terça-feira, 2 de novembro de 2010

Externato António Soares Barbosa no meu tempo!


Decorria o ano de 1972/73 quando entrei no Externato António Soares Barbosa em Ansião, fundado em 1941, aqui estudaram os meus pais até ao 5º ano. No meu tempo o diretor era ao tempo o Dr. Silveira.
Foto com o Dr Silveira e a esposa na frente do carro alegórico
A minha vontade de ir estudar para o colégio era grande, poder usar bata azul às preguinhas vincadas, julgava eu poder conviver com os rapazes que eram muitos e giros... Estava enganada, - os recreios eram separados!
Carrinha do Externato António Soares Barbosa cujo motorista era o meu tio Alberto Lucas de Pousaflores.
Fachada do solar onde funcionava o Externato que dava para o quintal, o recreio dos rapazes onde fizeram as casas de banho.
Painel que hoje existe na lateral do edifício monstruoso, a descaraterizar a zona histórica da vila.
Despertava em mim e neles a adolescência. Recém chegada ao Externato deparei-me com novas modas-, uma delas um inquérito num caderno com perguntas para darmos a nossa resposta sobre "Intimidades" ...De manhã lembro-me dos rapazes chegarem na carrinha vindos das aldeias distantes, em particular do Carlos Gomes do Vale da Couda -, rapaz giro ornado de cabelos escorridos para o compridote que lhe conferiam um ar de atrevido, hoje diretor na Polícia Judiciária teimava que acabaria com o meu namoro em dois tempos...Muito gostavam eles de estarem à porta defronte da grande escadaria em meia lua de pedra à espera das miúdas, no caso de me "inspecionar" se tinha usado as pinturas da minha mãe -, nada percebiam, só queriam certezas se as pestanas bonitas e fortes eram minhas , pois usava o rímel da minha mãe...
Chegava de bicicleta com a minha mini-saia a esvoaçar com a brisa matinal.
O Arménio fazia espera por mim à porta da sapataria do amigo Sá...O problema é que não estudava nada, tal o enamoramento que por ele sentia, na matemática nos testes não passava dos dois valores. A português a coisa também estava preta, embora melhor. Mesmo assim, decidi falsificar a assinatura do meu pai. A tarefa correu-me mal, a assinatura do meu pai elaborada de arco de volta perfeita com remate minucioso...Quis o raça da mão a pensar no namoro tremer a fugir do papel químico azul que trouxera do correio. A Prof.Ilda conservadora, de cariz inglês, austera, altiva e platónica exigiu logo ali naquele instante outra assinatura do meu pai.Em plena aula mando-me sair para ir ao Tribunal ... atrapalhada, difícil era engendrar forma airosa de sair daquela cena. Na rua vi que os funcionários estavam todos à conversa na Placa ( assim se passou a chamar o terreiro onde outrora estivera o Pelourinho, dai mudado -, foi calcetado à portuguesa em 1937 defronte dos Paços de concelho o antigo solar dos Menezes, donos da vila ) todos queimando os últimos cartuchos antes de voltarem ao trabalho da parte da tarde.Como se nada fosse, com aquele arzinho de boazinha disse "paizinho a Dra. Ilda quer que assine novamente a prova..."Mal será dizer que levei logo diante do Cascão e do Zé Carlos uma tremenda bofetada, e recado,- para o ano seguinte iria estudar para um colégio religioso.
Mas antes ainda tinha de fazer exame em Pombal.No dia previsto da reunião de Professores para decidirem quais os alunos propostos a exame -,eu sabia que não reunia as condições, habituada a chumbos e a perder por estar calada, decidi intervir a meu abono.
Afoita, telefonei à minha mãe, pedi-lhe que telefonasse ao Dr. Silveira, diretor do Externato, para me propor a exame. Assim foi, coitado de quem é mãe.
No dia seguinte para meu espanto na vitrine estava o meu nome proposto a todas as disciplinas, enquanto o de outros melhores do que eu, tinham à perna um chumbo a matemática às costas, uma injustiça!Recordo o Dr Cardoso o Prof de matemática que achincalhava alguns alunos-, aos gémeos Rui e Rogério de Chão de Couce usavam óculos de lentes grossas os apelidava de "co-natos" e a outros "cavalgadura"! 
No átrio da Escola Secundária de Pombal recordo o Dr. Silveira -, homem alto de cabelo esbranquiçado a que alcunhei de "estepe russa" …Ficou célebre a pergunta " oh piquena sabes o que é a Républica?"...Res -coisa - publica – de todos… Risada geral!
Não estou na foto ou estarei cortada?
Geração anterior à minha. Alguns que conheci, à esquerda, de óculos a Robetina-, Tina que morava ao cimo do meu quintal, e a outra com ar de reguila também de óculos a Celeste Marques da Sarzedela e com boas parecenças a minha prima Helena da vila e a Odete do Moinho das Moitas a rir, o Amândio, filho do correeiro e a Manuela Franco.Outros conheço de vista.mas não asocio aos nomes.
A minha prima Célinha, a Manuela Franco e a Odete muito giras, modernas,o Freire de Albarrol
Mobiliário Art Déco, na peça de teatro, não sei se no Ensaio?


Olha a minha querida mana 
Jamais fotogénica, embora mui gira com os seus belos cabelos negros lisos brilhantes asa de corvo , resquícios da nossa origem fenícia por parte paterna, no corte à tigela...

Aqui vim fazer o exame do ciclo.A prova de matemática apenas a preenchi, seguindo esquematicamente os itens solicitados, deixando o espaço em branco para as respostas e cálculos. Quando faltavam os últimos 15 minutos para a prova acabar tive uma saída brutal pedi o rascunho à colega da frente que mal conhecia, também ela Isabel, mais velha, trabalhava na CUF tirava o ciclo à noite para poder trabalhar nos escritórios.Naquele tempo havia uma carteira de intervalo entre os alunos a fazer exame e três professoras de cara fria à nossa frente, tipo guardas da GNR.
Incrível ninguém viu -, ela deu-me o rascunho, copiei tudo o que pude como pude em flecha e dentro do tempo.Uns dias mais tarde, ainda me lembro que era segunda feira, a minha mãe tinha ido fazer a meia-noite nos correios, ficamos em casa muito pelo concurso Jogo do Galo com o Artur Agostinho.Toca o telefone, o meu pai atende -, era o padre Filipe Antunes ao vir de Coimbra lembrou-se de passar por Pombal para ver se as notas já estavam afixadas nas pautas, trazia novidades. Parabenizava o meu pai por eu ter dispensado às orais, uma coisa impensável, só possível tal o esforço surpreendeste no final de ano...Diziam, logo eu que nunca seria proposta a exame, se não copiasse tal nunca teria acontecido, até tinha dispensado...Obra de mestre!
Será que alguma vez agradeci tal gesto de hombridade à Isabel? Talvez não. Graças ao gesto avulso, grátis, e amigo sem ser minha amiga, me possibilitou o passaporte para continuar a estudar na altura apesar dos atropelos tirar o 5º ano. Devo-lhe isso, sei !
Espero ansiosamente a lotaria, ou outra grande notícia de chegada de dinheiro fresco no jogo. A primeira pessoa a ser contemplada serás tu Isabel!
Não é de hoje esta motivação. Vive no meu seio há anos. Tenho muita fé, Deus sabe que ainda sou nova e com uns pecaditos...castiga-me nesta longa espera.
Foi uma festa, o meu pai abriu um garrafa Lágrima de Cristo. Tal foi a indisposição da minha irmã, o vinho caiu-lhe mal, fartou-se de vomitar...atrás dela com a pá em chapa e vassoura a limpar o chão da casa. Esteve mais de 20 anos sem beber tal vinho, ainda hoje julgo não lhe toca.
Olhos d'Água com a minha turma do 5º ano.
Por denuncia da Prof de Português a D. Ilda, o meu pai decidiu que era melhor para mim eu sair do Externato do ambiente de namoro ( apelando às suas culpas do passado quando conheceu a minha mãe que engravidou de mim, e o curso de engenharia não passou da matricula).
Tive de aceitar sem resignação o colégio religioso de orago a Maria Auxiliadora!
HINO DO COLÉGIO 
Autor: Dr. Filipe Santos

Lançados na vida, que é mar tenebroso,
Pedimos ajuda a nauta seguro
Aponta o caminho farol luminoso. 
E assim, sem temor, coração ansioso 
Vivemos um sonho dourado e puro. 

Guiados pêlos mestres, irmãos devotados
Sentimos que a vida é mais proveitosa.
Saber e virtude, são bens desejados. 
E a posse segura de dons tão sagrados 
Virá pelo Externado Soares Barbosa.


FONTES
Algumas fotos retiradas da página do facebook do Externato

4 comentários:

  1. A Maria Isabel no seu melhor!
    Gostei imenso de ler este seu texto.
    Não me fez regressar às origens, pois as minhas memórias são diferentes, mas fez-mas comparar.
    Havia diferenças substanciais entre uma escola nos trópicos e outra em Ansião, só no método de aprendizagem vi semelhanças, infelizmente!
    Um bom final de semana
    Manel

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  2. Obrigado Manel pelo seu comentário.
    É sempre um prazer saber que me vai lendo, fico até sem palavras!
    Um homem tão atarefado, caramba, que honra!
    Bom fim de semana para si também
    Beijos
    Isabel

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  3. Olá Isa, mais um texto de encantar!

    Apesar de ter entrado na escola, três anos antes da Isa, e ter frequentado a escola (só a 1ª classe) noutra região do país, as nossas experiências enquanto pequenas alunas são em quase tudo semelhantes.
    Digo quase, porque quem me acompanhou no primeiro dia de aulas, não foi a minha mãe (estava longe na altura), mas sim o meu irmão e o resto da criançada, os primos, que habitavam a casa da minha avó paterna. Bem...a criançada, e a lembrança dos grandes olhos acinzentados desta minha avó, que de dedo em riste, logo me avisou que não queria choros ops! Bem, resolveu logo ali qualquer tipo de fobia escolar. Se as tive, resolvi-as sozinha :)
    De resto tudo igual; a pasta de cabedal, a lousa, a escola tal como a descreve, com as deprimentes e quase sempre imundas casas de banho de buraco, os recreios separados, as brincadeiras (adorava o jogo dos reis e rainhas), a pose austera dos adultos, tudo, muito semelhante. Acrescento ainda, a toma obrigatória de óleo de fígado de bacalhau :), durante o recreio, que se processava assim: duas filas, uma de rapazes, outra de raparigas. Um garrafão de cinco, litros ao pé do professor, e duas colheres de sopa, que serviam, uma, para todos os rapazes, e outra, para todas as raparigas :)Era integrável tornava-se uma autêntico suplicio, beber semelhante mistela. Eu lá ia com a minha prima, mais velha um ano, que logo me instruiu, “não engulas! Corre para a casa de banho e deita fora!” Sábios conselhos :) que eram seguidinhos à risca lol.
    Não posso deixar de referir a tabuada bem cantada, todos juntos em pé, em frente ao quadro! :)Eu, que já na altura gostava de dançaricar, balançava-me de tal maneira, tipo pêndulo, que a boa da professora tinha que me refrear os ânimos de dançarina com umas canadas. Mas nada conseguia. Demasiado branda… eu sabia, que ela tinha um fraquinho por mim :)Se fosse hoje, lá teria ido a vovó, reclamar com a professora, lá viria o Ministério relembrar a necessidade da articulação e da transversalidade dos conteúdos, enfim, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e o equilíbrio não é coisa fácil de se encontrar.
    Depois regressei à minha terra e aí, a realidade era totalmente diferente.
    Beijinhos para si e um bem-haja pelo condão que tem em proporcionar momentos tão agradáveis.
    Maria Paula

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  4. Obrigada Maria Paula pelo seu comentário.
    É muito gratificante relembrar episódios tão "velhos" nesta nossa vida, é como se voltássemos ao local e vivê-los outra vez...mas agora com sofisma!
    Essa da tabuada, já não me lembro, acho que a declamávamos em alto e bom som.
    Pouco me lembro da escola, porque vivia amedrontada!
    Que bom saber que gostou de me ler...estimo muito os seus comentários, ajudam -me a crescer ainda mais.
    Bem haja, também um excelente fim de semana
    Beijos
    Isabel

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