quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lugares emblemáticos da minha infância os Escampados em Ansião

Preservo na memória com carinho estes Lugares chamados por Escampados.
Um em particular no extremo de além a seguir à Capelinha do Escampado de Santa Marta edificada em 1708.







 


Havia um pequeno carreiro de ligação deste Lugar a Albarrol sito muito mais abaixo, o progresso quis que um antigo caminho sem saída fosse aberto ao lado da Capela e assim abrisse estrada em terra batida para ligar os Lugares em detrimento do antigo. Choque senti ao ver a destruição de um dos troços mais simbólicos com um núcleo de casas típicas, que na frente o caminho seria um troço de calçada de pedras grandes em assincronia a outras bem estruturadas, que o tempo desnivelou, que muito bem poderiam ser restos da via romana (?) ainda havia uma laje plana com uma pequena cruz esculpida Templária (?)

Tinha passado mais de quarenta anos, neste compasso de tempo ainda tentei aqui voltar, alguns caminhos passaram a ser asfaltados, fatalmente perdi-lhe “norte”. Nas várias passeatas que gosto de fazer nos últimos anos com os cães da minha irmã, quis um imprevisto que numa tarde de domingo no meio da estrada na reunião para obras na Capela me obrigasse a desviar noutra direção...o meu coração bateu forte, será que tinha redescoberto o caminho? De passo apressado reconheci o local, imediatamente com o pé tirei a erva que  cobria a laje, num ápice redescobri a Cruz Templária -a última vez que a vira tinha sido na véspera do dia de Ramos na década de 60, liderava com a minha irmã um rancho de cachopos do Bairro de Santo António à procura do alecrim e do louro para levar um ramo enfeitado com açucenas, lírios e oliveira na procissão”…


Voltei mais tarde desta vez levei a máquina, só que nada existia…uma perda irrecuperável de tanto património...na beira da estrada agora roteada, mais larga  fico o resto de uma casita  com a frontaria derrubada, de porta aberta pintada a cal, com silvas a invadir o espaço, entrei e vi na parede pregado um bengaleiro manual castiço, dois quartitos minúsculos em tabique onde acredito terem sido gerados e paridos sem prazer filhos, como na época era normal -, sufoco só de pensar. Ao fundo depois da cozinha a  lenha o alpendre  com o forno de cozer a broa em barro abobadado com abertura árabe em triângulo como a foto evidencia.
Forno feito em calcário e barro vermelho
  
Seguindo o caminho mais à frente outra casa de sobrado e varandim, o dono tirou as colunas em calcário que sustentavam o alpendre -, antes que as roubassem, digo eu. No pátio por entre muros uma grande  pia de pedra, ainda resiste o caixilho minúsculo de uma janela outrora com vidro  que conheci e há muito que se perdeu, agora escaqueirada  mal se nota a cor original em ocre, resta o avental em pedra calcária, linda num estilo que me prende o olhar. A foto ficou tremida e mal se nota,pelo que mostro outra  janela, na foto ao lado, com o caixilho sem o vidro, embora esta janela seja menor, no Escampado de S. Miguel.
Seguindo o caminho mais à frente outras casas mais modestas baixas, numa -, a prima do meu pai a São, há anos encontrou uma tripeça que trouxe consigo, a última casa ao fundo alta com argolas em ferro para prender as bestas.
Voltando para trás juntinho à Capelinha uma casa velha comprada por estrangeiros,   restaurada revela uma inscrição de 1696, anterior à data da capela 1708. 
O strangersempre de roda das pedras, delas faz diariamente canteiros altos e muros sem qualquer argamassa…estes estavam em construção.
 Do lado nascente nos confins do Escampado de Belchior em tempos a minha irmã descobriu outra aldeia chamada “Lugar dos Calados” totalmente abandonada com casas ladeadas de grandes lajes naturais numa arquitetura antiga, 1600 (?) Numa casa térrea  com janela de avental e bancos de pedra dentro de casa junto às janelas, ainda uma coluna redonda simples, muito pitoresca em ruínas, entre a meia encosta da Ferranha. Incrível, ultimamente alguém se lembrou na estrada de lajes de permeio do casario descarregar entulhos. Sei quem foi... fiquei de coração apertado porque até simpatizo bastante, coisas de iletrice, de falta de cultura… incrível, hoje quase tudo está em vias de se perder. 
  • Há pouco tempo encontrei outro caminho empedrado numa das minhas caminhadas com a minha mãe a caminho do Marquinho do lado direito à saída do Escampado de Santa Marta.

Talvez “o mais provável eixo da estrada romana vinda da Lagoa do Castelo” tudo aventa que por aqui passasse -, por certo não há dúvidas, tantos são os indícios, num círculo restrito, coisa de quilómetro sem dúvida alguma, algures passou a via romana nos Escampados …
Será a via romana(?)
Palmilhei terrenos pela frente da casa do Chico Serra com a mulher Júlia num fim de tarde outonal pelos quintais à procura de um marco grande que sempre ele achou estranho…quando o ouvi comentar, sonhei tratar-se de um miliário romano...não me pareceu por não ser em redondo, o habitual. Em forma troncónica de calcário bastante alto, é aquele, que se encontra atrás da casa do António Serrador no Vale Mosteiro, coisa de meio metro e largo, sem inscrições, poderia ter sido no passado reutilizado para Mó, pelo buraco ao centro de Lagar de Vara dos monges do Mosteiro, outro igual descobri atrás da azenha à entrada do Marquinho junto à ribeira…Porque assim iguais em outras terras estão catalogados como marcos miliários romanos (?). Assunto para pesquisa!

Lenda da Lagoa do Castelo na Costa…longe vai o tempo que não se falava de outra coisa, o Rafael da Garriasa, convidou o Zé Serra do Escampado Belchior, para a caça do tesouro na Lagoa do Castelo. O Serra não foi na conversa, mal deixou os bois no curral foi-se deitar. O bom do Rafael embevecido ficou com a leitura do livro de S. Cipriano -, o preceito dizia para se chegar pela meia-noite, a fazer tempo esteve no café Chico do Fernando no Fundo da Rua, com os copos devia ter dado com a “língua nos dentes” sobre a intenção em encontrar o tesouro que rezava… “estória de arcas enterradas com oiro”. O bom do Rafael com um copito a mais chegou na hora certa e claro, digo eu, foi seguido por alguém curioso que ouviu o relato no café e naturalmente o seguiu “ver para crer”…o Rafael puxa da enxada irrompe em escavar, naquilo ouve uma voz que diz: ”Tiras tu, levo eu “ “ levas tu, tiro eu” “ ou tiras tu, mais eu?” o bom do Rafael sem medos, responde à voz, afoito diz: “Não, tiro só eu”! Nesse preciso instante começou a apanhar paulada de meia-noite e com isso "borrado de medo" desata a fugir a sete pés pelo caminho perde uma bota que nunca mais a encontrou e só parou no Escampado de S. Miguel, na casa do tio do meu pai António do Bairro e da tia Júlia -, onde o acolheram mal tratado, amedontado e o deixaram passar a noite…
Quem seria que o surrou bem surrado? Já ia alta a manhã, o bom do Rafael sai do Escampado de S. Miguel de regresso a casa na Garriaza, seriam 11 horas  e às Almitas apareceram-lhe duas velas acesas uma de cada lado, se ainda estava assustado, mais ficou...depois disso nem queria que lhe falassem da lenda da Lagoa do Castelo, na Costa…viria ainda alucinado com a tareia que levou horas antes e, com o raiar do sol ficaria alucinado?
 Moedas. Sempre se encontraram muitas por estas terras, em ouro, prata e bronze.Muitas no atual cemitério que foram siso vendidas aos homens que negociavam em ferro velho, um do Casal de S. Bras. outras a amantes de numismática, ainda outras no Banco de Portugal em Coimbra e,... 
O Chico Serra do Escampado de Belchior encontrou uma branca na chaminé de uma casa que mandou remodelar no Escampado, quando era rapaz, moeda antiga, tinha escrito “Portucale” acabou por a vender em Seiça onde na altura trabalhava por 50$00, o mesmo valor que ganhava num mês…andava o mesmo Chico Serra com o Fernando Lucas a cavar vinha por conta do Sr. Alfredo pai da D. Armanda do Fundo da Rua onde hoje é o cemitério novo,  naquilo abre-se um buraco, abaixa-se e repara em rolos de papel com moedas de tostão, de escudo e, …cava mais e encontra mais rolos, naquilo assustou-se ao se lembrar do susto do Rafael e, de coisas do outro mundo que sempre se falaram -, num revés tapa o buraco. As mulheres deles chegaram com o almoço, contam-lhe o inusitado da descoberta, certo é que ninguém mais voltou ao buraco escavar fosse o que fosse. 
Procurar tesouros sempre foi alvo de cobiça e ilusão em algumas pessoas.
Também ouvi falar do Zé da Portela do Lousal que à saída da Sarzedela numas casas alagadas foi à pergunta de uma riqueza que se falava por lá estar escondida, de tal modo que a mulher até deixou de falar com ele...
  • Em coisas de superstição diz o ditado “quem tem cu tem medo”!

Gentes do Escampado S. Miguel: Elvira André, linda; primas Júlia e Stela; Alípio; Hélder, Arménio e Zé Carlos Caixeiro; Alcina, Eduardo e filho Carlos Cotrim, rapaz brincalhão, muito amigo da minha irmã, rapaz de mil sorrisos, ainda hoje não lhe perdeu o jeito, Ti Nicolau; Fernanda Mendes de beleza exótica, Helena e a Lurdes e, …

Escampado da Lagoa: Gracinda, Arlinda; Filomena e Fernanda Dias de olhos grandes, boa pele, sedutoras, a Fernanda muito simpática, fiel amiga; Teresa de belos cabelos negros; os filhos do Palaio e, … 

Escampado Belchior: Adriano, linda a buganvília roxa que debruava o varandim da escada da sua casa; Chico Serra e irmãos, Primo Lucas e esposa e, … 

Escampado de Santa Marta: Lucinda que viveu na casa junto à capelinha de Santa Marta com inscrição na pedra da ombreira 1696 para mim a rapariga mais bela de Ansião, casou com o Joaquim Borracheiro, também igualmente belo e,  

Costa: António Simões “Arrebela”, filhos , Zé Maria, filhos e, … 

 “Achadiços”…que nestes Lugares encontraram abrigo...
  • O “Pelaralho”… Homem baixote, esfarrapado, atoleimado filho duma irmã do meu avô Zé Lucas da Eira da Pedra vivia de esmolas . Chegava-se ao Correio velho e dizia para a minha mãe “ ó pima” a minha mãe coitada envergonhada, à escapadela dava-lhe dinheiro para o ver sair dali…quando havia casamento nas redondezas entretia-se a fazer rocas com espigas de milho para oferta aos noivos, parava muito para os lados do Vale da Couda…
  • O Mota fazia-se anunciar ao som inconfundível da sua gaita-de-beiços, de quando em vez aparecia uma freguesa que na mão trazia uma faca, navalha ou tesoura que amolava no esmeril assente na bicicleta, ainda concertava varetas dos chapéus e desenrascava-se a pôr “gatos” nos alguidares. 
Conversas que me ficaram desse tempo de ouvir a minha mãe a perguntar à minha avó Luz “ oh mãe o Mota veio cá arranjar o alguidar?” Responde a minha avó “veio, veio, o filho da mãe levou-me vinte e cinco tostões”. Ripostou a minha mãe” à pois, vinte cinco tostões e o “ cu” cheio de vinho”… Replica a minha avó,”…”não filha, hoje não tinha cá nada para lhe dar”…
  • O“Graxa”…outro achadiço, vivia de engraxar sapatos, também se desenrascava a pôr gatos, com ele aprendeu o ofício o Eduardo Cotrim em garoto, que me disse ”acertava no 1º buraco com o fuso artesanal que girava e no 2º tinha vezes que não” falou-me das cordas que em arco faziam girar o ferro afiado a fazer de broca para  o abrir para enfiar o gato em ferro -,  "levavam 2 tostões por cada um”…em baixo foto do instrumento em madeira com extremidade em ferro para furar a faiança ou cerâmica para depois se porem os "gatos". O fuso em forma cónica foi talhado à navalha.
Vezes que parou ao muro da casa dos meus pais, homem de poucas falas de volta das malvadas varetas que o vento teimava e partia naqueles chapéus de pano preto e sombrinhas de mãozinha fina compradas em Coimbra.
Uma riqueza os medronheiros
A minha mãe a comer medronhos
Na Costa, eu e a minha irmã temos mais de 40.000 metros  divididas por duas propriedades, no cume da serra, com uma vista sobre Ansião deslumbrante
Muitos cogumelos
O caminho do limite da Costa da propriedade a norte
O caminho mais habitual que dá acesso às duas propriedades
Pinheiros hirtos secos...
Vista sobre a serra de Sicó.
 Em pequenas íamos com o nosso pai a pé pelo carreiro à Fonte da Costa
Depois da Fonte da Costa na cortada à direita a caminho da pedreira desativada ( foi há 4 anos entupida e o caminho a direito para entroncar na estrada alcatroada a poente foi "engolido" pelo plantio de um eucaliptal ) nos buracos esventrados da pedreira cheguei a apanhar micas para estudar no Colégio em mineralogia,  seguindo o carreiro do munho que foi no passado de madeira, na altura ,só já existia o pé alto e a eira que neste agora dei conta as pedras foram roubadas(?). Quando fui a Porto Santo  vi um moinho assim assente num pé como este mas de diâmetro menor.O carreiro ao longo do muro de pedra seca faz extrema com a nossa propriedade a sul, derrubadas algumas pedras do muro, para entrar no que é nosso, logo à frente havia a nascente, o resto de uma anta onde o nosso pai se acoitava em miúdo quando aqui pastoreava o gado, no nosso tempo vínhamos aqui apanhar madressilva e pinhas com pinhões.
O arco íris fotografado na Fonte da Costa quando bebia água.

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