segunda-feira, 5 de março de 2012

Vou dar uma volta, guarde ai, mas se a vender melhor ...

A gripe  manteve-me presa em casa uma semana. Farta de tédio melhorei ao achar que tinha forças para fazer a feira de velharias de Setúbal.  
Havia muitos vendedores eventuais, a indecisão onde abancar remeteu-me para um lugar de frontaria, estratégico de grande passagem. As fiscais apareceram por volta das 11 horas, uma delas de "pelo na venta" disse-me logo que tinha de mudar de lugar.Não discuto com mulheres, nem podia, corria o risco de ficar sem voz, uma das minhas fragilidades com gripe.Com a ajuda do meu marido mudamos a banca em "dois tempos". A meio da manhã dei de caras com o ladrão de sotaque brasuca que me roubou a carteira há um mês, passava em frente da minha banca, fitei-o, ele reconheceu-me também, seguiu em frente, altivo, seguro, como se nada tivesse de mau acontecido - ladrão, balbuciei baixinho...Um dos colegas, o Rui, rapaz novo, malandreco, uma vez na feira da Costa, apreçava eu uma peça, tirou-ma da mão para ficar com ela, como se nada fosse, dois dias depois demos de frente na feira de Ferragudo, senti que ficou baralhado ao reconhecer-me, quando me perguntava o preço de uma jarrinha, respondi "custa 10€ e é barata como sabe"...
Uma senhora de cabelos alvos pegou na ferradura prostrada no estaminé, faminta de conversa  falava, falava "que nunca tinha visto uma igual com os buraquinhos de lado", respondia eu "esta está em bom estado, foi pouco usada e os buracos dos cravos dão-lhe a graciosidade que fala". Insistia ela " mas para dar sorte deve ser oferecida", respondi, "pois, acredito que sim, mas será(?), isso era dantes,hoje não se dá importância a esses presságios do passado e depois oferecer não posso, também a comprei". A mulher não desarmava, esfomeada de conversa, falou da casa, do quintal, da crise e, até da pulseira comprada nos chineses para cortar o mau olhado.Teimava saber como deveria expor a ferradura na parede de sua casa. Depois das hipóteses de " a por virada para baixo ou para cima, lembrei-me de lhe falar em a ornamentar com uma fita de seda  laranja contra a inveja, com um laço ao centro para tapar a cabeça do prego na parede...gostou da ideia, não gostou da cor laranja, nada mesmo, falei em branca, não se calava"o meu pai tinha-a atrás da porta da cozinha contra as bruxas"....
  • Já deitava fumo pelas orelhas, a mulher cansou-me,grande massacre, aliviada com a notita no bolso!
Houve outra que largou os sacos das compras a meio caminho, procurava por um livro sobre os sonhos. Arrebatei um da banca que falava de sonhos...não sei se seriam dos mesmos que ela sonhou...Contente demonstrou ficar por ter na mão um livro novo, a 2€, disse-me" na livraria são muito caros".
Uma senhora aprecia o bule de Sacavém, acaba por dizer que gostava de ter uma infusa verde das Caldas como havia em casa da sua avó.Prometi  trazer na próxima feira.
Curiosamente apareceram alguns chineses.Só reconhecem a loiça por semelhança, de porcelana nada parece saberem. Nem porcelana de Macau, perante tanta ignorância disse um " quando a China foi descoberta pelos portugueses, ingleses e holandeses, começou a expansão da vossa rica porcelana  para a Europa, dela nenhum exemplar ficava no vosso país, era tão grande a exportação,vinham navios carregados denominados " Companhia das Índias"....depois de gastar o meu latim, vira-se para mim e disse é Japan...Balbuciei para dentro " Japan és tu meu querico de merda d'olhos em bico"...
O colega da minha esquerda, velhote de calças rotas entre pernas era simpático,olhava para a minha banca e dizia " tem coisas muito boas e bonitas, devia fazer as feiras da Linha onde aparecem os turistas, vendia tudo"...naquilo encontra um saquito deixado no banco de jardim, pergunta se é meu, respondi que não, abre, vê bugiganga, abotoa-se com ele na falsa esperança de poder vir a  ter bom proveito.
Chega um homem com dois sacos cheios de livros, pára junto a mim "vizinha não quer comprar livros?", respondi que não estava interessada, por fim ele diz-me "não me dá 3 €, respondi vá ali adiante, o colega fica com eles...
Aparece uma mulher com um saco de papel da Zara com dois tapetes que se usaram há 40 anos , aveludados, a minha mãe comprou um conjunto ao marinheiro que os trouxe das Canárias.Velhos, gastos, sem franjas que rejeitei, o colega do lado também. Passado um bocado via-a chegar do outro lado da feira com uma moeda na mão, tinha vendido a piada é que a dá a um homem que por ela esperava sentado no banco...
  •  Cumprimenta-me o Sr Engº, um homem amante de faianças, perguntou o preço de uma travessa inglesa em tom azul.Só gosta de comprar barato,apregoei a travessa com desconto, mesmo assim disse-me "vou dar uma volta, guarde ai, mas se a vender melhor"...
Apareceu de tarde acompanhado pela esposa. Ela não gostou da travessa, achou-a em mau estado.Simpática disse-me "vim para a conhecer, o meu marido falou-me muito bem de si".
  • Saíram umas peças e uns livros.Podia ter sido melhor, mas também podia ser pior!
Fiel companheiro o meu chapéu de palhinha, protegeu-me do sol e o saco do farnel aliviou a minha parca fome.Estreei a minha bancada, gostei, só penso comprar outra igual para duplicar o estaminé!

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