terça-feira, 10 de junho de 2014

Aventuras e aflições vividas na infância por Ansião

Atrevimento naquele tempo a construção da casota de pedra e cal para o cão Turco, animal de belo pelo negro brilhante, a imitar os cabelos lisos da minha irmã de origem fenícia -, a Mena, e mancha branca debaixo do peito, prenda do nosso pai, sorrateiramente doce, o vimos tirar bebé do bolso do casaco de cabedal, trazido dos lados do Mogadouro,  numa noite invernal a opção foi dormir em cima da nossa cama. Afeição e cuidados em demasia com o cão, a pensar na malfadada desgraça do Franginhas, comprado em Coimbra, apenas viveu 3 dias, finou-se acometido de pneumonia, consequência do banho encharcado pelo natal. O Turco quando cresceu só lhe faltava falar, tal a inteligência e o ouvido apurado. Pedreiras por um dia, coisa de genes a puxar raízes à profissão do nosso avô paterno " Zé do Bairro" na decisão de construir a casota em pedra e cal na idade de onze anos. 
A minha Mena 
Fácil foi pôr em prática o que tínhamos visto fazer num arranjo à padaria no local escolhido, o canto do patim junto ao muro para o adro, onde foi fácil levantar duas paredes laterais, e na frente uma fila de tijolo para a porta ser confortável, mas trabalho nos deu a placa a montar feita com tábuas, sobre elas uma camada de rede dobrada coberta com cimento e brita. Obra nivelada a olho, que se aguentou no tempo mais de vinte anos, sem contudo de curso tirado, antes no papel de aprendizes, apesar do descuido dos remates nas pontas...percalços houve na rede que se prendia nas saias ao passar, e a corrente do cão também... 
Mal afortunada a tarde que um homem ao passar ao adro da capela andando o cão solto da corrente e não gostando do aspeto lhe ferrou dentes, salvando-se a pele da perna, apenas rasgão nas calças. Resmungou e barafustou, antes da noite cair apareceu a pedir explicações ao meu pai na exigência do pagamento do prejuízo. Logo ali descansado o pobre achadiço em calmaria " não se atormente, tenho seguro, vai receber indemnização para comprar umas calças novas, que as que trás além de bastante gastas, mal o cão lhe tocou se rasgaram em fanicos …" Admirado, sem nada saber de seguros, boquiaberto e lixado ficou quando o meu pai lhe disse que tinha de deixar as calças rasgadas para o seguro as pagar...Responde não tendo outras -, remediado havia de ficar com umas do meu pai!
Fatal aquela trágica quinta-feira com a notícia trágica na tarde do dia sete de Setembro de 72 quando se apanhava milho na Lameira. Sem respiração, estupefatas, olhamos uma para a outra com a notícia da morte inesperada do nosso pai, trazida pelo carteiro Parente. Ao almoço a nossa mãe deixara um bilhete em cima da mesa " liguei para a clínica foi o dia que o paizinho almoçou melhor" o Rafael tinha sido contratado para andar com a carroça no transporte do milho, mostrou-se comovido e entre dentes resmunga " foram as melhoras da morte"..O meu pai foi vitimado pelo cancro do pulmão, sendo fumador incorrigível e não do vinho como a maioria afirmava, que dele falavam tinha cirrose, a verdade nem bebia muito, o problema é que não aguentava o álcool, e o que bebia, lhe alterava quimicamente o cérebro, que ao tempo não se sabia desta doença, de tal modo que perdia a lucidez, ficava esquinado...Toda a vida assisti nas tabernas a outros beberem muito mais e aguentarem melhor o vinho, porque os organismos são todos diferentes, no caso o meu pai sendo um homem doente, tudo lhe fazia mal, comia pouco, e o vinho um veneno para ele. 
O povo também gosta de ser maldizente, falar do que não sabe , sobretudo inventar, o que revela o fraco grau de cultura, depois o que bebia, em geral o único pagamento dos favores que sempre privilegiou os demais, porque gorjetas jamais as recebeu, era totalmente contra !
Saímos às pressas da Lameira sem as espigas de milho a caminho de casa, nisto chegou uma ambulância de Coimbra que trazia o seu corpo dentro de um sacão em linho grosso que dois homens seguravam dos lados. A "Carolina do Trinta" fez-lhe a barba de mão trémula, a lâmina o cortou nas pregas da face, viu-se "grega" para lhe estancar o sangue, no entretanto outras mulheres que se chegaram à trágica notícia se puseram a mudar a casa, despindo-a de vaidades, uma abaixou-se para enrolar a passadeira do corredor, logo a minha mãe num gesto de voz forte a fez parar, impedindo de fazerem o que quer que fosse  lança um grito "o meu Fernando gostava da casa arrumada e assim vai sair dela, não tiram nada do sítio". Apenas com 300$00 no bolso para o amortalhar, a minha mãe foi por certo a primeira em Ansião a alterar rituais, este da casa para o velório e o do luto, que na altura seria para toda a vida, ao fim de três anos começou a aliviar, já eu e a minha irmã, ao fim de seis meses, por não estarmos habituadas a tanta recessão de roupa -, a nossa mãe sem reforma de viuvez apesar do meu pai ter sido funcionário público, ninguém a esclareceu de nada ao tempo, só mais tarde, sendo o que recebe uma ridicularia, tendo contas certas para pagar a cada mês, nada sobrava para gastos supérfluos . Muito mal falada foi a nossa mãe, sendo pioneira de vitais e novas mudanças nesta terra de Ansião. Atendendo ao poder de compra dos nossos pais, nada nos faltou até à sua morte, tinha eu quinze anos e nesse momento a nossa vida virou "dos oitenta para os oito" passámos a viver só com o ordenado da minha mãe que nos limitou em tudo -, se comeu muita sopa com pão e, pão com sopa, enchidos e se cachuchou muito osso de porco, porque a prestação do carro e do Externato eram certas como certo e sabido-, nunca ninguém em casa nos apareceu a bater à porta, telefonou, ou mandou carta, a cobrar dívidas ou a pedir cobrança fosse do que fosse. Grande foi e é a minha mãe, apesar de pequena em altura. Mulher de boas contas já o dizia à boca cheia o Sr. José Silva, do Fundo da Rua, à filha Laura, que tanto dinheiro lhe emprestou quando foi correspondente do Banco Pinto Sotto Mayor em Ansião.
Horas de aflição tanta vez sentidas com a minha mãe quando passou a andar deslocada em trabalho noutras terras a partir de 73. Um dia tardava em chegar pelo grande incêndio por terras de Figueiró dos Vinhos, viu-se obrigada a inverter marcha em virtude do fogo ter atravessado a estrada, sendo obrigada a voltar atrás e seguir pela Arega… O Turco, de instinto e faro apurado sentia o mesmo aperto de coração que nós as duas no grande atraso sem notícias, e os três hirtos, de olhos esmagados ao adro, sem nada se conseguir fazer... O Turco mal sentia o carro na curva da padaria da D. Piedade Lopes, levantava as orelhas no ar, e de rabo a abanar seguia direito à entrada do adro, para nos acalmar sendo que jamais se enganou. 
Escrupuloso e cauteloso o meu pai tinha alguns seguros nos anos sessenta: caçador, responsabilidade civil sobre o cão e a mota, sendo que o mais importante, o de incêndio da casa e seguro de vida, nunca os fez, e deveria. Um seguro de vida numa morte inesperada é resolução imediata para acudir a situações imprevistas. Fê-lo a minha mãe após o seu falecimento em 72 -, a muito custo por o dinheiro ser contado-, no pensar maior dos receios que tinha em perder a vida num acidente de viação ou doença súbita, no pior deixar as filhas desamparadas!

Valentes, outra vez Valentes, até morrer Valentes, sim senhora!

Grande o sobressalto no coração quando dei conta da minha irmã sentada no carro da nossa mãe a estuda-lo -, sem nada o prever engata a marcha atrás e sai adro... Perplexa "sem pinta de sangue" peguei na bicicleta corri ao seu encalço na estrada com tantos perigos de valas esventradas pelas obras de saneamento e abastecimento de água, corria o fim do ano de 72, com o receio que ela se enfiasse algures -, sai a pedalar sem cessar a deitar os bofes borda fora quando ao Carvalhal do Bairro, a vejo passar por mim vinda do Pinhal, feliz de cabeça fora da janela "o que andas aqui a fazer?"... Aprendeu a guiar sem uma única aula, nem explicação de ninguém. Uma Valente sim senhora. Tirou a carta aos 18 anos com rótulo de parabéns em Coimbra, o Eng.º comparou-a com a Michelle Muton, francesa, mulher que mais tarde num rali do Vinho do Porto viria a resvalar na ribanceira na Foz d’Alge caindo o carro à água, sendo que escapou ilesa. 
Menos sorte a do nosso gatito, as máquinas amarelas das obras de saneamento no Bairro de Santo António foram fatais para as suas tropelias quando deitaram abaixo a casita que foi das minhas amigas Fernanda, Dália, Zeca e Leonor -, filhas da Robertina e do Roberto, o "Bicho Mau" nome pelo qual se fazia chegar à nossa beira, gostava de dar marradinhas nas pernas quando estava sentada na sanita e no banquito ao lume...
Após o falecimento do meu pai a nossa vida alterou-se substancialmente na premência de se fazerem opções, outra vez valentes. A criada impossível de manter, teve de se resignar ir embora sendo as tarefas domésticas, o serviço não remunerado, reorganizadas, porque a economia do lar de rendimento menor passou a ser mais rigorosa. Irreverentes às novas tarefas inventámos medida satisfatória -, que mereceu crédito das duas na decisão de fazer sortes das tarefas. Diariamente uma de nós fazia a escala com os afazeres em número par, efetuada a lista no imediato virada a folha para a outra escolher, as sortes sobrantes ficavam para a que tinha feito a escala. Paralelamente para não ser enfastiante o serviço foi criado um sistema de perguntas e respostas como acontecia no Concurso do Galo, apresentado pelo Artur Agostinho na RTP, sobre cultura geral que muito nos agradava, nem se dava conta do serviço acabado, na verdade a casa sendo bem dividida pelo corredor ao meio permitia o rol de perguntas e respostas sem problemas de audição. Havia contudo um intuito maior de gozo-, o objetivo de saber qual tinha sido a melhor, a vencedora, o que despoletava ainda mais interesse em querer aprender, saber mais -, boas as tardes sentadas na soleira da porta da frente, ou da cozinha a devorar os livros da estante da sala de visitas fosse o atlas, história, geografia e,... Invenção fenomenal haveria de nos dar frutos -, dois em um, casa arrumada e por outro lado o gosto de saber mais que crescia na vontade de aprender algo que de antemão cada uma apostava que a outra não iria saber no dia seguinte -, o clímax glorioso da vitória "eu sou melhor que tu" mais-valia que nos viria a ser útil nos testes que mais tarde fizemos para entrarmos no mercado do trabalho, nomeadamente no exame para os Correios, e mais tarde na minha entrada para o Banco Sotto Mayor -, no dia do exame em Coimbra, a Fátima Miranda, Fátima Duarte, Silvina e Assunção da Sarzedela e outros, faziam cálculos de juros " se tivermos 100 contos no banco a seis meses..." enquanto isso, encolhida estava numa ombreira da porta visivelmente atrapalhada porque nada sabia de Banco, nunca tinha visto um cheque...Respondi à chamada para uma grande sala onde fomos supervisionados por gerentes e diretores do Banco de Coimbra, de tão nervosa entrei que num ápice mudei ao deparar com uma prova de cultura geral , só poderia correr de feição. Melhor me senti quando o Dr. Querido parou junto de mim a ler de soslaio a minha prova e me diz "a menina está a fazer uma excelente prova, parabéns" de todas as raparigas a única que passei, no total fomos apenas oito aprovados. Já no exame para os Correios, a minha irmã apurada nos psicotécnicos -, de todos os inscritos a exame, e eram muitos, apenas quatro aprovados, sendo que o concurso tinha como bitola obrigatória a carta de condução porque se inscrevem mais de 40.000 -, ora a minha irmã já a tinha desde os 18 anos, como era impossível abrir estágio com quatro pessoas, a decisão foi de abrirem novo concurso para pessoas com tempo de serviço, a que já pude concorrer, por ser na altura assalariada a prazo na secretaria dos TLP em Coimbra. Antes do exame a sondei sobre o que eram psicotécnicos? A malvada nada me respondia, até que cheguei a desconfiar dela, sendo eu já casada a precisar de me efetivar, e de vir para Lisboa , mostrava-se evasiva, na vez de me ajudar mantinha-se indiferente . Levantei-me nervosa no dia do exame, ao pequeno almoço na cozinha da casa alugada em Santo António dos Olivais, antes de sair pôs-me a mão sobre o ombro e diz-me calmamente " vai confiante, ninguém consegue fazer tudo no tempo que é cronometrado, tenta fazer pouco, mas bem feito, vais passar tal como eu passei". Bem me lembra o alvoroço da Augusta Murtinho, tão orgulhosa na vaidade falava alto e em bom som "sei de cor todos os números de telefone de Parceiros"... Assustada fiquei com tanta pose e presunção...Em nada lhe valeu que chumbou, tal como todas as outras se finaram neste caminho, mas eu passei em glória à conta do pensar da minha Mena!

Memórias afetuosas como só pessoas sensíveis encaram o AMOR-, como neste prato falante, reprodução "ratinho" meados do século XX da OAL de Alcobaça(?) em que o pintor não teve medo nem vergonha, antes encanto ao pintar a palavra proibida /pecaminosa,  no prato -, não se comendo o amor de faca e garfo, sente-se sentido na pele e na alma!

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