quarta-feira, 7 de abril de 2010

Recordar pessoas boas e más da minha infância...


Prazer manhoso do avô "Zé do Bairro"na mania de controlar a altura das suas netas; minha e minha irmã, metia-nos encostadas ao umbral de madeira da porta da cozinha, de trás da orelha tirava o lápis e marcava a nossa altura com um risco. 
  • Dececionado balbuciava aborrecido "o vosso pai na vossa idade já tinha esta altura, com o dedo indicava muito mais acima a marca" baixinho ouvia-o a resmungar"cá para mim vocês saíram à vossa mãe" pronunciava entre dentes amofinado!
Todas as manhãs a caminho da escola nunca me esquecia de entrar porta dentro da padaria para lhes dar os bons dias, mal ele sentia o beijo na face aproveitava o ensejo para testar conhecimentos adquiridos de véspera nos livros que lia dos filhos: história e geografia, enquanto o pão cozia. Parece que me fazia espera, tal o bombardeamento com perguntas, coitado...tão entusiasmado nem se apercebia que tal matéria na escola ainda não abonava…por entre dentes gaguejava baixinho "o mê Fernando, esse sim, foi um bom aluno, tu tens cabeça mole tal qual o meu Chico"… 
Reconheço que o avô me despertou para o gosto do património e da história.


Foram-se os dentes de leite da minha  Mena… tragédia ia sendo a visita de cortesia do regresso da tropa do "Carlitos Parolo" de Angola. Seria abril depois do jantar, anoitecia - a pé caminho fora a fugir dos buracos e da lama à porta da Carmita, o nosso pai teimou em entrar no quintal pelo pequeno portão de ferro com um lanço de dois degraus...
  • de mão dada com a minha irmã -,  pequenita com cinco anitos teimava não subir o degrau, ao puxá-la com força tropeçou , bateu de frente com a boca. Gritava que se fartava tal o sangue que lhe saltava da boca ...grande aflição naquela casa, as mulheres puseram uma grande bacia de lata no meio da sala, a Tina em correria despejava canecos de água quente tirados da panela de ferro da beira do lume, enquanto isso a mãe Ti Florinha com a Mena pelos braços dizia-lhe que era melhor água fria para estancar o sangue da boca, ao mesmo tempo que a acalmava com festas na cabeça para parar de chorar. Grande aflição, dizia a Ti Florinda "os dentes da frente foram-se".
Sentada no tripé ao lume, caladita assisti à grande apoquentação das mulheres enquanto os homens pouco ou nada demonstraram "era trabalho de mulheres" enquanto isso o homem da casa levantou o alçapão a caminho da adega, atrás dele desceu o filho com o " Armando Girafa", o Armando Cardoso e o meu pai para comemorarem o regresso do Carlitos. Refastelados de bom vinho vi o Ti "Parolo" abeirou-se de mim com um pichel de abafado na mão com um sorriso " Belita, este é para ti, bebe que te vai fazer bem" -, gesto igual ao de sempre todas as vezes que passei à sua porta com o meu pai, fazia questão de abrir a adega, do pipito de costas para uma janela que mais parecia porta virada a norte, abaixava-se para o encher. Homem muito obsequiador, não me lembro no Bairro de outro assim igual, viria a falecer de trombose, a segunda vez que ouvi tal palavra e assisti às mazelas da doença…
Alegria sentia ao passar àquela casa de gente boa, simpática, sabiam receber toda a gente sem olhar a quem. O que era para ser uma visita de cortesia virou um inferno, nem fizemos carícias à macaca que o Carlitos tinha trazido de África.
  • No dia seguinte o meu pai foi com a minha irmã ao Dr. Travassos -, o médico perante o que viu acalmou-o, com a mão sobre o seu ombro "Valente não há nada a fazer, espera pelos definitivos" - ouvir tal conversa à mesa durante o almoço fiquei sem perceber o que o médico quis dizer ao meu pai - para mim os "Definitivos" eram os cigarritos mais baratos que fumavam o "Ti Manel Neco"do Carvalhal e o tio Manel Silva ..."raças me partam"  o que teriam a ver com dentes?
O tio Manel Silva… casado com a tia Maria -, homem alto nascido no Casal das Peras gostava do seu cigarrito, lembro-me bem como os fazia à mão, mortalha aberta nela embrulhava o tabaco, levava aos beiços para fechar, mascava depois de aceso, sentado num mocho debaixo da velha laranjeira do quintal virado a sul nas tardes de domingo de camisa branca, gravata preta fininha e "Amigo do Povo" debaixo do braço e transístor para ouvir o relato da bola. Sofreu vários acidentes de trabalho na arte de pedreiro. Uma brutal queda de um andaime deixou-o muito mal tratado dos ossos com feridas expostas, antes de seguir para Coimbra...
  •  às pressas a filha Júlia correu a minha casa para eu lhe passar a ferro os cuecões de popelina branca para levar vestidas porque àquela hora não tinha brasas para o ferro…naquele tempo -, o paciente esperava em dor, para ir lavado e limpo a caminho de Coimbra!
A tia Maria do Bairro…todas as semanas, a mulher Maria, tia do meu pai, num ápice eu e a minha irmã apodámos de nossa, cozia a broa, raro esquecer-se de fazer merendeiras de açúcar, azeite, ou meia sardinha "entalada" -, ou o que a pobre mulher tivesse de avio. Lembro-me que gostava de sentir o fumegar da broa a cozer no forno, nesse entretanto vinha ela ao adro em passo corrido, apressado de chinelos de dedo, avental xadrez, cabelo encrespado a fazer jus a moira, lenço preto descorado do sol mal apertado e malga do crescente na mão com panal em jeito de alar a caminho da casa da Ti Maria do Raul, para ai o deixar. 
Por altura dos "Santos" na cozinha andava numa azáfama de avental a rodar o chão de volta do alguidar com as mãos enfiadas a fazer a massa dos bolinhos que  batia com força até fazer refegos -, fazia-as grandes, escuras, bem cozidas, com muita passa e pouca noz.
As vezes que a vi no final da tarde ir ao quintal -, na  aba do avental trazia uma mão cheia de grelos couve nabo para o aferventado com arroz, o que eu gostava do comer dela: bacalhau com batatas; arroz malandrinho muito gostoso, nos dias de festa acendia o forno, dia de galo com batatinhas de sabor -" a leitão finjido"- o segredo do tempero: na malga fazia uma massa de banha com alho, pimenta e louro esmagado. Gostava do seu enchido e dos queijos também.
Outro grande dom o amor pelas flores, nunca conheci ninguém que gostasse tanto de flores, não havia cântaro, alguidar, ou penico partido que não tivesse um " brinco de princesa, sapatinho chinês, amor do Brasil e, cravetas lilás serpintadas de vermelho-púrpura e dálias"  na quina do muro com o carreiro havia um arbusto de Lúcia-lima que chamávamos limonete exalava ao passar por ele um aroma alimonado, junto ao forno havia um sisal de folhas pontiagudas, um rícino de folhas grandes avermelhadas escuras, também uma trepadeira de flores branquinhas a enlear a retrete de paredes em alvenaria, não fossem pedreiros o tio Manel e o filho Chico -, o tampo de madeira com esgoto aberto para o estanqueiro. 
Tantas conversas e convites para lhe fazer companhia na visita aos familiares falecidos às quintas-feiras para enfeitar as campas , grande o ramalhete colorido que as duas apanhávamos nos coxos e panelas de ferro a servir de vasos. 
  • Um dia mostrou-me um jazigo subterrâneo aberto, durante dias não dormi, nem sabia que existiam, horror senti ao ver debaixo do chão prateleiras em pedra com o fundo coberto de água -, esperavam-se grandes funerais, um casamento na Sarzedela com bailarico na estrada deu em tragédia, morreram convidados, sepultados iam ser naquele local. 
Tantas caminhadas, tantas histórias, até aí, o único cemitério que me tocava, o que tinha visto no jardim zoológico em Lisboa, cãezinhos com lápides em mármore sim senhor!
 
De manhãzinha as duas de casa de sacho às costas a caminho da Monteira...quem gostava também de ir connosco o Sr. João Silva reformado do colégio Nuno Álvares em Tomar, dizia ele " o vosso pai no colégio tinha a alcunha de Zebra... vestia um fato às riscas brancas"
  • Sol de pouca dura com o reformado nosso vizinho vindo das bandas de Tomar-, atrevido predador de conversa proibida para homem daquela idade com crianças , caiu no erro de tentar cometer um despropósito com a minha irmã - sabedora de tal postura indigna - pu-lo em sentido e a conversa finou-se, e com ela a amizade também. Sem termos conhecimento das coisas, sabíamos fazer a triagem do certo e do errado!
Nas primeiras chuvas em setembro apareciam no adro formigueiros com agúdias por todo o lado. De lata na mão do algodão hidrófilo na borda da ribanceira o jeito era apanha-las. Perdia-me a olhar a tampa do esconderijo dos grilos de tão perfeita, uma obra de arte, interrogava-me como tal obra seria possível ser feita por insetos. Com junco de nó na ponta acima e abaixo no buraco como eram apanhados e metidos em caixas para cantarem. 
As agúdias o isco perfeito para armar piscussanhas junto às figueiras e silvedos . Fazia-se o terreiro de terra com o sacho, na crista armava-se a armadilha tapada com terra, nela a dançar se prendia a agúdia, bem se mexia para conseguir escapar - azar dela - gula do passarito atrevido, zás num ápice enganada na dança e, desanca no papo. Pela tardinha tempo de ronda para  a recolha das piscussanhas e dos gordos e lustrosos passaritos traídos que se depenavam no muro para o adro, logo ao lume assados na brasa, sabor irresistível, aqueles peitos e finos ossitos de tão saborosos. 

Lamentavelmente ocorreu-me à memória outro facto análogo de abuso...ainda hoje me perplexa por ter acontecido comigo, pequenita com seis anos. Amigos do meu pai acabados de chegar do Brasil de surpresa apareceram em nossa casa para o visitar, traziam prendas: panela de pressão Panex, caixa de madeira com charutos, e um lindo chapéu de palhinha amarelinha debruado a fita de seda preta a dar um lacinho. Convidaram-no a sair para um pitéu na casa de um deles -, sozinha com ele em casa insistiram para que me levasse.Fomos e um deles sentou-me ao seu colo no carro Mercedes, o meu pai sentou-se no banco da frente pela altura. Senti-me incomodada,o senhor abusava ao mexer debaixo da minha saia. Educada, naquele tempo nem se podia abrir a boca , mas aflita fazia o que podia para demonstrar tal repulsa,- rebolava sobre os seus joelhos, ingenuamente demonstrava não gostar que me tocasse, os outros diziam " a miúda parece que tem bichos-carpinteiros no cu" cansada de fugir de um lado para o outro sem surtir efeito, agarrou-me com as mãos ... instinto o meu, unhei-o com toda a força que tive... "não chiou, nem abriu o pio" até chegarmos à aldeia fora de portas. Beberam, petiscaram, viemos de volta à vila, bati o pé que só vinha ao colo do meu pai, assim foi , tal insistência ficou no momento sem perceber. Despediram-se na vila junto ao fontanário de ferro no largo do Correio velho. 
  • Sôfrego por mais um copito de três o meu pai dirigiu-se comigo até à tasca da "Ti Gracinda dos cachopos" na rua de trás do mercado do peixe e pergunta-me o porquê da minha insistência em vir sentada no seu colo - sem medos  decidi contar-lhe o sucedido -, um encanto a minha audácia e coragem. 
Aflito em polvorosa olhou para a Ti Gracinda, recomendou-me para de mim tomar conta enquanto ele ia ao Posto da Guarda com avisos "não a deixe daqui sair com ninguém"
  • Ao tempo assunto desconhecido, intocável - até de mim - que nada sabia… mal chegado ao Posto, os guardas de serviço o acalmaram com o descrédito " a tua filha é uma criança" quem ao tempo valorizava o que nós dizíamos? Alvitraram: "Oh Valente foi sugestão da miúda, que outra coisa poderia ser, as crianças são imaginativas". O meu pai recalcou " ela unhou-o com força nas mãos" prova fatual que ninguém valorizou por a acharem ridícula… enquanto isso "o mau homem" que o meu pai arrastou até ao Posto para prestar depoimento-,com as mãos ficou entaladas nos fundilhos das calças…
Lamentavelmente a tentativa de abuso não merecera credibilidade de ninguém no Posto da Guarda. O meu pai esforçou-se. Valeu a intenção.
Nunca esqueci este alto gesto de honra!
Ainda bem que nunca soube quem era o pedófilo …acredito tenha morrido de "morte matada e  arda no inferno"!

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