mais pequena. Como acontecia com quase todas, tratava-se de um centro de apoio à administração dos sacramentos aos doentes. Quando o pároco era chamado, as pessoas disponíveis, ao toque do sino ou sineta, reuniam-se ao pé da capela e aí organizavam uma procissão de acompanhamento do Santíssimo Sacramento até à casa do doente.
A sacristia parece ter sido um acrescento relativamente recente, quando ela começou também a servir para dizer Missa, ao menos uma vez por ano, com festa em homenagem ao padroeiro."
Laje na passagem da Capela para a sacristia com a inscrição de 1647
Sem ser entendida não me parece que a laje tenha pertencido inicialmente à frontaria (?), sendo exatamente igual às do chão, porque razão a tiravam se estaria no sítio certo? Também não me parece que a capela foi no tempo mais pequena (?), o que foi acrescentado foi a sacristia  em 1926 , atendendo à data inscrita no chão de cimento feita pelo meu avô Francisco Rodrigues Valente.
Ainda me lembro da capela velhinha, abobadada, quase a cair de belo altar em madeira em azul marmoreado. Era muito bonito, pena foi terem-no substituído por um altar de pedra...
Chão em cimento da sacristia com a data e nome do meu bisavô paterno
Tenho noutra casa uma foto do casamento da prima Tina tirada do quintal dos pais em que se identifica a Capela velhinha de paredes abobadadas. Sofreu obras de grande restauro por volta de 65/66 (?), tendo mantido a volumetria do espaço apenas perdendo a originalidade interior e exterior.
Do exterior foram retirados os bancos ocos em pedra que existiam a ladear a porta de entrada, a Cruz e o campanário do sino foram novos, para agora me dar uma branca, julgo que a porta a nascente foi aberta nessa altura (?), e também foram alteradas as janelas a poente. Do interior foi retirado o altar em madeira na tonalidade azul em marmoreado, muito gracioso e foi feito um patamar em cima do lajeado para suporte do altar de pedra e na parede frontal duas mísulas para suporte das Imagens, havendo apenas a do Santo António, a tia Maria muito devota à Senhora de Fátima enterneceu para a sua aquisição com um grande Crucifixo, espólio que enriqueceu a Capela. O lampadário central foi retirado e electrificada com um candeeiro no teto, ao meu gosto ficou em demasia alto e candeeiros com chaminé facho na lateral do altar, mais tarde foi apetrechada com bancos. tornando-a muito moderna... Do tempo primitivo apenas o lajeado do chão e a Imagem de Santo António e um Crucifixo.
No adro foi queimado o altar e a mesa da sacristia, ainda lhe salvei um puxador de madeira!
A prima Júlia ofertou-me a caixa de esmolas, por ter sido substituída por duas novas.
O interior atual da Capela de Santo António
Salvou-se o escadatório onde adorava brincar em miúda, raro o dia que não rompesse as calcinhas a escorregar nas rampas de pedra que ladeiam os lances dos degraus. Aquelas escadas tem tanto de mim por tantas vezes as ter subido e descido, onde brinquei, namorei, sonhei, vi passar gente e os peregrinos a caminho de Fátima, aqui descansavam à sombra dos plátanos onde comiam o seu farnel e se refrescavam com a água fresca da fonte do Ribeiro da Vide -, foram assim 20 anos...
 Adoro ver o Santo engalanado com fita no braço
Santo António
O chão lajeado em pedras calcárias grandes tem sinais visíveis de fogueira feita  pelos desertores do Buçaco da 3ª Invasão Francesa em finais de 1810 quando por aqui passaram,  à sua volta letras do alfabeto esculpidas, não sei se desse tempo (?) tendo o espólio descriminado acima supostamente saqueado, o mesmo saque sofreu a Ermida de S.João nas Lagoas que incendiaram e por não terem conseguido arrombar a porta da Capela da Constantina fizeram a fogueira debaixo do alpendre, onde também tem ainda a marca .A Imagem do Santo por ser pesada a deixaram.
Marca no lajeado da fogueira
 
No linguarejar da minha mãe, a minha avó materna Maria da Luz da Moita Redonda vinha passar umas temporadas a Ansião para me ajudar a criar, mas passava o tempo de roda das criadas com medo que elas "roubassem" alguma coisa de valor, em idade mais de 70 anos já não lhe conferia feição para governanta nem tão pouco para ama,deixava-me sozinha na camita com o biberão enroscado na fé e sorte da reza do pedido de intermediação ao divino "Santo António, Santatoninho te acuda minha filha, Pai Nosso e Avé Maria" - ao jus aludir ao soneto do Códice Conimbricense
O "Divino António com o Menino Jesus nos braços" "Fiava-se Deus dele, e bem convinha - que desse António a Deus, o mais, que teve - se Deus a António deu o mais, que tinha"...
Expressão lírica lhe dava azo em acreditar nos Milagres feitos por Pádua ...
O  "Santo" esse fazia o que podia para tomar conta de mim,  não seria por morar paredes meias com a Capela que recebia mais graças, afinal via todos os dias a tia Maria à sua volta com rezas, flores e azeite para o alumiar e, graças não sei se as recebeu quantas pediu (?).
Euzinha sentada no pé do sobreiro da Cerca do antigo hospital 
    Em 1971/72 frequentei o Colégio Religioso as Salesianas no Monte Estoril. Quis nessa altura o malfadado destino antecipar brutalmente a morte do meu pai, com isso não voltei ao Colégio, fiz força para não ir, mas fui por causa do que não havia, mas podia haver (namorico e prejudicar os estudos), tendo ido desterrada para o Monte Estoril!
    O facto de ter estudado um ano neste Colégio conferiu-me um estatuto de pessoa adulta sabedora das doutrinas de cariz religioso no julgar de muitas pessoas, pelo que no ano seguinte a tia Maria me dirigiu convite para pedir o terço na Trezena-, 13 dias antecedentes à festa. Honra que até aí só era pertença de uma velhota do Cimo da Rua. Um grande prazer por ter assumido tão grande responsabilidade. Estranho ouvir a minha voz , sonante, clara, a recitar o terço naquela Capela apinhada, porém em silêncio, apinhada de gente!
    A chegada da hora fazia-se com o corropio dos cachopos no querer puxar o pingarelho do sino, até eu.
    Adorava no final a cançoneta dedicada ao Santo, enchia-me de prazer logo eu que nem sei cantar ali sentia dava-lhe jeito.
    A partir de meados de maio começavam os preparativos a fazer as flores e bandeirolas em papel de todas as cores. Na véspera da festa os cachopos tinham a tarefa de estender cordel pelo recinto do adro e escadaria para colar as bandeirolas com cola feita com farinha e vinagre. Os homens montavam os arcos grandes em pinho, pesados, depois de enfeitados eram postos no ar depois de abertos os buracos fundos. No arraial rapazes graçolas em rancho iam buscar lenha para se saltar à fogueira . Pedia-se a burra da tia Maria, a Gerica, onde íamos pelos pinheirais roubar aqui e ali, trazia-se uma carrada das grandes, mal arrumada a fugir pelos fueiros toscos de pinho, com os cachopos em paródia a rir e a brincar. As mulheres lavavam a capela e enfeitavam o altar. Moçoilas a tentar fazer tapetes de malmequeres amarelos nos patamares das escadas depois dos cachopos a terem raspado com o sacho e varrido com a vassoura de urze.
    Pela noitinha no adro acendia-se a fogueira, abria a tasca dos comes e bebes, ajeitava-se a música para o bailarico, acendiam-se as luzes. O arraial estava pronto para começar a festa.
    Predilecção sentia por a minha casa ser paredes meias com o adro, num passo estava na festa...
    À volta da fogueira reunia-se uma mão cheia de gente de várias faixas etárias a comer petingas assadas no brasido e chouriça, bem regadas com vinho, cervejas e sumos.
    Noite dentro a deitar conversa fora, havia encantamentos e deslumbramentos. Tudo era pecado naquele tempo. Tudo era proibido. Ia para casa desgastada com a sensação de não ter gozado quase nada, e havia tanto para gozar.Rapazes bonitos -, o Fernando do Pinhal, o Zé Emídio, o Toino do Tarouca, o Alberto da Carmita, O Chico Borges e....
    2016
    Em 2016 no último dia da Trezena foi servida sardinha assada com broa e vinho, a Isaura Real levou um panelão de bom caldo verde e uma palangana de petinga com molho escabeche. A Tita uma vida  a viver no Seixal mudou-se para a casa do sogro"Trinta" ao Ribeiro da Vide,fez uma grande caixa de "S" de Azeitão, eu e a minha mãe passámos duas horas na cozinha a fazer um grande arroz doce e bolinhos de bacalhau, com a conversa  esqueceu-se de pôr a farinha toda no Pão de Ló pelo que baixou, tivemos do comer em casa, estava maravilhoso, outros ofereceram bolos e rissóis e,...
    A minha mãe no jardim da sua casa no tardoz da Capela
    Domingo, o dia ansiado de festa estreava sempre um vestido novo. Usava as pinturas da minha mãe para me maquilhar. Lembro-me de num ano a minha prima São me dizer, "oh cachopa estás muito bonita com os olhos pintados". Adorava sentir os meus cabelos cor asa de corvo, longos soltos ao vento, davam-me tanta segurança fosse pelo brilho e elogios. Confiante, vaidosa e fresca até à igreja matriz buscar os paramentos para a missa e procissão. A Capela enchia-se de gente a transbordar para a rua. A procissão era muito grande e bonita. A Filarmónica abrilhantava com rasgados sons dos instrumentos reluzentes ao sol em contraste com a farda azul. As janelas enchiam-se de colchas brancas e de seda para a procissão passar. Depois abria-se a festa com a quermesse e com o pregão das fogaças oferecidas ao Santo e animais.Algusn compravam a própria fogaça oferecida com o assado para a ir comer com a família pela Cerca. Ouviam-se gritos para os jogos tradicionais, e junto à tasca dos comes e bebes havia sempre gente a comer caldo verde, feijoada, carne assada, torresmos e couratos com vinho a sair dos pipos em infusas para atestar copos de três a serem atestados em flecha.O som do altifalante da música convidava a bailarico, apareciam sempre os desocupados, embriagados, tristes, solitários, e claro bons rapazes, bonitões, atrevidotes, malandrecos, e rapazes de outras paragens. Tempo de se desconfiar de tudo e de todos. De ficar "falada", infelizmente já não tinha pai e sentia por isso o dobro do dever de me recatar pela defesa da honra...
    No entanto sentia querer namorar!
    Adorava rir-me, fazer festa. Saudades de tempos que já não voltam.
    Nesta Capela casei em 1978 - o segundo casamento aqui celebrado.
    Pouco me valeu a proteção do Santo dizem "namoradeiro"... no caso padrasto cuja maturidade me deu alforria e dizer abençoou!
    Os meus netos foram em 2016 aqui batizados.
    Porta engalanada para o batizado

    FONTES
    Página da Igreja de Ansião Padre Manuel Ventura

    2 comentários:

    1. Ó Isabel, o pavor que deve ter sentido quando partiu o braço ao Cristo! Deu-me vontade de rir, mas afinal só nos dá vontade de rir do que está mal feito! hehehe
      Gostei muito das suas recordações.
      E afinal até a passagem por estabelecimento religioso nós partilhamos, mas as minhas memórias são boas! Voltaria a repetir se tal fosse necessário!
      Manel

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    2. Obrigada Manel pelo seu comentário.
      De facto o pavor, foi grande...não disse a ninguém, deixei-o em cima da cómoda da sacristia, fugi de mansinho para não ser notada.Só há poucos anos o comentei em jeito de graça à minha prima dona da chave do Santo...coisas de família, lá passam todos os dias a namorá-lo.
      Também eu gostei muito de me ter recordado das minhas recordações.
      Quanto ao ano que passei no colégio...ups, vou tentar fazer um post. Tantas foram as cenas que por lá perpectei.
      Isabel

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