quinta-feira, 14 de março de 2013

Nexebra no costado a nascente a piscar o olho a Pousaflores e suas tradições

Rosas de Alexandria
Arrepiante e descritível a beleza da serra de Nexebra  no despontar da Primavera com as rosas de silvão por aqui chamadas de Alexandria em cerise forte ou rosa pálido, das açucenas, das ramagens floridas em ciranda branca dos Sabugueiros , dos cachos de lágrimas a pingar dos arbustos, e dos tapetes de abrigotas nas costeiras dos leirões com  que as gentes faziam tapetes na visita Pascal para a vinda do padre Melo em tempos do século passado.
Já na Moita Redonda de Baixo as Mimosas são rei...por entre os eucaliptais.

As flores no costado dos outeiros de xisto da Nexebra
Quando cortam a madeira ao longo do dorso dos cumes irrompem aqui e além quatro ou cinco afloramentos de erupções xistosas com muita mica dourada reluzente e quartzitos brancos -, ao maior afloramento o povo deu o nome castiço - “bichana da burra”… Junto a um deles o picoto! O costado apresenta-se  serpenteado de pedregulhos de mármore rosa, alguns com toneladas...semeados à toa numa courela da minha mãe, a que chamam Seixal. 
Será que existe ouro nesta serra onde irrompe o xisto? 
Mina da Horta de S. João do Outeiro do Cuco que alimenta o ribeiro

  • Certo é que a serra da Nexebra é toda ela esventrada com minas -, talvez do tempo dos romanos (?) a via romana a caminho de Tomar passava aos pés da Nexebra a nascente, o que imagino a teriam explorado tal como o fizeram em Góis e Arganil.
Descida abrupta do picoto - do lado direito um gaveto de terreno enorme ladeado por estrada por todos os lados e a nascente com o morro do picoto pertença da Quinta de Cima com eucaliptos grossos e muitos derrubados com a última intempérie, imagino o barulho ensurdecedor.
  • A minha mãe ia na frente fresca que nem uma alface depois de ver a sua Courela da serra, o Pinhal do Sérgio e o Leirinho.
 

Caminhada pela serra da Nexebra em trajes campónios

 
  • No morro ao lado do picoto...a máquina não estava no automático...a foto possível
A minha filha junto do arbusto de lágrimas na eira da sua bisavó Maria da Luz e agora da avó Ricardina
A aldeia de Moita Redonda estende-se ao longo do sopé da Nexebra  sob o comprido, sendo por isso uma aldeia de casario disperso. Aqui irrompe o xisto. Julgo que foi habitada nos primórdios de 1800 -, possivelmente o povo reaproveitou as minas (a serra era pouco arborizada, só havia pinhal, castanheiros e prados de flores) e as reutilizou como represas de águas para o regadio dos leirões esventrados ao costado da serra e abastecimento doméstico. Ainda me lembro de ser escalonada pelos habitantes que sobre as minas tinham o seu quinhão fosse de dias ou simplesmente horas -, cada dono abria a levada para o seu leirão ou para encher o poço, no fim dessa cedência do direito à água, outro aldeão a fechava e a abria para si, e assim sucessivamente até a roda da semana se concluir. 
Vista da Mina de S. João do Outeiro do Cuco
A água era um bem precioso. O ribeiro que corria todo o ano do cume da Nexebra conta-se que alguém mandou fazer um anel com as pepitas que nele encontrou no garimpo.
Ultimamente tem-se falado na prospeção de ouro nas serras de Figueiró dos Vinhos tal-qualmente também tem minas esventradas iguais a estas que supostamente no passado foram pesquisa de ouro ou garimpo na Ribeira d’Alge (?). Neste ajuizar a pensar nos romanos aproveito o reparo do Pedro um homem que também conhece a Nexebra  que foi no passado senhora de muita mina d'água " As minas da Nexebra (mina velha, mina nova e mina do capitão) não datam do tempo dos romanos! São muito mais recentes."
  • Resta a toponímia “ Pedra do Ouro” e “Furadouro”.
Rosas de Alexandria em rosa pálido

História da extração de ferro. Minas do Pinheiro em Pousaflores… Não deveria perder-se a sua história, daqui saiu ferro para abastecer a primeira Metalúrgica na Foz d'Alge onde se fizeram as primeiras peças de artilharia naval e de fortificações no País até 1761 -, segundo afirmou num programa televisivo o Prof. Hermano Saraiva. 
Hoje em ruínas submersas pela subida de águas da albufeira do Castelo do Bode na foz d’Alge.
Tal e qual do “Engenho da Machuca” também situado junto à linha de água, só servia para fazer movimentar as máquinas, segundo Henrique Dias um apaixonado destas terras e das suas tradições nascido por Maças de D. Maria,” apesar de nunca lá ter ido diz haver imagens do sítio na Câmara e na Biblioteca de Figueiró dos Vinhos”.

Estonteante a beleza verde que se avista longínqua da Serra da Nexebra do picoto,qual miradouro revela-se devastador sobre Maças de D. Maria, Anjo da Guarda...e , mais lugares!
A minha querida mãe na sua eira de xisto
  • Festa em honra de Nossa Senhora das Neves…Celebra-se a 15 de Agosto em Pousaflores. 
Acorria gente de todas as aldeias à romaria: Moita Redonda, Lisboinha, Pereiro de Baixo e de Cima, Quinta dos Ciprestes, Pobral, Azenha, Carregal, Portela de S. Caetano, S. Lourenço, Venda do Negro, Gramatinha, S. João de Brito, Ansião, Chão de Couce e, … 

Carro do cortejo alegórico das Festas do Povo com as fogaçeiras
Raparigas solteiras ansiosas levavam as ” fogaças de tabuleiro alto” igual aos que persistem ainda hoje em Tomar. Engalanados por elas de véspera com papel branco recortado a imitar um bordado de renda com um ramo de flores a encimar em forma de cruz -, muito bem vestidas de rodilha nova no altar da cabeça, vaidoso era o seu andar. Tempos idos da fogaça levada pelas irmãs mais velhas da minha mãe à festa com o registo de foto à la minut no terreiro do adro com a minha mãe Ricardina  e os irmãos ainda solteiros: Alberto, Rosária, Clotilde e Titi com o  tabuleiro no chão - visível o forte contraste da tenra idade da minha mãe que ao seu lado quis ficar.
Teimam em persistir ainda lembranças desse passado faustoso da oferenda dos tabuleiros com os andores de bolos ferradura de sabor a erva-doce -, ironicamente apelados de fogaças. De casa vinham as mulheres com cestas largas de verga branca e aba baixa com o farnel aviado, algumas para oferenda à padroeira, no palanque licitadas em voz alta pelo pregador e arrematada por muitos anfitriões e com elas debaixo do braço saiam do adro à procura do melhor lugar na Chousa para a reunião e deguste em família ou amigos.
Alguns marcavam os lugares com as mantas antes da missa e da procissão...quem não o fazia alijeirava-se em passo corrido pelos costados da serra do Anjo da Guarda ajeitavam-se em terreiros de grandes carvalhos em mantas de tear - sentados ou de pé se refastelavam paroquianos, e forasteiros -,  nesse dia certa a reunião de familiares, não faltava o garrafão de vinho, nas mãos  bom pão, e naco de leitoa bem apimentada de pele estaladiça assada no forno a lenha em espeto de loureiro  à Moda da Nexebra -, nesse dia imprescindível! 
No quintal da casa da Moita Redonda
Na loja do tio Alberto vendia-se sandes de leitão avulso aos peregrinos de ocasião enquanto dos pipos  saírem  em fila copos aviados a pingar e logo emborcados em pressa pelos fregueses. 
O que me lembro destes piqueniques com os tios "Paredes"sempre grande festança -, a deles uma das maiores por esta região.
Saudade dos pais do meu tio "Paredes da Portela de S. Lourenço o Ti Manel e a Ti Conceição". Muitas festas em casa deles quando o filho com a minha tia Rosária radicados em Luanda vinham de férias a Portugal, também com eles fui duas vezes a Badajoz, em frente do arco a imitar o do Triunfo de Paris, o Ti Manel, ladeado por mim e pela minha irmã com chapéus a imitar o dos cowboys um em branco e o outro azul claro.

Também da Maria do Ò  dos lados de Lisboinha -, além de rica bordadeira era exímia boleira, as formas para fazer os bolos em camadas eram latas da goiabada.

Foto da sede do Grupo Desportivo e Recreativo de Pousaflores...acredito a peça em madeira usada para tirar o barro dos poços  que ofereci estará algures recuperada  por aqui...
Recordar outras gentes da freguesia de Pousaflores: Prima Nélita e Isaurinda; filhos do Quintaneiro; filhos do Sacristão e,… 

Portela: Delfim, Adélia e "Carlitos Piriquito"; Eduino e irmãos; Rosária e irmãs; Emília e,…

Lisboinha:Ernesto, esposa e filha Natália;Zé Neves; Jorge Silva; Luísa; Patricio e Fernanda,Filó, Manel, Lena, Claúdia, Ana, Lisette  Alcanena e,…

Pereiro: Tio João, esposa Zézita, filho João Luís; tio Zé Serra , esposa Emília, filhos João e Rui e netos e,… 

Pobral: Mafalda e irmã Fernanda, Gina, Vitor e,…

Imagem do alvorecer do sol na Moita Redonda ...em jeito de desculpas de todos aqueles que me esqueci dos seus nomes no tempo...

12 comentários:

  1. Olá,Isa
    Parabéns
    Sua filha é belissima e sua mãe...uma beleza
    A Isa ,sem duvida alguma é uma foto da sua querida mãe.Mas em ponto jovem
    3 belezas
    O resto das fotos ,tudo muito bonito
    Adoro aldeias,mas infelizmente não vou a uma tem mais de 20 anos
    Aliás com as 3 belezas da foto,mãe,filha,avó
    o resto passa de lado
    Um beijinho

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  2. Cara anónima muito obrigada pela cortesia da visita e dos elogios rasgados...
    De fato as aldeias são genuínas, fazem-nos sempre bem quando as vivemos em liberdade sem sofismas de andar bem vestidas...porque é campo.
    Muito obrigada
    Beijinhos
    Isa

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  3. Pedro27 de setembro de 2010 14:18
    Boa noite.
    Ao fazer uma busca no Google por 'Nexebra' dei com este artigo. A descrição dos regos de água a descer a serra da Nexebra também está guardada na minha memória. Ler este texto foi um reviver de umas férias na infãncia com dias muitos felizes. Obrigado pela partilha!
    Pedro

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  4. M Isa28 de setembro de 2010 02:21
    Olá Pedro, obrigada pelo seu comentário
    Não me diga que também conhece a Nexebra?
    As memórias de infância são sempre tão enternecedoras
    Apareça!
    Isabel

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  5. Pedro29 de setembro de 2010 05:14
    Olá Isabel.
    De 1975 a +/- 1985, quando as férias grandes eram mesmo enormes :-) passava na Nexebra praticamente todo o mês de Setembro com os meus avós.
    Sempre que passo por perto não deixo de lá ir dar uma espreitadela embora me custe bastante ver a 'Casa do Capitão' naquele estado de abandono.
    Ainda há pouco tempo me ia dando um fanico quando um dos 2 projectos para a via rápida Tomar-Coimbra iria destruir todo esse local. Felizmente foi o outro o adjudicado!

    Um abraço
    Pedro

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  6. M Isa10 de outubro de 2010 07:25
    Olá Pedro
    Claro que é muito mais novo do que eu, nasci em 1957, e as minhas vivências de férias na casa da minha avó na Moita Redonda datam dos anos 6o. Contudo nunca perdi as raízes, casei com um descendente de lá, embora lisboeta...que há poucos anos recebeu de herança uma casita que mantemos na mesma aldeia. Adoro lá ir, estar, dormir, sinto-me num mundo diferente. Agora com a venda de algumas casas a ingleses a aldeia já não fica despovoada, é bom, ver gente, sentir gente.
    Bem, fiquei curiosa, onde é mesmo a casa do Capitão?, deve ser lá para as bandas de Vendas de Maria?
    Já agora gostava de saber
    Um abraço
    Isabel

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  7. 3 de novembro de 2010 02:48
    Olá Isabel
    A casa do Capitão fica no ponto central do mapa que lhe envio.

    Entretanto parabéns pelo seu Blog. Já pensou escrever um livro? :-)
    Aproveito também para fazer um pequeno reparo. As minas da Nexebra (mina velha, mina nova e mina do capitão) não datam do tempo dos romanos! São muito mais recentes.

    Continuação de uma boa escrita.

    Um abraço
    Pedro

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  8. M Isa16 de dezembro de 2010 00:13
    Olá Pedro, obrigada pelo seu comentário
    Incitada com a escrita não reparei que me tinha respondido.Aceite as minhas desculpas.
    Sabe, não conheço as minas que fala. As que eu me refiro serem do tempo dos romanos são do lado da Nexebra a oeste,como a mina de S João escavada outeiro dentro. Os aldeões ao longo dos tempos foram fazendo as suas minas nos outeiros para abastecimento das casas e regadio dos leirões. Muitas delas terão coisa de 100 anos. O meu avô Zé Lucas tinha a mina da Cova do Penhasco, mina da Cavada ,mina da Horta, esta ferrosa e umas horas na mina de S. João.Claro que ao falar da passagem dos romanos por essas terras tem haver com a via romana a caminho de Tomar. Também porque eram exploradores e sendo a Nexebra serra de xisto, eles procuravam oiro, e dai a escavação das minas que 2000 anos após foram revitalizadas para captação de águas, e que actualmente pela forte eucleptização estão em decadência.Isto sou eu a conjecturar.
    Aprecio sempre os reparos, com eles aprendo sempre
    Bem haja e boas festas
    Um abraço
    Isabel

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  9. Olá Isabel.
    Belo passeio.
    Um dia destes volto a subir a serra da Nexebra (lado nascente) só para matar saudades das minhas idas à mina nova, mina velha e mina do capitão.
    Tenho aqui em casa uma foto que me tirou o meu avô quando eu tinha 8 anos a espreitar dentro de um castanheiro.
    Como era bonito aquele espaço... sem eucaliptos!!!
    Um abraço
    Pedro

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  10. Olá Pedro, muito obrigada pela cortesia da visita e do comentário. Só pessoas como nós com tantas recordações da Nexebra e das pessoas que no sopé dela viveram se emocionam ao reler e ver esta paisagem tão brutalmente estragada com os eucaliptos.Sim a minha mãe agora com 79 anos conta-me que no seu tempo de miúda só havia algum pinhal e castanheiros com muitas flores. Ao tempo os donos da Quinta de Cima tinham lá no alto pinheiros tipo nórdicos que cortaram para plantar eucaliptos, os outros vizinhos, claro mais pobres, fizeram o mesmo para seu sustento.Houve uma moléstia nos castanheiros seculares, foram praticamente dizimados. Recordo ainda a copa de um enorme onde tirava terra para as flores, num terreno do meu marido está ainda um pé de um que ficou do último grande incêndio, é descomunal, marca a extrema tal qual com um outro numa da minha mãe.
    Um abraço
    Isabel

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  11. Aprecio os seus textos e, por isso, venho com alguma regularidade aos seus blogs.
    As descrições que faz dos lugares, das paisagens e de algumas pessoas, trazem-me à memória recordações, que estavam um pouco adormecidas pelo tempo.
    E eu gosto disso...
    Parabéns, e obrigado por partilhar este seu gosto.
    Raul

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  12. Caríssimo Raul muito obrigada pela cortesia da sua visita. Bem haja pelos elogios à minha escrita.São palavras como as suas que há 5 anos me mantêm ativa neste querer mayor em escrever memórias e coisas do dia a dia sempre com muita paixão pelas terras de Sicó e outras que vou conhecendo. Por isso os parabéns são recíprocos, porque são poucos os que se atrevem a comentar, enviam mais e-mails.Sou uma mulher de partilha, acredito um dia se tiver de acabar num lugar que não gosto -, gostaria de pelo menos estar boa da cabeça para me fartar de rir com tudo o que vou escrevendo -, essa a minha fé em voltar a reviver tudo outra vez, mais uma vez e sempre apaixonadamente.
    Um abraço
    Isabel

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