quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sapateiro arte d'ontem em Ansião a pensar no Bandarra...

Domingo em tempo de verão mote dado pelos vestidos de seda em branco e pintinhas rosa, de véus na mão com a outra dada à minha irmã Mena, nada rogadas à fotografia registada pelo primo Alfredo, marido da Elsa defronte da casa dos sogros, nossos tios.
Ao fundo da travessa junto do Clube dos Caçadores vêem-se mulheres a fritar peixe, haveria festa na vila, o Ti Néco do Bairro de Santo António ficou especado a olhar...
Antiga calçada das ruas feita pelo " Ti António Pataco" de apelido Freire da Paz, cujo bisavô foi juiz na primeira Casa da Câmara no Bairro de Santo António, um dos primeiros calceteiros de Ansião, ensinou a arte ao vizinho Manuel Murtinho, nascido também na Cabeça do Bairro.
Aos sábados em Ansião das bandas dos Ramalhais se chegavam vendedores de barros em cores fortes de olaria familiar da Bidoeira ;amarelos, verdes e amarelos -, as mulheres altas, de cara pesada e bigode, vestidas de preto se cobriam de saião pelas costas com barra alta em veludo negra em jaez de casaco, ao pescoço carregavam pesados cordões em oiro de medalhão a reluzir no peito descaído e penduradas nas orelhas descaídas grandes arcadas , neste olhar assim parada me deixava ficar no fascínio de contrastes-, entre o feio e o belo, admirando ao mesmo tempo ;assadeiras, alguidares, barris e cantarinhas para o jogo na Quaresma no largo do Hospital e no adeus do estaminé de venda no fechar da calçada em frente dos Paços do concelho, o desfile infinito de pratos Sacavém...
Havia ainda os sermões do "Pregador" do Crucial de S. Bento que do alto da escadaria da Misericórdia que se fazia ouvir, mas não sei se alguém o ouvia, ao largo da Praça do Município!
Ao cento se vendiam couves de alfobre atadas com junco para transplantar: penca, tronchuda, asa de cântaro, branca, lombardo, galega, beterrabas, alfaces, que se avassalavam na crista dos regos das batatas, pimentos, tomates, pepinos e molhos de cebolo, porque em toda a taberna cedo se manifestava o ritual do desdejuar pelo grande avio de pixeis, a transbordar aguardente forte em fila a clientes assíduos que não se ficavam apenas com um, nem dois, nem três, com ar arrebitado, se mostravam pelo meio da manhã, no contínuo emborcar, mas agora de copos de vinho a eito, saídos do espicho a empurrar o pitéus de carapaus ou sardinha frita de escabeche, bacalhau albardado, ou iscas-, petiscos que a cozinheira puxava ao sal, na senda da mira de negócio fácil fosse a venda de mais "copaneros de tintol" e alguns os via a caminho do urinol...
Jamais a falta da tenda dos sapatos, não sei de onde vinham, pelo chão em cima do plástico montes de tamancas pretas com rasto de madeira e tachas de lado, galochas de borracha pretas e brancas para os cachopos, sapatos rendados em plástico, sapatos industrializados e chinelos.
Pois lembro-me bem da arte de sapateiro no meu tempo por Ansião.
Homens havia que encomendavam grossas botas de cabedal com umas correias que davam a volta ao pé, com rastos de pneu ou sola, com fortes proteções de metal: brocha de asa de mosca ou cardas, contra a resistência ao tempo. As do meu avô materno no dizer da minha mãe eram destas, já as do meu avô paterno eram de cano curto, que me lembro delas de correia e fivela abotoar de lado, bem engraxadas ao domingo. Havia ao tempo alturas especiais em que o calçado seria a estrear, fosse no exame da 3 ou 4ªclasse, batizados e casamentos, que além dos noivos, os padrinhos também o estreavam. Muitas vezes os sapatos de noiva eram forrados a tecido das sobras do vestido.
Sapateiro de sucesso, o sinónimo de homem com talento de aprender e executar!
Já o aprendiz de sapateiro começava pelos trabalhos básicos a preparar linhas, a partir de fio e pêz ou resina e coser materiais, sempre debaixo da orientação do mestre sapateiro ia executando tarefas cada vez mais complexas, de modo a estar familiarizado com as ferramentas e os procedimentos da arte, até ser capaz de chegar o dia que entregue a si próprio, criar a partir de materiais sem forma, sapatos ou botas, com a comodidade que o cliente ficasse satisfeito, enfim se afirmar sapateiro, como acontecia noutras artes; costura, ferreiro, e,... Sapateiro artista não lhe faltava a tábua da lixa onde afiava a faca na vira que aparava e empanava a vida -, um aparador de viras que não se fazia rogado ao trabalho.
Naquele tempo as oficinas de sapateiro que conheci eram em estilo semelhantes, apenas diferia a luz-, alguns trabalhavam na frente da porta aberta, e outros na parte de trás do estabelecimento, onde a luz era mais escassa, sob a parca bancada de trabalho pendia o fio suspenso com a lâmpada , sendo que em todas elas se via pelo chão calçado pelos cantos, sapatos e botas com cola a secar , tamancos e sandálias altas com rasto de cortiça descorada que aprendizes de novo punham como novas com viochene, e prateleiras esconsas carregadas de outro calçado de atacadores descaídos que no tempo o pó carregou, por os fregueses deles se terem esquecido…Sempre o ferro de burnir que o aprendiz ou o mestre acendia e reacendia na lata de brasas e o mexia com a torquês, para o aquecer para em vira pôr pêz, e a forma de ferro e as de madeira, para tirar o molde ajustando a forma ao pé do freguês no aguçar o mote "vi-lhe a perna do joelho ao artelho, gabava-se ele sapateiro arteiro, que a menina com os pés a crescer, por certo, tinha de tirar molde outra vez…" Não faltava na oficina de sapateiro a cera, a sola, a tomba, as gáspeas e meias gáspeas, a alma, a cerda, a linha e a anilina, a borracha e o atacador, os pregos, a sovela da borracha e a sovela da sola, as meias solas, os ilhós, a graxa, o cuspinho, o martelo, a cola, o salto, o meio salto e o salto alto, o protetor, a máquina de cozer, o contraforte, a fivela, a escova preta e a castanha, o calfe...Pelas paredes em geral calendários de folhas revirados com a humidade e calor, e ainda um brutal cheiro forte a cola. Sem desprimor do trabalho árduo do dia, sempre tempo para na graça descomprimir com as perguntas do quotidiano, aos aprendizes no teste à cultura da vida: -, e um côvado, quanto é?

Prefaciando a Biblia, Êxodo 26,16 
O comprimento de uma tábua será de dez côvados, e a largura de cada tábua será de um côvado e meio.
Medidas lineares do côvado
Côvado................................... 45 centímetros
Braça..................4côvados.......... 1,80 metros
Estádio...............400côvados......... 180 metros
Milha.................................... 1.480 metros

E uma grosa? É a medida resultante da multiplicação de 12 por 12 ou seja 144 unidades. Também pode ser uma lima de dentes.
E um alqueire? Remata o aprendiz com a pergunta?De milho ou azeite?
Aprendiz sorrateiro se mostra atento à rasteira das perguntas de algibeira, na oficina de saberes!
Medidas de capacidade, o maior alqueire e o pequenino o quarto dos tremoços

Não me vou sem voltar a contar a história passada na Moita Redonda, aldeia dos meus avós maternos do concelho de Ansião, com um aprendiz de sapateiro que na sua primeira obra quis presentear a sua avó Joaquina - "velha escarnienta de mau feitio" que mal os experimenta em tom irónico dita recado à sua filha, a mãe do rapaz "oh Maria os sapatitos que o teu filho me fez ficaram apertaditos, apertaditos…"
Indignada a mãe do aprendiz ao ouvir funesto reparo em desagravo da boca de sua mãe responde-lhe no mesmo tom, "apertaditos? Sabe a minha mãe quem lhe fazia uns sapatos mesmo à medida do seu pé ?O ferrador da Mó…"
A pobre velha de "maus fígados" mas sonsa, pergunta à avó do meu marido, a Rosa da Quelha " oh Rosa quando fores às vinhas da Mó, a minha Maria diz "quá lá" um ferrador que faz sapatos mesmo à medida do meu pé, como uma luva"
-Responde-lhe a Rosa" oh mulher, a sua Maria quis atenta-la, "atão" o ferrador põe ferraduras, mas é nos burros…"
Porque o conhecimento é cultura, sendo que a arte de sapateiro não deve ser desprestigiada, nem tão pouco esquecida-, antes valorizada!
Naqueles tempos fazer o calçado por medida era tarefa árdua para quem tinha talento!

Nem todos tinham máquinas de cozer, um serviço manual, não se livraram de cortar as mãos com a sovela curva de bico para furar solas de cabedal ou de borracha, que no mesmo buraco metiam outra sovela tipo vareta para dar caminho à guita. As vezes que assisti a este ritual. O sapateiro na província deixou de ter a função de fabricar o calçado na década de 60, quando o mercado começou a ser invadido por calçado em série, produzido industrialmente, para gente pequena e graúda, de todos os tamanhos, sendo mais barato que o encomendado ao sapateiro-, o drama que marca o fim da arte do sapateiro na província, mantendo-se somente estes como reparadores de sapatos e afins, como hoje se destacam pequenas oficinas, como é habitual nas estações de Metro em Lisboa, e não faltam nos centros comerciais e claro em Ansião, temos um bom na Avª Dr. Vitor Faveiro onde agora sou cliente, pelo Natal foi a colocação de uma mão numa mala de cabedal.
O primeiro sapato -, o primeiro calçado foi registado na história do Egito, por volta de 2000 a 3000 a.C. Trata-se de uma sandália, composta por duas partes, uma base, formada por tranças de cordas de raízes como, cânhamo ou capim, e uma alça presa aos lados, passando sobre o peito do pé.
Muito filho de sapateiro se tornou doutor e o concelho de Ansião não fugiu à regra!

Dia do Sapateiro a 25 de Outubro

Imagem da Lourinhã muito semelhante à que vivi em Ansião
O sapateiro vestido de avental, e o conjunto de objetos de trabalho que saíram de uso, como o tripé e a bancada, e os moldes de botas e sapatos onde não faltam solas e cabedal.
  Formas de madeira
Do primeiro sapateiro que me recordo-, o Ti Álvaro, morador na vila perto do correio velho, na sua casa construíram este prédio.
O Ti Álvaro tinha um quintalito na rua de trás de paredes meias com a minha Tia Carma e o "Armando Girafa", homem velhote, quando o conheci no início de 60, na sua casa tinha a oficina de sapateiro onde entrei várias vezes, mas pouco mais me recordo...
O sítio do sapateiro Ti João do Cimo da Rua
Mais acima na esquina da rua com a travessa-, o Ti João do Cimo da Rua, outro sapateiro que se fazia chegar com a lata de brasas , sempre de avental ensebado e sovela na mão a puxar guita a cozer botas e sapatos. Tanta brocha de asa de mosca, cardas ou tachas me pôs nos sapatos na frente e atrás no tacão porque se gastavam, e cozia na máquina fechos das botas quando se estragadas nas dobras...
Sapataria que foi do Sr. Gaspar no r/c, ao portão, subindo a escada era o sapateiro
A sapataria do Sr. Gaspar (pai) a maior em Ansião de grande freguesia sita depois do largo do fontanário de ferro ao início da rua que sobe, ao tardoz da Praça do Peixe-, duas portas e degrau rebatido e chão em cimento pintado a vermelho, apresentava-se de grande balcão corrido em "L" com máquina registadora.
Prateleiras e chão com muitas caixas de sapatos , pelo teto pendurados moldes em madeira de os fazer em todos os tamanhos e ainda botas de cano curto, para homens e rapazes, feitas por medida, em preto e cabedal, enceradas, que o meu avô "Zé do Bairro" e o seu filho Chico usavam e aqui mandavam fazer.
Na época o meu pai era quem calçava o número maior em Ansião -, 44 sempre aqui encomendado de propósito. Desse tempo recordo a chegada de um par de sapatos de biqueira larga em tom amarelo torrado, uma modernidade.
Os arranjos de sapatos e botas se faziam no andar de cima , entrava-se pelo portão do lado, subia-se uma pequena escada. Onde também cheguei a vir algumas vezes, para arranjo dos tacões altos e das almas partidas dos sapatos da minha mãe que lhe faziam umas pernas de invejar com meias de costura... Tantas as vezes o serviço de capas em sapatos e botas, remendo de correias rebentadas nas sandálias e compra de sapatos de verniz com o enfeite de corrente antes da pala...A minha Mena no dia da minha Comunhão Solene os calçava. Na foto no Nélito na casa alugada, o estúdio improvisado perto da igreja, de chão coberto a plástico estampado e reposteiro apanhado de braçado-, num tempo de poupança, porque não tive direto a ficar sozinha assim vestida de branco em vestimenta de aluguer em Pombal Reparem no efeito da luz refletida na parede da corrente do sapato.
Não sei quem é o herdeiro do património da antiga sapataria Gaspar e da casa do mentor do negócio-, era uma homem de estatura baixa, castiço, vestido de óculos e chapelinho pela cabeça, vivia na casinha típica, pintada a ocre, ao Moinho das Moitas, património que nos dias d'hoje constrange sentir o estado de degradação...
Ao tempo as caixas de sapatos em branco eram úteis, porque não havia embalagens, com elas se faziam encomendas, quando frequentei a Colónia Balneal Bissaya Barreto na Gala, a minha mãe aqui as pedia para nos mandar sandes, fruta e chocolates...Papo secos de maminhas com carne assada que chegavam rijas que nem cornos-, mas sabiam a Ansião no parco mitigar da fome, porque para nós a comida da Colónia de cheiro a fénico, era intragável, apenas se salvava o lanche com um quarto de pão e gorda fatia de marmelada...
Devagarinho trincadas as sandes-, porque éramos ambas abençoadas de bons dentes...
De todas as sapatarias que existiram na vila de Ansião desse tempo, a única que supostamente ainda reterá no interior algum ambiente da oficina de sapateiro e da arte de vender sapatos, será esta que foi do Sr Gaspar.A única de todas que existiram de geração continuada na arte de vender bons sapatos.
O sítio da casa do sapateiro Ti Emídio
Abaixo da igreja havia o sapateiro Ti Emídio Sá, mais tarde alargou o negócio com uma pequena sapataria. Um dia quando fui levar calçado para arranjar o filho Sá, estudante na altura e meu colega, ajudava o pai no mostrador pregado na parede onde colocava sapatos acabados de receber, onde logo distingui uns pretos tipo botim, que os olhos me ficaram neles, custavam 500$00, não parei nem descansei de chatear a minha mãe para os comprar, apesar do número não ser o meu-, um pequeno 36, que me assentaram apertaditos, em desconforto com os dedos encavalitados...
Teimosa implorei para os comprar, apesar de pretos não condizer com a fatiota comprada para o casamento da minha prima Nélita em Pousaflores, os dedos reprimidos na foto o meu estar infeliz!D.Fernanda 29

Evocando uma história graciosa sobre esta temática da arte de sapateiro em Ansião retratada no livro da ansianense "Fernanda do 29" que me foi facultado pela D. Piedade a quem agradeço a cortesia.

"A dos Sapateiros
Em conversa com os meus filhos, como eu tinha a loja, disse-lhes: na terra há dois sapateiros, gosto de ajudar os dois, pois eles também são meus fregueses.
Um dia mandei a minha filha levar um par de sapatos ao sapateiro. Ela perguntou: Mãe a qual é que eu vou?Eu: Olha vai a qualquer um e diz que é para pôr meias solas e uns tacões.
Passaram-se uns dias e de repente chega à loja um dos sapateiros, e diz-me:Eu não percebo nada, então a sua filha levou-me só este sapato e diz-me que é para pôr meias solas e uns tacões, fiquei admirado com a conversa...
Como ela estava para a escola, por acaso fui à loja do outro sapateiro e, vem ele precisamente com a mesma conversa...Ela tinha lá ido também levar só um sapato.
Quando ela chegou da escola perguntei-lhe:Olha lá então o que é que se passa, andas a brincar?Então foste pôr um sapato em cada sapateiro?
Resposta dela: Oh mãe -, então a mãe não diz que gosta de ajudar os dois?"...

O Sr Júlio 29 irmã da D. Fernanda numa festa de agosto
 
Suposta gravura do Bandarra, a exercer a sua profissão, datada de 1603
Nesta resenha a falar de feirantes de outros tempos, o destaque à arte de sapateiro, que ainda povoa a minha mente e despoletou no lembrar Gonçalo Anes, que na história ficou famoso com o nome de Bandarra ( a alcunha talvez tenha tido a sua origem numa vida de vadiagem, de moinante, expressão muito utilizada por aquelas paragens). Homem nascido por volta de 1500 , sapateiro ou melhor, oficial de sapateiro de calçado de correia – não só consertava, mas também fabricava sapatos – em Trancoso, terra fria da Beira Alta, foi poeta, autor das Trovas, que lhe valeram o título de profeta nacional.
Terá lido a Bíblia e as suas profecias agradaram aos judeus, o que lhe causou a perseguição do Santo Ofício, que o acusou de ser judeu e de versejar profecias a favor dos da sua raça.
Aliás, o que melhor se sabe da vida do pobre sapateiro, consta do processo que lhe foi movido pelo dito Santo Ofício da Inquisição e, refere-se ao período que decorreu entre 1538 e 1541.
O processo encontra-se na Torre do Tombo e tem o número 7197.
Terá apenas sido submetido ao degradante passeio dos condenados pelos Paços da Ribeira e condenado a uma simples abjuração.
Nos seus versos, deparamo-nos com quatro visões fundamentais:
O regresso do Encoberto;
A Restauração de 1640;
A derrota de Napoleão,
O mito do Quinto Império
Que tanto apreço geraram, quer no Padre António Vieira quer em Fernando Pessoa. O padre António Vieira descreve-o como um homem “idiota e humilde”, mas não lhe nega, antes exalta, os dons de profeta.
Já Fernando Pessoa afirmou, que “o verdadeiro patrono do nosso país é esse sapateiro Bandarra” e ainda que era naquele “sapateiro de Trancoso em cuja alma vivia, ninguém sabe como, o mistério atlântico da alma portuguesa”.
As suas trovas começaram a circular por todo o país em forma de cópias manuscritas, provavelmente a partir de 1537. A primeira edição impressa, data de 1603.
Bandarra foi lido e conhecido, praticamente em todo o Portugal.
Conhecido, idolatrado em vida e após o seu decesso.
No dia da aclamação de D. João IV, sem oposição do Arcebispo e do próprio Santo Ofício, teve o seu retrato num dos altares da Sé, com honras de santo.

Estátua em Trancoso do profeta Bandarra
Transcrevo algumas das suas quadras, ajaezadas em função das circunstâncias e das memórias dos cantadores, nas tendas feitas taberna, em frente de um copo de vinho puro...

"Determinei de escrever
A minha sapataria:
Por ser Vossa Senhoria
O que sai de meu coser.

Que me quero entremeter
Nesta obra, que ofereço
Porque saibam o que conheço,
E quanto mais posso fazer.

Sairá de meu coser
Tanta obra de lavores,
Que folguem muitos Senhores
De a calçar, e trazer.

E quero entremeter
Laços em obra grosseira.
Quem tiver boa maneira
Folgará muito de a ver.

Coso com linho assedado,
Encerado a cada ponto;
Coso miúdo sem conto,
Que assim o quer o calçado.

Se vier algum avisado
Requerer algumas solas,
Eu as corto sem bitolas,
E logo vai sobressolado.

Também sou oficial:
Às vezes coso com vira,
E sei bem como se tira
O ganho do cabedal.

Se vier algum zombar,
Fazer-me qualquer pergunta,
Dir-lhe-ei como se ajunta
A agulha com o dedal.

Minha obra é mui segura
Porque a mais é de correia.
Se a alguém parecer feia,
Não entende de costura.

Eu faço obra de dura,
E não ando pela rama.
Conheço bem a courama
Que convém à criatura.

Sei medir e sei talhar,
Sem que vos assim pareça:
Tudo tenho na cabeça,
Se o eu quiser usar.

E quem o quiser grosar,
Olhe bem a minha obra:
Achará que inda me sobra
Dous cabos pera ajuntar.

Sempre ando ocupado
Por fazer minha obra boa.
Se eu vivera em Lisboa
Eu fora mais estimado.

Contente sou, e pagado
De lançar um só remendo.
Inda que estém remoendo
Não me toquem no calçado."

Desconheço se os sapateiros que conheci no meu tempo, além de bons de mãos, boa gente, se o foram também poetas, porque grandes empresários se safou, pelo menos um!
Mas Bandarra também houve um em Ansião-, homem em demasia alto que metia medo aos cachopos do Casal S. Brás, por andar sempre armado de canivete e os ameaçar que lhes cortava as partes...
Na maioria nesse tempo gente quase "analfabeta", ainda assim de nobreza sábia ao jus dos versos de Sá de Miranda na Carta a El-Rei D. João III:



Homem de um só parecer,
De um só rosto e de uma fé,
De antes quebrar que volver,
Outra coisa pode ser,
Mas da corte homem não é.
Fontes:
http://www.homeoesp.org/
http://www.sapateiropitstop.com.br/
http://terradoscaes.blogspot.pt/
Fotos do google

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