segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Foi-se o verão!

Estranhamente sinto uma agonia que  invade o meu estar. O verão quente passou -, com ele os dias foram-se aos trambolhões a fazer coisas, e nadas - por aqui, pelo norte, e  faldas de Sicó. Outros tive no passado, que me marcaram pela negativa muito mais. O tempo tudo esquece, só o presente e o futuro deverá ser a esperança de melhores dias - que mereço!
Voltei a Tomar num dia de calor para fazer a feira de velharias, o organizador Sr Humberto Calado de cabelos alvos e cruz dos Templários ao pescoço concedeu-me a gentileza do costume na trivial e sábia conversa de homem sedutor e do conhecimento.
Montei a banca ao meu lado de um colega novo - Joaquim - homem na casa dos quarenta com um filhote de 14 anitos - a quem a vida não sorriu pelo lado da esposa - divorciado teve o azar de ver assaltada a sua loja de bicicletas em Leiria -, parecia um saltimbanco sempre a deambular pelas bancas dos colegas com a cegueira das compras esquecendo o mote da verdadeira intenção - vender - nada vendeu ,exceção a mim já em final de dia que lhe comprei duas canecas pertença de uma avó do Fárrio - aldeia castiça, antiga, à borda da estrada real a caminho de Ourém na freguesia da Freixianda que conheço tão bem - no rebate da igreja degustei o farnel a caminho de Fátima com o meu marido em 2002 na nossa peregrinação...cumprir uma promessa minha feita na infância - ao chegar ao destino, com o intuito da oferecer na Capelinha das Aparições fácil foi dar-me conta da infantilidade do pedido!
Caneca bojuda às listas em azul - a outra é normal
 Logo de manhã apareceu um freguês - rapaz de traço moreno, olhar  forte a reivindicar herança mourisca, cabelo escorrido bem luzidio, e negro - meu velho conhecido, geralmente de mão dada com um filhote com meia dúzia de anos, compra peças muito baratas - naperons, biblots e,...haveria de o voltar a ver também na feira de Torres Novas onde na minha banca enfeirou um segundo naperon de crochet cor de salmão feito pela minha sogra - sobre ele, ainda me deu de resposta "deixei-o ficar em Tomar, em casa a minha mulher disse-me...devias ter trazido também o outro..."desta vez vinha a família completa - apreçava no estaminé prostrado no chão a preços de saldo uma infinidade de peças, já não me lembro da que levou - só me recordo de me pedir desconto com a retórica - já sou cliente...nisto eu disse-lhe  - não quer levar naperons? - resposta escorreita - "já comprei muitos..."
A feira correu-me de feição - vendi muito "lixo" - umas turistas emigrantes com dinheiro enrolado na bolsinha de segredo da carteira se encantaram com umas chávenas  - estava farta delas - vá lá entender-se o gosto de cada um...
Reencontrei um colega que vi na minha primeira feira em Figueiró dos Vinhos - obeso, de olhar grande clarete, e personalidade forte - marcou-me nessa altura pela mostra de bules de caldo em faiança de Coimbra que me disse serem da sua coleção... quatro anos após soube a verdadeira origem - roubo perpetuado à companheira que com ele vivia - pelo dizer de colegas que os conheceram noutros tempos - maltratava abusivamente, e até considerado de má índole, apesar dos estudos académicos ...dele também não simpatizei nada - diria antipático, hostil no trato com preços exorbitantes, apesar de boas peças - havia um prato de grandes dimensões -logo o reconheci , o tinha visto numa das feiras da Linha - esmalte escuro, bordadura manganês geométrica, ao centro duas figuras em azul - uma peça rara de faiança de Coimbra pelo desenho pelo qual pedia 90€ - disse-lhe -  tenho a certeza que já o vi, naquilo fez-se luz com a conversa que me deu " fui enganado, vinha restaurado, com a minha mania de os lavar começou a descascar" - o prato apresentava-se de rebordo esbeiçado, e ainda um grande "cabelo" de alto a baixo ...pedia exatamente o valor que tinha dado por ele...mázinha, disse-lhe - "não me diga que o comprou ao cigano ?...toquei-lhe no ponto fraco - "você conhece-o?" - claro que sim, ainda a semana passada estive com ele em Algés, até lhe pedi para fotografar umas peças...tinha outros belos pratos do norte, e ainda outros apenas com um "M" ao centro em azul, e filete igual na aba a 15 €,  podia ter trazido um...voltaria mais tarde à sua banca - sentado de encosto à parede do café reparei no  seu humor sarcástico, e azedo por só ter faturado 15€ com umas malgas de Sacavém...entre dentes estrebuchava fiz 300 quilómetros...o colega que estava ao lado que conheço e não sei o nome, mais acessível a quem em tempos comprei uma compoteira ou açucareiro, e deixei um galheteiro - bem triste me senti...ainda quis ajudar no negócio do tal prato a quem ofereci 70€  - mostrou-se irredutível  - não mo vendeu, e na conversa  da discussão de outros pratos do norte ainda diz para o outro entre dentes em tom de mal disposto " ando nisto há 16 anos, o que aprendi e sei não o divulgo em 5 ou 10 minutos a qualquer um - ficavam a saber tanto ou mais do que eu...seria tolo..." pois eu adoro partilhar tudo o que sei!

Decididamente, o homem além de obeso é um mau carater - nem coberto de ouro volto a olhar para ele, só pecarei no caso de alguma peça me chamar, claro, no caso nem hesito em pecar, porque confissão para absolvição é coisa que deixei de praticar na adolescência!
Comprei umas coisitas giras...



 Par de pássaros em policromia cromática.Não estão marcados mas a pincelada não deixa margem de dúvida. Trata-se de fabrico de Alcobaça - OAL
Muito baratos - estavam na banca à minha frente e demorei tempo a dar-lhes atenção...pois, só penso em pratos...e não devia!
Caixa de guardar escovas de dentes - possivelmente Alcântara?
Ainda comprei uma mostardeira sem tampa redonda com a marca "Cintra" possivelmente Sacavém.
Foi uma boa feira - aliviei a carga de transporte. Deixei Tomar num fim de tarde soalheiro de luz luminosa e folhas nas árvores a amarelecer numa de chamar o outono mais cedo.

Ainda haveria de fazer a feira de Pombal no sábado seguinte.
O Joaquim, desta feita veio sozinho, já montava o estaminé. Cumprimentei o Sr Daniel que conversava com o Sr Pardal um homem de Almoster a quem comprou mercadoria barata, e a vi vender por 4 vezes mais - no caso uma máquina de escrever preta pequena comprada por 10 e vendida por 50... o pobre Pardal de sorriso escorreito ainda me dizia..."veja lá como sou bom negociante, na minha cara a vendeu por..." , quanto a mim pediu-me por um penico branco de Massarelos 30€, e por um açucareiro de almerce ( em barro vidrado usado para amornar o leite para fazer o queijo) 15 €...no final de feira ao arrumar o carro pega nas peças, e mas entrega com a retórica " dê cá 10€ ..." nisto aparece uma senhora de Melgaço -, andava com a filha a passear, encantou-se com o penico que era para mim, pedi 15 € - não se fez rogada, o levou das minhas mãos...era gracioso!
Logo ao chegar de manhã tive uma conversa azeda com um casal de má aura que se assumiam como eleitos para ocupação do lugar - quando eu tive o cuidado de perguntar antes, se o poderia fazer. A mulher seguramente pior do que ele, que sendo alto a barriga redonda saia-lhe arrebitada qual gravidez em final de tempo, e a te-shirt não acompanhava, sendo as calças vermelhas e o chapéu na cabeça conferia-lhe um ar de "gabiru"...a mulher de corpo sem formas vestida em " saco de batatas" e pára quedas salientes tinha "más trombas" afoita, e atrevida no retirar apressadamente do carro as bancas e caixotes sem pejo de colidir com as minhas já no chão...
Tento evitar conflitos, porque se me enervo sou do Katano - assim , remediei-me pondo na borda do canteiro relvado a minha banca - sorte a minha que enfeirei quase o mesmo de Tomar enquanto ela para se estrear a vi pedir por uma moldura em estanho 10 €,  com trocas de conversa só  acabou por receber 4€ , e por um pisa papéis com laivos coloridos em vidro o deu quase dado com a retórica ao cliente - "se o meu marido sabe que o vendi por este preço, mata-me"...pessoas de fé diriam Deus existe!

Comprei este bidé em esmalte ao Miguel
Este vou ter de o pintar...guardador de pedras






 Travei conhecimento com um rapaz muito novo - o Miguel, simpático a quem comprei um bidé em suporte de ferro e bacia em esmalte - uma peça que havia tempos que desejava adquirir - deixei-o aos pés do meu oratório cheio de pedras...sou doida por elas! Veio - me trazer um prato em cerâmica que mais parecia um chapéu mexicano com dois cones para assar frango ou peru dai o tamanho diferenciado deles - por um euro...novo em folha - claro que fiquei com ele pela simpatia e pela conversa.Havia de aparecer um homem de rabo de cavalo e chapéu de aba curta pelos cumprimentos trocados percebi ser um fiel apreciador da feira e comprador, ao apreciar uma jarra disse-me " já viu que está assinada V ?"trata-se de uma jarra Art Decó com desenho marmoriado em laivos brancos e cinzentos e assinada de Viana do Castelo - claro que ficou na minha casa!
AssinadaV
Quem haveria de voltar a encontrar  por aqui - um casal muito simpático amante da loiça de Sacavém a quem vendi um jarro branco de bojo canelado  - o ano passado travei conhecimento com eles em Miranda do Corvo - Profª  Esmeraldina e o esposo Fernando.

Montei na casa rural a cristaleira comprada em 2ª mão- voltei a insistir, e não devia - então não sei dos assaltos? Mas o desejo foi brutal!
Além dos copos de cristal tem outras peças bonitas mas desenganem-se estão bosteladas - a pensar exatamente nos roubos - enfeitam apenas!

Loiça escorrida das Caldas:cântaro, escarrador  e candeia em esmalte, cabaz de verga, arca de choupo e cabaça transformada em presépio
Quartido da minha Princesa

Apesar do buliço, frenesim das feiras, e dos contatos que vou estabelecendo  sinto tristeza dentro de mim, uma solidão por falta - muitas faltas - no prazer de voltar a sentir o afagar dos meus cabelos, de vibrar com o brilho inocente  do teu olhar e de voltar a sentir o  respirar ofegante que o calor desencadeia mais que o frio do inverno!
Não vês a minha cara de insatisfação!!!!

2 comentários:

  1. Minha querida amiga, não fugi ...que bom voltar a ler-te.

    Beijinhos

    ResponderExcluir
  2. Querida Ana - quanta saudade. O que é feito de ti amiga?
    Amei saber que voltaste a ler-me...sabes que gosto de te sentir por aqui, a tua escrita quando sai?
    Espero que estejas feliz!
    Beijinhosss
    Isabel

    ResponderExcluir

Seguidores

Arquivo do blog