quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ensaio de romance na magia das velharias - IV capítulo

Passei umas mini férias na província extenuantes, duas feiras e trabalhos domésticos nas duas casas, sobretudo na rural, 3 dias, dormi dois.Acredito que foi a 1ª vez que senti o meu marido bem disposto em trabalhos de ruralidade apesar de ser a todo momento comandado por mim.Desculpem a franqueza, é lento a pensar, a agir, ora o dia é curto, às cinco começa a anoitecer, de manhã está frio,o melhor é administrar o tempo com as atividades previamente programadas.Vezes que tive de lhe gritar, sobretudo quando ficava pasmado de forquilha na mão a pensar não sei no quê.Portou-se bem com a máquina, cortou silvas e giestas, até um eucalipto que tinha mandado plantar,lastimava-se..."com medo que eu o recriminasse "descansei-o com a dica, agora rebenta com mais força e mais rebentos.

Dia Santo de Nossa Senhora. O trabalho tinha de continuar a ser feito, o meu primo Zé Lucas passou em corrida lenta no seu carro de luxo preto para ir buscar uma vizinha do pai para juntos irem à missa. Subi às árvores na Cabreira acima da estrada na frente da casa, um pequeno quintal com um poço e muitas árvores de fruto. Fartei-me de podar e de cortar com o serrote:figueira, pereira, macieiras, pereiros, pessegueiro, oliveiras e o castanheiro, à noite nem sentia os pulsos.Fizemos borralheiras antigas, de manhã abertas para secar ao sol,num instante o lume alastrou-se na erva verde do quintal, parecia uma queimada nas Áfricas, o meu marido assustado gritava comigo, eu descansava-o "não te preocupes, sou filha de bombeiro, tenho aqui um ramo de oliveira para abafar as labaredas" o pior é que num repente alastrou demais, a laranjeira já estava envolta em chamas, confesso que me assustei, julguei que não seria capaz de o apagar,após as minhas incessantes batidelas com o ramo, reacendia, valeu a ajuda dele,trouxe um caldeiro de água,o fogo extinguiu-se, vi a coisa mal entornada! Podei o parreiral,em abono da verdade ele não sabe, corta tudo a heito, no caso até podia, já não se colhem mais uvas, é só para embelezar, no pior apanhei as vides enormes, torci-as, ajustei-as nas novas borralheiras que na verdade ficaram para no natal arderem...não é tarefa nada fácil.Ainda transplantámos 2 árvores: uma ameixeira Rainha Cláudia e uma nogueira, as únicas resistentes num talho que em tempos teimei fazer de pomar...

Sabe bem cozinhar à lareira, pelo meio da manhã acender o lume, habituei-o a ir tomando conta,a chegar as cavacas, a ir busca-las ao barracão. Os homens devem saber fazer as mesmas coisas que uma mulher numa casa,e não ficarem aborrecidos por farruscar as mãos.
Silêncio, noites de lua cheia, só ao anoitecer se ouviram ruídos de animais.
Antes de fechar a porta , um bom banho, água a escaldar como gosto. Jantar na cozinha, mal dava conta de a ter arrumada ia para a sala ouvir música, sentada no sofá sob a luz do candeeiro de pé peguei num livro do Visconde Almeida Garrett de 1889 Viagens...o problema é o português, tantas alterações depois dessa época desisti de ler acaso amanhã não saberia mais escrever...o meu marido foi-se deitar na cama de ferro, também não convinha demorar-me, o quarto é pequeno,o meu lado sendo o encostado à parede tinha de saltar por cima dele,acordá-lo não era de todo satisfação, ainda por cima ia às cegas, o interruptor é na porta da entrada do quarto,o outro de maçaneta está avariado pregado na parede mesmo ao meu lado sem serventia...ele deveria ter escolhido ser electricista na vez de mecânico, tinha muito mais valia! Dormi bem, bom colchão e o cobertor de papa às riscas da Guarda com rabinhos de lã torcidos na franja,sobre a parede um quadro quiçá pintado por Maluda, restaurado por mim que encontrei um dia no lixo no Brejão, na parede da frente no cabide uma camisa de estoupa tamanho Xxl,monograma no peito a vermelho comprada na feira da ladra a uma vendedeira do norte.Não há televisão, só rádio.O cansaço era tanto que nem dava para virar na cama, a coluna estava toda descadeirada.
Bom acordar, ainda de pijama beber uma cevada como em miúda, saborosa com torradas feitas na chapa como antigamente, bem a minha avó fazia-as na telha mourisca.

Tratei dos meus jardins,limpámos as valetas da estrada, entulhos,folhagem dos carvalhos,aproveitei como estrume para as flores.Remendámos uma beira no telhado com cimento,com o excesso, remendei a quina de um muro de xisto do jardim a norte, não fosse neta de pedreiro, ele não se ajeita. O que me custou mais foi limpar o sótão, baixo, julgava eu que o aspirava, debalde o botão do cano relaxado fechava-se e não puxava o lixo,nervosa e cansada não refleti, só no dia seguinte quando o meu marido parou para o analisar ou deitar no lixo é que se deu conta...optei por varre-lo com uma vassoura de cabo partido que a minha cunhada me deixou na herança. Quase 5 kg de pó, de lixo que entra pelas telhas,a última vez foi só há dois anos, o meu marido com a gambiarra iluminava o cenário de barrotes negros com 80 anos de fuligem que a casa nunca teve chaminé.
Fiz o presépio, cabaça cortada, dentro dele uma peça única da sagrada família assinada pela Maria Sidónio, uma oferta com 30 anos ladeada por duas lamparinas em esmalte a condizer com a restante decoração,as faianças essas foram-se todas há dois anos, 5o contei eu!
Uma noite fizemos ao serão bricolage. Na feira da ladra comprei uma moldura sem vidro com cartão com cantinhos de triângulos em lata trabalhados com flores, custou-me um euro.Abri o caixote que serve de banco e de arrecadação noutro tempo por ser compartimentado servia para guardar o feijão branco, da velha, frade, grão e tremoços,tirei um vidro para a moldura, naquilo o meu marido ao retirar o cartão da mesma depara com o insólito;pelo avesso estava uma cartolina com os brasões em relevo das famílias Magalhães Fernandes- Fotografia Ibérica da Avª Liberdade, 100 Lisboa com uma foto de família um casal e a sua filha linda, de blusa branca às pintinhas,folhinho no decote com lacinhos e na meia manga, ainda uma flor, no colo pérolas. Ao canto a dedicatória:" 2 de setembro de 1941 - Aos meus queridos tios e madrinha oferecemos a nossa fotografia como prova da muita estima e amizade Georgina, Natércia e Viriato Cabral". Logo nos surgiu a ideia que a moldura foi oferecida com a foto,mais tarde foi reaproveitada para colocar outra, na vez de a deitarem fora a deixaram por trás...por isso quando a comprei não tinha o vidro, quem a vendeu quis tirar a foto que lá estava, um suposição credetícia!
Outra boa surpresa é que os cantos que pareciam ser em lata, são em prata.Lá ficou na parede juntamente com outras da família todas em molduras com cantinhos em lata e esta em prata.

Correria foi para deixar a casa limpa e regressar à outra casa, o meu marido não queria sair de noite. Sai ás cinco em ponto. Lindo, lindo, o pôr do sol ao alto da Ameixeira, dos mais bonitos que jamais aqui vi, a escafuder-se lá para os lados do Vale da Vide, tons vermelhos quentes a puxar pelo sangue, a fervilhar nas veias, a pedir reboliço...o jantar vinha feito.O jeito foi arrumar o que me faltava.Consegui que o meu marido me agraciasse com mais uns pregos nas paredes,alterei a disposição das peças de Cantão Popular na sala da lareira.Amei contempla-las, sentada no puf sob o calor da lareira a ouvir Pedro Abrunhosa delirei!

Inicialmente tinha na ideia fazer a feira de Tomar,até tinha dito ao Ricardo Ferreira que iria, ele passaria por lá ia buscar a sua mãe a Cernache.O tempo de sábado chuvoso alterou esta vontade, decidi fazer a de Azeitão, telefonei à Lila se queria ir, disse que sim.

Acordei com o céu cinzento.Mal chegada deparei que havia espaço para fazer a banca, Lila por viver mais perto já me esperava.Ficámos juntas, um hábito recorrente.
Ansiosa estava para saber o andamento da sua recente amizade.
Mal o meu marido sai para dar uma volta senti nela uma vontade desenfreada de me contar os hábitos de Adriano; às 20,00 horas bebe um chá com uma torrada, deixa o apetite para o almoço do dia seguinte.
Facto que a ela lhe pareceu muito interessante,até que deveria fazer o mesmo, mas como tem de fazer o jantar por causa do marido, acaba por comer mais do que devia,se vivesse sozinha faria igual a ele, melhor no inverno comia uma boa sopinha quentinha.
Adriano responde-lhe, " mas é casada? reparei que não usava aliança...também não está muito mal, pode comer, não tem nenhuma gordura em exagero"
Lila argumenta " sim sou casada, aliança não uso há anos, depois que fiz as bodas de prata, os dedos começaram a inchar,desabituei-me, em relação à gordura tenho sim,escondidita,depois da menopausa e dos problemas psicológicos adquiridos com a fatalidade que se apoderou da minha vida aos 47 anos, engordei, estou a tentar estabilizar a precisar de ginástica localizada"
Adriano diz-lhe " gostei do que vi e senti em si, caso contrário nunca me tinha declarado na rua a si,quando a seduzi pensei que houvesse caminho livre para nos encontramos a viver juntos...quer-me fazer pensar que de facto está gorda, mas não é verdade, está um pouco cheinha"
Lila ignora a investida da 2ª sedução e remata "pois estou, agora no inverno ainda é pior,de verão depois do jantar costumo sair fazer caminhadas, tenho de alterar para a parte da manhã"
Adriano aproveita o ensejo " não sou massagista profissional, mas sei como se faz, caminho todos os dias 5 km...se eu mexer no seu corpo uns tempos, ele fica magnífico, porque você tem um corpo interessante, assim como os lábios e os olhos, e tem uma forma expressiva muito sensual, talvez apagada por algum sofrimento..."
Lila, fica sem fôlego e diz-lhe " por isso é detentor de uma silhueta invejável para a sua bonita idade, que se não a soubesse,diria que tem 53 anos"
Adriano responde " adorei esse elogio, a menina mima muito as pessoas, tem bom coração, agora vou sair para o meu chá, vou ao Casino Estoril ouvir uma música e beber um café depois das 23,00 horas estarei aqui, faz-me companhia?"
Lila desculpa-se, não vai poder estar,deseja-lhe que tome um bom chá relaxante que se deixe encantar com o ambiente,deslumbrar com mulheres bonitas que passeiam nos corredores, que se abra, respire prazeres e endereça votos de uma muito boa noite com muitos bons sonhos"
Adriano diz-lhe "vou com certeza, pensar em coisas boas, (vou pensar em si), e não me admiro que não vá sonhar consigo, para ver uma mulher bonita, não preciso ir ao casino, vi-a ontem a si na Costa"
Lila embaraçada remata "é um poeta, não é casado?
Adriano responde "eu não sou bem casado, falaremos depois desse assunto, sou tão livre como um passarinho e alegre, se fosse de braço dado comigo, e me acompanhasse no meu chá, e ouvisse musica comigo, já não a deixava dizer-me adeus, não a deixava partir...
Lila, despede-se,fique-se com esta,é um romântico, estou estarrecida...
Adriano continua " vou mesmo sair, muitos beijinhos, se estivesse agora aqui, dava-lhos directamente, não me admira nada que esta noite vá sonhar consigo...
Lila diz-lhe "ainda aqui estou, vou ter de me ausentar para fazer o jantar
Adriano diz " minha querida, agora digo eu, que pena ! Agora ia sem pensar dizer, meu amor
Lila responde " bem,deve ser resquícios do telefonema que acabou de fazer com a sua filha, lembrou-se de eu assim ter chamado à minha quando lhe pedi licença para a atender na Costa
Adriano remata " poderá ser, imaginemos que sim"

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