segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ensaio de romance na magia das velharias- I Capítulo

Novidade não é nenhuma - o gosto que nutro por feiras. Assim o foi desde que me lembro - velharias há coisa de 30 anos. Prazer - sentia no gozo de férias frias - ganhava a dobrar, na agenda marcava sempre uma ida à feira da ladra, sozinha! Dia houve - perdi-me na montra de um antiquário à Sé - o bule de caldo em faiança Coimbrã,enfeitiçou-me. Na minha cabeça a razão impôs-se loucamente na pressão de ser realista, mas qual quê, a paixão por ele - do comprar, toldou-me as vistas e a razão, para mal dos meus pecados dei volta ao problema -  um hábito que me viria a prejudicar mais tarde nesta vida...loucura o dinheiro que por ele paguei, no momento só pensei, "que se lixe mais um fato escuro" afinal são quase todos iguais,basta mudar os acessórios, no caso as peças de oiro todas a condizer - lindas que eram - babosos ficavam tantos e tantas com tais enfeites...reluziam olhares,até serem literalmente furtadas da minha casa...
Anos em feiras por todo o lado, e de todos os tipos. Compras e mais compras.Forçosamente - peças substituem outras, e mais outras que assim vão ficando em segundo plano. Atitude a tomar? Vender, também...uma das soluções!
Este ano recomecei na magia das vendas...incrível é reconhecer que vendedores meus conhecidos há anos - praticamente iletrados no reconhecimento da maioria dos artigos, nomeadamente da faiança. O que sabem é pedir preços(consoante o traje do cliente) e de compor a conversa ao jeito da venda e rematar o seu feitiço, uma arte que não tenho!
O que me custa imenso? Exageros. Ver gente que vende aos meus colegas por dentro da banca ao desbarato, a qualquer cêntimo... mochilas cheias, mulheres maduras com sacos, homens tristes a pé ou de bicicleta - nos guiadores sacos pendurados...candeeiro de mesinha de cabeceira, livros, biblôs e,... colcha de renda feita quiçá pela mãe para o enxoval - agora por causa do divórcio a vem vender envergonhado...o "aproveitador" colega insensível, desumano, está ali para ganhar, e disso não descuida o pensamento...não lhe presta atenção, a tira do saco, desenrola,desprestigia o artigo...ele coitado argumenta "compre lá, estou sem dinheiro" mais uma volta, revira para encontrar defeitos, em duas palavras diz "dou-lhe 20 € mais não posso, o pobre infeliz no bolso nada tem, pensa "mais vale 20 euritos que nada...a colcha nem aquece só vaidade de a ostentar na cama,o desenlace já era, e a pobre mãe que a fizera...nela nem pensou"...
Pior, minutos depois perguntei ao meu colega "então ficou com a colcha?" respondeu-me" sim, se a minha mulher a quiser dou-lha, se não vendo-a , vai-me render mais de 100€..." agucei o apetite e disse-lhe "também tenho uma" vira-se para mim e diz-me"compro-lha se quiser"...
Também sinto maus olhares de colegas que só me conheciam na versão de potencial compradora. Esperava. Tal a personalidade estranha que há muito me afasta das suas bancas...algumas são contudo persistentes na arte da sedução.Mas - sou mais forte, só vou se quero ir e não porque me convencem!Uma de olhar forte e o filho também, pouco lhes compro, não simpatizo.Numa feira um homem ao mexer na banca de livros eis que desaba, tal o peso, partiu-se alguma pouca loiça. O escarcéu que ele fez ao freguês que culpa não tinha nenhuma. Os feirantes nas feiras assumem os riscos do infortúnio, no melhor fazem um seguro do espólio e de responsabilidade civil, não podem só pensar em ganho.Comigo a mãe nuns trapos e naperons a um euro, depois de escolhido um que fora uma barra de lençol em bordado Richelieu disse-me "esse é de 5 €, as pessoas é que mexem e os mudam do sítio"...até pode acontecer....já a conheço de "gingeira". No caso nem dado o trazia!
Chega uma mulher ao pé de mim, pergunta-me se também compro - respondi que não. Apercebi-me do marido meio escondido num arbusto,ao lado dele um grande saco cheio, naquilo a mulher dirige-se ao meu colega,de joelhos na relva começa a desenrolar as peças dos jornais,o homem não lhe dá valor, desvaloriza,olha para a banca a fingir que não está interessado na mercadoria,por fim a pobre mulher com o seu tesoiro prostrado pelo chão,fica branca com a argumentação do comprador, sobretudo da oferta "dou-lhe 5€"...a pobre mulher levantou-se do chão muda e de mão estendida recebe uma notita, aparenta ficar consolada por fora mas desconsolada por dentro sei que ficou!
Vi gente estranha, magra de fome, escanzelada de ossos e falta de dentes com cortinados nas mãos, molduras, pratos, binóculos e até uma mulher madura com um saco cheio de discos, ainda disse" de onde estes vieram há mais"...o comprador desvalorizou..." sabe agora vende-se "evermetel"...isto só vale 70 cêntimos...do bolso tira um euro, o dá à mulher,ela foi-se embora de mãos nos bolsos com andar esvoaçante na sua gabardina, nem reparou que havia vendedores da especialidade na feira, no caso em frente da banca onde os deu dados por um euro!
Isto assusta-me, vender por vender, nem pensam, argumentam...melhor o outro na feira da ladra,o vi umas quatro vezes sempre com a mesma retórica de gaiola na mão" quem me dá sete euros, já me ofereceram cinco..." naquilo oiço "o gajo encontrou-a no lixo, nem limpa está" não sei se a vendeu,já estava farta de o encontrar.Uma coisa é certa;esperto, persistente, sabia o que queria, assim deviam ser os demais!
O meu colega do lado um homem de idade que conheço nestas andanças há coisa de seis anos e ao qual comprei muito aparece ao pé de mim e pergunta-me a origem de um pratão de faiança...acabou por me confidenciar " não percebo nada de faiança" e " já viu como tenho agora a banca , as pessoas pedem peças em latão, cobre, temos de ter variedade para se vender"...
Naquilo uma mulher chega-se a mim mostra-me cálices em cristal, agradeci,disse não estar interessada...naquilo um forasteiro que passava se apercebeu da conversa pediu para ver,ali os comprou todos a um euro cada.
Definitivamente não tenho jeito para comprar nestes moldes, nem tão pouco o quero, não seria capaz!
Preso a honra - jamais espezinharia alguém infeliz que vive horas de amargura sem dinheiro, acho um despautério lucrarem à conta de outros mais fracos, da sua miséria! Não se trata de compras. Trata-se se ser oportunista.Nestas transações não há justiça,o que tenho visto é um abuso desmedido da fragilidade e da pobreza humana, desprestigiariam a mercadoria, acabando por ficar com ela a troco de migalhas, ainda como se tratasse de um favor!
Triste, imensamente triste por não poder acudir a estas pessoas!
Nas últimas duas feiras só vendi livros. Tem dado para pagar o terrado, ainda sobram uns trocaditos.
Os vendedores são de todas as estirpes!
Esta magia para vender partiu de dois homens que dizem viver juntos, simpátiquíssimos, os conheço há anos, quase como se fossem família, sempre a insistir quando lhes faço companhia.Igualmente outro bom homem, simpático, afável, de voz romântica, " o Tony dos discos" amigo,sensível, ao ver a minha loiça no estaminé postado no chão diz-me" vou emprestar-lhe uma banca, a sua loiça é bonita, merece", durante a feira foi perguntando como iam as vendas, animou-me e acalentou o meu espírito..."de tarde vai ser melhor", passado um bocado convidou-me para almoço ou se queria que lhe trouxesse alguma coisa...a minha filha presenteou-me com a sua companhia, psicóloga, disse-me que constata um perfil habitual de feirantes de cariz homossexual,sempre gentis, também feirantes atenciosos que se vão conhecendo,de longe só comparável com um casal trintão o Miguel e a esposa na feira da ladra e a D. Maria, que do resto é para esquecer...
O Tony conferiu-me tanta atenção e carinho, mote para o agraciar com seis beijos. Quando gosto de alguém não me inibo de o dizer, de mostrar afetos...na véspera tinha-o visto na feira da ladra,meti-me com ele..."está muito bonito de avental preto" sorriu, agradeceu, insisti "meti-me consigo só para ouvir a sua voz melosa..." agradeceu mais uma vez, efusivamente, ainda lhe disse mais " há dias viu-o falar com uns franceses fiquei cheia de inveja"...estabelecida estava em definitivo a conversa e a amizade...responde "a senhora e o marido que conheço à tempos também são muito simpáticos e atenciosos e já agora fazem um lindo par"... despedi-me com a retórica "amanhã se estiver bom tempo vou fazer a feira da Costa, encontramo-nos por lá" ..." ele disse apareça, sim". Isto, só possível absorver em gente diferente, moderna que na amizade sabe filtrar o trigo do joio,sabe estar, é humilde e atento nas circunstâncias, sem segundas intenções. Adoro a voz dele, só para a ouvir dava-lhe mais beijos...refletindo, sinónimo de carência!
O sol batia forte, o meu vizinho do lado um negro com artesanato bizarro das áfricas, detestei o seu olhar de lince escuro a mirar-me,não estabeleceu fala comigo, não lhe conferi tal abordagem, num intervalo que deixei a minha filha, por serem quase da mesma idade atreveu-se e perguntou-lhe " é a tua mamã?"...qual mãe preocupada decidi regressar à banca,em boa hora o fiz,confidenciou-me...respondi " tive esse pressentimento, por isso vim logo, nem dei a volta à feira..."
Na minha frente uma vendedora nova, juntei-me a ela na sombra, o sol batia forte, conversámos,trocámos contatos, chama-se Lila, cinquentona, disse-me estar seriamente a pensar em se divorciar,o que vende são lembranças de bons tempos que recebeu,foi juntando no sótão na esperança de um dia ter a sua casita no campo, gostei da sua franqueza, sem vaidades muito menos jeito de "peixeira", ultimamente a feira foi invadida por gente dessa laia, azar mesmo ficar perto delas, impossível aguentar a voz, a peçonha, a pressão exercida sem dó nem piedade na clientela, munidas de livros de leilões antigos comprados no alfarrabista a 5o cêntimos a unidade...vomitam pregões "veja aqui o preço da peça ...só estou a vender por...aproveite, olhe que vai bem servido...", a mais forte é boazita, acessível - chega-se à minha banca conversa, agora a colega é de fugir, olhar de cobra!
Ouve-se um apito. Uma mulher magricela de gabardina cinzenta passa em frente da banca olha para mim e diz..."também tenho um, o meu marido foi policia"...ri-me...ainda me estou a rir reparo que deu meia volta e decide vir ter comigo outra vez,num ápice o tira da carteira e conta " o meu marido está surdo, uso-o todos os dias para o chamar para vir comer"...num ímpeto dá uso ao apito,feliz o assobia!
Brutal o que vivi na feira!

2 comentários:

  1. Maria Isabel

    Não sabia ainda que tinha virado feirante. Tem aí um belíssimo material para escrever, observadora como é.

    Julgo que todos nós já nos imaginámos pelo menos uma vez feirantes, a vaguear de terra em terra. Julgo que é o mesmo sentimento de admiração que nos despertam os ciganos. São, pobres, mas livres é o que pensamos sempre que os vemos nas carrinhas a caminho de mais uma feira.

    Espero que continue a ir à Feira. Mesmo que não venda, traz que contar

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  2. Olá Luís. Muito obrigado pelo seu gentil comentário. De facto iniciei há 4 anos no dia de Páscoa em Figueiró dos Vinhos, onde viveu 50 anos o Mestre Malhoa, fiz um interregno,este ano voltei a fazê-la, em agosto estava de férias em Ansião,resolvi fazer nas redondezas:Figueira da Foz, Miranda do Corvo, Tomar, Pombal. Em outubro fiz umas obras na casa, aproveitei,levei a minha mãe, adorou, parecia uma miúda, nunca parou de enfeirar...de regresso, lembrei-me de selecionar algumas peças melhores, fiz dois caixotes, trouxe-os na mala do carro, por aqui fiz Costa da Caparica. Faltei à de Setúbal e Azeitão por causa da chuva.

    Adoro!
    Seja o buliço, a aventura, a conversa, degustar o farnel...é um misto de adrenalina, sinto-me livre!

    Aqui, aprende-se em definitivo a conhecer o perfil das pessoas, não são o que aparentam ser, os vendedores na maioria são mesquinhos, matreiros,lucram com a miséria alheia...o que me custa ver e de que maneira!
    Imagine que até me apareceu um príncipe encantador de serpentes...que me deixou confusa!

    A feira dá mote a deleites d'alma, sejam peças lembranças de família, companhia das índias,bordados amontoados, copos de cristal em fila a reluzir ao sol, arte sacra e até muita imitação...dessas sei fugir, mas há muitos que não.
    Maravilhoso, a empatia que se estabelece do quase nada...um comprador de livros confidenciou-me que tem mais de 20.ooo exemplares. No caso pediu-me o meu nome para o escrever a lápis no prefácio, disse ele" quando abro um a primeira coisa que vejo é a quem o comprei e em que feira, mote para me lembrar da conversa, o que me apraz..."naquilo eu disse-lhe estive agora com um colega em Pombal que só vende livros o sr Rafael..." diz ele, há anos que não vem aqui, ontem estive com um livro dele...
    Brutal atestar coincidências, ficava na conversa horas...no entanto há família que dificuldade tenho em argumentar e manter uma conversa...

    Desculpe o arrozado
    Bom fim de semana
    Beijos
    Isabel

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