quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Será que ainda há um tempo novo de afeto para mim?

O desconhecido assusta o comum dos mortais, mas para uma pequena minoria é um desafio e os desafios fazem-nos mais sólidos, e quebram a rotina. Pretendo continuar a fazer parte desta minoria ao abrir a porta do meu passado, e nele falar de algumas paixonetas.
No tempo de escola conheci um lindo rapaz de seu nome AS -, rapaz de olhar lânguido, esverdeado quão imitador a lago com nenúfares -, o pai chegou à vila deslocalizado do Barreiro para trabalhar na CUF em Ansião. Mortinha para descobrir o seu nome completo: António Manuel da...Para o jogo de "Pancaios " -, subtraídas as letras iguais do meu nome, e do dele, as restantes contavam-se -, ao resultado aplicava-se a tabela da frase chave: 
P- Paixão; A- Amizade; N- Namoro; C- Casamento; A- Amor; I- Inveja; O- Ódio; S -Simpatia. A doidice da paixoneta durou até outubro de 1970…Quis o acaso que em finais de setembro encontrasse o ASR no Correio velho, estava do lado de dentro com a minha mãe, devia ter ido pedir dinheiro para uma sandes de iscas na tasca do Ti Domingos, ao guiché ele pedia a chorar um selo, a minha mãe atenta perguntou-lhe "o menino está a chorar porquê?" -, ao que lhe responde "tenho muitas saudades da minha mãe"...Bateu em mim um sentimento de tristeza por nada poder fazer por ele, mas senti que gostaria muito apesar de ambos tímidos, o nosso olhar ficou agarrado um no outro...Rapaz de olhar negro intenso, moreno, meigo, sensível ali à minha frente a chorar…Recém chegado do Alentejo para estudar no Externato. Passámos a ver-nos todos os dias logo pela manhã -, eu a caminho da escola primária, tinha chumbado na 4ª classe e o via sentado com olhar triste no rebordo do muro do colégio,contudo parecia-me um príncipe. Foi um ano a cruzar olhares  silenciosos todos os dias à mesma hora. Nunca consegui estudar, pior concentrar nos estudos, nesse dever maior  diário antes pelo contrário o meu estar era pasmado, êxtase e a dormir acordada, demorei anos para perceber se o que me acometeu no instante em que o conheci, se tinha sido paixão, amor à primeira vista, ou compaixão…O ASR era um rapaz de cariz inteletual, inteligente, dono de um olhar negro penetrante e fulminante,que se vestia moderno de jeans e camurcina de bombazina em tons de petróleo… Adorava vê-lo às voltas na pasteleira do tio na vila a olhar a mim, e eu corada a fugir dele… A "São Mocha" mulher matreira do Bairro e atrevida, um dia pergunta-me "vocês namoram-se?" …
Mote em talhe de lembrança de outros amores que senti, e sentiram por mim. Numa festa de agosto na Mata Municipal junto da mulher um rapaz do Cimo da Rua "com os copitos" disse-me  "ainda pensei namorar contigo"…
Ainda outro na última conversa no dia do seu casamento, nunca fomos namorados, tinha um jeito, um frenesim, que me transmitia insegurança…Se dirigiu a mim nestes termos  "hoje vou casar com … As vezes que a chamar, vou lembrar-me sempre de ti"…
Porque  me fui agora  lembrar destes despropósitos!
Já sei, hoje é dia 17 de janeiro -, a data assolou-me à memória em sonhos a fazer eco ao ano de 1973 em que o ASR me escreveu a primeira carta de amor... 
Já colegas no Externato, sentia vaidade de usar bata azul às preguinhas vincadas e poder conviver com os rapazes, despertava em mim, e neles a adolescência. Em pouco tempo tive conhecimento que o ASR tinha respondido sem preconceitos a um inquérito sobre a sua vida escrevendo "estou apaixonado"...Lembrança ténue da sua carta ternamente escrita de coração aberto, sensível, carente, contava os maus tratos que a tia lhe infringia -, explicava o porquê, mas agora não vem ao caso. Infinita a minha felicidade, tão grande que me explodia o peito  só partilhada com a criada D. Maria -, senhora com mais de setenta anos. Lia-a e reli-a vezes sem conta, decidi esconde-la por detrás da tela no forro de um quadro de flores  da sala de visitas onde fiz um rasgo para a minha irmã não a descobrir -, passaram décadas, o quadro resistiu, restaurei-o, mantenho-o numa das minhas casas, como se fosse um talismã -, já a carta queimei-a tal como todas as outras em Coimbra corria o mês de junho de 80... Em 73, o nosso namoro passou por mensagens escritas no tampo de madeira da carteira, não frequentávamos o mesmo ano, havia uma sala que era comum. Munidos de canivete em punho, ia eu, ou no caso ele -, ler a mensagem, e em ato imediato raspar, para responder de novo. Isto durou o seu tempo até que alguém atento, suspeitou. Horas da sineta tocar os colegas atropelavam-se para entrar e ler a mensagem deixada. Quando demos conta já entravam na sala muito antes do que nós. Rebentou o nosso namoro escondido. Hora de alterar o que queríamos continuar. O método passou por cartas, dentro de um livro que a minha amiga Cidalina de Albarrol em parceria neste namoro trocava de mim para ele e vice-versa. Contente aceitou a tarefa -, assim ficava com espaço aberto para fazer “olhinhos” ao ZE que de mim mostrava gostar e, não dela...Mulher de olho claro, impostora com cara de "santa" e mentirosa, a minha ingenuidade não me ajudou naquele tempo a perceber!
Deslocava-me na minha bicicleta a caminho do Externato de minissaia a esvoaçar com a brisa matinal. Esperava o ASR por mim à porta da sapataria do seu amigo Sá que me dizia por entre dentes..."já te disse que quero a bainha dessa saia abaixo". 
Adorava abusar, testar os limites. Um dia, deixou-me um recado na carteira, muito depois de não ser usual “O Camões era zarolho e andava a vender jornais, levou um crenco no olho, jurou nunca mais". Remédio santo acabou logo o namorico.
Gosto de olhar  e sonhar através de janelas abertas...
Baile de Carnaval apresentei-me vestida de casaco comprido em pelica de veludo castanho trazido das Canárias pelo "Marinheiro da Portela" engalanada com gargantilha de brilhantes ao peito. O JB encantou-se com o brilho falso que reluzia do colar no meu colo e se estatelava na alegria do meu rosto, no dia seguinte viu-o a rondar o Bairro no desejo de me rever, mal o vi aparecer na ladeira do hospital, fugi de relance, escondi-me no sótão, através das telhas viu-o desaparecer à fonte...
os amores continuaram sempre  sem lhe dar a importância devida. Sendo mulher regida pela deusa Vénus -, o amor está intrínseco em mim assim como a sensualidade... Apesar de não ter casado por amor...Equacionei outros valores e talentos, achei que com o tempo o amor aconteceria naturalmente!
Numa manhã do ano de 91 chega-se ao balcão do Sotto Mayor o pintor Júlio Pereira - cliente e amigo homem de farto e alvos cabelos compridos, de boa conversa e humor sarcástico, espanta-me com o inusitado - acordei a pensar em si, levantei-me e desenhei isto...d´prés Remblant...Mulher no banho...
Corre o ano de 2013. Sinto-me acomodada, insatisfeita, no gosto de ser livre!
Tal certeza sei  e sinto há séculos.Tive a estupidez de trocar o amor pelo sucesso profissional -, onde os orgasmos intelectuais me preenchiam por completo... Debalde tal equívoco, equivocada me deixou no desalento, continuo com altos e baixos na escuridão errante dessa procura, porque a fé essa nunca perdi -, tal a bênção de  oportunidades que nesta idade me deixam extasiada!
O medo da mudança,  e das circunstâncias da minha própria circunstância, continuam para meu mal  a prender-me de me libertar, sentindo-me no entanto livre sem o ser - coisas de irreverência! 
Será que ainda há um tempo novo de afeto para mim?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores

Arquivo do blog