quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Espigas oiro, carmesim e ruby nas eiras a estatelar o olhar!

A minha tia Maria fazia a sementeira de milho no quintal, também na fazenda do Carvalhal e Cavadas onde fui várias vezes fazendo companhia à  minha prima Júlia -, moçoila mais velha 10 anos, teimou ficar solteira, apesar dos fortes atributos, alta, desempenada, de boas carnes, robusta e bonita, ainda enfeitada de um peito de altar, de deixar cair dentaduras dançantes...
Na foto em frente do antigo hospital de Ansião no Bairro de Santo António, no dia do casamento da prima Tina, irmã da Júlia -, sou a criança de chapéu, e ela a última do lado esquerdo, vestida de avental porque serviu as mesas na boda.
A Júlia tem de nome sonante a mesma força para o trabalho, mulher destemida, teimava abarrotar os taipais da carroça de estrume curtido da estrumeira, de forquilha em fúria nas mãos as garfadas emprensadas transbordavam os fueiros, para logo seguir viagem estrada fora nos quatro quilómetros aviados de caminho, agora de mãos presas nas rédeas da burra, indo eu do outro lado  da carroça, ao passo da Gerica até às Cavadas com o cheiro forte  que toldava a conversa… 
Um gosto andar sempre na sua companhia para onde quer que fosse, amiga de contar e mostrar o que conhecia, um dia levou-me ao Casal das Peras antes do Carril para ver o  “pezinho de Nossa Senhora” esculpido num penedo de calcário, na altura acreditei pela perfeição, mais tarde percebi que pode muito bem ter sido uma obra escultórica dos antepassados do Neolítico (?)  quando andaram nestas serras de Ansião, tal como as gravuras de Foz Côa, Portas de Ródão  e,... 
Na altura da apanha do milho a carroça vinha apinhada  de espigas sendo descarregue no rebordo da eira.
Pela tardinha dava-se início à descamisada, onde mulheres, rapazes, homens e cachopos, sentados em cima das espigas, as iam descamisando do monte enchendo cestas que se despejavam na eira.
Quando alguém encontrava uma espiga de milho rei -, a espiga da cor carmesim ou ruby, deveria acontecer beijo na eira -, só que os rapazes no tempo eram muito envergonhados, não me lembro se alguma vez me beijaram - julgo que não, nem se atreviam ou sabiam dar um simples beijo na face (?)...porque os afetos não se valorizavam, havia que defender a honra, o não ficar mal falada... e foi pena a vivência de tais preconceitos…qualquer rapariga teria gostado de sentir tamanha emoção. 
Grandes os montes de camisas das espigas, que me pareciam o rabo estufado dos patos ou das pombas que se juntavam em  redor das gentes e das barbas de milho que largavam pólen, no pior para quem sofria de alergias.
Espigas cor d’oiro, carmesim ou ruby na eira a secar, depois de secas era descarolado numa máquina manual, de um lado saíam os carolos e os grãos de milho por outro. 


Seguia-se o ritual do limpador e de novo os grãos dourados e vermelhos voltavam à eira, para finalmente ser guardado nas arcas, que de lá saia para o taleigo que o moleiro havia de levar e transformar em farinha para a broa.O milho também era guardador dos queijos do Rabaçal para se aguentarem no inverno. Ainda me lembro de enfiar o braço na arca da Ti Rosa à procura de um...
Ainda recordo o cheiro da broa  a cozer no forno...

O milho era sustento para os animais: galinhas, patos e burra, e claro semente para nova seara. Não me lembro de o usarem na comida, em grão demolhado, no meu tempo nunca apreciei as famosas papas de milho, que os mais velhos comiam por não terem dentes.
Grandes descamisadas na eira do Ti Zé André  do Ribeiro da Vide à sombra da grande nespereira, da eira do Ti Raul Borges debaixo do alpendrito na frente da minha casa, na eira do Ti “Parolo” protegida pelo grande alecrinzeiro, também na eira do bisavô Elias do Alto resguardada pelo casario na planura do quintal a perder-se na vista do costado da Fonte da Costa e na Moita Redonda na eira do avô António Veríssimo, de corrente de prata do relógio presa ao colete, e o neto que viria ser meu marido ainda adolescente sentado em cima do milho com óculos, e familiares numa foto a preto e branco na década de 60.A eira é hoje pertença da nossa casa rural. 

Lindas eram as eiras vestidas de oiro serpenteadas de espigas carmesim  e ruby a estatelar o olhar!

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