quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A tradição da gastronomia e doçaria de Ansião

A prima do meu pai a Clementina Ruivo contou-me que o seu avô Elias do Alto, o meu bisavô, o cabeçalho na parede com chaves na foto foi da sua cama, além de capataz no Ribatejo pelas vindimas e apanha da azeitona, para se suprir tinha outro governo -,o trabalho de "coca", nome dado na safra ao homem das panelas-, o cozinheiro.
Vista de uma cozinha... 

Enfeirava ao arraial papas de milho simples em azeite, ou banha, em covilhetes ao rancho de "Ratinhos", havia dias que alternava com grelos se os houvesse nas hortas da lezíria . Tantas vezes via ranchos nos meus tempos de miúda juntos à beira da estrada com a arca de madeira -, homens e mulheres, humildes camponeses, pobres, na esperança do sustento em tempos de extrema pobreza, apesar da árdua labuta de sol a sol. 

Arca " de levar à vindima " da minha sogra usada durante anos a safras ao Ribatejo


As gentes perdiam os dentes cedo, as papas eram propícias a ser comidas simples, com mel ou como  sopas de pão na quentura da cevada com queijo curado amolecido.Apanhei esse gosto com a minha avô materna , a minha mãe não gosta nada...porque ela assim comia por ter só um dente! 

Quadro do Mestre Malhoa -,as papas de milho, pintado em 1898 com gentes da região

A alcunha “ ratinhos” advém destas deslocações sazonais das gentes das Beiras. Reza na história que a mesma consagração fosse dada também à faiança de Coimbra nesse tempo produzida para levarem para as safras de textura grosseira, cores fortes e muito barata. Os "ratinhos" levavam esta loiça nos seus haveres na arca de madeira de dois compartimentos, como a que mostrei acima: na parte maior iam batatas, cebolas, farinha de milho, massa meada, chouriça, morcela, toucinho, ossos em salmoura e feijão d'velha para a "sopa de carnes, sopa de carnes com couves, comer à moda da terra"  haveria de ficar nesta região ribatejana celebrizada por "sopa da pedra" e, na outra divisão levavam parca roupa.No final das ceifas pelo Alentejo, fosse pelas vindimas , monda, ou apanha da azeitona, fazia-se a festa das Adiafas...nada mais que um bailarico de roda na praça pública à luz do candeeiro a petróleo, gasómetro, candeia de azeite ou da fogueira ditada pela época: Natal, Entrudo, Santos Populares e Festas do orago da sua aldeia. Rapazes e raparigas solteiras davam azo à sua alegria, estrebuchavam entusiasmo , se divertiam a rir e a seduzir, o seu único modo de diversão naqueles tempos de forte tradição e conservadorismo - claro davam também azo a nascer namoricos.
Na hora de fazer contas havia quem trocasse a sua bacia de faiança por roupa usada com os donos da herdade, por haver muita falta de loiça no Alentejo naquele tempo.Outros simplesmente a abandonavam por ser barata. 
Faiança ratinha minha coleção

Hoje graças a bons colecionadores a "loiça Ratinha" está conservada em bons Museus e na casa de particulares, que adoram ter o seu próprio espaço museológico... 
Segundo alguns manuais sobre faiança, a primeira pessoa a reparar e valorizar esta loiça na década de 80 no século XIX foi o historiador Joaquim de Vasconcelos. Contudo, o primeiro colecionador deste tipo de faiança será o poeta e escritor José Régio (1901-1969) que andou com um criado a cavalo num burro pelos montes na região de Portalegre comprando a faiança a preço quase dado, além de Cristos pregados na Cruz e relógios - espólio patente no Museu de Portalegre com o seu nome a merecer visita para apreciarem a diversidade quer dos vários tamanhos da faiança quer da palete de cores extraordinária... Será secundado por António Capucho nascido em 1918. Em resumo devemos a todos estes senhores a valorização desta loiça que ainda há poucos anos era usada com fins menos dignos… Houve contudo mais tardiamente quem "copiasse" esta loiça-, Alcobaça e a fábrica da Viúva A. Oliveira em Coimbra, última olaria a encerrar portas na cidade no Terreiro da Erva. Covilhetes, pratos covos, galinheiros, frangueiros, lebreiros e,...no dizer popular das gentes pelo uso e servidão depois de velhos e esbeiçados até de aparar beiras de um telhado como um amigo encontrou um para os lados de Abrantes. 

Covilhete da minha coleção, o outro vendido à minha amiga Guilhermina. 



O Ti Bernardino -, tio em 2º grau do meu marido da Moita Redonda na frente da porta da cozinha no terreiro do chão tinha um lindo prato de Coimbra do século XIX motivo casario, raro, imundo com uma racha de alto a baixo do negro dos escolhidos para as galinhas que nele picavam, cheguei a ver um igual num antiquário da Sé -, o preço uma coisa do outro mundo… também de uma bacia no quintal da tia Zézita no Pereiro, no mesmo jeito de comedouro de frangos, pintos e galinhas… A loiça "ratinho" começou a ser fabricada a partir do início de 1800 de aspeto grosseira, pesada, em massa malagueira com um tardoz imperfeito, apresenta muitos buraquinhos e arrepiados no vidrado, cuja decoração se classifica:

Zoomórficos (pintura com animais) e Vegetalistas (pinturas com plantas e flores, muitas de linho) 

Geométricos que são os mais antigos e Figuras populares, masculinas e femininas 

Figuras fantásticas; Caricatura e Retratos. E falantes-, com palavras alusivas ao AMOR, versos, dedicatória, brindes, etc 

Num passado não muito remoto nas famílias mais humildes das aldeias não havia o hábito de se comer em pratos individuais. Fosse no almoço, janta ou ceia, usava-se um grande prato, geralmente oferenda de casamento com queijos, chouriças, espigas de milho e, … dele todos os de casa pais e filhos comiam .

No dizer do povo "picavam do prato que mudava de nome consoante a região: "Barranhão (Portalegre e Avis); Fonte (Bragança); Palangana, peças de diâmetro superior a 35 cm, nome muito usado em Espanha e nalgumas regiões fronteiriças como os Barros de Beja); Prato Covo de grande diâmetro também chamado do "Cozido" (norte); Lebreiras de uma dimensão impressionante coisa de 65x16 cm , de covo fundo para a vinha-d’alhos onde depois era servida a lebre com grão-de-bico; Ladeiro, Sopeiro ou covilhete, pequena taça de aba baixa, termo usado na Beira Litoral em Abiul, concelho de Pombal, supostamente o termo se difundiu na região, quiçá pelos Duques de Aveiro, então senhores da vila,comiam em covilhetes da Companhia das Índias, e o povo que trabalhava no palácio se habituou ao nome-, quando foram excomungados pelo Marquês de Pombal por serem Távoras.Óbvio que os bens foram saqueados, ainda há pouco tempo se vendeu uma cómoda em pau santo, numa terra que só voltou a florescer depois de 60 do século passado com a emigração...O povo de volta às suas casas onde só havia loiça "ratinho" fácil foi dar-lhe o mesmo nome -, foi-me contado por uma senhora, cuja avó assim chamada ao prato onde comia; Os de maior tamanho, e de fundo afunilado lhe chamavam bacias, Taças e Alguidares . 
Bacia -  termo usado na Beira Litoral, em Ansião - , (celebrizada no quadro de Malhoa, a Sesta, pintado na região numa aldeia de Figueiró dos Vinhos em 1909). Em detrimento do termo de origem árabe aljofaina para designar pequena bacia de lavatório e almofia -,vaso largo e baixo servia principalmente para lavar as mãos.Citando excerto de (Aquilino Ribeiro, Os ladrões das almas.)
" Tijela baixa e larga, de barro vidrado: "Num ápice vasculhava caçoilas e tachos, arranjando um bazulaque com que atestava uma almofia em que os pequenos se atufavam até às orelhas."


Outra bacia "ratinha" da minha coleção 


O termo bacia -, nunca o achei apropriado? -, sim usual no lavatório onde se lavavam, e o homem fazia a barba. Um povo criativo poderia muito bem ter inventado outro nome mais castiço para dar a esta peça de faiança de diâmetro inferior a 30 cm. 

Segundo informação do meu amigo Jorge Saraiva da Oficina da Formiga de Ílhavo 

Também na região de Aveiro onde muita faiança se fabricou, pais e filhos quase sempre todos comiam da bacia que se colocava no centro da mesa, de onde cada um com o seu garfo se alimentava, era comum existir nas cozinhas da região pelo menos um prato com o galo e outro com um peixe (carne e peixe), pois como só havia dinheiro para o escoado (batatas e hortaliça cozidas na panela de ferro de 3 pés), as mulheres colocavam esse escoado ora num prato peixe ora num de galo (depois de temperado com azeite e o alho) - o galo ou o peixe estampilhado no fundo da bacia de onde todos começavam a "picar" (comer) . 

Os cachopos perguntavam " inh'mãe onde está a carne?" -respondia ela - "cala-te e come que a carne está no fundo…" verdade, verdadinha, a carne ou o peixe estavam sempre no fundo, mas do prato e não do escoado… 

Mais peças da minha coleção

Nos dias de hoje este tipo de faiança ganhou foros de nobreza em Lisboa, antiquário ou leilão de antiguidades onde atinge preços altíssimos o que mostra que pelo menos há uma classe social em Portugal que já não tem vergonha do seu passado camponês, e que até se orgulha dele e faz lindamente, pois por vezes a miséria produz obras de arte sublimes de grande simplicidade. As gentes-, os "ratinhos" levavam na arca sem o saber a maior riqueza das suas terras: os modos, saberes, e até haveres da sua parca gastronomia e doçaria - quem se atrever a indagar dará conta que muitas das especialidades atribuídas ao Ribatejo tem origem beirã da região de Ansião e zonas limítrofes. Coexiste nas duas regiões ainda hoje muitos pratos e doces com a mesma raiz do nome e sabor: Papas de Milho, Sopa de Pedra, Requentado - 
( a minha avó materna chamava a este último Fertungado - nada mais que aferventado de couves ou nabos migados com batata e feijão frade ou chicaro regado com azeite - as sobras ficavam na bacia de faiança na cama de migas de broa repassadas pelo caldo no testo da panela servem para a próxima refeição ou no dia seguinte serem requentados no tacho de barro em estrugido de azeite, alhos e louro, a que se dá hoje o nome de migas . 
Ainda outros comeres de antanho que comi no meu tempo de cachopa.
No concelho de Ansião nas famílias mais pobres o uso da malga grande, taça ou bacia ratinha funda de boca larga servia todos os dias o AFERVENTADO de nabos ou couve-galega migadas -, enriquecido com chícharo, feijão-frade ou d'velha e migas de broa ensopadas no caldo e ovos, bem regado com azeite, um costume que aprendi com o meu pai ainda hoje faço . 
De um modo geral havia casas em que o "home" comia num prato covo individual, enquanto a mulher e os filhos sentados na beira do lume em tripés em redor da tripeça a fazer de mesa nela assente a bacia do comer de onde todos picarem com o garfo de ferro, ou à mão. 

Quem fosse lento a comer ou não gostasse do aferventado, que muitos chamavam couves com feijão ou feijão com couves -, certo ficar com fome -, o conduto -, uma sardinha para três, postita de bacalhau, ou tira estreita de entrecosto. 
 
Aferventado de nabos com feijão frade
Nabos com cabeça, ou de couve nabo, também lhe chamam "nabos couveiros" como a minha avó lhe chamava, muito saborosos. 

Aferventado com couves e feijão frade 
Acompanha com : entrecosto , bacalhau, entremeada, pataniscas, filetes, peixe frito e,...

Requentado ou Fertungado
Feito com a sobra do aferventado com migas de broa ensopadas com o caldo, "feijão da velha", debulhar, frade ou chicharo, serviam para a próxima refeição desse dia ou seguinte requentadas em tacho de barro com azeite a fervilhar, alhos e louro, a que se junta o aferventado escorrido -, as Migas, que a minha avó Maria da Luz da Moita Redonda chamava Fertungado. 
Fertungado ou Migas 

Cachola 
A carne de porco com os miúdos e fígado entalado na brasa ( na chapa ao lado do tacho) que se junta no fim na cachola, deve-se comer "picada" pelo garfo do tacho de barro há quem junte batata no guisado. 
Bochechas de porco


Pratos do dia a dia das gentes da nossa terra que ainda hoje perduram em muita cozinha-, outros quase deixaram de se fazer como o Serrabulho, o Verde, e o sangue colhado, em variantes com as miudezas do porco ou do carneiro.E ainda o bucho com arroz, que não sei se tinha nome especifico, que a minha tia Maria no Bairro tão bem fazia com sabor a hortelã- Instaurei a Tibornada ou punheta, no olival, e foi muito bom. Improvisei a fogueira com umas pedras de lado para assentar a grelha, no brasido assei o bacalhau e as batatas com a pele enfiadas num arame, salpicadas de sal. Num prato grande desfiado o bacalhau e na roda as batatas esmurradas, tudo bem regado com abundância de azeite quente num púcaro com alhos.

Tiborna, tibornada ou punheta de bacalhau
Prato que faço no Natal, lareira acesa, rápido e toda a gente adora. 

Ensopado de cabrito no tacho de barro feito ao lume
A NOSSA SOPA DA PEDRA
Por Ansião se chamava Sopa de Carnes- levada pelos "ratinhos" nas suas safras sazonais para as vindimas e apanha da azeitona ao Ribatejo, em Almeirim e Golegã , na arca levava leguminosas (feijão ou chicharo), carne salgada, e enchidos, a comida ancestral de substância, deixada pelos antepassados a comiam praticamente todos os dias, veio a dar o mote aos Ribatejanos que a souberam revitalizar e celebrizar com o nome Sopa de Pedra!

Como fazer sopa de carnes: Feijão da velha que crescia no milheiral  demolhado, no verão feijão  grado debulhado. Hoje coze-se um naco de vaca, espinhaço de porco, entremeada, bacon, e enchidos, depois de cozidos são retirados para se juntar quadradinhos de batata, nabo, cenoura, couve galega esfarrapada e repolho crespo, e uma mão de massa grossa. 
Antigamente por serem pobres só usavam carne gorda e enchidos, não havia cenoura , usavam  abóbora.

Gente em êxodo das aldeias nos meados do século XX para as grandes cidades à procura de melhor vida quando faziam esta sopa de carnes diziam aos filhos que era - Comer à moda da terra

Leitão à moda da Nexebra assado para os lados do Pontão
  Banha, sal, alhos , louro e pimenta 
Descuidei-me um bocadinho com o forno quente, a pele um espetáculo 


Bacalhau  com todos- couves, grão e ovos

Cozido à Portuguesa, a carne de vaca cozida com hortelã 
Com feijão branco

 Couves com sabor a cominhos, uma tradição nesta terra
 
Chanfana 
A carne de cabra coze no tacho preto não vidrado "acarbada" em vinho tinto, uma cabeça de alhos, louro, azeite, banha, cravinho, colorau, salsa e sal-, temperada de véspera, no dia seguinte na falta de forno a lenha o tacho vai ao lume brando na lareira  e assim fica na "mornalha" o resto da noite , serve-se no dia seguinte. 
Em Ansião come-se acompanhada de batata e couve cozida.
Sempre houve peixe à venda por terras de Ansião. Por isso a Caldeirada de sardinha , raia ou peixe variado. Na minha casa comia goraz assado no forno, pargo do bom frito, ou cozido além de sardinha assada, bacalhau e raia.
 Caldeirada com raia, safio, pata roxa, cação e ameijoas

Caldeirada de bacalhau com batata e arroz
Hábito o jantar ao pessoal de fora na jorna a comer que se fazia na Moita Redonda e no Bairro Sto António em Ansião.
 Pataniscas ou bolinhos de bacalhau com café de cevada 
 Azeitonas retalhadas
 Sarda grelhada com batatinhas e salada

Bacalhau à Gomes de Sá no forno
Tiborna de bacalhau assado com batatas a murro regado com azeite quente e alhos
Bacalhau e sardinha albardada em cama d'ovo 
Arroz ou cotovelos com bacalhau
Petisco de berbigão noutro tempo, hoje ainda, e ameijoas
Peixinhos da horta

Peixe frito do rio, chícharo, faneca e sardinha

Peixe grelhado: galo com batatinha cozida e salada

 Robalo do mar assado
Polvo frito em cama d'ovo

Polvo grelhado com batatas a murro
 Pescada cozida com couves de Ansião
Batatas assadas no forno a lenha com sabor a leitão da tia Maria
Escabeche de carapau, sardinha, chicharro ou perdiz

Sarda cozida com batatas e feijão verde

Verde com miúdos de porco e sangue

Cabrito assado com grelos de nabo ou couve nabo
Ensopado de cabrito

Chispalhada com grão, couve e cominhos
Mão de vaca com grão 
Dobrada com feijão branco e arroz
Feijoada

Bucho de porco com arroz da tia Maria

Arroz de feijão

Iscas de porco de cebolada

Salada de feijão frade com atum e cebola 

Favas com chouriça e morcela

Galinha estufada com couve branca à Moda de Ansião(parente da perdiz à moda de Coimbra)
Caril de frango com arroz e maçã 
Paelha

Arroz de cabidela  que a minha mãe tão bem sabe confecionar

Caril com frango 
Foi com os retornados, sobretudo de Moçambique que aprendemos a comer caril
Arroz  com maça e pinhões
Na travessa
Paelha
Após o 25 de abril em 75 a 1º vez a Badajoz ganhou-seo hábito de comer paelha


Sopas ; Canja de galinha 
À lavrador com feijão da velha (demolhado) com couve e ossos
Feijão debulhar com couve

Grão com massa meada

Favas

Feijão verde

Nabiças e,...

Caldo Verde com couve galega

Bola de carne de frango de churrasco
Hábito se comer pelo Carnaval, Páscoa e Natal
 Bola de fiambre e paio
A minha avó Piedade a fazia com carne de porco gorda e chouriça

Páscoa quer Bola salgada e bola doce com avelãs

Lombinho de porco assado com arroz e salteado de legumes
Frango do campo na púcara ( à moda da perdiz de Coimbra) com grelos
 Frango assado no forno com couve branca 

Ensopado de borrego com batata doce
Carne de porco assada com batatinhas e couve

 Caldeirada de cabrito da região de Sicó 

Inovação MASSA SOVADA

A minha primeira vez feita por altura do meu aniversário de 52 primaveras 
Depois da massa levedar, foi ao forno cozer.Foi aberta e retirado o miolo, uma invenção minha a pensar como se faz com o bacalhau no pão,   para levar a alcatra.
 
Alcatra à Moda da Ilha Terceira
Bife da vazia
Em minha casa é refeição desde o início de 60. Hoje com molho de cogumelos e natas, servido com legumes cozidos.
Enchidos  com  picante
A chouriça com colorau, e a morcela com cominhos e salsa, e farinheiras.
A tia Maria do Bairro, quando acendia o forno fazia para os netos as Merendeiras com sardinha, bacalhau ou chouriça. 
A minha querida e linda mãe é uma cozinheira e doceira de mão cheia!
Saudades da sua marmelada ... vermelha se cortava os marmelos com faca de ferro e branca se optasse por faca de lamina branca.E fazia geleia com as cascas e sementes. Enchia taças de vidro cobertas com papel vegetal comprado na papelaria da D.Arminda e as punha a secar na pedra da janela da sala...a minha irmã adora marmelada, levantava o papel a comia toda...
Agora a pus em taça de plástico...

Quando a minha mãe a comprava em Coimbra na Briosa, vinha nesta taça de faiança de Sacavém
Há pouca doçaria na vila de Ansião (?)... 

O Pão-de-ló da minha querida mãe é digno de confeitaria.
Igual o bolo de nozes, do leite-creme e do arroz doce amarelinho feito com ovos caseiros que desde sempre ornava a canela a imitar a faiança falante : 

Parabéns Bela; Parabéns Mena ...decorado a flores, corações ou pintinhas.
Arroz doce 
Com ovos,  em muita casa abastada era dado em pratos grandes no final da desfolhada, ceifa vindimas ou na apanha da azeitona.
 
Pão de Ló 
Em Ansião a tradição dita 8  a 10 ovos.

 
O glacê branco aromatizado com laranja ou limão quea minha mãe fazia
Cobertura em glacé
 Pão de Ló de Ovar, demasia de tempo a cozer, ainda assim húmido ...
Chiffon de chocolate 
 Bolo de chocolate húmido

Bolo de ananás o fiz  durante anos para a minha filha


Tigelada cozida em forno de lenha

 Roscas crocantes e folhados de gila
 Cavacas
Ao género das famosas da prima a Ti Matilde do Cimo da Rua
 As secas servem de copo e as de Pão de Ló, macias são normais

Receita Cavacas
Ingredientes:10 ovos + 6 colheres de sopa de azeite + 6 colheres de sopa de água temperada de sal + 125 gr de farinha + 1kg de açúcar + 1 colher de chá de fermento.
Preparação: Põe-se a farinha num alguidar a que se juntam os ovos, e bate-se até que a massa homogénea fique consistente, sem ficar espessa. Junta-se o azeite e mistura-se bem. 
Na mesa tendem-se pequenos bocados de massa, de forma arredondada de 6 a 7 cm de diâmetro ou põem-se em formas pequenas próprias para cavacas.

Colocam-se num tabuleiro untado com manteiga e vai ao forno médio cozer.

Depois de cozidas e frias são cobertas com calda de açúcar que se faz num tacho com açúcar e água até fazer ponto espadana. Desliga-se e bate-se fortemente. Mergulham-se as cavacas na calda e deixam-se secar ao ar. 
 
Abóbora gila 


Tarte de gila 
Bolo de chocolate com  cobertura glacê branco 

Cobertura com fios d'ovos
Pavlova 
Por sempre adorar suspiros há mais de 30 anos que a faço
Com mascapone e frutos vermelhos
Pavlova de canela com doce d'ovos

Pavlova Chocolate 
 
Pavlova simples só de claras coberta com mousse de chocolate e nozes
 
Formigos  
Também conhecidos por mexidos de natal com pinhões, passas, nozes e bolo de noiva 

Bolo Pudim
Bolo Rei 
Na casa dos meus pais já o comia em 62
Feito por mim em 2002 
Tarte de amêndoa com cobertura com natas e a de baixo com caramelo

Leite creme com farófias e chocolate
Leite creme com farófias queimadas no forno e canela 

Bolo de laranja com casca 

Em forma redonda e de buraco

Pão
Mistura, centeio ou trigo e não pode faltar a BROA de mistura 
  Passas de figos pingo mel 
Nozes
Bolo de Noz e pudim com miolo de noz.

 

Queijo do Rabaçal  
Fresco
Meia cura e amanteigado
 
Curado, de pasta mais dura

Ginja 

BOLOS DE NOIVA 
Julgo que não se sabe a sua origem (?) …noutras terras há bolos semelhantes. Quem os fazia como ninguém a padeira Maria do Carmo Lopes, um avô de Figueiró dos Vinhos onde também existiu um Mosteiro, ainda hoje famoso o seu Pão-de-ló, a receita poderia ter vindo com ele, boa continuadora teve na sua filha Piedade Lopes ou, então do meu bisavô Elias do Alto -, cozinheiro na tropa no tempo do rei D. Carlos, conta-se que tinha um livro de receitas que muito bem poderiam ser do Mosteiro a escassos metros de sua casa que ficava no Vale. 

Certo e sabido que não -, nos Mosteiros os doces tinham essencialmente na génese gemas, as claras serviam para engomar as vestes religiosas e fazer hóstias -, e o Mosteiro que acredito ter existido - tantas vezes já falei nele de ter tido o privilégio de ter sido afoita em conhecer o que dele restava aos 8 anitos na companhia da minha irmã ... 

 De sabor a limão

Doçaria conventual (?)
Numas férias da escola para nos acoitarmos de premente chuva atalhámos pelo caminho na direção do mosteiro, do que dele restava(?)...Há quem defenda que o mesmo nunca existiu por falta de prova factual. Eu acredito. Apenas existe a toponímia - Vale Mosteiro e a estrada real que lhe passava pela frente. 

Resta de pé ainda de pé arcos de volta perfeita, este e outro arco nas traseiras...
Poderão as queijadas ser herança dos mouros nesta região (?) onde se mantiveram anos apesar de amiúde escorraçados pelos cristãos, também pelo nome almerce, palavra de origem árabe, nada mais do que os frangalhos do leite coalhado sobrantes na feitura do queijo com que as inventaram e mais tarde reaproveitadas pelas freiras na região de Montemor o Velho(?), as famosas queijadas de Tentugal e de Vila de Pereira.
Bolos de Noiva
Feliz a minha avó Piedade da Cruz, mulher de profissão: padeira de mão cheia, também fazia os Bolos de Noiva e o pão Coroa como ninguém! 

Na semana o dia marcado - sexta feira - para os noivos os entregarem aos convidados no sábado.Tradição de ontem os noivos presenteavam os convidados com um bolo de noivos na véspera do casório, no meu tempo cumpri o ritual, hoje perdido, oferta-se na hora do adeus à boda. 

A minha avó tinha dois fornos na padaria onde o pão e bolos coziam de feição, intenso era o sabor que abonava os ares ao Ribeiro da Vide. 

À força de mãos a massa era bem batida pelas mulheres no grande alguidar, com a taça do crescente davam forma redonda aos bolos de massa de gemas amarelinhas, depois tendidas no tabuleiro de panos brancos enfarinhado golpeados na crista em cruz para entrarem no forno. Coziam abrolhados ao meio com maminhas repenicadas de crostas douradas deixando antever o olho do bolo menos cozido, macio, de sabor doce e aroma a limão . Lindos. 
Seria o segredo a folha de couve que os protegia na quentura do forno ou das mãos sábias daquelas mulheres com tanto saber ? 
Infelizmente há casa  afamada em Ansião (?) que o falsifica na tradição, optando por aditivos para substituir os ovos, apesar de ter lascas de limão, mostra-se em demasia amarelo e por fora muito viscoso.

Bolinhos dos Santos
Noz, passa de uva e erva doce com um golinho de boa aguardente em copo da Vista Alegre com mais de cem anos...
 
 No meu tempo de cachopa as faziam assim

Bolinhos de erva doce 

Criatividade
Tem aparecido novas recitas de doces de chicharo : pastéis, tartes e queijadas -, muito bons! 

Queijadas de Ancião com aguardente e azeite
A minha avô Piedade as fazia, ficaram de cor insípida...
 Tarte de abóbora menina com miolo de amêndoa
 Natal é lampreia...
Tarte de queijo fresco com doce de morango e broas castelar
Do NATAL à PÁSCOA comem-se velozes de abóbora menina
Velhoses de abóbora
Para ficarem bons: receita a olho" meio quilo de abóbora bem exprimida, dois ovos, uma colher de sopa de açúcar amarelo, sumo de uma laranja, pixel de aguardente e pouquíssima farinha com fermento, fica de pasta mole. Fritam-se colheradas em óleo quente.Cobrem-se com açúcar amarelo e canela.


Suflê de abóbora
Com molho bechamel, queijo ralado do Rabaçal curado, herança de uma criada
Pudim de abóbora com coco, uma delícia

Velozes de cenoura
Filhoses 
Farinha com raspa de laranja e de limão e sumo, azeite e aguardente , esqueci-me de passar a corretilha, a minha avó Piedade, padeira as tendia sentada ao lume no joelho, estas foram na tábua...
Pudim d'ovos
Bolachas em palitos
E laranjas...
Tarte de laranja, sumo e cobertura
No meu tempo de miúda na minha casa se comiam assim com uma pitada de açúcar amarelo e regadas com água quente.
Torta de laranja
Pêras cozidas polvilhadas com chocolate
Pêras cozidas com chocolate

Pêras assadas
Presépio feito com cogumelos e plantas de Sicó

Iguarias de natal onde a riqueza do pormenor da cesta branca de verga e pano de linho com o pão feito por nós no forno a lenha 


 
 Frutas- lichias, uvas, quivi, laranja, romã, pera e mamão

Bolo de natal com calda dos fios d'ovos
 
Tarte de limão
Tarte de amêndoa
Rabanadas à poveira com doce de ovos
Pavlova de chocolate com creme pasteleiro 
Entrada ; pastéis de carne, à moda da criada a D. Conceição da Portela de S.Lourenço em Pousaflores.
Fatias douradas à moda poveira
Pão duro depois de demolhado é exprimido em forma de bola e vai a fritar para serem recheadas com doce d'ovos

Lesmas 
Por não gostar de animais viscosos e no meu tempo a tradição eram bolinhos rijos quem nem cornos, com sabor a erva doce...mas hoje os fazem macios...
Queijadas 
Queijo fresco
DELICIEM-SE...
PIOR SEJA DEIXAR MORRER A TRADIÇÃO DA NOSSA TERRA!
AVENTEM , RECRIEM E PARTILHEM

Incrível é a região ser abençoada por salpico de pinheiras, cujo fruto o pinhão, não teve no tempo apreciação para com ele se  fazer algum tipo de doçaria.
Um dia destes vou inventar "Beijos de Pinhão", já comecei a idealizar a receita!

Se desse ouvidos à minha mãe há muito que tinha aberto um restaurante...bondade de mãe...entretanto vão-me "roubando as ideias e as receitas novas"...
Sei gostaria muito de ter uma tasca no centro da vila...de Ansião ou um Kafé vintage...o mais provável!
Entradas
Pastéis, empadas, almofadas. O recheio?
Salgados  de vitela com beringela e cenoura



 Prato Lombo de porco com legumes estufados
Sericaia 
Faltou-lhe a tradicional ameixa d'Elvas


O certo é quando SE copiam ideias, Seja referir a FONTE!


2 comentários:

  1. Bom registo. É importante preservar a memória. Continua.

    Bj.

    Carlos Gomes

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  2. Olá Carlos Gomes. Muito obrigado pelo teu elogio. Sabes bem que te tenho em muita boa estima.Estou em Ansião na apanha da azeitona e outros afazeres. Sorte a minha que a minha irmã me convidou para almoçar - aproveitei e vi o blog,
    Bj
    IC

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