segunda-feira, 18 de abril de 2011

Museu da Casa Rego Vasconcelos em Almofala de Cima

Soube deste Museu através do meu amigo Dr. Manuel Dias, sabendo do meu agrado por estas coisas de velharias e afins, não hesitou na sua divulgação. Fez muitíssimo bem!
Surgiu a oportunidade no último sábado, uma tarde maravilhosa na companhia da minha mãe.
Tijolos burro da cerâmica de Almofala

O Museu localiza-se no limite do concelho de Ansião -, pertença do de Figueiró dos Vinhos a escassos 3 km da saída do nó do IC 8 para a Aguda na direção de Almofala de Cima -, lugar cimeiro, um paraíso envolto com milhares de árvores plantadas pelos proprietários, oliveiras, pereiras e vinha.
Deparamos com uma casa restaurada de sobrado, alva de sanefas de pedra acima das portadas, lindíssima, onde habitam os digníssimos donos do Museu, ao fundo do jardim avista-se um refúgio alpendrado, aqui e ali na parede branca pequenos painéis de azulejos século XVIII, motivos zóomorficos, flores e outros que um dia embelezaram a Quinta do Vinagre em Colares -, quis o destino que ficasse famosa pela grandiosa festa ocorrida a 3 de setembro de 1968, conhecida pela festa do Schlumberge -, um alemão alsaciano milionário do petróleo casado com uma portuguesa -, a Saozinha que lhe pediu para comprar a quinta quinhentista ricamente decorada para o evento, mais de 1.200 convidados ilustres, rei Umberto de Itália, Duque de Bedford, princesa Ira Von Furstenberg, Vincente Minnelli, Zsa Zsa Gabor, Audrey Hepburn, Francoise Sagan, Gina Lollobrigida, rainha Soraia da Pérsia e...muito glamur e uma segurança de 250 militares da GNR e 200 criados vestidos elegantemente de libré, repórteres do Times, Paris Match, e paparazzis. Não menos celebre ficou para a história o fato do Dr. Salazar não ter autorizado nenhum Ministro participar, no entanto as filhas do almirante Tomás não faltaram...pena não me recordar da marca do faustoso automóvel que serviu para transportar os convidados do hotel Estoril Sol para a Quinta -,hoje pertença desta família de Almofala de Cima.

Defronte desta casa há  outra mais baixa com 100 anos englobada no espaço museológico onde decorrem exposições temporárias, no momento - A vida de Cristo. De apreciar a abertura das portas interiores bastante larga à época, tectos com remates de rosetões na sala e na entrada a escada em caracol elegante e delicada, virada a sul um largo patamar em lajes calcárias com vista luxuriante a perder de vista em múltiplos verdes matizados a espraiarem-se em deleite na pequena albufeira da propriedade.
Do antigo celeiro e adega nasceu um Museu alusivo à casa rica, remediada,  e pobre da região. Uma terna homenagem aos familiares da esposa -, A família Rego cujo pai foi empresário da Cerâmica de Almofala cujo retrato com a esposa está patente no espólio, assim como o dos tios solteiros -, um Professor e o irmão diretor das Estradas de Portugal, ainda de uma irmã tragicamente falecida em acidente de viação.
Muito bom gosto na disposição dos vários ciclos em exposição: Fotografia com a máquina de tirar retratos à la minute, fotos a preto e branco a contrastar com um belíssimo quadro onde o fotografo não faltou à feira, tendas e miúdos com moinhos de papel que curiosamente teimaram deixar no espaço e assim enriquecer na analogia este ciclo. Loiceiro Arte Nova recheado com peças sublimes da Companhia das Índias, talheres em prata, por cima uma caneca de parras branca com tampa da Vista Alegre, no loiceiro em frente travessa do Juncal pintada a azul, pratos em faiança falantes de Coimbra, um com flores todo a azul alusivo a Maria -, o outro alusivo à Alegria e ainda outro...arte sacra, José Franco, e uma Santa Clara lindíssima de manto escuro com dourados é arrebatador.
VISTA ALEGRE AZUL -, PEÇA RARA
Prevalecem as paredes em xisto com mistura de calcário,barro e telhos.
Nas paredes alguns belos óleos, com o cuidado de o visitante fazer ele próprio a alegoria ao ciclo que aprecia.
TRAVESSA RARA EM AZUL DO JUNCAL E PRATO JULGO BORDALO PINHEIRO(?)
Na entrada sob a secretária um belíssimo conjunto de peças cobertas a marmoreado verde raiado de preto; mata borrão, tinteiro, suporte das canetas ainda a mala do tabelião e numa gaveta muitas escrituras antigas...
Um belo conjunto de bengalas com incrustações a prata, algumas de rapé.
Alguns instrumentos musicais, um violino vindo do Brasil Stradiuvarius? e um pequeno órgão que terá outro nome, julgo que se usava nas feiras mais no estrangeiro, feitio de caixa -, gentilmente o Dr. Vasconcelos o fez tocar para nos abrilhantar o ouvido ...soou melodia intensa que nos tocou na tarde soalheira com mais de 30 graus, sorrateira esgueirei-me a olhar pela grande vidraça a contemplar o lindo cenário, sob o parapeito cortiços ressequidos usados numa apicultura tradicional, na lateral da parede da casa um lindo painel de azulejos azuis também da quinta de Colares que já falei.
Refinado o ciclo do linho, não vi que faltasse algum dos instrumentos; fuso, roca, andarilho, maço, espadana, linho, ainda a máquina Singer e uma cabeça de máquina que a costureira transportava no alforge do burro quando andava à jorna na casa do freguês . Vários ferros de engomar e de brasas. Na parede cangas de juntas de bois desde o Minho até às usadas na região.Lindíssimas as duas colchas em seda delicadamente bordadas durante anos...oito de beleza asiática incomum ricamente bordada, fina, com  espectacular buliço de cores e franjas a combinar em desenhos figurativos e florais num misto doce e encantador, uma com fundo amarelo torrado e a outra num cerise a puxar a Senhor dos Passos do século XVIII. Na outra sala improvisada uma escolinha com duas carteiras, quadro de ardósia, mapa de Portugal, livros, foto do Professor e cartas que este escrevia ao Reino com arte e sabedoria -, homem inteligente e sagaz , não falta a cana da Índia de encosto à parede tal e qual como no meu tempo ...
enquadra o Museu uma - Ara de criança em terracota visigótica, algumas notas do Mundo vivem guardadas numa gaveta.
Loiceiro com loiça de Sacavém com pratos, bacias, travessas, sob o tampo loiça do Bordado Pinheiro e gavetas com Cristos crucificados, dentes de marfim trabalhados, e...
Igualmente belo um loiceiro à pobre; alto e estreito, nele loiça de Aveiro, bacias, pratos, malgas Cavaco, bacia de Coimbra, em baixo palanganas Ratinho, talheres de ferro numa alusão ao tempo que o pessoal de fora ou contratado sazonalmente para a lavoura e ceifas nelas picavam o aferventado de couve galega com chicharo e migas de broa regadas com azeite- , o conduto um dente de alho, sardinha para três ou postita de bacalhau...
No espaço não falta o banco de carpinteiro e todos os utensílios da arte: inchós; plainas, grolopa, limas, e arca que viajou algumas vezes ao Brasil, atracou em Santos e continua inteirinha ainda visível na frente a inscrição do nome do seu dono gravado, por dentro do tampo coladas duas fotos do seu genro, o que é no mínimo curioso...expostas mantas de tear, toalhas de linho e duas vassouras artesanais de painço feitas por o último artesão em Almofala de Baixo - também tenho duas!
O culminar de êxtase foram algumas peças que foram em tempos pertença do altar mor da Aguda a igreja da freguesia. Há coisa de 30 anos o padre lembrou -se  de o substituir e o vendeu a um antiquário da Vidigueira. Tinha sido obra de artesãos da terra, quis o destino que um dia o Dr. Arménio Vasconcelos o encontrasse por mero acaso numa trivial conversa com o antiquário que lhe confidenciou a sua origem -, estarrecido ficou porque naquela igreja a esposa tinha sido batizada. Entabuou conversa de negociante, ajustou preço razoável com a condição de no dia seguinte o pôr no mesmo lugar de onde um dia a tinha levado. Assim foi, o altar voltou a casa!
Com o espólio das colunas, retábulos, e outros entalhes fez uma capela na sua outra Casa Museu Maria da Fontinha em Além Rio em Castro Daire. Outras peças tem na sua  quinta sobranceira ao Lis em Leiria, as restantes deixou aqui  neste Museu expostas para enaltecer os artesãos da terra que um dia as fizeram, e assim o visitante poder apreciar a beleza do talhe que curiosamente se encontra igual nos tectos da casa.
Ainda um banco de rezar, um Senhor pregado na Cruz e,...
Descemos à cave e na parede uma alegoria ao cofre dos pobres, na esguelha da parede uma púcara partida e nela  moedas....apreciámos o ciclo do pão, do vinho, do azeite, do milho, de outros cereais e leguminosas.Talhas em cerâmica, asados em vidrado verde, alguidares em amarelo torrado, vinagreiras em grés, alfaias,almudes, medidas em lata e madeira, alqueire, selamim,  enxofradeira, máquina de sulfatar em cobre,  balança de madeira,  serra do serrador,  regador em cobre,  panelas de ferro, a grande colher de pau, o chamaril em madeira para pendurar o porco a escorrer e,...nos jardins canteiros com azulejos indicam as plantas aromáticas. Uma grande dorna de madeira no alpendre o 1º tractor que entrou em Portugal, uma carroça e dois carros marca Ford que foram pertença do sogro. Ainda uma charete de pónei. Na entrada do jardim uma furgoneta cinzenta que espera melhores dias naquele enquadramento.
Vale a pena visitar, quer pela obra apresentada, pelo brio dos donos em enaltecer as gentes da terra, os artífices, os trabalhadores da cerâmica de Almofala cujo empresário pai da benfeitora Dra Rego. Todos os seus nomes estão inscritos a preto nas paredes, sob as ripas dos tectos inclinados constam frases da Ilíada, de Atenas...
Teimaram preservar e homenagear as artes; marcenaria, cerâmica, vida rural e,...
A simpatia do casal é inexcedível. A obra que teimam deixar ao presente e gente vindoura é grandiosa.Bem hajam pelo carinho com que tratam o património e as lembranças dos seus antepassados. Grandioso feito que deveria ser seguido por outros...mas isto de fazer é mote só de alguns de coração grande, dose de humanismo e simpatia.Só podiam ter raízes de nascença e adquiridas no concelho de Figueiró dos Vinhos!
Adorei conhecer tanto a senhora como o esposo que não sendo da região se encantou por esta terra da Beira Litoral inserida no Pinhal Interior. 
Na garagem vi um jipe e Mercedes, apreciei o jeito desportivo do Dr ao volante da sua moto quatro, percorre calçadas estreitas e caminhos de terra batida a esvoaçar o seu chapéu tipo cowboy. 
Amável, ofereceu em rota de adeus um livro de poemas, um a mim, outro a um visitante com raízes na Serra do Mouro que nos acompanhou assim como a sua esposa ribatejana.
Deixo aqui um convite!
Venham visitar. No final subam à Aguda e desçam ao Olival - , contemplem os verdes, as serranias, as aldeias perdidas nas veredas dos outeiros.
Acreditem, tal beleza emociona a sonhar, chegados ao entroncamento de Vale Tábuas se forem horas de almoço viram à esquerda a escassos 3 km algum restaurante estará aberto, trutas e não só, degustadas sob o alpendre dos varandins a mirar a água da Ribeira d'Alge a caminho do Zêzere.
Eu optei por tomar o rumo de casa direito ao Pontão. Afrouxei, existem muitas lombas para cortar a velocidade. Ao longe vi uns velhotes encostados à sombra esperando freguesia para o mini mercado.
Soltei a voz " boa tarde, em tempos vi aqui na beira da estrada umas vassouras em painço..." "diz o homem, ainda aqui tenho umas duas ou três..."
Enfeirei logo duas uma grande e outra pequena, para enriquecer uma arte tradicional desta minha terra que adoro. Sorte a minha que no Museu estavam duas - logo me lembrei delas, sorte que tive, caramba!
Um reparo. A fábrica de sinalética situa-se na zona industrial do Camporês a escassos 5 km, e no entanto as placas toponímicas são manuais...Caso para perguntar o que anda a Junta de Freguesia a fazer que não repara?
Afinal vale a pena fazer críticas construtivas depois de mais de 1000 visualizações temos placa!
 Gosto!

2 comentários:

  1. Agradeço as minuciosas e completas informações sobre este Museu que tenciono visitar no próximo dia 12 de abril de 2014. Ana Ramos

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  2. Obrigada Ana Ramos pela cortesia da visita e elogio da crónica. Espero que tenha gostado da visita.
    Cumprimentos
    Isabel

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