quarta-feira, 25 de março de 2015

Perguntar a Ansião o dia da Lagarteira se mostrar Grande!

Apeei-me junto da bela geoforma cársica, uma dolina que o povo chama lagoa. Algures se espraia na planura da várzea após a descida da colina de Aljazede, julgo já pertença deste território da Lagarteira.
Dolina cársica
Adoro passear sempre que me encontro em Ansião, não importa a rota; Ameixieira, Albarrol , Lagarteira, Santiago da Guarda,  Torre de Vale Todos,  Escampados, Pessegueiro e,...
A caminho da Lagarteira no seu encalço nomes de lugares sonantes; Porto Largo, Constantina, Ribeira do Açor, Fonte Carvalho, Loureiros, Curcialinho, Torre de Vale Todos, Coelhosa e,...
Falta-me percorrer o caminho antigo por Além da Ponte.
No passado terras onde predominaram quintas compradas ao Mosteiro de Santa Cruz, houve um couto, desconheço se ainda existe a toponímia de Paço, perguntei na festa da Torre e disseram-me que nunca ouviram falar. Em finais do séc XIX e inicio do XX uma maioria da sua população optou por emigrar, sobretudo para o Brasil. de Lugares que julgo se perderam no tempo ou se adulteraram: Casal de João Bom; Paço; Castelo de S.Jorge; Lindos; Loridos; Rua d'Além na Torre; Estrada da Pragosa; Portela; Barreira; Casalinho; Barrosas; Vale da Figueira; Outeiro; Casais; Vale da Sancada; Vale de Pião; Casais da Póvoa, nomes que facilmente encontrei em pedidos de passaportes no início do século XX.

Citar o livro Vila de Ansião do Padre José Eduardo Reis Coutinho de 1986
"O topónimo Lagarteira, na sua etimologia afigura-se ambivalente, pois, tanto pode significar a sinuosidade dos caminhos, parecida ao movimento dos lagartos, como a sua total exposição ao sol, igualmente deles colhida".
Desencadeou em mim outro pensar-, pode derivar da existência de lagares. Na verdade a região depois de enxotados os mouros foi povoada vivendo da produção da vinha, olival e da lande de carvalho para alimentar varas de porcos.


A caminho da Lagarteira na beira da estrada existe pelo menos ainda um lagar e outro transformado em restaurante junto da Lagoa da Cabeça Redonda que lhe banha os pés. Logo mais à frente outra existe a Lagoa do Pito. No meu opinar o nome de Lagarteira deriva de Lagar e da regateira do azeite de bica aberta.Na região o termo regateira foi no tempo muito usado nas serras de Alqueidão  e circundantes, quando se formavam na força do inverno com a água  abundante deixando um rasto nas margens de  muitos fósseis.Em tempos de antanho as mulheres nelas lavavam a roupa.Contos da Ti Júlia nascida no Alqueidão, que se casou com o Chico Serra do Escampado Belchior. Supostamente o povo amenizou as palavras; Lagar e regateira no termo que hoje existe - Lagarteira.

A ribeira do Nabão velho
Nasce no Poço do Manchinho, à Fonte Carvalho, desliza em  leito de ziguezague  na direção da Ribeira do Açor banha os pés à Constantina para no ardente adeus, a deixar na graça em quedas d' agua, um véu de noiva!
As águas se anunciam em achegança ao Porto Largo onde se juntam no braço do rio novo que brota no inverno em fúria, um pouco antes da  que foi a mais bela e rude ponte de pedra, aos Olhos d'Água...
Teimosia subir ao burgo onde se insere a Igreja da Lagarteira junto do cemitério velho, local altaneiro vestido de casario disperso onde se enxergam  soberbas vistas dos outeiros circundantes, brutal miragem bordada pela abundante pedra calcária. 
Vinda da estrada principal de Chã de Ourique virei numa curva escondida à esquerda para subir ao centro da Lagarteira. Mais que evidente que o entroncamento na rua principal deveria merecer melhor alternativa de grandeza, se para tal houver brio em derrubar casa ou palheiro e, alargar o local que merecia melhor desafogo! 
A raiva deste falar em lembrar aqui algures uma casa que me trás má memória de criança, com gente que imigrou para o Brasil, amigos do meu pai...
A igreja estava fechada.
A igreja embora pequena ao olhar, a mim por não a conhecer a senti bela, sobretudo pelo alpendre com três arcos de cantaria, na ombreira da porta a data de 1703 com restauro em 1975.
"segundo historiadores, teve ao culto uma Trindade do século XVI, e uma imagem de S. Sebastião, espólio da igreja, guardadas."
Grande no concelho a adoração ao S. Sebastião ao número de imagens em igrejas e capelas no concelho. Soldado romano, mártir, revela a forte vivência romana na região há mais de 2000 anos-, em prol hoje seja o culto a Santo António (?) .

S.Sebastião na Orada em Santiago da Guarda
Imagem mutilada, ainda assim de rara beleza por se mostrar ingénua na expressão do olhar na expressão da boca e do atilho com nó à cinta.
O culto  a S. Sebastião no concelho de Ansião ainda se pratica em Albarrol, existem outras Imagens na Igreja de Pousaflores,  Capela de Nossa Senhora da Orada na Granja, Igreja do Alvorge, mas também existiu uma na primeira igreja de Ansião que já existia em 1293, ficando desativada a partir da nova igreja construida a nascente, a atual depois de 1593, o que a história nos diz é que séculos mais tarde no cemitério, onde se julga foi o chão desta primitiva igreja foi encontrado o suporte com os pés de uma Imagem do S. Sebastião, segundo o Livro do padre José Eduardo Coutinho.  Não sei se haverá outros locais de culto no concelho de Ansião à Imagem deste Santo . A devoção a este Santo leva-me a pensar na curiosa ruína da Igreja de S. Sebastião na Atouguia/Ourém, que muitos de nós por certo a conhecemos por estar inserida no trajeto da peregrinação a Fátima, ao tempo enquadrada na antiga rota da estrada real e romana a mesma que passava pelo concelho de Ansião no tempo atestada no culto ao mártir S. Sebastião como símbolo da premissa e dor do povo na luta contra os sarracenos, mal se viram livres deles o culto ao mártir foi-se perdendo e descontinuado  em prol da veneração a outros Santos que emergiam, no meu opinar.
S. Sebastião na Atouguia/Ourém
 Perspectivas da Igreja da Lagarteira
 
Gostei da torre do campanário
Frondoso freixo no adro bem conservado e resguardado pela igreja de orago a S.Domingos
Coreto  com armação a ferro forjado faz lembrar uma gaiola japonesa...
A calçada  presta homenagem ao conterrâneo imigrado com fortuna no Brasil ,Carlos Dias e família.
 Paisagem no redor do adro de vistas do planalto rodeado pelas serranias das Serras de Ansião.
Dei de caras com a placa "Rua da Calçada" logo  julguei ser denominação antiga de calçada romana...Debalde me parece calçada atual com 40 anos...Supostamente encomendada pela autarquia e Junta de Freguesia, num tempo que deram muito trabalho a calceteiro da vila, na verdade a melhor aposta teria sido o alcatrão na sorte de piso direito em prol de altos e baixos e menos barulho...
Afinal o que me deixou indignada? Notória falta de imaginação na freguesia para outro nome a dar à rua!
Não me fui embora sem observar outra homenagem a mais um conterrâneo da terra, Alfredo Marques, infelizmente já falecido e na sua terra sepultado. Foi casado com uma prima do meu pai a Elsa Caseiro, dele recordo ser um homem de excelente silhueta, bonito e muito simpático, quando regressou no inicio da década de 60 da Venezuela  trazia brinquedos de madeira de se dar corda, que nunca tinha visto, com eles brinquei com os filhos-, a Lila hoje professora e o Carlitos médico cirurgião, ainda recordo as malas de cânfora com grandes fechaduras douradas, as vi a serem arrumadas por trás da taberna da tia Carma, também das fotografias que nos tirou.Sempre gentil.
Nesta terra não faltam  belos exemplares de oliveiras centenárias  e milenárias deixadas pelos romanos.Conferem à paisagem  estonteante beleza, se apostassem em maior plantio,  maior seria a riqueza !


Alguns historiadores sobre a Lagarteira falam da sua pobreza de solos.E é verdade, mas no caricato me apraz escrever que não concordo inteiramente...A terra de fato é pedregosa em cascalho em demasia, se houvesse ousadia de um punhado de boa gente no gosto de se implantar no empreendedorismo com teimosia bastante acredito desta pobreza tirar brutal rendimento, havia de brotar muita riqueza.Disso não tenho dúvida!
Em Trás os Montes, aquilo sim é xisto a perder de vista com giestas, e há riqueza na qualidade de bons enchidos, no queijo, produção de batata, castanha, amêndoa  e as vinhas do Douro, em terrenos em escarpa de belas uvas.
Foto em Trás os Montes em  Peredo dos Castelhanos. 
Acredito por aqui também se daria um bom netar ...Há que apostar na casta certa!
A região da Lagarteira na sua envolvente a norte tem a várzea de Aljazede e  os campos da Ateanha, sendo inserida na denominação "Queijo Rabaçal". O mote da grande aposta passaria por haver rebanhos comunitários de ovelhas e cabras com queijaria para feitura do queijo, ao modo das congéneres de sucesso nas imediações dos concelhos de Penela e Soure. Mas queijo genuino e não adulterado com leite em pó.
Lamento constatar ainda há coisa de dois anos distingui o inicio da construção de uma estrutura junto ao morro da Ateanha para um rebanho, o que me disseram, mais tarde ao voltar por não ver ao questionar ouvi dizer que o negócio " tinha dado em frosques"...
Se houver persistência, vontade e força no trabalho, acredito no sucesso, a que devem juntar as belezas naturais, de fortes contrastes, algumas quase desérticas, vestida de tomilhos, arruda, orquídeas e oregaõs a lembrar bulício campestre. Há anos um conterrâneo pintor de apelido Castro trouxe amigos que desafiou para neste ambiente místico montarem os seus cavaletes em pintura naturalista ao ar livre neste paraíso enquadrado entre Aljazede e o morro natural da Ateanha. Adoração teria sido apreciar tamanho desafio e arte neste planalto mágico, vazio, límpido, abrasador de emoções e de cheiros a erva de Santa Maria, semeado de cascalho, plantado de oliveiras raquíticas, salpicado de arbustos mediterrânicos de folha crespa, onde o tudo e o nada, suplantam excelso extasiar do belo em deleite a olhar os cumes em jeito de cone do Germanelo e do seu mano!
Um paraíso por aqui onde me sinto imensamente feliz!
A foto possível registada em julho de 2012 pela mão da minha mãe. Quantas vezes a desencaminho nas minhas aventuras na desfaçatez  de negligenciar outros trajetos possíveis, em prol de revigorar forças apreciando as COISAS QUE GOSTO.
Nesse dia a meta  tinha como destino a Feira Medieval de Santiago da Guarda.
Mas antes deambulámos pelas Casas Velhas, aldeia castiça de pedra, pertença de Soure que dista a dois passos, mas sendo do concelho da outra banda da serra-, divisões administrativas que  jamais compreendo.
Apesar da aparente pobreza de solos se bem estruturados no emparcelamento de proprietários com aposta no arranque de oliveiras para replantio de novo olival de crescimento rápido e plantio de vinha , ambos mecanizados com a pastorícia e suas valências; lã, queijos e carne de cabra para a chanfana, e resposta a raça de porco preto ibérico neste chão foi rei no passado, ainda aposta a apicultura, ervas para chás e o turismo.  Brutais pilares de sustentabilidade para grande progresso na região.  
Fiquei perplexa com uma  plantação de eucaliptos por não fazer parte desta paisagem!

Aposta em percursos com trilhos pedestres na ligação às aldeias para apreciar as vistas e as famosas pedras nas Carvalhosas, o trilho dos percursos ao longo do rio velho do Nabão e, da envolvente das Lagoas; Pito, Cabeça Redonda, Aljazede, não se se outras, manter o casario de traça antiga  e os muros de pedra seca com os seus degraus, na Cabeça Redonda, devia a JF refazer o muro que se encontra em mau estado, pois trata-se de património ancestral que para o turismo e para a cultura é fulcral em manter.
Sem esquecer a sinalética para ninguém se perder. 
Cabeça Redonda ex líbris
 

 Lagoa da Cabeça Redonda

Perto do Crucial de S. Bento existe uma grande casa de traça antiga que em tempos sofreu obras para turismo de habitação (?), atualmente encontra-se o espaço em estado estagnado...Outra ideia interessante seria lhe juntar a celebração de eventos vários, com incremento publicitário a chamar o turismo de massas, no mesmo ritual do tempo de antanho, por na frente lhe correr a estrada de acesso a trás da serra e ao lado foi outra grande via na passagem de viandantes-, Filipe II, no seu coche de tonelada em madeira aqui passou, outros Reis e rainhas, gente aristocrata que tinha solares apalaçados nas Cinco Vilas, para a estalagem que existiu na Fonte Galega (?) segundo me confidenciou o Dr Travassos para acolher os peregrinos à Constantina, terra vizinha e se banharem nas águas milagrosas da Fonte Santa.
Sem esquecer as suas gentes hospitaleiras e beneméritas, que podiam ser ainda mais mecenas, no gosto de reivindicar que a  terra que os viu nascer no passado foi Grande, o poderá hoje ser hoje ainda maior-, apesar da retirada do estatuto de Freguesia, que jamais devia ter acontecido!

Urge tempo das Gentes da terra mostrar garras e o dinheiro aparecer para encetar empreendedorismo, na deixa acabar o "forrobodó" de fazer coisa pequena!
Orgulho seria?!
Destemido  ensejo e brutal iniciativa de força com honra em pôr em definitivo a Lagarteira no mapa do progresso e do turismo! 
Também no mapa do Mundo!
Seria a homenagem  merecida a todos os que se resignaram em ficar, sem deixar de agraciar a ajuda de todos os outros que daqui saíram para além e aquém mar, de laboro não menos  meritório na mesma luta e na mente o mesmo angariar riqueza para a sua terra!

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