quinta-feira, 15 de abril de 2010

O primo José Lucas Afonso Gomes nascido na Moita Redonda

Acorremos ao chamamento aflito da "Isaura Reala" que se fazia chegar em pressa ao adro da capela de Santo António em Ansião lavada em prantos, portadora de notícia  trágica que nos deixa consternadas -, no seu linguarejar gaguejado, o primo Zé Lucas tinha-se atirado ao poço abaixo de sua casa...Teria os meus nove anos e o Luís, o filho mais novo uns cinco anitos. Recordo bem o primo da minha mãe, homem de corpo robusto, fazendo jus aos genes da Nexebra, de cariz moreno e olhar profundo ao tempo trabalhava como funcionário da Câmara Municipal e acumulava com aulas, no Externato António Soares Barbosa.
O recordar  estórias que fizeram história no passado pode  eventualmente suscitar ou  melindrar alguém (?), jamais seja essa a verdadeira intenção, com quem quer que seja-, quando se fala de forma positiva com engrandecimento e rasgados elogios, o lógico é agradar, já quando se fala de coisas menos abonatórias é suposto o inverso (?), mas na verdade a vida das pessoas é composta por vivências e factos de boa índole e de outras um pouco menos (?), porque ninguém é repleto de virtudes, de um modo geral quem não falha? E depois quem sou eu para dizer mal do visado?Muito menos se errou-, aliás sinto um enorme orgulho por ter genes da sua família, sendo que escrevo o que foi notícia  num  tempo de antanho, guardado nas minhas memórias de criança, também de ouvir  clichés na boca das gentes, sobretudo da  minha avó Maria da Luz, sua tia, que dele me falava nas férias quando as passava na Moita Redonda, também pela boca da minha mãe nos longos serões do turno da meia noite no PBX do Correio para passar tempo falava da sua vida em adolescente, sendo seu professor em matéria geral, na qualidade de Regente Escolar, o gabava homem de alto mérito, autodidata, e de craveira muito inteligente, tendo sido com ele e outras colegas andante de "cama de ferro às costas"  por casas alugadas por onde dava aulas -, havia ainda supostamente de ser bajulado pela sorte convivência com outros grandes mestres; Dr. Silveira, o Dr. Valentim de origem indiana, que veio trabalhar para a função pública e também dava aulas de inglês no Externato, casando com uma prima do meu pai-, a Conceição de Além da Ponte, e do professor Albino Simões e outros .
A minha mãe começou nos estudos sob a  alçada deste seu primo direito, José Lucas mais velho uns 20 anos, ao tempo residentes de aluguer numa casa alta onde hoje funciona o Posto dos Correios e a Junta de Freguesia em Santiago da Guarda, o seu pequeno quarto no tardoz com vista para a torre medieval com ameias semeada de ervas em contraste com as águas paradas da dolina cársica, a lagoa, que se alastrava redonda pela frente, mais tarde acompanhada com a colega Maria do Carregal, viveram noutra casa nas Lagoas, à Sarzedela que tinha sido de um padre, onde havia uma grande amoreira junto ao muro, e o varandim revestido de floreiras com morangos-, por aqui nas Lagoas as casas se mostravam ao tempo muito floridas repletas de morangueiros, por no inverno se formarem muitas lagoas que no tempo o povo fidelizou na tradição a toponímia, dada pela fartura d'águas. Aqui nesta casa se juntou a irmã da minha mãe a Rosária, que com o primo José Lucas se preparou para exame de Regente Escolar, ficando aprovada, igualmente muito inteligente, sendo que depois o primo Lucas veio morar numa casa ao Ribeiro da Vide, que foi mais tarde comprada pelo Sr Nogueira, onde viveu com a esposa e filhos. Entretanto o primo casou com uma linda e rica morgada da Nexebra de seu nome Lídia, que sabia de costura, no dizer da minha mãe-, o primo a idolatrava incondicionalmente, até lhe ensinou a falar francês...Construiu a sua bonita vivenda em Ansião, revestida a vidrinhos em verde e amarelo,onde não falta o painel azulejar do Santo namoradeiro, abrigado no alpendre da escadaria. O pedreiro, homem mestre de obras, foi o seu irmão António do Vale. Sempre gostei desta casa, aqui vim algumas vezes em criança e na adolescência provar vestidos, que a prima Lídia era boa modista, recordo um preto com florzinhas que despertava cobiça, por ser airoso.
A minha mãe do seu primo José Lucas, sempre falou muito bem, um homem muito respeitador, apesar da sua esposa amiúde o atiçar com cenas do quotidiano da família deles, na ironia atazanava por tudo e por nada, ao que ele, na sua calmaria de bom homem, lhe respondia " a rapariga não tem nada com isso"... Fala a minha mãe que este primo sempre a defendeu de investidas e incursões de cariz acutilante e provocador, fosse de quem fosse.Nesse tempo de estudos em casa do primo enquanto estudante em Ansião, no Externato, a minha mãe ainda hospedada na sua casa ia de fim de semana à Moita Redonda de onde regressava à segunda feira na carreira do Pereira Marques de cestas carregadas com o avio de hortaliças e outros haveres para a semana . Em miúda cheguei algumas vezes a brincar com o Luís, rapaz de cabelos escorridos, abençoado de grandes sobrancelhas, irrequieto e traquinas como eu e a minha irmã. Brincámos algumas vezes na parte do seu quintal onde haviam anexos com quartos que os pais alugaram para hospedagem de estudantes, também com o Carlos Cotrim no adro da capela do Santo António, mais tarde eu por ter chumbado dois anos no 5º ano, aconteceu o reencontro na mesma turma em Pombal, onde se revelou de excecional inteligência e determinação. Do filho mais velho o Rui, lembro-me que era alto, moreno, bonito, do tempo que foi estudante na Universidade em Coimbra, dos fins-de-semana que vinha a Ansião com a sua namorada Juju, igualmente bela -, filha do Sr. Caseiro e da D. Fernanda, naturais do Avelar mas a residir na sua casa na vila, onde costumava ir levar rabanetes que o Solicitador, o Sr Caseira, homem de aspeto imponente por ser forte os adorava e o meu pai plantava para o presentear no quintal. Recordação tenho no final de curso no Porto, em Engenharia, se chegam a casa licenciados quando fui à casa por cima da Farmácia no Largo do Município, onde subi a alta escadaria para ir buscar o estojo de desenho que o meu pai nunca chegou a estrear , sendo digno de engenheiro, que não passou da matrícula, por a minha mãe se encontrar solteira e grávida de mim, e, com isso lhe emprestara para o curso de Química...Vaidosa usei este estojo no Externato pelo deslumbre de grandeza, que a todos deixava espantados, até o espatifar todinho...
O primo Lucas cresceu na fé católica, dado pelo condão da avó Brísida do Vale, mulher  ferrenha, beata da igreja, no dia do seu funeral uma coroa de borboletas se formou em círculo a sobrevoar o caixão e logo houve povo que se apressou a dizer que era "Santa"...Já como ser humano (?) se especulou que o primo supostamente o não tenha sido (?). No dizer da minha avó aquando em caminhada ao Marco, no costume o descanso junto do tanque de bica a correr e na quina o salgueiro podado, logo desatava a contar que o sobrinho tinha namorado dez anos uma rapariga daquela casa que se mostra ainda de bela sacada-, um namoro de quase todos os dias, mas seria que havia amor? Ou seria encantamento na amizade de crianças que floresceu? O que é certo é que desistiu do longo noivado por suposta influência do pai (?) de alcunha "verdasca" atribuída ao suposto mau génio e sentido oportunista (?)... assim falava dele a sua irmã, minha avó "só depois de ter criado os três filhos na parca e frugal casa dos pais ao Vale, se instalou na sua casa nova ao alto do Lugar, depois de a ter  com tudo o que precisava, até a pá levou..." Entretanto a pobre rapariga a sempre noiva(?), desfeita em lágrimas na borda do tanque, assim desonrada (?) ao ser trocada pela suposta riqueza da outra banda da Nexebra (?) não aguentou o desgosto e se bandeou para o Brasil, porque era assim naquele tempo com quaisquer mulher que o namorado deixasse… Falou-se mais tarde ainda num tempo que as mulheres não tinham direitos, que na Conservatória de Ansião, se apresentou outra mulher com um filho nos braços, para o registar com o nome do pai... Atento o conservador, o Dr. Melo, na sua habitual sensatez em falar das leis do direito, a chama à razão, e na autoridade a demove de tal intento, apesar de assunto alicerçado pela suposta mulher, infeliz com um filho para criar, na dupla o fado do engano (?), ao ver a cédula do filho com a menção de pai incógnito...
Tentações e reflexos das voltas da vida que  atingem homens de cariz bonito e que singram na vida, então uma irmã da minha mãe também não chegou a morrer de amores por ele, quando em crianças moraram praticamente juntos, nem sei se ele o suspeitou alguma vez que nela só perdia o olhar com respeito, por ser seu primo, acredito!
O suicídio inusitado do primo Zé Lucas ditou em estupefacta consternação pela grande perca para o progresso da vila e para o concelho de Ansião, por dele se esperar virtudes de homem insubstituível ao seu desenvolvimento por ser portador de grande visão progressista, dinâmico e enérgico, com obra feita-, o hospital fechado, voltou a funcionar pelo seu empenho, acredito que se fosse vivo jamais o teria deixado extinguir de Ansião, sinto que lutaria "com unhas e dentes" disso não haja dúvidas, apesar de se dizer que ninguém é insubstituível, sendo que se revelou em vida homem de impugnável valor credetício em várias temáticas!
Não se sabe a razão do primo Lucas ter assumido o ato de pôr termo à sua própria vida.O povo apressou-se a especular que viveria infeliz(?) pelo fardo  pesado dos conflitos internos em balançar o mal e o menos bom quiçá na dor que provocou a três mulheres (?) a suposta cáustica maldição que o atormentava (?), apesar de tão rica vida preenchida com a família e dois  filhos,  igualmente inteligentes e esposa companheira, com futuro que se auspiciava ser de excelência a trabalhar em áreas que gostava e o realizavam, amigo do seu amigo, no auge e status com sucesso, dado pela grandeza do seu horizonte visionário, mas fatalmente homem perseguido pelos dilemas (?) que lhe retiram a ambição pela vida , com isso  se deixou ludibriar  pelos pensamentos (?) e uma vez enganado, o decide com brutal coragem, em dia com hora de grande infortúnio-, por sentir que não lhe resta outra saída que o liberte de mágoas desconcertadas (?) supostamente acreditando que a solução da morte lhe devolva o descanso do que o atormenta na paz arreigada (?) -, ditos e mexericos que se alevantaram em caras dum povo de semblante triste pela surpresa e aparato que se perfilhou em romaria no grandioso funeral e o viu descer à terra em campa com local estratégico, no inicio da segunda fila, do lado esquerdo do passeio público, melhor local no jardim da eternidade, outro aqui não há, a fazer jus ao palco e estrelato que defendeu em vida em prol dos outros. Paz à sua alma e da esposa também, na união, muitos anos mais tarde!
Importante discernir que o suicídio não lhe retira o brilho de ser um digno ilustre filho do concelho, nascido na aldeia de Moita Redonda na freguesia de Pousaflores, homem que subiu na vida a pulso, por mérito, dedicação e empenho. Intriga a razão do apelido "Gomes" em não lhe ter feito uso, em querer ficar conhecido (?), supostamente culpa do funcionário do registo civil de Ansião ao fazer o registo de nascimento deturpou a ordem dos apelidos, sendo a mãe Maria José Gomes, e o pai António Lucas Afonso...
Foi coisa premeditada, dias antes foi falar com o seu irmão Joaquim de quem era muito amigo e pediu-lhe se lhe acontecesse alguma coisa velar pelo filho Luís, que era criança e na véspera foi ao Correio e a minha mãe achou-o de semblante triste, supostamente foi-se despedir sem palavras ...
Homem de família, humilde, lutador e empreendedor no fazer o bem em prol da comunidade -, a talhe de conversa falta nesta terra desterrar uma lápide com o seu nome, que o merece mais do que muitos outros, que pouco ou nada fizerem por merecer tão distinta honra, pior seja a menção de nomes sonantes, que nada tem de comum à vila. Fica o recado!
Não fosse o infortúnio do suicídio, hoje os Ansos, como os chamavam por volta de 1625 e hoje pelo nome de Ansianenses, se poderiam regozijar de ter na sua terra um progresso afortunado, sobretudo na área social, cultural e preservação do património, porque era homem que enxergava longe! 
Nunca entendi nem aceitei muitos dos preceitos da religião católica-, ao tempo especulou-se que o então padre Filipe, pediu autorização ao Bispo para celebrar o funeral, porque na altura quem se suicidava, não tinha lugar a enterro de católico.
Pouco depois de falecer quando seguia atrás de um carro do Bairro de Santo António ao cortejo alegórico do Povo, alusivo ao hospital, ao virar o Fundo da Rua quando falava da sua reabertura pela sua mão, eis que sou interpelada pelo seu irmão Joaquim, que não conhecia, dizia ele " tem razão, o meu irmão faz muita falta a Ansião".

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