segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Colégio Religioso as Salesianas no Monte Estoril 71/72…


Por influência e aliciamento do primo da minha mãe, António do Vale da Moita Redonda que ao tempo trabalhava na construção civil em Cascais, o mediador que lhe facultou informação do Colégio Religioso, as Salesianas no Monte Estoril -, e na mesma a outros pais de outras meninas das redondezas no despontar da adolescência para o frequentarem, na mira suposta de com isso reduzir, ou até não pagar, a mensalidade da sua filha Fernanda Lucas(?).
Moçinha por detrás do noivo de cabelos compridos, com 14 anos, acabados de fazer, no casamento dos meus amigos Fernanda Dâmaso e Gilberto Carvalho.

Rua Trouville, nº4, recordo o palacete imponente no alto do Monte Estoril sobranceiro e altaneiro ao mar em estilo arquitectónico que me agradou, requintado, e por isso adstrito ao cómodo das Irmãs e ao gabinete da diretora. No r/c funcionavam os refeitórios, copa e Capela . Adoçado ao edifício principal havia o ginásio e por cima os dormitórios -, os dois corpos interligavam-se por uma galeria a outro alto onde funcionava a cozinha, a biblioteca e nos andares de cima as salas de aula , tudo envolto por jardins,recreios, lavandaria e estufa. "Tendo em conta a herança da ação educativa de Dom Bosco e Santa Maria Mazzarello, as Filhas de Maria Auxiliadora (FMA) assumiram a educação das jovens na continuidade deste projeto. Por volta do ano de 1958, teve início a sede do Colégio que nasceu no Monte Estoril, num palacete, com a designação de Colégio Aspirantado Missionário das FMA. As destinatárias eram apenas jovens que se preparavam para a vida religiosa. Em 1960 /61 abriu-se a outras jovens da zona, em regime externo, e a jovens vindas do interior com regime interno, e assim, o Colégio perdeu o seu cariz inicial e alargou a sua ação educativa à formação de qualquer jovem, independentemente da sua opção de vida. Nos anos 1973 /75, o número de alunas internas diminui e as externas aumentam consideravelmente" 
http://www.salesianas-rosario.net/historia.html 
Mas o meu pai também não queria correr riscos, tinha sido avisado do meu namorico com o Arménio-, denúncia perpetuada pela Dra. Ilda, e acredito também pelo padre Filipe que o afirmou na aula da turma "ter ouvido na rádio um pedido do Arménio dedicado a mim nos discos pedidos" efetuado por escrito ao tempo em 71 revela ter sido rapaz determinado e obstinado no seu querer na canção
A Namorada Que Sonhei ..
Receba as flores que lhe dou 
Em cada flor um beijo meu 
São flores lindas que lhe dou 
Rosas vermelhas com amor 

Amor que por você nasceu 
Que seja assim por toda vida 
E a Deus mais nada pedirei 
Querida, mil vezes querida 

Deusa na terra nascida 
A Namorada que sonhei... 
No dia consagrado aos namorados 
Sairemos abraçados por aí a passear 

Um dia, no futuro, então casados 
Mas eternos namorados 
Flores lindas eu ainda vou lhe dar... 
Que seja assim por toda vida 

E a Deus mais nada pedirei 
Querida, mil vezes querida 
Deusa na terra nascida 
A Namorada que sonhei...

Sem pestanejar decidiu que o melhor para mim seria sair do colégio de Ansião, no relembrar culpas do seu passado no namoro com a minha mãe que ao engravidar de mim, o o seu curso de engenharia não passou da matricula... Difícil foi ter de aceitar tal decisão, não tinha como fazer teimosia, resignada entrei no Colégio em outubro de 71, para frequentar o 3º ano. De táxi do Manuel da Junqueira com a minha mãe...

A vida de estudante
é uma vida desgraçada
Quando se ama não se estuda
Quando se estuda, não se ama nada!

Nos degraus da calçada a ladear o jardim da entrada, ao sair do carro, o tacão do sapato caiu -, a freira logo me repreendeu com o recado "o tacão que a menina usa não é adequado à sua idade"... Na sala comprida por cima do dormitório abriam-se malas do enxoval ...distingui ao fundo penduradas umas fardas cinzentas, feias de feitio, que me fizeram lembrar os sobretudos usados na 2º guerra, seriam da mocidade portuguesa? A Irmã de joelhos conferia a minha roupa, logo me atazana a cabeça por não estar toda marcada com o meu número"53"-, nem de propósito mal estreei o casaquinho de lã para dormir quando foi para a lavandaria e desapareceu, que o procurei pelos cacifos de todas as colegas-, passei palavra, só mais tarde o reencontrei, por ser delicado, gracioso e não marcado, em azul bebé cor do céu, alguém imaginou que só poderia ser da Madre Superiora...Altiva a freira ainda me questiona se a minha mãe me tinha ensinado para que servia a dúzia de toalhetes brancos... 
Detestei a freira, fria, austera, bruta, feia de aspeto cadavérico! 
O refeitório de mesas corridas para dez alunas, a minha só com meninas do concelho de Ansião -, Fernanda da Moita Redonda, Fernanda e Luísa de Lisboinha, Gina do Pobral, Emília e Rosária da Portela, as filhas do Quintaneiro de Pousaflores a Joaquina e a irmã.
Azar o meu logo na primeira manhã ao pequeno almoço, no meio da mesa um pires com dez quadradinhos de manteiga.Expedita ao barrar o meu pão com dois quadrados -, só tinha direito a um -, enxovalhada fui pela Irmã que de nós tomava conta, mal habituada estava em minha casa a comer a manteiga Primor que me apetecesse... Ao jantar fui indiciada na tarefa de ajudar na copa a limpar os pratos espanhóis de pirex verde com panos em estoupa grossos, grandes, ásperos...Nervoso era o meu estar, não sei como aconteceu, deixei que um prato escorregasse da mão, o vi estatelar no chão em mil pedacinhos, muita agonia para primeiro dia...Detestava a comida. Ementas a que não estava habituada, e do cheiro forte, as alunas mais antigas diziam que lhe punham cânfora para atrofiar (?) desejo carnal que desperta hormonas na adolescência... Dúvidas, perguntas, porquês e saberes na descoberta proibida da vida... Nunca tinha comido chicharo frito, nem macarrão com fatias de queijo de odor forte igual ao que a Caritas distribuía na Sacristia aos pobres em Ansião; cavalas de conserva; guisado de feijão vermelho (o que eu mais gostava) .
Rápida no pensar idealizei uma estratégia para fugir ao trago de comida esquisita, se melhor o pensei melhor o fiz -, ao endireito do lugar à mesa, cada aluna tinha uma gaveta onde se guardava a chávena do pequeno-almoço. Arranjei um saco de plástico onde despejava a comida, sem que a Irmã de vigia do refeitório desse conta, difícil foi manter o silêncio das colegas da mesa, atrevidas, sobretudo a minha prima Fernanda Lucas -, autoritária, hoje Irmã na Instituição, tal como a Fernanda de Lisboinha , as vezes que tive de me insurgir e de lhes arregalar os olhos...No final da refeição trazia o saco debaixo da bata, entalado na saia para o despejar na sarjeta do jardim junto do muro da estufa das flores, jamais fui descoberta...Havia outras colegas muito magras de aspeto anorécticas sempre a vomitar... Ficava com fome, mas cedo descobri como fugir do dormitório de noite e descobrir a despensa de paredes meias com a copa, para me refastelar a comer o que havia na torre do campanário a ouvir o mar...A correspondência era filtrada...Nem me quero lembrar do que senti quando dei com a primeira carta escrita aos meus pais rasgada no caixote do lixo...Imediatamente comecei a escrever a dizer que estava tudo bem, cuidados havia -, tinha de a deixar aberta em cima da secretária da Irmã diretora -, enquanto isso escrevia outra carta com desabafos e tristezas que escondia no bolso e na hora do recreio fazia saltar a bola do andebol para fora do muro, uma vez aberto o portão, dobrava a alfarrobeira frondosa e chutava a bola para na descida da rua ter tempo de ir ao marco de Correio -, corria que nem uma gala a caminho do Estoril para deixar as minhas cartas…Fugas ao sábado de tarde até ao Estoril… Não fui expulsa do Colégio mas fiz por isso. 
Jamais me desvirtuavam medos de vagabundos de mau aspecto que via das janelas a vaguear naquelas ruas desertas, ensombradas pelas copas das pinheiras com palacetes abandonados, outros fechados por gradeamentos que gostava de observar nas caminhadas acompanhada a Alcabideche para ir buscar os ovos às irmãs Carmelitas e ao Estoril à missa, cinema e praia, e também sozinha a desfrutar da minha liberdade! 
Fugia aos sábados de tarde. Rastejava no relvado da frontaria do jardins até ao portão para não ser vista. Aquilo sim foram bons tempos, sozinha, a passear pelo Estoril-, dava-me prazer ser irreverente e livre, porque tinha dinheiro no bolso.Os primeiros iogurtes que comi, o nome não era familiar, levava o caminho a soletrar abutre, o mais parecido para não me esquecer...Ficavam as colegas na sala da costura a fazer croché -, sacos de ráfia e de corda de nylon, engomar, costurar roupa que as Irmãs talhavam na grande mesa em desfile a desenrolar peças de tecido, oferecidas por senhoras beneméritas, que as Missionárias levarem para as Missões, pelo mundo das províncias ultramarinas…As vezes que fui não passei da aprendizagem do cordão em crochet- , mal acabava um novelo, começava outro, e mais outro, fiz quilómetros de cordão... Instinto de ciúmes…A Gina do Pobral irritava-me, tinha andado comigo no Externato em Ansião. 
Afrontava-me por dizer que tinha também paixão pelo Arménio... Um dia apanhou-me em flagrante numa dessas fugas-, não perdeu a oportunidade de avisar da sua intenção em me denunciar. Perante tal insistência vali-me dum estratagema. Sugeri na próxima fuga trazer da drogaria um perfume . Deu-me o frasquinho com o reparo "vê lá que aroma vais escolher". Instinto de ciúme sem o saber-, mas era, fui má, passei-me e trouxe amoníaco -, porque um dia o vi dar a cheirar a um homem atropelado ao Ribeiro da Vide ... No dormitório deserto de meninas, às escondidas dei-lhe o frasquinho a cheirar, num instante a vi cair redonda no chão...Peguei-lhe pelos colarinhos, apesar da obesidade, em voz forte pronunciei aviso para não me voltar a subestimar, que resultou!
Férias e passeios quando estava no colégio… O Natal, a primeira vez em casa depois de ingressar no Colégio Religioso, o meu pai mostrava-se orgulhoso da sua filha mais velha, com as boas maneiras adquiridas. Uma noite ao jantar o vi levantar-se da mesa radiante e orgulhoso, de me ver a comer delicadamente de garfo e faca, num relance dizia "apreciem a delicadeza como a Bela se desembaraça no uso dos talheres, aprendam, sem mãos na comida, até descasca a fruta..."  Modos e requintes que a ele lhe deu senti, sobeja alegria. A mim foi sol de pouca dura, esforço-me, bem gosto de comer a sardinha, frango e até leitão com a mão, e a fruta de a trincar com a casca... Por estar em onda favorável atazanei-o para pedir ao Dr. Travassos um atestado médico para levar para o Colégio. Expliquei as minhas razões-, detestava estar fechada depois das aulas na mesma sala a fazer os deveres, sem poder sair. Tomava conta de nós uma Irmã à qual o amor não sorriu...Aspeto baixo, braquela de carnes, cariz triste, e apagado, fazia pausa ao ler diariamente capítulos do romance " Os lírios do campo de Erico Veríssimo". Sorte a minha por o meu lugar na sala ser ao endireito da janela -, através dela via o mundo...as vezes que olhei a vivenda amarela que conhecia ao mínimo detalhe, tal como os jardins e a rua deserta do Monte Estoril e só acordar ao som do carro a chegar ou a sair gente com os filhos… Inventei um estratagema. Idealizar que sofria da barriga, tinha de ir à casinha de banho vastas vezes " assim o atestava com êxito o dito atestado".  Bem dito e bem feito, deu resultado. Mas e o que fazia eu? Nada. Sentava-me no degrau de madeira ao cimo da escadaria a olhar para o vitral magnífico, imponente, que dava claridade e brilhos em tons vermelhos e amarelos. Derretia-me a mira-lo tal deslumbre de beleza, fazia sentir-me livre, sem noção do tempo...A verdade é que tinha dificuldades em me concentrar na sala de estudo.A minha mente vagueava em sonhos...Depressa arranjei estratagema para estudar para os pontos. Comprei uma pilha, nas minhas fugas que usava no dormitório no beliche que era o de baixo, com o cobertor cinzento a tapar-me, e assim estudava ...Bem, pior era o despertar com "palmas" às 6,30...e a fila para as casas de banho...Uns dias depois armei-me de esperteza e antes de me deitar deixava a minha trouxa no chão a marcar lugar...Assisti a missas para o resto da minha vida! 
Não contente com um pedido ao meu pai que o satisfez com sucesso logo quis outro. Tinha belos cabelos compridos. Só se tomava banho uma vez por semana, à quarta feira -, só haviam 2 secadores de cabelo. Claro que eu era a última...Cansada desta desigualdade, convenci -o a deixar-me cortar os cabelos que tanto brio lhe davam ao recordar os da sua querida mãe, que toda a vida penteou -, pretos, reluzentes asa de corvo de ascendência fenícia...Golpe duro, mas aceitou as minhas amarguras, só me disse "podes ir corta-lo, mas antes pede à cabeleireira para te fazer uma trança, para se guardar de recordação" . Pior foi a sarna que lá apanhei...por falta de higiene de muitas que me infestaram!
Páscoa …Segunda vez de volta a casa encontrei o meu avô paterno Zé do Bairro, na cozinha de estar amofinado com lamento do segundo casamento -, a mulher, mãe solteira, uma vida empregada na casa do Sr. Morgado, nascida em Albarrol, de seu nome Maria -, conhecida por "russa" alcunha dada pela cor ruiva dos cabelos, não lhe fazia a comida e a que fazia era salgada, o assediava a toda hora para lhe deixar o resto dos bens. Como dote de casamento decidido em minha casa, o meu pai único herdeiro ao tempo, deu ao pai alforria para lhe oferecer a casa de família e a fazenda junto ao cemitério com a retórica "não as quero, na casa morreu o meu irmão e a minha mãe, e da fazenda não consigo comer nada sabendo que estão sepultados ao lado…" e depois a mulher merece, não vai ser criada, sim esposa! 
Ao fim de cinco anos de matrimónio, avivando as palavras proferidas da boca do meu avô ouvidas na cozinha de minha casa ao meu pai, além do ouro, do dinheiro, queria cobiçar mais qualquer coisa…O avô falava de coração aberto, como antes nunca tinha visto, a tentar convencer o meu pai "Fernando, amanhã vais comigo ao notário…" justificando os porquês, ainda pediu desculpas de erros do passado, sem contudo ter força para os dizer (ela convenceu-o a ele lhe fazer "casa fechada e logradouros sem o meu pai o saber, em Alvaiázere" ... Desligado de heranças, o meu pai desvalorizou e descansou-o para não se preocupar, que se fosse embora para casa... Mal solto o trinco da fechadura da cozinha, levantava-se a mulher do rebate onde ouviu a conversa... Fim de férias. Acabara de chegar ao Monte Estoril quando recebi a notícia que ele tinha falecido de ataque cardíaco…Deus acabou por simplificar as coisas para todos. Houve anos de zangas e desentendimentos, sendo que hoje somos mais amigos que nessa altura. Minha madrinha de Crisma, acarinha-me quando me encontra. Lamentos que durante anos senti quiçá culpas atribuídas ao meu avô, iludido ficou quando se viu viúvo, afinal ele também não tinha sido feliz no seu "arranjado" casamento com a minha avó Piedade -, e em segundas núpcias encantado mostrou estar pela sua "russita" agora se conseguiu ser feliz (?) o duvido, fatalmente o que sentiu foi ter sido enganado!
Romaria a Fátima…A 12 de maio de 72 fomos de excursão para assistir à Procissão das Velas no Santuário.De noite sentadas no chão, colegas e Irmãs, um cenário místico.No dia seguinte, dia treze, descobri o meu pai junto à Capelinha das Aparições, por a silhueta se destacar dos demais pela altura, vestia fato escuro e óculos Ray Ban de lentes verdes e aros dourados, procurava por mim e eu por ele. Dia de boas recordações em Fátima. Pior foi ter de dormir no autocarro...Emoções sentidas ao ver a imagem de Nossa Senhora e dos Pastorinhos. 
Dilema, avisos, recados…Sempre a mesma coisa, antes do jantar na escadaria do grande hall de ligação aos dois edifícios do Colégio onde se fazia a entrega da correspondência às alunas. Que culpa tinha eu da minha mãe trabalhar numa estação de Correios, escrever todas as semanas, ainda me mandar encomendas e dinheiro? A Irmã incitava-me a escrever a explicar que as outras meninas nada recebiam dos pais, ficavam tristes por eu receber tantas coisas, todas as semanas, enquanto elas pouco, ou nada recebiam... 
Grande era a festa com a abertura das encomendas. No meu aniversário de 15 primaveras a encomenda era enorme.Um belo vestido em popelina estampada em tons azuis, brancos e castanhos, feito pela D. Lucinda do Fundo da Rua, um par de patins vermelhos que o meu pai foi de propósito de táxi no Germano Pires a Coimbra comprar, bombons e tabletes de chocolate, rebuçados, miniaturas de vinho do Porto, dois queijos do Rabaçal e,...Distribui guloseimas e degustámos um queijo delicioso a derreter manteiga feito pela prima Albertina do Escampado Belchior,que adoraram deliciar.
Música dava eu ao confessionário…Aprendi rápido "a fugir à confissão", padres italianos mal os percebia-, comparecia na Capela, mas ficava sentada no banco, mudava de lugar sem que ninguém se apercebesse, depois de algum tempo cansada, ia-me embora, descansada e dizia que sim…e era não!
Possibilidades tive de aprender a tocar acordeão, o que as Irmãs teriam gostado, arranhei no piano a canção do patinho " o patinho Barnabé, tiro liro, lé, a dançar partiu um pé, tiro liro lé…" esse sim fascinava-me a sonoridade. 
Proibido usar calças, muito menos mini saia. Num domingo obrigaram-me a mudar de vestido, porque o acharam muito curto e inadequado...antes que tivesse castigo maior!
Passeios ...A primeira vez que andei de comboio na Linha entrei na estação do Estoril a caminho do Cais do Sodré . Em fila indiana seguíamos ordeiras as Irmãs a pé pela rua do Alecrim onde parámos na Livraria Bertrand, onde entraram. Ficámos à porta, no entretanto os rapazes passavam ao Chiado-, gozavam connosco ao ver-nos vestidas de bata igual -, piropos de mau gosto todo o caminho até ao Metro no Rossio com saída no Saldanha para o Teatro Monumental onde assistimos à peça "O Pinóquio".
Melhor, mais aprazível as idas aos Salesianos no Estoril -, Colégio da mesma congregação, masculino, com igreja muito bonita onde se cantava no coral.
No ringue de patinagem aprendi a patinar com os velhos e pesados patins dos jogadores de hóquei, a nossa treinadora Judite de Sousa, tinha sido atleta do Benfica. 
Boas tardes de cinema aqui passadas, e de piqueniques na linda mata, grandes eram as cestas, e ainda nos levavam à praia mesmo defronte da igreja -, quase privativa, ainda jogos de andebol e basquetebol, com as colegas da Casa Pia ou de Vendas Novas, certo e sabido, a faixa branca estendida na entrada do Colégio à nossa chegada, em caso de derrota... 
Atentas as Irmãs exprimiam em grandes letras a preto o slogan "PERDER OU GANHAR É DESPORTO". 
Litígio tinha e raiva também de estar num Colégio interno. Logo de manhã puxava pelo calendário que trazia no bolso da bata, num ápice já o eliminava antes de mal começar -, sentia que passaria o tempo mais depressa se o eliminasse com um risco a vermelho. 
Pior ouvir o atrevido papagaio que havia numa varanda a caminho do Estoril-, ao passarmos gritava em boa pronúncia...PUTAS...PUTAS... e éramos inocentes! 
Havia tarefas diárias que eram incutidas a todas as alunas para fazer delas também "umas boas donas de casa". Pela manhã tinha a cargo a incumbência da limpeza da biblioteca. Sozinha no trabalho, cedo descobri as caixas de chocolates, não havia dia que não surripiasse um...De espanador nas mãos limpava o pó às lombada dos livros das prateleiras, e às duas grandes mesas onde todas as noites em seu redor as Irmãs se sentavam para conversar, ver televisão, ouvir música, saborear doces...Então não via as pratinhas no caixote do lixo...quando ao meio da manhã a porta estava semi aberta, ao subir as escadas vinda do recreio, surpresa e meio aflita, com o pó que tinha ficado nas mesas em semi círculos...por serem largas, os meus braços não abarcavam os tampos... Às refeições tinha a tarefa de servir no refeitório das alunas. 
Dias de Retiro… Dois dias por ano em que as alunas nada faziam -, as Irmãs sim, elas é que trabalhavam para as alunas. Tivemos autorização para nos dirigirmos à biblioteca e escolher um livro. Por a conhecer bem, escolhi o que na altura me poderia ajudar a tirar dúvidas. 
O título não era apelativo, forte, demasiado grande "Os Porquês da Menstruação"… Na ronda pelos jardins as Irmãs apreciavam os títulos escolhidos pelas alunas, quando se chegaram à minha vez, perplexas com a minha escolha, levaram-me à sala da Irmã Diretora onde fui interrogada, e a única interpelada -, para saberem a razão de tal escolha, o que sabia sobre o tema, se tinha conhecimento sobre o conteúdo do livro... No pior fui incumbida na tarefa da recolha dos paninhos usados pelas colegas para levar para a lavandaria...porque todas espertas, se esquivaram...Difícil é atestar o cheiro nauseabundo do sangue pérfido, seco, que exalava ao abrir as caixas para os tirar...E disso expliquei às Irmãs, porque razão tinha essa incumbência se eu não os usava? Depois perguntaram-me se mensalmente não sangrava pela vagina...Perguntei o que era a vagina, mas pronunciei bagina, riram-se do sotaque, finalmente perceberam o meu suplício de tanta pergunta que não sabia responder, logo eu, incrédula -em setembro, antes de ingressar no Colégio, mês da minha iniciação de mulherzinha...e nunca mais tal coisa apareceu...Razões inexplicáveis, já que a minha mãe nada me ensinara, eu nada sabia -, resultado, senti-me incomodada, detestei o momento. O melhor para mim foi que tal fenómeno não voltou a aparecer…Todos os meses ao telefone a minha mãe preocupada não se esquecia de me perguntar, eu dizia que tal não tinha voltado, toda contente, porque da experiência nada tinha gostado. As Irmãs ouviram-me, expliquei que a intenção era apenas conhecimento de um assunto que me parecia ser proibido, por fim entenderam que estavam na frente de uma menina mulher, inocente, mas esperta no querer desabrochar...Que sabia eu das consequências ou da responsabilidade de ser uma mulher? Nada! 
O meu pai apercebendo-se da situação ouvida ao telefone ao longo dos meses, instigou a minha mãe sobre a gravidade de tal assunto. Mal regressada em Junho a casa de férias, as duas fomos ao consultório do Dr. Travassos que extravasava de gente, ainda de carros à porta, faltava pouco para a minha mãe entrar no turno da tarde nos Correios e, no repente decide ir ao Fundo da Rua ao consultório do Dr. José Manuel da Junqueira que numa receita de três comprimidos amarelinhos, ao fim de dois dias, o assunto que detestei voltou a ser como na primeira vez...Irmã Libânia Professora de Português…Aflita andava com a insistência desta Irmã para ler as leituras na missa -, sempre por mim declinado por ser envergonhada e, corava muito. Sem acreditar em mim, castigou-me, baixando a nota final para me obrigar a ir às orais...Nunca tinha tido uma oral, nem sabia como se desenrolava, tive de perguntar a uma das alunas mais antigas que me descansou dizendo que era fácil, bastava estudar bem uma lição à minha escolha. Assim foi -, na oral mal acabei de mencionar a página da lição, a Irmã, disse-me "tu e a Luísa de Lisboinha, não tem direito a escolher a lição"… 
A minha escolha "Na Senhora da Atalaia" de Fialho de Almeida, in Guia de Portugal... "Da ondulosa colina em que se levanta o santuário, o olhar, correndo sobre os campos, hortejos, vinhas, mato e pinhais de rama curta, flutua,embriagado da cor, vindo topar a norte a expansão que o Tejo faz, chamada mar da palha em cujo fundo, num além de montes, Lisboa desenrola o seu panorama esfumaçado".... 
Entrei em pânico mas diz o ditado "Deus Existe"... Recebi indicação para abrir o livro na página 157 visivelmente trémula, sem pinga de sangue, ao abrir o livro na página indicada  reparei que o soneto estava cabulado -, ato imediato, pus os braços à frente do livro para não se aperceberem, mudei de espírito totalmente… Brutal foi a leitura em tom declamado! 
Poema de António Maria de Sousa Sardinha (n. em Monforte, Alentejo a 9 Set. 1887; m. em Elvas a 10 Jan. de 1925)
Fiel ao sangue, nossa irmã germana
chora Olivença as suas horas más
junto do rio que tornou atrás,
quando soou a trompa castelhana.

Ó casa de Antre Tejo e Guadiana,
lembra-te dela que entre feras jaz!
Não a dobrou a guerra nem a paz,
-fiel ao sangue, o sangue a ti a irmana!

E todo aquele em quem ainda viva
o ardor da Raça e a voz que nele anseia,
se for para além da raia alguma vez,

é Olivença nossa irmã cativa
lá onde com surpresa à gente alheia
oiça dizer adeus em português!

Respondi com êxito a orações, substantivos, verbos, tudo o que quis, de tal ordem que a Irmã Geraldes a Prof. de Matemática ao seu lado, e chefe de júri a questiona "não achas que estás a exagerar?" ao que ela lhe responde " quando encontro pela frente uma aluna desta envergadura nunca me canso"...De seguida tive oral de Matemática -, o meu calcanhar de Aquiles, no quadro não fui capaz de fazer a equação... 
Bondosa a esquelética Irmã Geraldes em voz alta vira-se para a audiência e diz "mas o que é a Matemática ao pé da excelente prova de Português que todos aqui maravilhosamente assistimos hoje"… Estarrecida com tal milagre -, aprovada! 
Na porta a minha mãe espreitava para me trazer de volta a casa no carro de praça do Manuel da Junqueira no dia 13 de junho de 72.
Fascinante foi sem dúvida alguma a aprendizagem que adquiri no Colégio Religioso, só não foi melhor por culpa minha! 
Das amigas que o tempo perdeu...Helena Assis de Mangualde; Beatriz Alves Milhais Abreiro; Lídia Pinheiro Sobral Gare Guarda; Zita Cabral Rapoula do Coa Sabugal; Nazaré Santos Aguiar da Beira; Diamantina Resende Macedo de Cavaleiros; Marília Taveiro Rebordelo; Goret Vaz Vilar Oeste; Júlia Novo Milhais Abreiro Ana Velez Tapadinhas Almada e,... 
Quem me foi ver ao Colégio? O Armando (Girafa) amigo e colega do meu pai, com ele trabalhou no Tribunal, primo por afinidade por parte da mulher Palmira.Inteligente trocou Ansião por Cascais.Lembranças de saudades dos filhos com quem tanto brinquei, na casa onde fui comprar álcool ao decilitro -, o Adriano o "Nito" lindo, da minha idade e a Alicita mais nova.
Teimosia da minha irmã … Nas férias de 72 não se calava " falava que se fartava à boca cheia" sentia-se desfavorecida em relação a mim "se eu tinha estudado num colégio religioso ela também tinha o mesmo direito, não devia ser penalizada". Aconteceu o imprevisto com o falecimento do nosso pai em setembro. A minha mãe sem pensão, só podia contar com o seu ordenado.Se comigo no ano anterior , o ordenado do meu pai era o valor da minha mensalidade (2 contos de réis).Coitado de quem é mãe...Para não favorecer uma filha, em detrimento da outra, concordou com tal pedido desde que as três concordassem no maior sacrifício, rigor e poupança, ainda com o reparo -,com a condição do colégio ser em Leiria, mais perto a visitas. Aparentemente feliz a minha irmã tinha conseguido o seu objetivo. Atrevida ainda convenceu a sua amiga e companheira de traquinices a Elvira André do Escampado de S. Miguel que acedeu a ir com ela, as duas foram de malas feitas a caminho do Colégio Religioso de Leiria. 
Encontrei escrito num livro de Português "Elvira André sempre disposta e amiga. Recorda-a que ela te recordará. Mena Valente 14-11-73 "
Passada uma semana, chegava eu de carro com a minha mãe ao adro, damos conta que alguém está na porta da cozinha -, tamanha surpresa ao constatar que se tratada dela, com a mala...
Tinha fugido do Colégio e deixado a amiga para trás... Nunca apurei como o perpetuou, tal o meu grande pasmo só de pensar no espalhafato que fez para o frequentar -, porque dinheiro, sei que não tinha! 
O que me ficou no ouvido? 
Viva Jesus Irmã-, o cumprimento devido ao passar por alguma. 
Maria Auxiliadora rogai por nós 
Do que me esqueci? 
Rezar a avé maria em inglês e francês 
Canções de natal em inglês 
Tocar piano 
Jogar basquetebol e andebol 
Do que ainda sinto saudade?
Saborear o amargo dos limões bebés mal crescidos a despontar nos limoeiros dos canteiros do recreio, uma contra a ordenação das Irmãs... 
A primeira vez que provei alfarrobas que me pareciam vagens de favas secas mas de sabor melado. 
Desabrochei na liberdade que desde sempre viveu em mim, apesar de presa-, senti-me livre, porque soube inventar soluções para acalmar os meus dias, sem drogas nem álcool -, o plano foi manter a cabeça ativa e apaixonada.
E com isso safei-me e bem!

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