quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Maças de D Maria e as cerejas por terras da Ribeirinha

Quis o despertar das minhas lembranças falar de cerejeiras. Adoro cerejas... 
Louca brincadeira que se repetia todos os anos em junho no meu tempo de criança com a minha irmã -, os pares de cerejas nos serviam de brincos pendentes  escolhidas do parco quilo comprado pela nossa mãe no mercado de Ansião, ao sábado, às mulheres das bandas de Maças D. Maria, que se chegavam de cestas de verga branca carregadas delas reluzentes vestidas em cerise  e esbranquiçadas...
Na minha infância em Ansião só me lembro de ver cerejeiras no extinto jardim do solar do Luís de Menezes, onde funcionam hoje os serviços municipalizados, outra na quinta do Bairro do Ti Inácio, e claro muitas por terras de Maças de D. Maria a caminho da Fonte do Pereiro, onde fui algumas vezes em miúda buscar a cantarinha com água fresca.
Naquele tempo as cerejeiras-, incrível reconhecer a faixa que ocupavam tão delimitada ao tempo no País, cresciam espontaneamente desde a terra quente, em Trás os Montes, para em descida preencher a faixa nordeste e se finar por terras de Ferreira do Zêzere. Flagrante divisão aqui reconhecer nesta região do centro do País, quase em perpendicular, rés vés na limitação da estrada nº110-, sendo a rainha desta iguaria a zona da Cova da Beira e Fundão, sendo que nos últimos anos em qualquer quintal existe uma cerejeira, finou-se o encanto de antigamente...
Das cerejas me lembro dos tempos que ia com a minha mãe, a Maças de D. Maria, que aqui se deslocava para trabalhar nos Correios, fazer férias ou partes de doente.
Para mim era um dia com muito pouco para me divertir , por isso decidia partir sozinha para  descobrir a vila, mas só de memória visual, não tinha máquina fotográfica...
Ao tempo muito deserta, não se via vivalma. Recordo a quinta emblemática a seguir aos Correios sempre de portão aberto, ao meio do empedrado avistava um cenário bucólico com um grande tanque em pedra com água a correr rodeada de muitas flores a rivalizar encanto naturista de beleza idílica qual quadro bucólico seja rivalizar Mestre Malhoa ou o maior de todos Remblant, no meio de silêncios só o sussurrar da queda do fio d' água se fazia ouvir no tanque a beijar flores...
Abaixo dos Correios gostava de subir a alta escadaria de pedra muito antiga que me levava até ao adro, no primeiro encalço, o cemitério velho, gostava de observar o abandono sem abandono, das campas em jeito de varandas em ferro forjado, e as mais ricas em cantaria elaborada com lindos remates, ainda um ou dois jazigos.Património de valor a preservar.
Igreja de Maças de D. Maria - Alvaiázere
Foto de João Paulo Coutinho
A igreja relativamente nova, sempre me indignou a escadaria da torre sineira em pedra torneada em  caracol, igual à que mais tarde conheci e subi no torreão do arco da Rua Augusta.Tal fato hoje ainda me perplexa, no meu imaginário fértil, continuo a achar poder ser de uma época anterior à igreja-, restos de outro culto aqui já antes ter existido, pertinente palpitar (?).
Na frente do adro o Cruzeiro Filipino, também mais tarde comparei com o do Senhor Roubado em Odivelas, por me parecer mui parecido, embora este ultimo mais rico.
Nesse contraponto, apenas a estrada nos medeia de um grande largo  que se espraiava em rampa, no lado direito a antiga escola primária das raparigas, sendo a dos rapazes mais à frente. Aqui nesta terra a minha mãe fez o exame da 4ª classe. Na altura não existiam sanitários, as necessidades fisiológicas da professora eram feitas num caldeiro que as alunas tinham o dever de despejar e limpar...Quis o destino que um dia a dita professora reformada aparecesse nos Correios para enviar uma carta, fazia eu bonecos nos papéis do lixo... As duas trocaram carinhos e matam saudades dum tempo passado. Recordo que a minha mãe a questionou pela saúde do marido, ao que esta lhe respondeu..."Sabes, agora dormimos em camas separadas, é muito mais higiénico"...Não entendi o que quis dizer, mas registei em memória, foram anos para perceber o significado ...
Sem dúvida outros tempos, nem se podia interrogar, interromper, perguntar?
Habilitava-me a uma valente bofetada !
Lembranças do grande edifício de vários pisos que destoava do resto do casario, o Armazém das Cinco Vilas, ainda me lembro bem dele, onde havia de tudo. Aqui começou o Posto de Correios, supostamente  segundo os meus pais aqui fui encomendada!
Houve uma primeira vez que a minha mãe foi comigo para me ensinar o caminho da Fonte do Pereiro, onde haveria de ir outras vezes logo de manhã que me mandava ir buscar a cantarinha de água fresca , recordo que a levava de braçado na minha caminhada a pé pela subida da estrada principal para entrar ao cimo ao entroncamento e virar à esquerda para em descida, por entre muros altos em pedra que logo me reportaram para o caminho da antiga estrada real ao Vale Mosteiro em Ansião, assim igualmente ladeada por altos muros-, só que aqui me divertia perdida a olhar para tanta cúpula de cerejeira carregadinha a rondar os céus, qual espetáculo avassalador jamais antes assim visto que me afastava do medo, ao invés do caminho ao Vale Mosteiro em Ansião que me incutia desconforto! 
Julga-se que este nome deriva de origem medieval, integrando-se na primitiva povoação assim chamada de "Pereiro" , da qual resta como testemunho toponímico ainda hoje, só tomou o nome de Maçãs de Dona Maria, depois da sua doação por D. Sancho I a D. Maria Pais Ribeiro -, que ficou conhecida na história como"Ribeirinha", da qual reza a história ter sido a sua amante favorita, das duas que tinha.

Votei anos mais tarde para mostrar a Fonte do Pereira à minha filha. 
Ainda havia tanta cerejeira carregada encarcerada por altos muros em pedra que no imediato me fizeram crescer água na boca-, mas de todo intangíveis, impossível apanhá-las, nem dava para roubar, nem uma, ainda me aventurei subir a um muro esventrado, debalde não consegui!
A fonte do Pereiro em espaço franco, com a sua mina de água e o tanque de lavar a roupa, e a sul onde ainda existe um portão em ferro forjado, supostamente o acesso direto à fonte noutros tempo pela família da quinta pertença dos Pimenteis Teixeira , a casa nobre de um só piso de arquitetura residencial no estilo rococó. Na frontaria uma escadaria com degraus em meia lua, e cantarias lavradas com a capela na perpendicular à casa.
Conheci esta casa e a capela ainda  com janelas e portas fechadas, por volta de 64/65, mostrando evidentes sinais de declínio e fausto do que teria sido no passado. Recordo que me deixava ficar na rampa da feira a olhar pasmada em total fascínio e contemplação das serranias e da casa com a sua capela-, sem respiração perdida em sonhos, sozinha, por segundos em minutos gordos, imaginava um dia ter assim uma casa igual, apesar da tenra idade inexplicavelmente adorava contemplar as cantarias das janelas por me transportarem até ao filme os 4 Mosqueteiros, série televisiva que já via, mote dado pelo formato cimeiro se mostrar semelhante às golas das camisas que eles usavam, também pela elegância da capela de cornija saliente e remates de cantaria em fogaréus, que ao tempo desconhecia estes nomes, no finado e tamanho fascínio fosse sentir o gosto da pedra esculpida, como era possível alguém assim fazer da pedra obras de arte, talvez a minha paixão por pedras tenha nascido aqui. No cimo do alto terreiro em bicos de pé avistei pela guarita com grades da capela o retábulo em madeira-, a curiosidade era em mim preocupante, ao tempo vivia defronte do adro da capela Santo António em Ansião edificada em 1641, cuja última remodelação aconteceu em 63/64-, era uma criança, mas ainda a recordo abobadada de velhinha com o altar em madeira marmoreada em azul, que foi destruído para porem um moderno, coisa que ao tempo me chocou fazendo eco ao ditado popular que a minha avô materna da Moita Redonda me dizia"guarda o que não presta acharás o que é preciso".
Este retábulo que julgo estava à guarda de alguém (?) acabou por aparecer em venda na leiloeira do Correio Velho (?).
Foto tirada por altura das obras de requalificação do espaço.
Capela em Maçãs de Dona Maria
Capela do solar recuperada - foto de João Paulo Coutinho
Tanto me questionava os porquês de total abandono, sem respostas!
E na dor de inveja, por na minha terra adoptiva- Ansião, afinal tão perto, não haver nada semelhante de tão grandioso, histórico, assim tão antigo e belo...
Teimei em 2015 acrescentar a efeméride dos 500 anos da atribuição do Foral
Maçãs de D. Maria é terreiro de gentes que teimou não deixar passar a data da comemoração dos 500 anos do seu Foral -, no querer exaltar este brio, com monumento evocativo. 
De assinalar que são Gentes com atos de louvar, seja no passado e no presente! 

2 comentários:

  1. Minha terra, meu Amor! Nascido no dia 5 de Janeiro de 1960 na aldeia do Conhal,na minha casinha caiada de branco, mesmo ao lado da ponte sobre a minha ribeirinha, chamada de "Alge",hoje aldeia fantasma, ontem a aldeia mais industrial da freguesia de Maças D.na Maria. Um lagar, um pizão e uma azenha. A água da ribeira era a energia, hoje chamada de "limpa".Também nas minhas veias corre sangue cor de cereja das cerejeiras dos meus Avós !!
    Obrigado Avô Carlos, Avô Joaquim, Avó Maria, Avó Miguela e aos Pais adorados Cidalina e Joaquim . Continuemos a comemorar os 500 anos de Amor pela terra que nos viu nascer .... Maças D.na Maria.
    António Ferreira

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  2. Caro António Ferreira bem haja pela cortesia da visita e pelo comentário.
    Ainda bem que a minha crónica o despertou nas suas boas lembranças desta terra, partilhando gratuitamente as suas emoções afetivas. Se todos fossemos assim, o mundo seria bem diferente.
    Cumps
    Isa

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