terça-feira, 15 de março de 2011

Histórias de aldeias que conheço onde vale a pena viver e apostar

Aldeias de antanho em espaços rurais que pouco sofreram com a globalização no buliçoso dos nossos dias. Existem ainda aqui e além as mesmas formas de vida primitiva nos habitantes resistentes, velhos habitantes à espera do juízo final, sendo que outras completamente postadas ao abandono, tem sido compradas por estrangeiros e alguns da cidade com raízes nelas. Uns e outros procuram refúgio. Seja em tempo de férias ou tomam partido da vida permanente, amanhando os quintais, subsistem do amanho da terra e da criação de animais. Gostam de estar longe do rebuliço da cidade, há quem não queira televisão. Chegam uma nova geração de estrangeiros, adeptos das novas tecnologias que trabalham a partir de casa.Gosto do seu gosto, na teima em manter as nossas tradições; na traça das construções,das cores antigas usadas no remate das fachadas, seja azul ou ocre, amantes dos portões e cancelas em madeira ou de ferro forjado, das alfaias agrícolas, adoram essa grande riqueza que os nossos antepassados nos deixaram que muitos desprezam...Vive-se um novo tempo, de nova vida nas aldeias. Há quem se dedique ao cultivo de minifúndio, de produtos biológicos, aromas, até casos de pequenas indústrias; queijaria,ervas aromáticas, chás,licores, mel,doces, gastronomia e artesanato.
As aldeias ao longo dos tempos distribuíram-se em tipologia grupal, outras isoladas em linha, ao longo dos caminhos intercaladas por terrenos de cultivo e floresta. Apesar da profunda miséria em que viviam antes do 25 de Abril, cada um tinha a sua casa humilde, parca de haveres, onde pais e filhos comiam em redor do lume, fosse verão ou inverno, sob a tripeça a palagana de faiança, dormiam entre 4 e 6 numa cama de ferro, pés com pés, sem telefonia, nem relógio-, luxo só de algum vizinho mais endinheirado. Sem conforto sentavam-se nas arcas guardadoras do milho e do trigo semeadas de queijo curado para aguentar até abril, o mês que começa de novo a arte de o fazer da melhor qualidade, por o pasto ser bom e os deixar de textura compata em que ganha o travo dos tomilhos, que lhe acentua o picante, e pelas paredes da sala retratos da família a preto e branco e a ceia de Cristo centrada por "Santos e Santinhas", pendurados em fila na cimalha de madeira em cima do teto e neste, camarões em ferro, onde penduravam bons cachos de uva D. Maria, para se aguentarem até ao inverno, em redor da mesa cadeiras, e nos cantos atrás das portas canastros com tampa, os guardadores dos cobertores e mantas de tear.Certo é que todos viviam aparentemente felizes,viviam da misera jorna de sol a sol, da agricultura de subsistência e dos animais de criação, que sempre tinham e só matavam uma galinha em caso de maleita, recobro do parto ou em dia de festa,sendo a matança do porco o sustento para o inverno, com as carnes na salgadeira.
Havia uma ou outras infra-estruturas de base à sobrevivência e pagode dos seus moradores como;a fonte, a capela, a taberna e mercearia, o tanque de lavar roupa, minas de água partilhada à hora para o regadio das hortas-, a água corria em levadas ao longo dos leirões esventrados nos costados dos outeiros. 
Tempos idos de vida agitada na aldeia da Moita Redonda; dos bailes na varanda de sobrado a olhar para o ribeiro, dos namoricos a caminho da mina, do ribeiro e da fonte, conversa fiada na taberna do Ti Zé Lucas, de rir à gargalhada com homens a cambalear esquinados de vinho, de outros que se chegavam à procura de esmola famintos, do sapateiro,do barbeiro e da costureira, que vinham a casa trabalhar à jorna de uma broa,no tear da Ti Joaquina ouvia-se o baloiçar da arte em puxadas fortes de estremecer o coração,enquanto mulheres a caminho dos costados baixos da Nexebra para apanhar lenha, por roupa a corar ou a enxugar, ou  lavar roupa no ribeiro de águas límpidas de boa corrente ao descer a pequena cascata que se espraiava em lago com pedras alvas alinhadas a fazer de lavadouro e mais abaixo o açude que dava acesso às Hortas e à mina férrea, para cozer a hortaliça. Também local de excelência para banhos nos dias quentes e lavagem de roupas de linho que era deixada de véspera em barrela na pia de pedra dentro de um cortiço sem fundo, em água quente com cinza de madeira para ficar branca, enquanto outras no final de outono estendiam as meadas acabadinhas de fiar depois de bem demolharas na mesma barrela pelas abrigotas a corar e se continuassem amarelas voltavam à barrela, e outra vez a corar, até ficarem bem brancas. Enquanto isso na costeira do outeiro gritavam com os cachopos de brincadeira no ribeiro ou no terreiro a jogar ao pião ou de cavaco no friso do aro a fazer de carrinho pela quelha abaixo.
Lugar soalheiro, protegido dos ventos, ao Vale e de bons ares para curas milagrosas;tosse convulsa e outras maleitas, ar puro do melhor para limpar os pulmões,aqui se curou o Zé Coimbra, que veio da Mó para casa da tia Rosa, respirar o ar puro dos outeiros.As raparigas casadoiras, uma broa inteira no dizer popular-, boas como o milho, matreiras, de olho nos rapazes de fora, na ideia a caça de um rico homem que as tirasse dali e lhe prometesse o mundo, demora pensada todas as tardes de domingo, sentadas ao lado de cântaros de água à beira do muro do viaduto, ajeitavam aventais e naquilo mostravam a alvura dos joelhos,aguçavam olhares e apetites...
Imagine-se, havia quase sempre uma mulher da má vida, pobre mulher falada, enganada que a má sorte abandonara ao Deus dará, a troco de tostões-, a sua sobrevivência,vivia de favores, os rapazes a jorrar viço pelos poros agradeciam, tal o frenesim de se iniciarem na arte do sexo, os casados com um rancho de filhos descansavam as mulheres dizendo" tive de lá ir para te poupar"...
Criados tratavam das bestas,limpavam currais e cortavam mato.
Vindos da escola a caminho de casa , matreiros os cachopos, faziam de ouvidos moucos às mães, escapavam-se por carreiros das hortas de piscussanhas nas mãos e faziam terreiros para atrair passaritos, enquanto isso saciavam a fome, aqui e ali roubavam por todo o lado pêro serôdio,marmelos rijos e cachos de uvas, uma alegria a deambular pelos leirões sem medo de poços, até ao dia que um deles, o Arturito Medeiros de 8 anos, caiu num e morreu.Conta quem viu, a minha mãe, "dava dó vê-lo estendido no chão enquanto faziam o seu caixão pintado de biochene", cheiro que ficou no ar durante anos...
Saudades da partilha de ajuda laboral nas tarefas agrícolas; descamisadas,debulha do centeio e do trigo, das vindimas, sementeiras da batata, do milho, dos feijões e ...
Ai, saudades de dormir ao relento nas eiras enquanto guardador da colheita de espigas de oiro serpenteadas com milho rey e acordar de sobressalto com o madrugar do galo e o céu ainda estrelado. Veio-me à ideia a Quinta-feira da Espiga.Saudades da grandiosa feira antes da Páscoa, os feirantes vendiam bem, quem tinha afilhados era tempo de os presentear com o folar nesse grande dia.Azar o meu que os meus padrinhos sendo os meus avós paternos, cedo se finaram e cedo perdi esses presentes.Neste dia ninguém trabalhava,considerado o maior dia Santo do ano. Faziam-se bailaricos e grandes piqueniques. Havia também a tradição de apanhar um ramo colorido de flores silvestres onde os malmequeres amarelos com espigas de trigo, centeio ou cevada, gavinhas de parreiras e oliveira fechavam o ramalhete, que era guardado até ao ano seguinte pendurado numa parede,no tempo era considerado sagrado, servia para se queimar numa telha mourisca para a astar a trovoada com a oração a Santa Bárbara.
Saudades de ouvir cantar as Janeiras. Noite fria na volta do lume e na rua ouviam-se cantares, um rancho de gente onde o vozeirão dos homens se ouvia a entoar "cantamos as Janeiras para vós, se nos querem dar os Reis, chouriça ou morcela, presunto ou dinheiro, tudo o que derem será vem comido..."
Nas últimas décadas as Juntas de Freguesia têm procedido ao alargamento e asfaltamento de estradas nas aldeias , também ao abastecimento de água, eletricidade e recolha de lixo. Usual ver-se em algumas Juntas de Freguesia com novas ofertas como a aposta em meios informáticos, espaço cibernauta gratuito aos utentes, casos há, de instalações em aldeias mais isoladas para os seus habitantes aprenderem a comunicar através da internet com familiares distantes. Também a reabertura e alargamento de antigos caminhos no meio da floresta em terra batida ao abrigo das novas diretrizes da União Europeia para prevenção de incêndios, manobras para abate de árvores, lazer para circuitos de moto 4, e caminhadas. A oferta cultural no espaço rural continua escassa.
Acaso nas aldeias com capela, no dia do Santo padroeiro ainda é uso se fazer a festa religiosa, a que associam vários eventos culturais; musical, banda da Filarmónica, atuações de ranchos folclóricos e exposição de atividades diversas feitas pelos utentes do Lar da Freguesia ou dos mais idosos, porque dos novos nada ou pouco fazem.
Assisto com agrado a novas apostas com o intuito de revitalizar novamente vida nova a espaços rurais.A serra da Lousã viu renascer cinco aldeias em completo abandono, na traça original em xisto para turismo rural. Gondramaz, a minha favorita no cimo da serra rodeada de cerejeiras. Outras se tem seguido, na Foz do Cobrão para os lados de Vila Velha de Ródão, onde o rio se cruza no Ocreza, e os garimpeiros ainda procuram o oiro.
Na aldeia de S. Simão no concelho de Figueiró dos Vinhos, quem diria tão acolhedora, como tantas outras a renascer por esse Portugal fora.
Vista do outeiro da Mina de S.João sobre o Vale e ao fundo o Portelinho.
Gostaria imenso que a minha aldeia de Moita Redonda, tradicional em fila que se perfila ao longo da estrada com pequenos núcleos concentrados; Marco, Portelinho, Vale, Hortas...também aqui já chegaram estrangeiros, pobretes, mesmo assim são gente que dão vida à aldeia.Fenómeno aliciante este de trazer gente nova, novas oportunidades para quem aposta na aventura e gosta de explorar aldeias recônditas e algumas quase inacessíveis.Vale a pena apostar e ao visitante apreciar!
O que faz pena?
Os constantes roubos, os estragos, a desbastação do alheio sem dó nem piedade!
Saudades da quietude da aldeia...Adoro a terra, as flores, de abrir janelas, de mexer em pedras...encher o peito com o cheiro das roseiras de Alexandria em cor carmesim, pálidas ou cerise, também em cor de rosa ou brancas, não há outras que se comparem...ah, e estar sozinha...ambiente de puro clímax inteletual!

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