sábado, 16 de julho de 2011

25 anos pelas serras de Ansião no Lusco Fusco de memórias

Estórias …Emoções...Memórias…Caminhos!

Dedicado à minha mãe e irmã.
Maldito dia o da nossa subida aos céus na certeza de voltar a descer à terra de onde fomos para enfim juntos outra vez no sítio do Fernando Rodrigues Valente!

Contracapa
Sou um bocadinho enciclopédica. Gosto de tudo um pouco: faiança; arte sacra; vidros; lataria; esmaltes; rendas; linhos; cestaria; pedras; memórias familiares; lugares que conheci; fotografia; romance; mistura simbiótica do belo e do fantástico; música: Amália no fado, Teresa Salgueiro, Jorge Palma, GNR, Xutos, Táxi, Pedro Abrunhosa; rios: Tejo; Nabão; Zêzere e Mondego; serras: Ameixieira; Alqueidão; Nexebra; Sicó; Estrela e Senhora de Estrela no Alvorge; Montejunto e Candeeiros; ver o sol a nascer: Mar da Palha e em Vila Real de Santo António; calçada portuguesa feita por mãos de gente de brio da nossa terra; dos ares: Ansião; Coimbra; Porto; Caminha; Lisboa; Évora; Santiago do Cacém; feiras: comprar e vender; estaminé prostrado no chão sob pano púrpura; criar empatia com gente anónima que rapidamente passa a gente comum; do pôr-do-sol ao alto da Ameixieira; Albarrol; Castelo do Queijo; Fonte da Telha e Albufeira; fazer incursões sobre qualquer assunto que me atormente a mente, na rápida forma de o despachar do meu espírito, só a escrita o meio eficaz de me libertar. Claro há uma unidade que cola estes temas todos: o gosto pelo passado; pelas velharias; pelas pessoas vivas; pelas pedras; em duas palavras: pela história e pela cultura dos povos. Soa-me o ouvido no dito popular” as mulheres veem-se nas crianças que foram um dia” - mãe, mais de meio século, fiz quase tudo nesta vida: plantei árvores; flores; pimentos; pepinos; tomates; couves: galega; tronchuda e penca, a maioria morreu, seria fraca semente, penúria de afeto ou desleixo…o que me falta ainda fazer? Tratar de mim, “alguém escreveu, um corpo bem tratado dura uma eternidade”. Prezo voltar a sentir auto estima, teimar a brindar e arrecadar afetos, jardinar, e bebericar cultura. Ao escrever as minhas memórias tento preserva-las, torna-las intemporais, se a memória dos tempos não me atraiçoou, julgo que não caí no erro da imprecisão dos factos, não tive como não aceitar o repto de alguns bons amigos. Desde sempre o prazer da escrita, prazer que tem que se lhe diga, uma coisa é gostar, outra é saber escrever, seja o que Deus quiser neste meu jeito descritivo, transparente, genuíno, perco-me em grandes parágrafos, sem grande preocupação na pontuação, realista no olhar generoso, não seriam memórias se omitisse a veracidade de lembranças do meu passado, sem peneiras nem vaidade, atropelos ou camuflagem, conspurcar contextos reais é que não, tão pouco medo de acordar suscetibilidades. Deus me perdoe, se alguma vez eu cairia no erro crasso de desprestigiar memórias, salvo reparo, tudo menos ficção. Deleite maior, vontades de relembrar a minha vida até aos princípios do meu casamento a três de setembro de 78, casa nova e vida muito diferente no Feijó, senti faltas, tanta falta do quintal, de mexer na terra, plantar e colher - dias a somar a dias e, anos de nariz encostado à vidraça, sala ou marquise, rezingona com o vento teimoso no torce e retorce da roupa do estendal, único consolo, enxergar uma quinta em total abandono, pelo meio, anexos em redil cobertos a lataria - erva, muita erva, nem uma couve. Santas lembranças da minha vida trazem à vida real os sons, os cheiros, um pouco do cariz da minha família e de todos com quem a partilhei. Pode-se adorar as lérias a ela associadas, como se pode odiar, uma coisa é certa, não conseguirão pô-la de lado, ignorando-a. Migalhas? Adoro as do pão bem cozido. Perco-me sem pensar a junta-las com a ponta do dedo, adoro saboreá-las sorrateiramente na boca…o que quero contar? Momentos marcantes que me tocaram. Quero lembrar-me desses retratos de uma infância e adolescência, a minha, sobretudo das tropelias perpetuadas em cumplicidade com a minha irmã e, com os cachopos do Bairro, recordar retalhos que muito bem podem ser migalhas da minha vida, também das histórias que a minha mãe me contava da sua aldeia da Moita Redonda, as minhas vivências por lá, Ansião e outras aldeias e vilas próximas, que no tempo fui conhecendo. Escritas ao sabor da música dos anos 70, uma das minhas favoritas - SAMBA PA TI do guitarrista mexicano Carlos Santana, belíssima, sem dúvida intemporal!


LIVRO

Alegorias à pedra do relógio de sol partido da capa, atropelos na mente peiam-se em fila para ser eleitos. Por trás de saias rodadas e do conceito de família com recursos, pais funcionários públicos, do hábito de ir à missa de meias brancas até ao joelho, salvo em janeiro “sinal de pouco dinheiro”usar: golas de plástico às pintinhas; chapéu de palhinha sedosa creme; saias pregueadas; suspensórios; sapatos de fivela pretos de verniz; beber café de cevada; chá de limão e mel para curar a gripe; comer laranja às rodelas regada com água quente e açúcar amarelo; ainda todos os anos ver o canteiro de capuchinhas laranja a invadir o patim, “o mau vinho do meu pai tinha momentos de extravasar em maus-tratos, violência, falta de respeito, medos e supérflua vaidade, coibido da droga alcólatra amigo, generoso, exigente, corajoso, criativo e humano”, atributos que lhe herdei, tal e qual a minha irmã, da minha mãe herdámos a liderança, o conceito de família e ambição de ter. Forçada a crescer sitiada de criadas internas, a primeira novíssima quase da minha idade, outras mais velhas, pelo meio cuidados da avó Maria da Luz, das mulheres que trabalhavam na padaria da avó Piedade, também da tia do meu pai Maria e das suas filhas: São; Tina e Júlia viviam no gaveto dos quintais numa casa de sobrado, paredes meias com a casa baixinha dos bisavôs de lume terreiro, testo descomunal da chaminé apoiado no pilar de madeira negro do fumo, e da idade -, pelo chão banquitos dispersos ao alheio. Companheira fiel da creche, a minha irmã e outros heróis de algumas histórias das nossas vidas, quase todos de cabelos alvos, nós e eles, cachopos do Bairro de Santo António. Lugares preferidos de todos os dias, de todas as horas nas nossas brincadeiras: cantos da casa; sótão; loja; barracões seiscentistas no cimo do quintal, e “capelas imperfeitas” - , capoeiras que nunca passaram de paredes levantadas com placa de tijoleira de portas abertas de costas viradas para o adro da capela. Recreios: terreiro do patim em frente da cozinha; companheira fiel a frondosa figueira sombria e fresca nas tardes tórridas de verão; adro da capela; Cerca; Largo do Bairro; Ribeiro da Vide; casa da tia Maria; da Ti Virgínia e, …
Tempos de antanho, de manhãzinha…Bom acordar ao som da voz aguda da Ti Rosa de Albarrol no seu cumprimento genuíno "Bom dia nos dê Deus"…em passo corrido no meio do rancho de gente a fazer-lhe confraria, marido Marcolino, Ti Maria Freire, Ti Manel Martins, os Cancelinha e, … em arraial - jornada a pé ao sábado ao mercado e no domingo à missa da manhã, de novo em abalada até casa, antes ainda tempo de enfeiram no Zé Júlio seu conterrâneo, bom amigo do ano de 57 -, sempre o mesmo, prazeroso conversar com ele, então não me lembro quando começou a trabalhar na loja do Carlos Antunes…sinto a cada dia o rancho mais pequeno, nas vezes que venho de fim-de-semana, ainda estou na cama, os oiço a passarem na mesma estrada um nadita mais à frente a caminho da vila, onde assentei arraiais. Continua a minha adoração no ouvir aquelas vozes fortes, são inconfundíveis. Lindos, os ranchos de antigamente quando vinham às festas, estrada fora os sentia em cantorias à desgarrada, os homens de cana rachada em punho ornada de laço a batiam com força, dela faziam sair zoada musical. Foliões sempre foram as gentes de Albarrol, a falta que fazem para animar as festas da nossa terra - sem a sua presença e carisma festeiro acabarão por morrer…
Aguçado o apetite ou talvez não -, gostos não se discutem!
Acrescento que cedo senti sopros no ouvido aos apelos à escrita, muito mais do que ler. Ofendo por certo muitos ao revelar este segredo. Tentei. Sei que não insisti! Deveria...quem sabe um dia destes!
Gosto de passar os olhos nas revistas antigas nos cabeleireiros, consultórios, em casa ao fim de semana compra-se o jornal , ainda leio o mensário Serras de Ansião.
Autores alguns consagrados -, em nenhum teimei sair das primeiras páginas, nenhum despertou entusiasmo, vontade, querer maior, de saber mais!
Curiosamente quando pego numa revista começo pela contracapa, sempre a folhear do fim para o principio,factor que sei acontecer a outros, não deixa de ser estranho.
Ao invés, a escrita seduz-me apesar dos atropelos da minha escolaridade, ao tempo não soube aproveitar as aulas da nossa língua na sua plenitude.Vícios no trabalho profissional também foram forte contributo por ter de redigir pareceres bancários dentro de parâmetros restritos impedia-me o desenvolvimento de "puxar" pela operação do cliente, o que me vali de inventar o corte das palavras, tipo mensagens que ainda no tempo não existiam nos telemóveis...
Isto para dizer que quando iniciei o 12º no Programa das Novas Oportunidades, senti uma incrível dificuldade em fazer textos, tais os vícios a que estava habituada no passado. Melhorei a escrita, revivi em mim o prazer de escrever no meu jeito em grandes parágrafos, no ser realista, com riqueza de pormenores na escola deram-me a alcunha de queirosiana...
Em 2006 dei inicio a um blog, nele me revia no prazer de descrever tudo o via em passeios, amarguras, aventuras, memórias, qualquer assunto me deleitava relatar...num repente alguns comentadores deram dicas -, alguns lançaram o repto para escrever um livro, um deles o meu bom amigo e conterrâneo Dr Manuel Dias..."Isabel escreva as suas memórias que eu ofereço-me para o corrigir sem lhe tirar o dom..."
Aceitei o desafio sem delongas, muito pela força e carácter de bom samaritano e demonstração de amizade -, sendo homem de mil ofícios, sempre de sorriso aberto para ajudar, sem olhar a quem, de cariz extraordinário, simples, humano, dedicado,amigo e carinhoso...Professor em Ermesinde na Escola Secundária e na Universidade Sénior, ainda Historiador...Parabéns, hoje publicou mais um livro - ERMESINDE!
Quantos livros publicados?Colabora em jornais, dá conferências, a próxima doa 29 e 30 de Outubro em Ourém
http://www.alta-estremadura.net/programa.html
Homem de família,ama os pais, os irmãos, a esposa ,os dois filhos e ainda tem tempo para amigos, conhecidos e, ...Gostaria de ser um dia ainda viva para assistir ao desterrar da lápide com o seu nome na nossa terra amada, Ansião, porque estatuária? Essa anda arredada desde que os canteiros rumaram ao Mosteiro da Batalha, pelos vistos por lá se finaram! Mas parece só se desterram depois de se morrer...
Iniciei a minha odisseia ansiosa -, senti, como senti o sangue fervilhar nas veias com avanços e recuos, repetições, apagões, voltar a errar, outra vez, mais uma vez e ainda outra...reaproveitei posts já escritos, melhorei outros, acrescentei mais, finalmente o livro acabado.Entregue ontem para um júri apreciar.Caminho que tinha de fazer sozinha e fiz.Peripécias houve. Ao ler o anúncio na revista mensal da Câmara de Almada saltou-me uma dúvida que atempadamente por e-mail pedi esclarecimento, por ausências de resposta voltei a insistir com o reparo "estranhava a falta de resposta que nada se compadecia com a fação politica" , recebi de volta todos os emails...enviei um novo em tom sarcástico "a falta de resposta só é desculpável se estiver de férias, a não estar, caso para ser levado ao conhecimento do nível hierárquico superior" em segundos tudo mudou, disseram-me que tinha havido um problema com o email, de facto constatei uma anomalia (?) alguma coisa houve...o responsável do departamento desfez-se em amabilidades, deu-me o seu contato pessoal para apressar a entrega, afinal estávamos no dia 15 ,e o prazo tinha terminado a 30.... Revoltada em ter de imprimir 3 exemplares com mais de 200 páginas cada, nos dias de hoje inaceitável, contestei as regras do concurso, voltei a insistir que deveriam ser alteradas pelo excesso de consumismo e monetário, até pela defesa do ambiente, hoje em dia devem-se privilegiar as novas tecnologias...por fim disse-me "sabe alguns elementos do júri não sabem mexer num computador"...para quê mais palavras, afinal o PC é apenas uma máquina de escrever um nikito mais sofisticada, haja vontade em se aprender o mínimo.
Hora marcada a rececionista de sorriso de orelha a orelha pergunta-me se era a Dra Isabel Coimbra...respondi, sou só Isabel Coimbra!
Desfizeram-se em amabilidades. Explicou-me a tramitação e que nem sempre a melhor obra é a galardoada, isso sabe-se. Conversa puxa conversa quando disse a minha morada, falamos no vereador da cultura -, o seu chefe que por acaso é meu vizinho, a esposa tem vezes que com ela tomo café...alvitrou, dê-lhe uma palavrinha, respondi, "não, detesto pedir seja o que for a alguém"...rápido, emendou," bem ele não pertence ao júri..."
Prefaciando o slogan do Colégio Salesiano no Monte Estoril as Salesianas...
"Perder ou Ganhar é Desporto"...quando sofríamos uma derrota nos jogos de basquete e andebol...No caso o mais importante era concorrer, apesar de qualquer autor escreva com o sentido de gostar de ser lido e criticado para melhorar ou ficado quedo!
Não fui apurada.O mesmo no pelouro da Câmara de Ansião...disseram-me por razões de orçamento...
Agradecimento maior a todos que de qualquer forma me ajudaram nesta caminhada, que da família sem dizer bem nem mal, não me lembro se me deram força,tal os medos em desvendar a nossa verdade,também da de terceiros, desenterrar factos mortos e ainda se não dizemos bem dos nossos quem vai dizer...
Relevei, caminhei em frente, teimosa!
Bem hajam a todos os meus comentadores dos dois blogs...
O meu...........................................................MUITO OBRIGADO!
Foram vocês todos que me ajudaram a concluir este sonho maior que outra utilidade não venha a ter, terá sempre o desejo do o voltar a ler quando estiver num Lar da 3ª idade!
Termino com as últimas palavras do livro...
Desculpem-me qualquer coisinha…
Desculpem-me, se me mostrei sentenciosa…
Mote de descontracção de mãos quentes enxergo e de sorriso nos lábios, digo-vos...
Que Deus, vos dê a todos, Bons Dias!

3 comentários:

  1. Ola Maria Isabel!!

    Que curiosidade que tenho de ler esse livro!
    ahahah =)

    Deve ter sido muito difícil para si viver tão longe do seu cantinho do céu..

    Aqueles lugares primam pela calma e sossego... Ao contrario da Lisboa menina e moça..

    Flávio

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  2. Olá Flávio, muito obrigada pelo seu comentário.
    De facto senti muita falta da terra e de mexer nela. Sempre me senti desenraizada. Saudosista e com boa memória adorei reviver emoções umas boas, outras menos e ainda outras assim assim.
    Curiosamente termino o livro com um roteiro à doc pelo nosso querido Portugal onde fui incluindo visitas virtuais aos amigos por aqui conhecidos, e claro você está lá
    Beijos
    Isabel

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  3. Ola Maria Isabel

    O filhote Flávio de Leiria? ahahah =D


    Um bj

    Flávio

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