terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ensaio de romance na magia das velharias - II capítulo

Feriado.Dia de feira na Costa. Melhor tarde de verão de S. Martinho.A falta de espaço condicionou que Lila fizesse a sua banca junto à minha,trouxe chávenas,biblôs cristais, VA, naturalmente objetos da sua casa e um caixote pequeno de livros que já lera nas noites de insónia. Dividido o preço do terrado, nesta feira caro 10€, pouco vendemos, mal deu para as despesas.Passava das 3 quando fui tomar um café,aproveitei para desempenar as pernas, dar uma vista d'olhos pelas bancas dos colegas, dar dois dedos de conversa, de regresso à banca reparei que ela ultimava caixotes para regressar a casa,dizia-se cansada,eu fiz o mesmo. Atrás de nós num banco da praça acabavam-se de sentar os mesmos homens de meia idade que da parte da manhã ali estiveram na conversa,a ver as modas. Um deles de cabelo todo branco interpelou-me à moda antiga chamando-me por um nome que lhe veio à ideia "D. Lucinda a sua banca tem coisas muito bonitas" respondi "pois tem, mas olhe não vendi quase nada" e não me chamo Lucinda, sim Maria, nisto ele disse, Lucinda também é bonito... " dou-lhe 5€ pelo bule", respondi "estou a pedir 10€", peguei nele e fui mostrá-lo, nisto disse-me" já me adiantei, está partido"...respondi "uma peça de porcelana que serviu chá quente,usada é natural que o vidrado tenha estalado, nem se nota,claro que é para decoração, para quem goste de fazer coleção de bules, não é para usar no dia a dia...nisto Lila já sacudia a colcha lavrada carmesim quando de costas é interpelada por um homem de estatura baixa, maduro de uma forma surpreendente" então é assim que quer vender?", Lila sorriu,sinal que gostou do jeito, da atitude inesperada, do olhar resplandecente,do brilho que exalava e da voz forte...acrescenta "só trouxe peças caras", nisto ele surpreende-a "o que é para si caro?...5.000€"...atónita ali de frente comecei a embrulhar as minhas coisas, enquanto isso ela explicava-se "fartei-me da feira, quase não vendi nada, estou chateada", ele por sua vez dirigiu-lhe um convite " quer ir tomar um café comigo para se sentir melhor?" ela agradeceu e respondeu "já tomei e não me fez nada...".

Notória a pareceria que se gerou neles, quiçá empatia demoníaca, ela falou do momento,de ontem e até de antes d'ontem, do porquê de ter começado a ser feirante,como se tinha enfeitiçado pelas feiras, da terapia que no passado tanto a ajudou a superar dificuldades de âmbito psicológico, chegaram à conclusão que tinham sido colegas do mesmo patrão.
Agachada, eu continuava nos embrulhos das minhas peças em jornais e plásticos com bolinhas de ar, sem pressas,devagarinho, "cusca" não queria perder por nada a conversa, um jeito não habitual em mim, talvez seja da idade...visível nas suas caras uma vontade desenfreada de falar,estabelecera-se cumplicidade, naquilo Lila inesperadamente abre o seu livro, para mim um segredo ali confessado a um anónimo, aparentemente sem qualquer justificação.Senti no rosto dele ao ouvir a sua desgraça uma vontade louca de a querer ajudar, de lhe poder valer se ela quisesse,ofereceu-se para interceder.
Eu pouco conhecia do passado de Lila,associei a conversa da última feira, juntei as peças,com lógica percebi que ela nunca foi ajudada em nada nesta vida muito menos no assunto revelado, que até a mim me deixou surpreendida, estupefacta revelou ser uma mulher muito corajosa, de fibra, obstinada! Por sua vez ele demonstrou tanto à vontade, tanto humanismo," se precisar, quiser, lhe apetecer, ou outro motivo qualquer,contacte-me" .."eu sou mesmo assim, quando alguém precisa pode contar comigo, sou um amigo do meu amigo, não me ofereço para falhar, estou mesmo sempre disponível".

Fatores determinantes para sem tabus ela assim ter falado tão naturalmente, ser contemplada com oferta de ajuda gratuita,no mínimo a deixou estarrecida, encantada, homem charmoso de feeling escaldante,surreal, de carater ambicioso a fazer lembrar o Villasboas, destemido e alegre, soslaios de atrevido, que qualquer mulher de bom gosto aprecia na dose certa...chamaria-lhe um encantador de serpentes....Melhor um príncipe!

Embaraçada com tanta gentileza Lila apresenta-se, ele também...Adriano! Num impulso ele remexe o caixote dos livros e vê o livro "as memórias de Adriano"...extraído de conteúdos reais, estudados por essa grande senhora a escritora francesa Margeritte Yourcenar sobre um dos cinco maiores imperadores de Roma (Adriano), grande e feliz coincidência,o mesmo nome,livro que que nesse dia inexplicavelmente não vendeu,vi-os a trocar endereços de e-mail.Perspicaz ao ouvir o dele pergunta se é a sua data de nascimento, ele confessa que sim, sorridente.
Incrivelmente sem nada o fazer prever, ele pega num grande saco, deliberadamente oferece-se para a ajudar no transporte , assim foi por duas vezes até ao carro,inesperado gesto simpático, sedução,gentis palavras......esfuziante Lila agradece a ajuda, despedem-se, ela vê-o ir embora, mãos dentro dos bolsos da gabardina azul, gostou do seu andar e do cabelo grisalho...

2 comentários:

  1. Continue a tentar, mas encha os textos com as suas impressões sobre o mundo, mémórias do passado, só que postas na cabeça de uma terceira pessoa

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  2. Obrigado Luís. Alterei. Contudo não sei se o consegui.No entanto está a dar-me gozo esta criatividade onde a realidade e a fição se misturam,apetece não parar...
    Bjs
    Isabel

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