segunda-feira, 25 de abril de 2011

Figueiró dos Vinhos na minha segunda Feira de velharias

Dia de Páscoa.A minha mãe falou-me da feira, tinha visto o anúncio no Serras de Ansião, não hesitei de voltar a Figueiró dos Vinhos, a VI.
O bom tempo ditaria onde se realizaria o certame, se não chovesse seria como foi no passeio defronte do jardim Dr Bissaya Barreto repleto de cameleiras plantadas em 1930, em criança perdia-me a descer os degraus em pedra da escadaria circular,imitação copiosa de um faustoso palacete.
Não admira o Mestre José Malhoa seu vizinho, felizardo e privilegiado ao contemplar tanta beleza do seu casulo, não hesitou em as pintar,não, a inspiração seria de uma quinta a caminho da aldeia de Ana de Avis, porque estas seriam muito pequenas,faleceu em 1933, pincel bem torneado,tons rosa,pétalas pálidas ainda persistem graciosas na semalha de madeira da sua sala.
Acordei cheia de genica,num ápice pronta saí de casa a caminho da arrecadação da casa da minha mãe buscar os caixotes que arrumei no seu carro por ser mais espaçoso, não esqueci a alcofa da bucha,amêndoas de chocolate para sobremesa e uma garrafa de água da fonte do Ribeiro da Vide , há décadas que não lhe sentia o sabor, continua muito boa, pena a Junta de Freguesia teimar em não a manter limpa e desassoreada de lixo, de olho no chão, não fosse pôr os pés onde não deveria, uma salamandra de rabo esfolado nem se mexeu!
Ao passar ao ramal do Fato o sol por entre a neblina resplandecia na minha frente em raios intensos a descer pelos outeiros num contraste de branco, luz e verde dos eucaliptos, fiquei mais ansiosa por chegar. Montei o estaminé em cima de três mantas de tear velhas, nelas quinquelharia diversa com os preços...tudo baratinho para despachar, 1, 2, 5 e pouca coisa a 10, 15 e 20 euros.O negócio vai mal. O povo nesta terra não denota perfil nem de apreciador nem tão pouco de comprador, pior só compra o rasca e o bom, o intermédio peças interessantes deixam ficar a preços irresistíveis!
Feira anual, dita as premissas.O rodopio de gente fez-me parecer mais uma passarele de saltos altíssimos, vestidos caros e malhas dos chineses. Mulheres novas e outras tantas com mais de seis décadas desfilavam peitos de cinco quilos,jeitosas, muito bem vestidas,roupa de marca, colorida, se não visse jamais acreditaria,grandes óculos escuros tapavam outras mazelas...
Homens poucos. Primeiro freguês pelo porte, visconde sportinguista, comprou-me o prato do leão, oferta que recebi há tantos anos. Um estrangeiro com o amigo careca ficou fascinado com uma imagem da Senhora com o Menino ao colo em gesso,bostelada, que a minha sogra um dia me ofereceu...
Os monos estavam a sair, contente as moedas bailavam na carteira, cabides de madeira, garrafa alta, prato brocinado, porquinho de borracha, carneiro de lata sem rabo, pratos brancos tortos, porta jóias em forma de coração e...
O feirante do lado de cima de Cernache do Bonjardim,alto, reminiscências mouriscas,olho escuro, muitos tiques e fumador dizia-me, "está farta de vender, eu ainda só fiz 20 €", vendi um banco giratório para a senhora dar banho ao marido... o feirante de baixo com a mesma conversa, ainda me levou uma cesta de loiça, outro mono...
Quebrei o olhar nas eólicas ao longe com as mensagens recebidas. Amigos de coração.Marília, Dr. Manel Dias e Jade.A manhã corria com o sol a teimar escapar nas ramagens frondosas, vesti o casaco, as vendas pelo meio corriam de feição.
Pelo meio dia chegou a minha filha com a minha mãe, traziam a cesta de verga branca com o piquenique, degustado na única mesa de pedra do jardim. O meu almoço veio numa talega de uma qualquer fábrica do Vale do Ave comprada à colega Branca de Vila Real quando trabalhávamos em Coimbra nos correios, oferta com 35 anos à minha mãe, embrulhadas em papel prata sandes com pão caseiro feito pela Odete Moreira com bifanas panadas uma fatia de Pão de Ló, especialidade da minha mãe, a fazer inveja ao famoso e antigo doce conventual desta terra,felizmente não se perdeu.Saboreava devagarinho a minha sandoca e naquilo vejo a minha filhota de copo na mão,sem vergonha, tão linda e elegante.Pinga de tintol do nosso lavrado, bem me ajudou a digerir o repasto.
No jardim ao lado da igreja atuaram ranchos folclóricos de Cernache e Almofala, de olho na dança no endireito das farturas vejo o jornalista da RTP 1 que tem raízes naquelas serras a caminho do Solar, talvez fosse tomar café com a esposa...
A minha filha ficou a tomar conta da banca enquanto eu também fui. Adorou.
De tarde mais gente, menos vendas.Decidi arrumar pelas cinco, estava farta do pólen dos plátanos,dos saltos altos à tigresa com vestido balão, e sempre os mesmos comentários...tenho uma bacia, um prato fundo, uma saladeira, uma...igual à da minha avó, aquela que se vê na fotografia , a...ah, em minha casa só tenho VA...
Despachei coisas que detestava e apurei 61 euros.
Ouvi um elogio de uma senhora para o marido,"nas feiras os preços deveriam estar afixados como nesta banca".
No final demos uma voltinha pelas ruelas do antigo burgo ainda em calçada antiga irregular. A torre da cadeia restaurada, vivendas com lindos jardins. O casulo do Malhoa, chalets e o hospital da Misericórdia que preservam ao invés do de Ansião que ninguém teve coragem para o manter de pé.Feitos que nos deixam sempre a pensar!
Figueiró dos Vinhos tem muitos pontos de interesse em todo o concelho.
A Câmara ofereceu a cada participante um certificado e boletins publicitários.
Sem dúvida um dia de Páscoa diferente, divertido e rentável!

4 comentários:

  1. Maria Isabel!
    É uma caixinha de surpresas!
    Não lhe conhecia esta faceta! Só depois de ler todo o post, compreendi o título do mesmo :)
    Não foi a sua estreia, nestas andanças de vendedora de velharias.
    Pois, acho que fez muito bem, despachou com ganhos o que não lhe interessa, e , pelo que conta, passou um domingo de Páscoa muito agradável e diferente. Parabéns.

    Adorei a descrição das "tigresas" :),dos "peitos de cinco quilos" :)e dos pedaços de conversas que foi ouvindo. É exactamente como descreve :)

    Um abraço para si, que tenho que ir a correr ouvir outras conversas :(

    Maria Paula

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  2. Obrigada Maria Paula, como me compreende.
    De facto foi um dia de Páscoa diferente, a minha mãe adorou,confidenciou-me que há anos não tinha vivido um assim tão encantador.

    Beijos
    Isabel

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  3. A Maria Isabel descobriu uma vocação!!! E Olhe que com esta crise horrenda é bom descobrir alternativas.

    Achei uma graça ao seu texto e à descrição do movimento da Feira. Aliás, é como na Feira-da-Ladra. Por vezes distraimo-nos mais a olhar as pessoas, do que a comprar.

    Beijos

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  4. Olá Luís. Obrigada pelo seu comentário. Assim é, já ando a informar-me como tirar o cartão de vendedor.
    Vou despachando monos, e distraio-me.

    Beijos
    Isabel

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