segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ensaio de romance na magia das velharias - III Capítulo

Chegou-se o último mês do ano,motivos imperativos com a outorga de uma escritura foram pretexto para uma ida até à província.O tempo inconstante ditava se iria fazer a feira da Figueira da Foz.Decisão de ir aconteceu ao acordar com céu azul. Parti.Cheguei na azáfama dos colegas a ultimar as bancas, nisto sou abordada por um estrangeiro, russo de Leninegrado,59 anos a viver em Águeda há 10, a sua primeira vez na feira a necessitar de ajuda. Ajudei-o. Homem despido de preconceitos fez uso da tábua de passar a ferro para a sua banca, nela pendurou colares,sobre o tampo mostrava caixinhas trazidas da terra natal,pelo chão sapatos, revistas velhas, manta elétrica e tábuas em mogno que faz para cortar o presunto e diz vender muito bem em Espanha.Vladimir de seu nome, simpático, afável de conversa escorreita,forçada fui a deixá-la a meio por algumas vezes, não fosse o incomodativo "tique" do seu ombro esquerdo...odeio tiques!O meu marido esse sim conversou imenso com ele.Estranho pensar,a dois passos da serra de Estrela, desconhecer que no inverno se cobre de neve, que adora, sempre tomou banho de água fria por isso não se constipa...não conhece Lisboa, perguntou se por cá há muitos "pretos"...camionista no passado, conhece a Europa toda, o empregador, um espanhol, abusador, exigia que fizesse horas suplementares,não se importava de pagar as multas, só que ele não gostava deste sistema corrupto.Escolheu Portugal por ser onde se sente realmente bem e feliz.Humano,disse ir visitar a mãe por estar doente, aproveita para trazer umas pedras verde escuro que arranca ao mar e são valiosas...chamou-nos amigos alfacinhas!
Atrevidote, metia conversa com as espanholas, fazia-lhes soltar gargalhadas. Bebia chá verde que trouxe no seu termo.A sua 1º vez na Figueira,não conhecia nem tão pouco sabia que o mar, o oceano, estava a dois passos da feira.Perguntou-me onde podia estacionar e almoçar.Fui quase madrinha em tanta solicitação a toda a hora, até no português para o cartaz da manta elétrica...enquanto isso o tempo ia passando, alguns colegas não apareceram, os lugares ficaram vazios.

Lila apareceu depois das 9 e o jeito foi ficar entre mim e o Vladimir.Atrás de nós o banco serviu para nos sentarmos a conversar, confidencia-me que tinha enviado um e-mail ao Adriano a agradecer...
"Caríssimo
Foi um enorme prazer te-lo conhecido na feira de velharias da Costa.
Muito obrigado pelo tempo que me dedicou, ouviu e ainda ajudou por duas vezes até ao carro a levar "pesos pesados"!
Grata, imensamente grata pelo seu cavalheirismo, atenção e delicadeza, sim porque " malandreco" me pareceu ser um pouco...
Aceite desculpas, por este meu hábito frontal...sem maldade!
Continuação de uma excelente semana e coragem para fazer o seu Blogue!
Um abraço
Sorridente e apreensiva relata a resposta de Adriano...
Gostei de receber logo pela manhã o seu bonito e-mail. Eu como se apercebeu também gostei da sua pessoa, da forma como fala, e narra as suas histórias.
O tempo que lhe dediquei, não tem de me agradecer, pois estou disponível para lhe dedicar mais períodos de tempo iguais e superiores aos de ontem.
O que lhe ajudei a levar ao carro, não pesava assim tanto, e foi a forma que arranjei de conversarmos mais uns minutos.
Fiquei muito envergonhado, por ter passado uma imagem de malandreco, prometo tentar remediar esse comportamento.
Quero-a sempre com essa forma frontal de falar e dizer as coisas, com educação, respeito, dignidade, mas dizer tudo o que se tem de dizer.
O meu blogue vai ter que ser feito com a sua ajuda, assim o espero, senão não o farei, sou muito preguiçoso informaticamente.
Eu não venho muito à internet, apenas para fazer trabalhos meus, portanto posso demorar a responder às mensagens, no entanto as suas mensagens serão sempre bem-vindas.
Se precisar, quiser, lhe apetecer, ou outro motivo qualquer, contacta-me muito facilmente ligando...
Hoje estou aqui mais cedo, porque tenho de voltar à Costa, tenho a minha pedicura, e a empregada da limpeza lá em casa, pois ontem não trabalharam, mantiveram o dia de descanso de todos os santos.
Sem ser malandro para me ser mais fácil, adicione-me por favor no Messenger, e convide-me
Receba um abraço muito apertado

Senti no seu relato inquietude,ansiedade. Lila é uma mulher sonhadora, este conhecimento deixou-a nas nuvens, ao mesmo tempo receosa.

O dia esteve de primavera, sem vento, maravilhoso, soalheiro,só vendi uma peça, a minha pior feira, a dela também, melhor sorte a colega do lado que se fartou de vender naperons, toalhas, artigos que reparei saírem muito bem, ainda vendeu duas peças de loiça simpaticamente dispostas na banca,apreçou um lindo bule das Caldas na minha banca, fui sincera, tinha um retoque no rebordo, se estivesse pintado passava...

Traguei as sandes de carne assada feitas pela minha mãe. Embochada com o pão, fui dar uma volta,parei na conversa com o Sr. Santos de Mira e da sua colega , homem de olhar escuro, intenso, boa pessoa, simpático,do signo Virgem dizem ser o mais inteligente do zodiacal, convidei-o para um cafezinho, gentilmente o pagou. Importante os contatos que se vão fidelizando, poderão ser mais valia para o futuro, pelo menos assim o julgo.Noutra banca vi peças boas, impecáveis do Juncal, caras! Acabei por comprar um pote vidrado,verde azeitona, o "açucareiro do almerce" por 4 €, dado, impecável, muito antigo, preço para colega, conhecimento travado na feira de agosto com o vendedor, rapaz de olho azul e o colega da Lapa a viver agora na região centro, falámos do Tony com quem este trabalhou anos.Afinal o mundo é bem mais pequeno do que julgamos! Deparei com a banca da D. Helena, apressei no marido uma taça decorada a azul, assinada no tardoz com 2 iniciais, ele pergunta à mulher que vendia atoalhados antigos a homens dentro da barraca, ela responde, "60€", viro-me para ele e digo a sua mulher por certo não conhece a origem da peça, rapidamente o pobre homem acode na defesa do saber da mulher "olhe que ela conhece" teimosa respondi, digo isso porque a peça não é portuguesa...também não disse a origem :Talavera de la Reina, é muito fácil reconhecer pelo tardoz, sem frete, pelo brilho do esmalte e ainda o hábito de serem na maioria assinadas com iniciais do pintor.

Ainda não eram 5 horas decidi arrumar, Lila fez o mesmo,despedi-me de colegas que tinha a certeza não iria ver até ao Natal, enderecei boas festas. Ao Vladimir despedi-me com "um até amanhã" na feira de Miranda do Corvo. Lila não ia, ainda a convidei para ficar em minha casa, agradeceu o convite que declinou.
O domingo acordou meio embrulhado, decidi fazer a feira. Mal chegada fui cumprimentar o recém amigo Vladimir que me apresentou o seu amigo Renato. Sorridente, bem disposto apesar de na véspera só ter vendido um par de sapatos...despeço-me e acabo por entrar numa conversa de despique sobre um prato, perguntava um colega a outro "sabes de onde é?" embaraçado pensava...atrevida pergunto se posso responder por ele, olha para mim e diz "faça favor",disse com certezas, é da fábrica Bordalo das Caldas da Rainha, o vendedor vira o prato,lá estava o carimbo que não enganava ,agora também atrevido pergunta-me " sabe que material foi feito?" respondi "sei sim senhor...pó de pedra", olha para o colega e diz, quando os clientes sabem o mesmo que nós, a venda corre mal...apresentei-me, disse ser também colega novata nestas andanças mas com vastos anos de feiras como compradora. Sorrimos. Fui de abalada para a minha banca, ainda não a tinha organizada como queria abeira-se uma mulher madura a perguntar se podia pôr o sua atrás da minha, disse que sim,mostrava-se cansada, disponibilizei-me para a ajudar, fui ao carro buscar os seus sacos,saquetas e a cesta do farnel.Na véspera esteve na feira "Sem Regras " de Coimbra. Mal se apercebeu de tanta generosidade, ainda lhe emprestei um pano para estender as toalhas, abriu o seu diário...divorciada, 62 anos, desempregada, tinha terminado uma relação há dias, o companheiro apesar de uma boa reforma e ainda vender fruta e batatas à beira da estrada no seu dizer ainda queria o pouco que ela tinha...pior foi que lhe bateu, um olho deitou sangue...dele dizia ser um esquizofrénico, maluco por sexo, ela coitada com a tensão baixa não aguentava...reparei que ela também tinha "um parafuso a menos na caixa de mudanças" não olha as pessoas de frente,olhar estrábico sem o ser, foi o que me pareceu.As filhas, duas,cortaram relações com ela pela alegada escolha do companheiro...senti que está a desfazer-se de tudo o que acha não lhe faça falta, nessa tarde esperava um contato de um vendedor para ir a sua casa ver uma terrina e outras peças...
Literalmente perto uma da outra nisto irrompe o toque do seu telemóvel. Olha e desliga. Nova insistência,desliga, outra, e mais outra,e...um comboio de vezes, até que alvitrei que seria melhor atender e resolver a questão. Foi o que fez, afastou-se,gritava com ele " não gosto de ti..." sorri para comigo, está a dizer-lhe o que eu sugeri para ele se afastar de vez dela,o que denota falta de personalidade, apesar do meu conselho, ela deveria ser honesta,dizer realmente o que o seu coração sentia. Mágoas em cima de mágoas só desestabilizam as emoções e corrompem a relação ainda mais. Mulher perdida. Passado mais um bocado ele liga novamente,ela desliga a chamada, mais outra cena igual à que já tinha assistido...pedi-lhe para atender,ser esclarecedora, que não queria ser incomodada por estar a trabalhar,a insistência dos telefonemas deixam-na nervosa. Acedeu, disse exatamente o que sugeri outra vez.Interpelava-me para lhe opinar o que havia de pedir pelas peças, naquilo foi enganada por uma estrangeira que lhe perguntou o preço de um medidor,acabou por trazer a cafeteira pelo valor do anterior...faturou 5€,visivelmente chateada sentou-se no banquinho da casa de banho, comeu baguetes de sementes...as bananas teve o cuidado de as esmigalhar com o garfo no pratinho e assim as comeu. Convidei-a para um cafezinho.Fomos. Recusou a pensar no pagamento, pedi dois pastéis de nata,comemos, paguei, esqueceu-se de agradecer. Chuviscava.Na região moram colónias de estrangeiros. Alguns casais homossexuais.Constato uma grande abertura em conversas intimas com pessoas maduras.Estavam dois homens apreciar um prato com um galo, dizia um deles com ares de atrevido " eu comia-o agora com arroz", mote para se estabelecer conversa, respondi, foi o meu jantar...naquilo seguem,fica uma mulher magra vestida de cabedal,camisola leopardo,rugas vincadas na face e cabelo escorrido, vira-se para mim e diz "aquele que falou é viúvo, a mulher era linda, parecia uma atriz, está cheio de dinheiro,mas eu não o quero, ainda agora mandei um embora, batia-me, os meus filhos diziam-me " oh mãe o nosso pai nunca te bateu,este que não te é nada bate-te, é isto que queres?" ...a vontade de desabafar era tal que continuou, sabe era um maluco só queria sexo, de manhã, ao meio dia e à noite, já não tenho 20 anos, já fiz seis operações,havia dias que fugia de casa vinha para aqui onde tenho outra velha com uma televisão, é um homem antiquado da aldeia, muito ciumento, visto-me bem, nenhuma mulher da minha idade tem a minha apresentação e isso enfurece-o, julga que tenho amantes...
Confesso que já não a podia ouvir mais, dei meia volta,parei na banca do Sr. José, o chuvisco deu-lhe mote para começar a arrumar com a esposa, pergunta-me se conheço a infusa que tem na banca, respondi "olhe isto é recente tem coisa de 40 anos ou menos", abana a cabeça e diz-me "que estou enganada donde ela veio a dona já tinha a bonita idade de 80 anos,era da mãe dela"...rápida reflexão, "Sr. José, lamento decepciona-lo, a velha enganou-o..." o pobre homem ficou vermelho de raiva, tive o cuidado de explicar que as infusas antigas tem frete em redondo e a dele é de fundo raso igual às que se faziam nas Caldas, Barcelos e,...para não falar na decoração, no vidrado e no feitio da asa...o bom homem agradeceu a minha gentileza e franqueza e avisa-me na sua banca estão clientes vá lá, fui, estava um casal na conversa fiada com o meu marido,julgava que lhe compravam uma terrina, quando viram a marca francesa, desistiram, coisa de iletrice, no século XIX em casas nobres havia baixelas e porcelanas estrangeiras, cujos motivos decorativos foram copiados à posterior pela Vista Alegre, Sacavém e outras fábricas.Falaram muito do que tem, 3 casas e do recheio. O que deu para perceber é que compram super baratinho, o senhor sabe restaurar as peças, uma mais valia. No caso estiveram na véspera também na Figueira, compraram uma terrina de faiança de Coimbra que eu vi e não apreciei, por a achar grosseira, a qual lhe faltava um bocado de lado, adquirindo-a por 7€. Dada. Na mesma banca apressei-me em relação a um casal que queria apreçar um prato de faiança de Coimbra gateado, quando me disse custar 2 € não hesitei, ainda lhe comprei duas tampas de terrinas sem a pega por 2,50€ cada, uma Miragaia e outra de Coimbra motivo casario.Curioso foi atestar que esse casal ao dar mais uma volta na feira reconhece o prato postado no chão da minha banca, perguntam o preço, atenta aliado ao meu poder de observação fantástico respondi" não é para venda, é para mim, só aqui o pus para não se partir...de fato já o deixei pendurado com honras na parede da minha sala da lareira ao lado de uma palangana também Coimbrã.

Arrumei a banca enquanto o diabo esfregou um olho. A sandes de leitão que o meu marido me trouxe fumegava no ar, a vontade de a saborear em casa foi peremptória, apesar de uma colega se chegar e dizer-me "não se vá embora, ainda vem mais gente daqui a pouco"...

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