quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Passado profissional em histórias de viajar no tempo...

Através das novas tecnologias tem sido possível o reencontro com pessoas que fizeram parte do meu passado profissional. Desta vez foram os "cacos" - a cumplicidade pelo gosto do romano, das pedras afeiçoadas do neolítico -, material lítico, também pelo gosto da fotografia - desta feita um antigo colega -  Chefe de Seção do SottoMayor que me deixou completamente extasiada pelo seu alto grau de conhecimento, sobretudo pela fluidez da sua escrita que me encantou, pela disponibilidade em me ajudar na catalogação dos meus achados "cacos antigos" e ainda mais -, pelo carinho demonstrado e oferta de hospitalidade  - um gentlmen. Cariz que ainda me lembro muito bem, já lá vão 30 anos , homem de estatura alta e elegante, sóbria, olhar claro, voz de líder, cultura enciclopédica, atento, justiceiro e sobretudo cavalheiro.
Demorei mais de dois dias a tirar da gaveta recordações de momentos marcantes desse tempo de antanho...Seria setembro e vestia seda -, o segundo fato do meu casamento, nas mãos levava trémula a carta de apresentação que deveria entregar no 1º andar da Rua do Ouro, na  então Sede do Banco Pinto e Sotto Mayor onde funcionavam três seções: Responsabilidades; Descontos e Garantias . Ao sair do elevador deu-me para virar para a esquerda, depois de passar as casas de banho vi na frente um colega, já não me lembro do nome - sinto ainda a fisionomia , com quem travei conversa explicando o motivo da minha vinda  e nisto apareceu um senhor alto, de bom porte e  rápido pensar, ao ouvir-me não hesitou em dizer " ela vai trabalhar comigo" e assim foi. 
Fiquei integrada na seção de Descontos onde era Chefe de Seção e dele recordo ter recebido o  1º elogio...Ao atribuir-me uma secretária que tinha sido de outro colega reparei que a gaveta sob o comprido estava atulhada de lixo, até tinha uma chávena de café ,num tempo que ainda não havia máquinas  de café no banco, havia chaleira e cafeteira. Bem deu-me para tirar tudo da gaveta para cima do tampo, fiz escolhas de lixo, e  do essencial, e de novo a arrumei  -, na reunião em final de tarde diz a todos 
" vejam como a Isabel é organizada e metódica a primeira coisa que fez foi limpar a gaveta ..." 
Haveria de haver um arrufo por causa de uma promoção à Rosário, que não concordei - senti-me injustiçada e com substancial razão -, sendo intempestiva, de imediato tive a intenção de solicitar a transferência...Ele no seu jeito calmo e atento, chamou-me à razão para apelar ao meu bom senso, pensando melhor, alegando que nas agências o trabalho era demais ...Outra vez ao passar por mim no corredor a caminho do gabinete do Chefe de Serviços, Sr Martinho onde fazia arquivo,  disse-me "agora precisa de óculos parece uma professora"...Seriam horrorosos, em massa, castanho claro, num ápice os larguei...

Nas últimas arrumações da minha escrivaninha julgo deitei fora papelada que não devia - já me dei conta disso, havia  uma carta com a aprovação ao abrigo da NG6 -, um dia de folga à borla, assinada por si, com a rubrica em formato deitado tipo "L" que tanto me fascinava  e haveria mais tarde de dar o mesmo toque de graciosidade na minha.  
Temos a mesma paixão clubística pelo Sporting e pelas touradas. Diferenças apenas na política ? -, nesses tempos de antanho -, novata com 22  anitos, ingénua, disso ainda hoje existem resquícios, sem maldade, adorava atazanar o ambiente  na maioria composto por senhoras a rondar os 30 e acima , algumas vaidosas gostavam de  ostentar o  crachá na lapela dum determinado partido, já eu para destabilizar jogava no contra ...Sempre adorei picardias, este meu jeito de criança, que de mim nunca saiu, e julgo o serei até morrer -, dei comigo a colar autocolantes de todas as cores políticas no meu porta canetas...Um belo dia o vi a pegar nele rodando na mão para descobrir a minha cor política... A verdade é que na altura não era simpatizante do partido da maioria da seção porque ainda sentia uma grande mágoa por ter iniciado a minha atividade profissional nos Correios em Coimbra,  como assalariada a prazo "regime do governo" do Dr Mário Soares penalizante pela instabilidade para pessoas como eu que gostam de segurança, no caso já tinha adquirido casa a crédito a uma taxa de 15% na CGD, mas não me atrevia a constituir  família . Não que tenha lamentações em termos da entidade patronal - nada disso - se houve gente que me acarinhou na minha vida profissional, que foram : pai, mãe, irmão, madrinha , me ajudaram de todas as maneiras possíveis e imaginárias, defendiam, e adoravam  - foi nos TLP em Coimbra. 
Boas recordações de todos, do gesto gigantesco da minha chefia que não funcionava no edifício,  sabendo da minha árdua vida - casada a trabalhar longe de casa, um belo dia telefona-me e diz-me - "Isabel marquei entrevista nos TLP no Areeiro com o administrador Dr... para a menina ir trabalhar para Lisboa"...Sem palavras tal a emoção - nunca lhe pedi nem alvitrei rigorosamente nada . Ao chegar ainda vi a ambulância que o havia de levar acometido de um grave problema cardíaco ...Azar!
Voltei a Coimbra, sabendo que o contrato não ia ser renovado por completar três anos, e por lei não ser possível nova renovação pelo que solicitei a rescisão do contrato, candidatando-me a novo trabalho na mesma instituição em Lisboa no verão para substituir colegas em  férias a grande possibilidade.
Deixei Coimbra a minha terra que me viu nascer, na cidade deixei gente boa, com quem muito aprendi,de alto gabarito, deles guardo o pergaminho feito com duas folhas A4 cruzado por guita e lacrado nos cruzamentos...

                    À Isabel
"Oferecem-te este riquíssimo pergaminho para te recordares dos colegas muito amigos que deixaste na Lusa Atenas aos 03.06.1980
Ao deixares Coimbra, os teus colegas desejam-te as maiores felicidades, esperam que jamais os esqueças.
Com elevados abraços
Branca Maria Teixeira Pires
José Augusto Seixas
Maria de Lourdes "
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Corria o mês de junho quando  recebi um  telegrama a solicitar a minha comparência no Terreiro do Paço em referência ao concurso a que me habilitara. Uma odisseia e pêras...Apresentei-me no 1º andar, atenta a funcionária dos recursos humanos diz-me - "mas não pode assinar contrato a senhora acabou de rescindir na mesma empresa em Coimbra"
Respondi "saiba a senhora que assim é verdade, rescindi dia 3,  mas ontem dia 4 dia da Rainha Santa, feriado na cidade, nenhuma entidade patronal me pagou pelo que posso celebrar novo contrato com a instituição". 
Não gostou do meu jeito atrevido e convicto e quis "lixar-me" dizendo que iria trabalhar para Arroios - que nem sabia onde ficava . De novo a instiguei  perguntando onde era , e que tipo de serviço iria fazer.
Responde " é trabalho por turnos"...
Voltei a insistir  lamentando-me que morava no Feijó, na outra banda fazendo uso dos transportes, sendo que às 4 da manhã não os há, e depois àquela hora a que não estava habituada a andar sozinha pelas ruas...Atrapalhada me vi a implorar -, coisa que odeio fazer ...
Deus existe e, eis que vejo outra colega a acenar-me com a cabeça  que logo entendi que deveria recusar, e assim fiz...
Disse-me então, vai para a 24 de julho ...E logo se fez um eco na minha cabeça, a minha mãe já lá tinha trabalhado quando esteve grávida de mim, e claro aceitei de imediato. 
Sai apressada para apanhar o eléctrico, foi um festival para atravessar a avenida 24 de julho na altura de 4 faixas -, senti riscos de atropelamento...Vislumbrada fiquei a admirar o edifício com portadas em pedra de calcário de rasgo elegante em formato de ogiva tanto a meu gosto - , uma delas tinha sido amputada para abertura do portão  que se abria para dentro de portas para amplo barracão onde havia passadeiras de tapetes rolantes a abarrotar de encomendas de todos os tamanhos e feitios  "algumas com as entranhas a rebentar pelas costuras " no tempo tão mal acondicionadas, a maioria com destinatários e moradas insuficientes. Cargas e descargas no tapete rolante, algumas abriam-se, outras já vinham semi abertas , estoiradas das entranhas..Da Venezuela uma trazia roupa interior...Outras café, açúcar, papéis...
Desatino quando traziam azeite, vinho, líquidos, e se partiam... 
Vaivém e azáfama de encomendas de cartão, assustador...
O chefe,  homem de estatura baixa e de óculos de massa amarelos, maiores que a cara sentia orgasmos inteletuais, ao deslindar moradas insuficientes para fazer a entrega da encomenda ao destinatário...
No final do primeiro dia de trabalho pedi-lhe permissão para telefonar à minha mãe -, a emoção tomou conta de nós, ao relembrar do seu tempo de estada neste espaço, fugida da terra, por estar grávida e ser  solteira... 
Mas pior ia sendo...Corria o  risco de não entregar a papelada solicitada para entrar no SottoMayor. Feito exame e entrevista há mais de um ano, referente ao concurso que tinha concorrido em Coimbra, a missiva haveria de chegar a Ansião, num tempo que já não trabalhava em Coimbra, e sim em Lisboa. Foi a minha irmã, que avivou a minha mãe que deveria ser eu a decidir sobre a minha vida profissional. Na lógica a minha mãe estava feliz por saber que agora estava a trabalhar na capital já não precisava de ir para o Banco, só que se esquecia que uma coisa era ser assalariada e outra bem diferente a efetividade...
Ainda em tempo me disse dentro do limite do prazo. Foi uma correria para tratar da papelada solicitada e, de novo pedir permissão para sair mais cedo para a ir entregar ao Banco...O chefe pequenino de tamanho e óculos maiores que a cara, rosto caricato mas de grande homem, se mostra aflito e desata a falar" os bons funcionários vão-se logo embora, só fica gente imprestável, e ninguém percebe isto nesta empresa, como querem que vá para a frente?"
Cheguei à Seção de Pessoal  do Banco vestida de saia azul e blusa branca . 
Imediatamente a colega que me atendeu exclama " mas concorreu para Ansião"? 
Sem delongas lhe respondi "minha senhora para ficar efetiva vou para lá nem que seja por 5 anos "...deixa-me ao balcão e vai fazer uma chamada onde percebi que havia uma "cunha" de colega que não tinha passado no exame, mas acabou por ficar no meu lugar...De volta ao balcão diz-me" hoje é o seu dia de sorte, sem pedir nada vai ficar mesmo em Lisboa, entre para lhe fazer o cadastro, não se esqueça de hoje comprar a lotaria!"
Colocada na Seção de Carteira de Letras de ambiente pesado cheio de cofres enormes cinzentos, onde se guardavam  letras e livranças. Ambiente escuro, de gente estranha com 15 dias decidi pedir a transferência...Ouvi de soslaio alguém dizer por entre dentes" no meu tempo era obrigatório fazer prova de estenografia ? e era uma ano que se estava à prova", não amoleci, só com um dedo escrevi a carta à máquina. O chefe de Seção interpela-me o porquê do motivo - a que respondi "entrei para o Banco sem saber rigorosamente nada do vosso negócio, mas o facto de estar de  pé a pôr letras e livranças por ordem crescente por datas não é apelativo , antes canseira, e ainda pior é o picanço das mesmas nas listagens da Processa,quero aprender mais"...Com sorriso atrevido acrescentei, "este trabalho é para gente acomodada, não para mim" ...Mais tarde viria o chefe de Setor dizer-me "Isabel isto aqui não é mau, tem hipótese de subir com as promoções por mérito"...Sabia lá eu o que eram promoções, disso não me mostrei interessada e respondi " gosto de trabalhar, mas aqui não é ambiente para mim, olhe o Chefe de Serviços parece um polícia, quando se lembra de sair aparece a mãe de cabelos brancos para o substituir, fenómeno inusitado e estranho que não gosto, depois só o vejo a encher o cofre, como se fosse uma despensa: bolachas da Triunfo, refrigerantes, conservas que os armazenistas param à porta do Banco para descarregar, e no final do dia carrega para casa, ainda outro colega teve a "bicha solitária" logo a trouxe num grande frasco em álcool, causou-me tão mau estar que estive dois dias sem comer...Há ainda a dra flausina sem o ser , que entra muda e sai calada, chega de Jaguar e chauffer que de volta a leva, outro do Fogueteiro tem um andar esquisito, da boca nada fala, quando questionei a Filomena que me ensinava o serviço sobre ele diz -me em tom exclamativo " então a Isabel não sabe que é homossexual ?  ...Abanei a cabeça em sinal afirmativo...Ela continuou a falar "nunca o viu no dia do pagamento do ordenado a dar o dinheiro ao Vi....da Fontes ..." , fingi saber  e perceber, mas do assunto nada sabia, foi a 1ª vez que ouvi a palavra, só conhecia por outro nome, paneleiro,suposto fabrico de panelas de barro, o certo!....De fato era na altura muito crua!
Mas haviam outros cromos!
Entrei no Banco no dia 17 de junho de 80, honra seja feita ao Chefe de Serviços que falando comigo se mostrou de imediato interessado que fosse fazer o exame a Coimbra do 7º ano, que andava a frequentar à noite em Coimbra. Não aproveitei, por achar não me fazer mais falta, e disso sei fiz mal. Ele bem insistiu comigo,só quis ajudar-me, eu na minha rebeldia de menina de nariz empinado ? Não acatei, não foi por mal , foi por humildade e força do trabalho, mal acabara de chegar ao serviço e custava-me logo faltar para fazer o exame, coisa que não se coaduna comigo. Assim haveria de ser em todo o tempo de 25 anos...
Sempre me pautei eximia e pontual, fora a licença do nado morto e gravidez, contam-se pelos dedos as ausências!
Mas no SottoMayor na Rua do Ouro senti haver um espírito de FAMÍLIA. Em momentos negros havia sempre gente  das chefias de cariz humano,e solidário, que defendia com "unhas e dentes" qualquer elemento da família que se visse "em maus lençóis" haveria de conhecer tantas estórias...Também havia risos e havia amizade, e interesse em saber dos filhos, das coisas do dia a dia -, porque intrigas e inveja há em todo o lado!
Situações menos agradáveis que constatei em tenra idade, ainda por cima vinda de uma vila da Beira Litoral nada habituada à miscelânea de gentes de todos os lados, com novas ideias e costumes,  a que tive alguma dificuldade em me adaptar, e ainda colegas vindos das ex-colónias revoltados e injustiçados.
Havia também um núcleo de gente que ficava com os "trunfos na manga" na passagem do serviço -, havia outras de malvadez intrínseca, outros que engoliam a fava do bolo de rei para não comprar o próximo que se comia pelo natal na Seção, outros de grande imposturice profissional faziam do serviço um "ai que nos acuda" com dossiers em cima da secretária dando uma dimensão medonda da dificuldade das tarefas adscritas...ZSei que perdi algumas noites só de pensar como seria no caso de polivalência ter de ocupar o posto de ...Fácil foi perceber que tudo era um engodo, mas isso só possível graças ao meu empenho, capacidade de  luta e sem " papas na língua" na defesa dos direitos e das injustiças,  em relação aos outros e raro pensar em mim . 
Valores que me valeriam muitas perdas!
Porque pessoas como eu simples, que partilham saberes e falam de tudo sem medo. só podem ter aliados e inimigos. 
Haveria de perder muito mais noutra instituição - BCP . Deste Banco nada recordo de bom. Onde vivi glórias, elogios e aplausos tamanha bebedeira de vaidade de louvores que me assolava, cega não enxergava a inveja que gravitava em meu redor!
Ajudei e valorizei gente que jamais me agradeceu. Sofri muito!
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Voltando ao feliz reencontro com o meu antigo chefe logo senti  o frenesim do dever em falar de mim e do tempo de interregno que a nossa amizade nos afastou...
Ao abrir o PC me deleito com uma citação que o R.S. me enviou muito a propósito:

"Um mestre do Oriente viu quando um escorpião se estava a afogar e decidiu tirá-lo da água - mas quando o fez - o escorpião picou-o. Pela reação da dor, o mestre soltou-o e o animal caiu de novo na água - estava a afogar-se.De novo o mestre o tenta tirar e novo e outra vez ele o pica. Alguém que o observava se aproxima do mestre e lhe diz:
- Desculpe, mas você é teimoso!Não entende que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele o vai picar? O mestre responde-lhe - a natureza do escorpião é picar - e isto não vai mudar a minha - que é ajudar.
Então com a ajuda de uma folha o mestre tirou o escorpião da água, salvando a sua vida, e continuou:
- Não mude a sua natureza se alguém lhe faz algum mal; apenas tome precauções.
Alguns perseguem a felicidade, outros a criam. Quando a vida lhe apresentar mil razões para chorar, mostre-lhe que tem mil e uma razões para sorrir.
Preocupe-se mais com a sua consciência do que com a sua reputação - porque a sua consciência é o que você é - e a sua reputação é o que os outros pensam de você."
E o que os outros pensam...é problema deles!

Palavras para quê!

Bem haja Rhodes Sérgio - o único chefe que recordo com boas memórias do SottoMayor.
Obrigado pelo carinho!
Ainda estou em êxtase com o nosso reencontro!

2 comentários:

  1. Amiga...adoro ler-te e saber destas tuas histórias que fazem parte da tua vida para sempre.

    Beijo

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  2. Olá querida Ana muito obrigada pelo teu comentário.
    Beijoss
    Isabel

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