quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Burgo medieval no Bairro de Santo António

A casa dos meus pais foi edificada em 1957 num talho de herança recebida do meu avô paterno "Zé do Bairro" alcunha porque ficou conhecido, sendo que a maior parte da herança do quarteirão ficou para a sua irmã Maria. A terra de seu nome original "Quintais do Bairro" nasce ao adro da capela estendendo-se até ao terreiro que chamam de Largo do Bairro, mas tinha dois talhos de terceiros-, da Ti Isidória, um comprado pelo meu avó e o outro pelos meus pais. Assim o quintal dos meus pais termina a sul com parte de uns casões antigos de paredes grossas, num deles que já não existe tinha um grande nicho em pedra retangular onde viveram pessoas, no meu tempo era o ninho para as galinhas porem os ovos, e pela parede a norte ter ruído foi posta uma grande rede. No barracão anexo ainda hoje há resquícios de argamassa esbranquiçada, ao tempo se dizia ter sido de cavalariças (?)...Tantas horas ali passei a mirar cada pedra na esperança de encontrar um tesoiro(?), porque na casa da Ti Olímpia de paredes meias com os barracões dos meus pais, os cachopos do" Pêgo e o Tonito da São" encontraram num buraco da parede de pedra notas enroscadas... Eu só encontrei restos de uma almotolia de azeite, ainda hoje se vendem em barro verde, também verde restos de um rebordo de alguidar grosso...
As heranças noutros tempos tinham o modo de desvirtuar partilhas mal partilhadas, por isso os barracões eram pertença de vários donos, encaixados uns nos outros com polémicas de paredes de todos (?), azedumes, até tribunal. Falo das traseiras que se estendem para dentro dos quintais do Bairro, na verdade fazem parte do tardoz do casario com frontaria à volta do Largo do Bairro, onde em miúda gostava de brincar à macaca, fácil era o traço do risco no chão branco de barro de pedrinhas reluzentes, em seu redor casario emblemático, algum desabitado, outros com moradores que aproveitaram as casas velhas e lhes deram nova vida como a nascente a casa da Ti Olímpia e do marido, da filha Zulmira e do marido
Pregueira e no gaveto a casa grande, que foi a Casa da Câmara, onde viveu a Ti Isidória, cujo filho de apelido Paz emigrou para o Brasil com a mulher e a deixou em herança a uma prima, a mulher do Ti Abílio Ferreiro do Cimo  da Rua, a quem os meus pais compraram o lote de terreno no meio do nosso quintal e o Carlos Pêgo e Alice compraram a casa onde já o pai dele morou-  casa de sobrado com uma janela de avental ladeada por bancos de pedra namoradeiros, a frontaria tinha um átrio quadrado com os três lados debruada a dois degraus compridos em pedra calcária, gastos, que terminavam com duas colunas muito grossas em pedra miúda, uma delas torta, talvez pelo terramoto de 1755(?) , junto a elas haviam duas parreiras, possivelmente no passado tivesse sido alpendrado. Na frente a nascente ainda indícios de duas prisões, uma janela com grades, se dizia uma para homens e outra de mulheres, teria sido esta alta casa que ainda me recordo no lintel de uma porta a nascente haver uma data 1767. O alargamento da estrada e de obras na casa foi suprimida, foi com alguma certeza a casa onde exerceu funções o juiz Dom João Vellasques d' Alarcão, natural de Ansião, da quinat de Além da Ponte, está sepultado em jazigo no cemitério. 
A nascente do Largo do Bairro já conheci a casa reconstruída onde viveu o Ti Paulino, cesteiro de Barcelos e a sua neta Rosalina que frequentou comigo a 4ª classe , se foram embora, vendendo a casa ao Raul Borges depois da minha tia Carma lhe ter dito para a comprar se não tivesse dinheiro lhe emprestava.Esta casa foi o Ti Paulino que a construiu, desconheço se foi sob ruína de outra...
Recordo a reconstrução da casa da Elisa e do Cunha, a seguir ainda existem uns barracões do Ti Raul Borges onde foi uma estalagem seguida da primeira prisão já em terreno que foi do Serra. 
A norte do Largo do Bairro ao lado da casa da câmara havia outra casa velha onde a minha tia Maria guardava a palha para a burra,  o primo do meu pai o Chico Silva construiu sobre essa ruína a casa para se casar com a Augusta, que guardam ainda o lintel com a data de 1680, que foi retirada da casa, supostamente foi a casa do Administrador da vila (?).
O Ti Moreira tinha comprado um lote de casario a poente do largo do Bairro onde tinha o curral da mula que veio a vender à Conceição mocho" quando se casou e no espaço fez currais e a cozinha e a casa limpa ao lado.Seguida de casa de gaveto alta que foi mais tarde também comprada ao Ti Moreira para o filho Adriano fazer a sua casa quando se casou. Contornando esse gaveto da casa do António Mocho de paredes meias com a do Murtinho e Mavilde, no tardoz a nascente existe um corredor ladeado por um grosso muro com o quintal da minha tia Maria, no mesmo seguimento a mesma grossura de paredes num dos barracões dos meus pais, seguramente seiscentistas (?) pertença do burgo desse tempo que não deixa indiferente o julgar do que teria aqui existido no passado... Pela frente a poente com o caminho da Estrada Real existiu uma oficina de ferrador, desmoronada no sitio foi feita a casa para a Mabilde se casar com o Abílio Murtinho, nascido julgo onde era a casa da irmã Conceição (São mocha), porque o irmão Manuel Murtinho foi viver para uma barraca que alugou na frente dos Paços do Concelho. No tardoz nos barracões que ainda existem havia a casa de se fazer pão da Ti Maria Zé, quiçá a primeira casa , padaria em Ansião (?) que deve ser irmã do meu bisavô Elias da Cruz, casado viveu no Alto, ao Vale do Mosteiro, onde tinha uma padaria, outro irmão foi para Além da Ponte na arte de ferrador e,... 
Mais abaixo no meu tempo havia a taberna do Ti Moreira, homem nascido no Casal e a mulher era do Escampado. Ambos viúvos, ela já era aqui estabelecida quando casaram, ainda me lembro deles, mui velhotes, castiços... 
A frontaria da quinta do Bairro desenvolvia-se sob o comprido com vista para o terreiro do Largo do Bairro onde foi a última estalagem da Ti Maria da Torre, após a morte da estalajadeira na década de 50 (?) já depois de ter celebrado mais de cem anos. Aqui nasceram; Adelaide, Ermelinda, Laurinda, Beatriz... 
Na herança a estalagem foi dividida em três casas, a parte a sul que tinha um grande arco onde entravam os cavalos para as cavalariças ficou para a  filha Laurinda casada com o Ti Inácio onde reconstruiram casa para viverem, ao meio ficou uma casa estreita de paredes levantadas e telhado com janelas em madeira fechadas, com chão de terra, seria a herança da Adelaide com (problemas cognitivos) e a última parte onde se hospedavam os viajantes seria da irmã Beatriz, foi inicialmente alugada nos anos 30 aos pais do Sr. Zé André e no meu tempo vendida ao "António Trinta" quando este se casou com a Carolina, recordo que a casa tinha pela frente bancos de pedra, como manda a tradição, um poço e um portão, do lado de fora do muro um grande tronco retorcido da antiga glicínia de belos cachos lilazes, cheirava que rescindia, atenuava os maus cheiros que corriam pelos caminhos a céu aberto naquele tempo ... A casa do "Trinta" é a única resistente, as outras duas que lhe pegavam na correnteza perderam-se neste finado mês, deitadas abaixo para dar lugar a novas vivendas, onde pude ver ainda a pequena porta de ligação, entabuada dava acesso à casa deste, antes das partilhas.Sempre conheci a casa do meio, de portas fechadas. Raramente aberta, só por ocasião das festas de agosto, o carro alegórico enfeitava-se à sua frente e da casa do Ti Inácio que a abria para se guardarem flores de papel, apetrechos como rede e outros materiais. Num desses anos fascinou-me ver no chão uma laje fúnebre, sem inscrições, logo na entrada...
Há ainda quem se lembre da enorme chaminé da estalagem. A antiga dona, sobrinha da Ti Laurinda , guardava memórias vivas desse faustoso passado -, dizia a D.Albertina ainda conseguia fazer o desenho de como era a casa, com os varandins...Guardadora escrupulosa de tesoiros dessa herança, uma grande telha datada , e o grande Crucifixo do Senhor do Bonfim do século XVII, que nesta estalagem existiu, e nos dias de grande trovoada todo o povo do povoado Bairro aqui acorria para rezar e se proteger dos trovões.
Imagem do Senhor do Bonfim gentilmente cedida pela D. Albertina no dia da festa de Santo António para engalanar a capela .
Sr do Bonfim
Julga-se que o seu nome - BAIRRO DE SANTO ANTÓNIO, deriva do muito barro que por aqui existia, ao tempo todos os caminhos e o largo eram em barro, lamacentos com a chuva, desde o branco, amarelo, arroxeado e liláz na Estrada Real  na alta barreira da Cerca (Misericórdia), em frente à casa antiga de pedra do Ti Parolo onde este tinha a prensa, bem me recordo do tempo que aqui vinha espremer o engaço e trazia na volta o meio almude cheio de água pé, e mais abaixo já se apresentava avermelhado, no gaveto da propriedade da Cerca com o caminho em direção ao Ribeiro da Vide. 
O muito barro julgo derivou Bairro (?) e, pelo aglomerado de casario em redor do Largo acrescentaram o nome do orago do Santo da capela que é o patrono dos viandantes que passavam pela estrada real. 
Santo António
 Laje na entrada da sacristia para a capela com a data esculpida
1647
O primeiro burgo de Ansião existiu onde hoje está implantado o cemitério, confidenciou-me o Padre Zé Eduardo, por aqui terem sido encontrados muitos artefactos romanos e medievais.
Ao atual cemitério a bifurcação de caminhos  se mantém, um seguia para sul ao Vale Mosteiro, parte da atual avenida, outro teria nascido quando a igreja ficou desativada, para os viandantes vindos do Nabão contornar o cemitério no seguimento da Rua de S.Lourenço a caminho da vila.
O adro velho da Igreja velha veio a dar dois lugares- o adro velho séculos mais tarde para onde voltou o cemitério, e uns metros para norte nasceu a Igreja velha nas hortas do Nabão.
Junto ao cemitério passa o Ribeiro da Vide, reza em escritura da propriedade confinante que foi dos meus avós se chamar "Ribeiro da Igreja" induz que aqui algures foi o chão dessa primitiva igreja.
A Estrada Real vinda do Nabão na direção do Vale Mosteiro a caminho do Bairro de Santo António, julgo não corresponda ao traçado atual (?)  pela curva ao entroncamento com a estrada para os Escampados seguida da curva à casa da Tina "Parolo" para o Bairro, num tempo de carroças e cavalos seria perigosa por ser curva contra curva e estreita (?).
Neste entroncamento a estrada real faz sentido seguir em frente e não curvar para a esquerda para a rua do Vale Mosteiro com atualmente ...
Ao fundo o atual barracão da filha do Sr. Serra, sempre me indignou estar ao meio da propriedade.Era em pedra antigo, tinha uma janela de madeira com um caixilho minúsculo  remodelado há poucos anos.O meu pai teve uma fotografia na sua frente com uma folha de couve na mão, que se perdeu.
Estando ali ao entroncamento faz sentido a estrada seguir em frente abaixo do barracão na direção ao Vale Mosteiro, num tempo que a quinta e cerca do mosteiro chegava ao Ribeiro da Vide e por isso o nome ficou no lote que foi doado à Misericórdia - Cerca.
 Para sul segui na frente desta casa antiga que hoje é da Tina Parolo. Casa com balcão.
A Estrada Real e os terreiros que se estendiam até ao adro da capela -, hoje quintais, serviram para grandes comitivas acamparem, nem todos tinham lugar nas estalagens, sabe-se que traziam meios para cozinharem e dormir ...Lembro-me em miúda de alguns artefactos em oiro encontrados, não enriquecendo os moradores, ajudou alguns deles em tempos difíceis, eu própria me recordo de um brinco de ouro alusivo a 1640, encontrado no quintal do "Trinta", na altura se falou ter sido vendido no Banco de Portugal em Coimbra (?), como antes já o fizera com outros achados...No quintal do meu tio Manuel da Silva, de paredes meias com o dos meus pais, todos os anos quando este o mandava lavrar com a junta de bois, dizia " quando o pessoal se abaixa e põe a mão ao bolso é porque encontrou ouro..."A sua filha São minha prima, encontrou em miúda um pedaço de corrente em oiro no adro da capela.
A minha querida mãe no seu jardim defronte do adro
A minha mãe no seu quintal atrás do adro
Nas traseiras da estalagem da Ti Maria da Torre, e da outra casa alta e estreita na esquina mais antiga já no quintal da tia Maria, existiam cisternas. No meu tempo o seu aspeto era de lagoa pequena circular entulhadas (?). Reza a lenda em Ansião que em nada abona esta terra, mas que ainda assim muitos se lembram:" Ancião - terra de 30 moradores e trinta e um ladrões"...
Conta-se sobre o seu fundamento advir dos forasteiros depois de saqueados os matavam e atiravam para as cisternas... O Padre José Eduardo Coutinho tem uma versão diferente. " Ansião com 30 moradores, trinta e um já lá estão..."
A sul do quintal dos meus pais junto aos barracões que faziam parte da grande casa da cãmara existe ainda, apesar de adulterado um poço com escadaria em pedra e formato ovalado a fazer lembrar um caixão, a contrastar com os típicos da região em redondo -, afinal trata-se de uma mina de água, um poço de chafurdo, herança dos mouros.
Fiquei sem bateria...a escadaria do poço de chafurdo
A última descoberta de artefatos ? Luzernas em terracota guardadas no vão da escadaria de madeira na casa do "Trinta" que o Padre José Eduardo levou para catalogação em Coimbra...
Nunca soube a datação e onde estão? Existem fatos suficientes que valorizam este aglomerado com potencial para ter sido o último burgo medieval até ao século XIX em Ancião.Nem sei se alguma vez alguém se debruçou em explorar e desvendar este passado(?).
Lamentavelmente nos últimos 50 anos toda a envolvente do largo do Bairro foi sendo aos poucos completamente descaracterizado, e esquecido o seu rico património histórico. Calcetado perdeu a beleza do saibro branco do terreiro, reconstruções de casas perdeu-se a traça antiga que o dignificava, ainda assim matem a traça.

Largo do Bairro

 Infalivelmente se lhe acudissem, se para tal tivessem esse mérito maior, aqui poderia nascer o que faz falta a esta terra, apesar de um dia ter nascido torto, houvesse força para o fazer como deve ser feito, local mais apropriado para o nosso Museu, outro melhor difícil encontrar com tanta história como aqui no Bairro de Santo António!O que eu gostaria do Museu neste local, onde a mostra da recolha das tradições desaparecidas, ou em vias de extinção da nossa terra fossem perpetuadas, também dos artefatos que ao longo de anos foram sendo encontrados por terras de Ansião (lucernas, machados do paleolítico, moedas, contas de tear, facas em silex...Guardados como espólio particular de alguns, também acredito do rico espólio do Padre Zé Eduardo, angariado ao longo de anos, com muito empate de capital, e a distinta menção honrosa a todos eles pela preservação. Sinto que ainda era possível acudir a este espaço emblemático que no passado foi tão importante para as gentes de Ancião, e que afinal tanta gente desconhece, devolvendo-lhe a dignidade do passado que o presente teima em esquecer...Se quisessem, se para tal não houvesse inércia e desconhecimento do passado. Ainda é tempo de acudir, dar valor, a um passado importante que faz parte de todos nós que amamos esta terra.
Para cúmulo atribuíram nomes às ruas que não respeitaram a história e as estórias do local...
Na antiga Estrada Real deram-lhe o nome de rua do Hospital, quando este apenas e somente tinha entrada pela rua, a que chamaram de Santo António, quanto ao Largo, ficou do Bairro, então não se deveria chamar Largo das Estalagens? Já a rua em sentido descendente ao Ribeiro da Vide, incrivelmente não mereceu mérito para placa toponímica...Houve recentemente a boa vontade de alguns moradores em pedir à Junta para lhe atribuir o nome de Rua da Estalagem, para não deixar morrer a história daquele local...Espero que a Junta não se esqueça de desterrar a lápide.
Na realidade aquela rua engloba o quintal dos meus pais que em escritura pública exibe o nome primitivo de Quintais do Bairro, mas essa não deixei eu morrer e mandei executar há tempos um painel de azulejos que foi aplicado na parede.Então não é património de família?


Casa dos meus pais
Painel azulejar
Pena tenho eu, de não ter sido mais sortuda neste quintal...Na minha adolescência encontrei um fóssil marinho que vi outro igual no laboratório do Externato António Soares Barbosa, com o tempo fatalmente perdi-o...O que ainda mantenho é uma pedra com furo visivelmente afeiçoada para amuleto de pendurar ao pescoço,
pendente em pedra
Ainda quilos de "caquinhos" de faianças antigas que outrora por não haver recolha de lixo quando se partiam eram atirados para as falhas dos muros... O quintal é lavrado todos os anos, há mais de 20 que me deleito em os procurar na terra mexida com a gadanha...Aqueles que mais aprecio..."Os ratinhos" com eles vou fazer algo , ainda não sei bem o quê, mas farei, então não continuo a apanha-los?
Ainda existe uma oliveira milenar cujo tronco de tão largo evidencia essa antiguidade, havia também uma frondosa nogueira que a minha mãe mandou cortar, ninguém a queria varejar, pelo medo só de subir aos seus altos ramos...Quase a rondar a extrema com o quintal da minha tia Maria havia uma amendoeira cujo tronco gemia uma pasta pegajosa com a qual eu e a minha irmã fazíamos cola ao derreter a pasta ao lume, no outro extremo a sul havia uma ameixeira Rainha Cláudia, num tempo que se valorizava muito as árvores de fruto, por haver poucas...
E as mimosas seculares de tronco vermelho escuro, havia uma na esquina do adro e outra na esquina da Cerca, com a casa do Ti Moreira...

E o jogo da malha no caminho aos domingo...

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