terça-feira, 30 de novembro de 2010

Familiares diretos com morte trágica!

O meu tio Carlos Lucas…irmão mais velho da minha mãe - lembro-me dele muito louro de sobrancelhas muito claras a rondar albino, para mim parecia boa pessoa, simpático apesar de o achar tímido. 
Conta a minha mãe que era um rapaz vivo, irrequieto, escarniento, dirigia más falas à mãe enquanto o pai andava no labuto pelo Alentejo -, fugia à escola, passava tempos com o amigo Zé das Hortas na taberna do Freitas no Furadouro - também a roubar fruta pelos campos com outros rapazes.
Um dia a mãe defrontou o Prof. Cardo, questionou-o sobre o aproveitamento do filho, em propriedade do marido estar ausente na temporada pelo Alentejo, espantado, respondeu-lhe, "oh mulher, ele não me aparece na escola há mais de seis meses" enraivecida, cansada de lhe fazer a bucha todos os dias para ele levar para a escola, ao confronta-lo com o sucedido, ligeiro respondeu, "oh mãe, eu não preciso de ir à escola porque sei mais do que os meus colegas e, até lhe digo, talvez mais do que o Professor…". 
O tio Carlos tinha bom coração, numa idade fora época, a sua mãe grávida da minha sentia-se envergonhada perante o filho, rapaz casadoiro, eis que este a surpreende ” Oh minha mãe está vossemecê a falar -, onde comem cinco, comem seis...”. 
Sendo o filho primogénito também o primeiro a casar, só passados 6 anos o pai lhe ofereceu o quinhão da freguesia consumada nas temporadas pela rota do Alentejo, aviamento de panos para a venda e o aluguer de umas casas baixas em colina altaneira de grande chaminé branca ornada de azul forte com data de 1893 e grande quintal em Santo António de Alcônrrego a 4 km de Avis, mais do que suficiente para começar uma nova vida, até jardineiro levou, o Augusto Pereira da Moita Redonda para cuidar da horta. Acredito que no seu tempo o caminho vindo de Avis passaria junto ao grande fontanário, típico nestas terras alentejanas, branco e azul, hoje dentro de uma herdade. 
Ao que se conta mal acabou o stock da loja, arrumou a trouxa e veio de abalada com a mulher Gracinda e filhos de regresso à aldeia que o viu nascer…acomodaram-se na casa da Ti Teresa, herança de família. Lembro-me de ouvir falar a minha avó do grande desgosto que se abateu na casa pelo seu regresso não anunciado, pior - terem abandonado o negócio que lhe tinham proporcionado, o ganha-pão que tinha sido da família - chegados sem aviso com mais de uma mão cheia de filhos, tantas bocas para alimentar…coitado de quem é mãe, lá diz o ditado, que remédio teve senão ajudar no sustento, ainda vestir os netos de casteleta aos quadrados para as camisas e cotim para as calças. Gesto de bondade que só quem é boa mãe sabe honrar. 
Ouvi da sua boca desabafos de ingratidão e, dos tamanhos desgostos infringidos, homem de personalidade arisca - o tio Carlos não sabia agradecer a quem lhe queria e fazia bem - digo eu - por faltas à escola não teria aprendido. Infelizmente não teve bom fim, que todos lamentámos com profunda dor! 
Manhãzinha fria acordei com o telefone a tocar - notícia terrível - “que tinha aparecido morto na valeta da estrada”. Instigador, aquele tio diziam não ser bom biltre (?).
Alguém contou que se tratou de espera perpetuada pelo sogro e cunhado - acerto de contas, litígio de heranças, más falas - pela calada da noite escura quando passava à porta do sogro no quelho a caminho da sua casa no Furadouro onde supostamente aconteceu a cilada. Assassinado a sangue frio com facadas no pescoço, de tal modo aterrador, o meu pai nem deixou a minha mãe ver o irmão no caixão. Os homicidas teriam atravessado uma vinha com o corpo para atalhar caminho - “ lavado na casa do sogro e de novo posto na valeta da estrada mais acima para ser facilmente encontrado com navalha na mão sem pinga de sangue”… foram-se refugiar na igreja de Ansião - por serem desconhecidos, chamou a atenção das pessoas na missa da manhã. Correu um boato que se vieram confessar com o Padre Filipe que tendo conhecimento de tão estranho e hediondo homicídio ficou embaraçado se deveria ou não quebrar o sigilo obrigatório da confissão. Conta-se também que foi ele que chamou a GNR. No entretanto, ao saber-se que o defunto era cunhado do meu pai funcionário no Tribunal que de imediato se disponibilizou para ir ao local com o cabo da Guarda averiguar provas do homicídio. Seria fevereiro “pegadas tortas na vinha por onde passaram, (o sogro era torto de pés) também a terra fresca agarrada às suas botas”. 
No posto da Guarda o homicida quis ilibar-se do homicídio dizendo na sua mensagem de defesa - “eu, é que fui atacado pelo meu cunhado” virando a versão a seu favor. Dúvidas persistiam, falta de indícios de sangue tinha de haver um cúmplice. O meu pai com o meu tio Alberto Lucas e o advogado conseguiram arranjar provas suficientes para o autor do homicídio vir a ser condenado, apesar da audiência no inicio favorecer o homicida. Julgo - que o padre Filipe boquiaberto e, perplexo com o que se ouvia, fez saber o que ouviu no sigilo da confissão. O homicida cumpriu pena muitos anos na prisão de Alcoentre, mote de festejo…caso de rápida tramitação judicial, o meu pai como motivo de regozijo da sua intervenção decidiu fazer uma festa - tipo dois em um. 
Por um lado festejar a vitória da condenação com a prisão efetiva, por outro, o meu aniversário em maio. 
Celebrei doze primaveras. Na loja da nossa casa mais parecia um casamento - alguma família e a cachopada do Bairro. 
O repasto oferecido: sopa de grão e arroz de pato com rodelas de chouriça em tabuleiros emprestadas da minha tia Carma, bolo de noz, leite-creme com farófias queimadas no forno, arroz doce e tigelada cozida no meu fornito, estava soberba. Depois do almoço fomos todos para o adro conversar, rir e aprender a namoriscar, apareceu gente de fora, o Zé dos Matos, Tina do Ti Alfredo, “Isaura Reala”, “Toino “Tarouca” Zé Emídio Moreira ,chopada do Bairro, Adriano Mocho,Toino e Mena do Trinta, Natércia, Augusta e Lucília Murtinho, Alberto, Nito e Tó Zé da Carmita,cachopas do Roberto e,...dia de tantas emoções e risos. 

O meu primo Arménio...outra triste notícia, foi a morte trágica do primo Arménio na Pedra do Ouro que conduzia a sua mota, na curva perigosa enfeixou-se num carro? Ou seria carroça com palha (?) no gozo de férias da tropa -, rapaz bonito tão jovem finado, filho do tio Carlos, um dos sete irmãos: António, Carlos, Victor, Afonso, Arménio, Rui e Dinis. Fui ao casamento de alguns. Rapazes quentes, mal o almoço ia a meio levantavam-se da mesa com a desculpa da noiva se trocar, demoravam-se, ao descer do sobrado as suas caras eram retratos de ter havido malandrice! 

O único irmão do meu pai o Ti Chico, conta-se que caiu da escada, outros dizem que foi empurrado pelo meu avô, outros ainda que estava bêbado, de facto não existia corrimão, uma falta grave, até porque a escada para o sobrado era muito perigosa.Aconteceu o pior. Partiu a espinha. Hospitalizado de urgência em Lisboa. Um domingo de manhã, os meus pais vieram de táxi visitá-lo, eu e a minha irmã ficámos sozinhas em casa, era dia folga da criada. As colecções de selos era a "febre" do momento, demos azo à nossa fértil imaginação, aproveitando a ocasião de estarmos sozinhas, arrombámos a mala de cartão cheia de cartas, poemas, telegramas do namoro dos nossos pais. Meu Deus, o que nós fizemos com a loucura dos selos. Lembro que li alguma coisa e jamais esqueci as lindas frases românticas cheias de paixão,que dizer dos sonetos.Estranho. Nunca presenciei em casa o que acabara de ler. O meu pai era um homem de doença frágil,e de ciúme doentio, chegou a obrigar a minha mãe a mudar de fato, quando esta se lembrava de vestir saia travada com pequena racha a evidenciar a silhueta delgada e as bonitas pernas. 
Lamentavelmente estragámos tudo o que havia naquela mala de cartão. Da valente tareia não nos safámos a fazer jus ao nome de família.
Passado pouco tempo o meu tio Chico veio para casa entrevado -, na altura usava-se a expressão, agora diz-se paraplégico. Os meus avós compraram uma cama nova e fizeram o seu quarto na sala do sobrado, por ser mais espaçosa, onde fui visitá-lo com a minha irmã. Difícil é esquecer os seus olhos raiados de lágrimas a pedir à sua mãe, nossa avó Piedade para ir buscar o seu cordão de ouro, de imediato ela apressou-se a satisfazer o seu pedido, entregando-lhe em mãos. Acto imediato o meu tio Chico ofereceu-mo a mim e à minha irmã dizendo " é a única coisa que o tio tem para vos dar". Este gesto marcou-me para toda a vida. Porventura a única pessoa de bom coração na família. Infelizmente o nosso tio Chico não resistiu, morreu solteiro, tinha 27 anos. Mais tarde a minha mãe foi ao ourives Sr Anastácio para o dividir em dois fios, vendeu o resto... 

Nas férias da Páscoa o meu avô andava intrigado com a sua segunda mulher. Afinal ela não parecia contente com a sorte que um casamento de 5 anos lhe proporcionara. Recebeu a casa de família, a fazenda do Ribeiro da Igreja, o ouro e dinheiro. Ainda assim convenceu o meu avô a irem a Alvaiázere fazer uma escritura de "casa fechada" com medo dele morrer e o meu pai único herdeiro lá ir buscar o que tinha por direito. Queria mais, cobiçava a parte da herança em nome do meu avô. Noite escura, ele na nossa cozinha assediava o meu pai,"Fernando, amanhã vais comigo ao notário, quero escriturar em teu nome a minha folha de bens" o meu pai questionou-o do motivo ao que se apressou a responder "ela não me faz a comida, pressiona-me, já lhe demos mais do que o suficiente e mesmo assim não está contente, quer mais" escusado será dizer que o meu não ligou nada, desvalorizou o tema e mandou-o embora. Ao abrir a porta da rua ela estava a ouvir a conversa sentada no rebate da porta.Acabara eu de chegar ao Monte Estoril recebi a noticia que tinha falecido de ataque cardíaco.
Deus acabou por simplificar as coisas a nosso favor!
No patim antes do meio dia junto à figueira estava com a minha mãe quando chega aflita a Isaura Reala com uma notícia que nos deixa a todas consternada. 
O primo Zé Lucas numa situação de desespero atirou-se para o poço logo abaixo de sua casa.Teria os meus nove anos -, o Luís filho mais novo tinha 5 anos .Lembro-me dele e das estórias que a minha mãe contava  nos serões do turno da meia noite no correio velho, do tempo que com ele andou a estudar por Santiago da Guarda e depois em Ansião, hospedada na sua casa quando ele se casou. Seu primo direito nasceu na casa da avó junto à sua na aldeia da Moita Redonda. Dele sempre falou muito bem, já da mulher tinha que se lhe diga, gostava de o atazanar, sendo maldizente em relação à família deles, ainda assim sempre defendeu e respeitou a minha mãe.Fui a sua casa algumas vezes brincar com o Luís na parte do quintal haviam uns anexos com quartos para hospedagem de estudantes.Do filho mais velho o Rui só me lembro dele já na Universidade em Coimbra quando vinha com a sua namorada Jujú filha do Caseiro o solicitador-, então não me lembro quando acabaram o curso de química ter ido a casa dela buscar o estojo de desenho, que o meu pai nunca chegou a estrear -, aquilo era um estojo digno de um engenheiro, vaidosa o levei para o colégio, dei cabo dele, nem cabia na pasta... 
Perdeu-se um homem bom que fez muita falta a Ansião, de visão progressista, inteligente, humano também.A ele se deve a reabertura do hospital, lembro-me bem dele desactivado e depois de melhorias a funcionar, táxis a chegar com parturientes para dar à luz, uma ao Ribeiro da Vide, não aguentou e o bebé nasceu ali a escassos metros do hospital. Havia uma enfermeira permanente e uma criada a Alice do Casal, bordadeira muito perfeita fez dois conjuntos de naperons em linha fina, um deles estreei-o no dia do meu casamento. O outro foi para o enxoval da minha irmã. 
Se não fosse este infortúnio, hoje os Ansianenses se poderiam regozijar de ter o seu hospital , não terem de se deslocar 10 km até ao Avelar ou 19 até Pombal.

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