quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Ribeiro da Vide em Ansião com buliço de vida e gentes noutros tempos

A segunda remodelação do jardim do Ribeiro da Vide deixou a fonte num patamar inferior perdendo identidade, tal como o escadatório da Capela ao seu lado direito onde deixaram soterrados quatro degraus... Revela no mínimo cálculos mal feitos pelo projetista (?) num terreno direito, no mínimo é de se ficar perplexa e amofinada com o património que se perdeu!
A minha querida mãe sentada no muro da fonte

Quantas foram as vezes que desci e subi as escadinhas da fonte, me abaixei para encher de água o barril, jarro ou cantarinha , fosse a pé ou de bicicleta...até roupa lavei nas suas pedras... Datada de 1897, a nascente situa-se a escassos 50 metros (?) para sul, em miúda bem me recordo de ver o poço aberto para limpeza das raízes dos plátanos, sempre fiquei com a impressão que o poço não ser rebocado, com paredes em barro branco, tapado com duas grandes lajes unidas com tiras em ferro, inexplicavelmente o taparam quando fizeram a primeira intervenção urbanística no jardim, sendo que agora parece haver dificuldade em o localizar (?) ... À fonte ocorria muita gente com cântaros, cantarinhas, jarros e barris, todos da redondeza vinham buscar água fresquinha da fonte do Ribeiro da Vide para cozinhar, beber, e retalhar as azeitonas -, não havia igual, também dava de beber aos viajantes a pé, a caminho de Fátima ou das aldeias para casa depois de terem vindo à missa ou ao mercado enfeirar. Nas suas pedras muita roupa se lavou quando o motor elétrico do poço camarário não funcionava para tirar água para o lavadouro público, as águas escorriam pelo regato estreito direito ao ribeiro que lhe passa aos pés e dá a graça ao nome do jardim. Gente nova namoriscava sentada nas pedras, com a bênção do Santo António que do alto velava por elas… Cheguei a tentar descobrir a nascente do Ribeiro da Vide com a minha irmã, seguimo-lo para sul pela fazenda do Ti Zé Reis até ao pinhal do Dr. Faria no Carvalhal, perdemo-nos no emaranhado de urzes altas e medronheiros,  no baixio onde se juntam as águas quando chove muito e faz nascer o ribeiro(?)...não, disse-me o Carlos Cotrim que o ribeiro se encontra em parte encanado por túnel de pedra para os proprietários terem mais espaço para cultivo, no tempo em parte adornou e por isso em tempo de chuva na propriedade confinante à sua a do SR.Nogueira se fazia uma lagoa . Não sei a origem do nome, havia quem dissesse que derivava “parar de levar água no tempo da poda das vides, porque do Vale da Vide não vinha”, pode ser esta designação deturpada do rei moçárabe de Coimbra Sesisnando Davides (?)! 
No verão um dos passatempos favoritos consistia em rastejar debaixo dos quatro diques das estradas por onde passa o ribeiro, por serem brutalmente de pedras brancas, lavadas com a água do inverno, o maior, mais comprido, o último em cima dele ficava o barracão do Ti” Parolo” onde a filha Lúcia mais tarde construiu a sua casa, saiamos há frente pelo terreno da Ti Florinda.
Na última intervenção o jardim não ganhou flores, ganhou um parque de ginástica geneátrica com alguns aparelhos.

Fiquei entristecida, até espantada quando deparei com o ribeiro parcialmente encanado na nova remodelação do jardim -, só visível junto ao Lar da Misericórdia com uma ponte a meu sem mais valia... 
O lago desapareceu na terceira intervenção.
Havia muito junco no Ribeiro da Vide, alguém fazia dele cestos. O largo era grande e plano dividia-se em três longos espaços em jeito de triângulos independentes, divididos por estradas entre si, fartos de frondosos plátanos, plantados pelo meu bisavô Francisco Rodrigues Valente.
Não fossem as mulheres vestidas de avental o varrer no outono com vassouras de urze, que enchiam “num virar de olhos” mantas que atavam ao meio e levavam à cabeça para os currais. 
Também amiúde o franco largo recebia visitas de ciganos, mal atracavam a tenda os ciganitos e mulheres a pedir de porta em porta, junto da fonte amontoava-se um monte de loiça lavada, sobretudo os alumínios -, tão areados a fazer inveja a prata reluzente. Havia outros que se instalavam no barracão da Santa Casa, também gostavam de montar a tenda onde hoje se encontra o Palácio da Justiça, há quem diga que o meu avô Zé “do Bairro” se encantou com uma bonita cigana, levantaram as tendas antes que o caldo entornasse… 

Os cantoneiros ao Ribeiro da Vide… 
com casinha quadrada, uma minúscula vivenda, igualzinha à dos meus pais na foto em baixo, a contrastar com outras que conhecia estrada fora sob o comprido que na fachada ostentavam lindos painéis de azulejos em branco e azul, esta pobrezinha tinha letras pintadas em preto…hoje remodelada em sanitários.

As vezes que vi a máquina com rodas em ferro, negra dos escorridos de alcatrão com a fornalha em labareda laranja e fumo negro com cheiro forte, e de roda delas andavam os cantoneiros a tapar os buracos das estradas, as vezes que passei e senti as pedrinhas afundadas em alcatrão a reluzir -, num instante agarradas às solas, num ápice presa …De todos os cantoneiros só me lembro do Ti João Silva da Lagoa da Ameixeira conhecido pelo João Cantoneiro, do Ti Zé Forte e do Acúrcio “Saguim”. “Usavam farda cinza em tecido rijo ornado de pontinhos pretos e bonés, mais pareciam presos das cadeias da América que via nos filmes da televisão…e, eram tão boas pessoas!
No barracão da Cerca veio a ser construído o Lar da Santa Casa.
    Os plátanos como devem ser, bem podados
Lavadouro público no Ribeiro da Vide…
 De novo remodelado em parque de merendas. O antigo era junto do ribeiro na margem direita no espaço do meio. Tanto mulherio que nele lavou roupa e na fonte também: "São Mocha”, "Carolina do Trinta”, "Alice do Pego”, Elisa, Júlia, filhas mais velhas do Mouco -, a Odete e Ausenda, Tina, Isaura, criadas da tia Carma e outras da vila.  Seria Outubro na década de 70 ao passar para o Colégio, a Mavilde lavava na fonte de avental de plástico castanho de manhã, porque de tarde deu à luz o seu filho António, o mais novo, médico em Leiria. Também lavei algumas vezes no lavadouro. Num tempo que havia roupa íntima para se lavar, a brasileira Cármen, casada com o irmão da prima Quitas da vila, uma simplória “gozavam com ela por trazer para o lavadouro os paninhos” ingénua alma, coitada da mulher, na casa onde vivia não tinha quintal, o que deveria ter sofrido com o gozo… um dia ia eu a caminho do colégio questiona-me " qual a sua graça?" no momento não alcancei o que ela queria dizer, anos mais tarde entendi que "graça no Brasil” o mesmo que perguntar pelo nosso nome…

A feira quinzenal do gado… 
Alternava sábados e quarta-feira. Os burros eram presos aos plátanos ao longo da escadaria de Santo António. Num dia vivi uma grande aflição reparei que um tinha uma tripa grossa retesada até ao chão, estaria quebrado? Ao contar o sucedido ouvi risos, levei tempos para perceber o mal da besta, que afinal não é mal algum ... A feira respeitava a transação dos animais por categorias nos três espaços : bois; porcos brancos e ruivos do Alentejo; carneiros, cabras, ovelhas, cabritos e borregos. Os vendedores, eram maioritariamente mulheres. Os negociantes usavam bigodes fartos e repenicados, vaidosamente torciam ao mesmo tempo que tabelavam conversa, pelas costas pesadas samarras de gola de raposa, com as correntes d'oiro a saltar os coletes de barrigas obesas. Todos faziam negócio a contento. Havia os restaurantes ambulantes, dos tachos saia cheiro a feijoada, do grelhador improvisado num meio bidon cheirinho a frango assado, nas mesas corridas cobertas com plástico às cores no sítio onde hoje está implantado o Palácio da Justiça. Também neste espaço se procedia à vacinação do gado caprino contra a febre da brucelose. A taberna do Ti Nicolau do Escampado de S. Miguel tinha vezes que abria, já a do Ti Zé André abria sempre. 
Sem saudade o após da feira acabada era um amontoado de excrementos, palha, lixo, estradas sujas com bosta de boi... cada medalhão a imitar a trança de uma qualquer rapariga, ainda caganitas de caprinos, cheiros em redor da fonte e do lavadouro, uma imundice que ninguém limpava !

Saudades dos irmãos Ti Zé André e Ti Elvira...
Descendentes de Belchior dos "Reis" , judeu que viveu no Largo do Ribeiro da Vide, um dos seus filhos o Pascoal Freire de Mello e Reis o mais ilustre ansianense até hoje.
Uma tarde fomos convidadas eu e a minha irmã para em sua casa assistir à passagem de slides trazida pelos filhos mais velhos do Borracheiro vindos do Ultramar, o Henrique e o Joaquim, porque naquele tempo a luz elétrica finava-se no Ribeiro da Vide, com exceção da casa dos meus pais e da tia Maria, por via do hospital antes de ter encerrado portas a 1ª vez em 1951 (?). Acomodados na sala da frente -, até aí só conhecíamos a cozinha, ao passar para a casa de dentro vimos o chão do curral pelas faltas de tábuas...pela primeira vez vi paisagens de cores quentes , a selva, animais, palhotas, estatuetas de madeira e negros com muitos colares ao pescoço...Rapazes simpáticos, bonitos, brincavam connosco quando nos viam pelo adro, com a nossa bola. Algumas vezes contratados pelos nossos pais para trabalhos na agricultura, pena serem mais velhos, para mim nem olhavam, tal o respeito.

Os Trinta velhoscasal que vivia na casita castiça por trás do agora Palácio da Justiça no gaveto com a Quelha da Atafona, tinham um pequeno jardim com um pocito. Era gente afável.


Gentes da  Quelha da Atafonatantas vezes a subi e desci a fugir dos buracos. Ao cimo a casa da Isabel Bandeira com uma figueira enfezada na serventia, de encosto a casa da "Isaura Reala” de paredes meias com a castiça que foi da Ti "Júlia Peleira” pequenina, encravada na ribanceira com varandim em madeira, boa mulher simpática, mãe do Toino, mais acima a casita da Ti Piedade e a da irmã Helena, ambas vindas de Angola, o que brinquei com os filhos, a minha amiga Lala e o Jorge.
Um dia na lixeira do Ribeiro da Vide eu e a Lála apanhámos podas das roseiras do Dr. Travassos, na altura ninguém tinha rosas daquelas, já meio secas foram espetadas junto ao ribeiro ao fundo da casa do avô Ti Bernardo, vingaram uma ou duas. 
Grande o susto, um dia acorri aos gritos da Ti Helena com um neto nos braços pedia ajuda, de mão na boca do gaiato para não sufocar, seria um ataque? Fiquei brutalmente impressionada…
A última casa a da Ti Florinda e do Ti Alfredo do Alqueidão, as vezes que conversei com a sua filha Tina, grande amiga de longa data. 

Mal o outono se fazia sentir com o chilrear ensurdecedor dos pardais que se empoleiravam na folhagem dos plátanos, andava o Zé Emídio Moreira de pressão de ar nas mãos à caça. Tantas vezes o vi ao final do dia  aos pardais, e outras acompanhado com o colega de inspeção da tropa ,o Toino Tarouca. Subiam a escadaria e metiam conversa comigo...
O cortejo alegórico do povo em agosto ... 
Sempre daqui partiu para abrilhantar as ruas e ser jubilado nos Paços do Concelho. 
Nesses tempos abrilhantei um carro alusivo à feira do gado como este do ano passado.
Festa bonita, aprecio sobretudo os pormenores criativos das gentes que neles laboram.
Carros alegóricos do ano passado

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