domingo, 11 de outubro de 2015

Morreu a neta da estalajadeira Ti Maria da Torre do Bairro Sto António em Ansião

Saudade da senhora Albertina Ferreira, falecida a semana passada aos 86 anos, com uma pneumonia (?). O meu lembrar desta senhora é indissociável da  Imagem  do Senhor do Bonfim que ostentava no quarto e a que dedicava muita devoção.A última vez que conversámos foi na sua casa o ano passado em agosto-, a sua filha Cristina, no costume das férias a ir ao Lar buscar para na sua casa as passarem em família. Entrei pelo lado do quintal onde havia potes de vidrado verde; o açucareiro de amornar o leite para se fazer o queijo, agora noutra serventia com enfeite de fetos.
Quis vir mostrar ao Padre José Coutinho o Crucifixo que no imediato catalogou como sendo obra do século XVII, apesar de restaurado na pintura-, a imagem do Senhor do Bonfim, foi herança da sua avó, a dona da estalagem, no seu dizer, mal travejava, o povo à sua volta se reunia em oração.
Interessante é se apresentar um simples Cruz com o Santo pregado-, atribuição ao Senhor do Bonfim, imagem do século XVII, com mau restauro na pintura que lhe retirou a patine do tempo possivelmente mandado fazer pelo genro da estalajadeira, o Sr Inácio em Lisboa,  com  banca na feira da ladra.
Mas quem sabe se o mesmo teria pertencido ao donatário da casa da Quinta da Boa Vista que existiu de paredes meias com a capela do Senhor do Bonfim, ao limite da Lagoa do Castelo, sobranceira à ponte Galiz-, supostamente seria grande, a propriedade que no tempo acabou por dar o nome à povoação de BOAVISTA na frente dos Nogueiros(?) , o seu dono, Rui Mendes de Abreu, depois de morto no cadafalso a sua casa foi espoliada em 1679 -, homem abonado por roubos e de espalhar o mal por metade do país-, finalmente preso e, morto, o seu corpo esquartejado foi dividido pelas terras que aterrorizou, para Ansião veio parar julgo um braço...
Ruínas da casa
A Capela do Senhor do Bonfim a sua  provável construção data do século XVI, atendendo à sentença de morte do seu proprietário em 1679 (?) .
Após o 25 de abril o proprietário, Sr Júlio Rodrigues ( Júlio do 29) a doou à Igreja  e aos Bombeiros  de Ansião, com o espaço envolvente pertença da antiga Quinta da Boa Vista . 
Ora bem me recordo do espaço ter sido limpo e da grandiosa festa aqui ocorrida na ocasião -, como convidados de honra veio a Odete de Saint Maurice, trouxe as netas, miúdas pequenas, vestidas de saia azul e blusa branca, filhas do maestro Vitorino de Almeida, e ainda dum cantor com viola, não sei se era o Vicente (?).
A capela ostenta além da porta principal para a rua, outra entaipada numa parede lateral que acesso direto à casa do dono.

A senhora Albertina mulher de baixa estatura, filha única da Ti Ermelinda e do Ti Neco, que foram moradores no limite da antiga quinta da família, que deu a toponímia ao Bairro de Santo António, sendo que a sua mãe nasceu na antiga estalagem da sua avó-, a Ti Maria da Torre, mulher que casou com um viúvo da Torre de Vale Todos, e dele ganhou no acrescento do nome a alcunha da Torre.
Viveram de frontaria para o farto Largo do Bairro-, da estalagem, apenas hoje resta a casa do "Trinta" e já foi alterada, na altura na restruturação da escada de madeira para o sobrado foram encontradas muitas lucernas de cerâmica. 
No meu tempo de cachopa quando a Ti Maria da Torre, a estalajadeira faleceu, a sua filha Laurinda , na altura moradora em Lisboa, alterou a estalagem para aqui vir morar depois do marido reformado,o Sr Inácio e a cunhada Adelaide, mulher de estatura alta, denotava alguma deficiência mental, parecia uma criança e já era de idade quando a conheci todos os dias de cântara pequena na cabeça com água fresca da fonte do Ribeiro da Vide. A brincar na varanda da casa dos meus pais a via parar para descansar, aproveitava para dar dois dedos de conversa, balbuciava palavras algumas imperceptíveis..."cachopa tou canchada..." o que estranhava sendo a cântara pequena, e ela uma mulher feita, grande de altura e de cara enrugada...

Nesse tempo na década de 50 procederam à remodelação de metade  da estalagem fazendo uma casa de gaveto para sul, nela cheguei a entrar, recordo uma grande banheira com pés, como jamais tinha assim visto uma. A casa confinava para norte de paredes meias com outra casa, onde  só fizeram a fachada com portas e janelas, o interior ficou em terra com uma lápide branca tipo sepultura no chão, neste espaço outrora palco da entrada triunfante dos cavalos sob o belo arco de volta perfeita e na parede cabides em madeira com grandes arrebites para se pendurar estribeiras e arreias , para poente era o acesso ao quintal onde saciavam a sede no tanque de pedra e pernoitavam nos estábulos.
Aqui havia uma cisterna que deu azo ao ditado " Ansião terra de 30 moradores e trinta e um ladrão" perdurou no tempo o facto de saquearem os forasteiros...Havia outra no tardoz de outra estalagem (?) que foi uma casa do Ti Moreira, hoje do Adriano.
Ou será mito do atrás referido do Senhor do Bonfim, o que é certo é ditado difícil de aceitar!

Na parede da estalagem para norte, na ligação à casa do "Trinta" havia uma porta, que a cheguei a ver entaipada aquando da demolição das duas primeiras, para no terreno terem sido construídas três vivendas. 
Perdeu-se a magia das estalagens no Largo do Bairro, que a toponímia deveria privilegiar e perpetuar alterando o nome para Largo das Estalagens ou Estalajadeiro.
Curiosidade
Comentário muito interessante, cujo bisavô esteve em julho nesta estalagem no ano de 1866.
Capela no Bairro de Santo António de pedra.
Os desertores do Buçaco no chão lajeado fizeram fogueira e esculpiram em redor letras, mas a Imagem por ser pesada não a levaram.
O que estranho em relação a outras capelas do concelho é ser possuidora de poucas imagens, apenas a do orago; Santo António em pedra,  uma bonita imagem e um pequeno Crucifixo, quando foi remodelada nos inícios e 60, compraram uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. 
O que sempre ouvi foi da passagem dos desertores do Buçaco-, aqui fizeram uma fogueira dentro da capela-, as lajes de pedra ostentam a marca do fogo com letras e números, esculpidas nas pedras em redor, o mesmo indício de fogueira existe no átrio da Senhora da Paz na Constantina e  na Guia (Pombal). Supostamente as haveria no altar de madeira marmoreado em azul que saquearam, sendo mais pequenas(?).
Lamentável que esta capela e a sua escadaria, não façam parte dos vídeos de promoção turística do concelho, quando faz parte do lote das mais antigas...Porque será? 
Data na entrada da sacristia 1647
Quando estou em Ansião faço este caminho vezes sem fim
 Entretanto o Lar foi ampliado com restruturação de fachada onde estava a senhora Albertina
Tenho constatado com mau estar gente a caminhar para o Lar de Idosos buscar comida, sendo que na maioria são frequentadores de pastelarias e cafés, a viver do rendimento mínimo, pior dois "marmanjos", um julgo das bandas da Sarzedela, aqui vêem buscar a marmita do almoço; o comem, ou sentados no banco na parede da sacristia ou nos muros da escadaria-, não que isso afecte alguém, o que afecta e muito é tirarem o saco de plástico do pão e da fruta a que dão uma a duas dentadas, e depois deitam fora...
Debaixo dos arbustos é só sacos de plástico e fruta...
Como é possível homens na casa dos trinta anos, se não procuram trabalho agora vai ser quando, não podem viver às custas dos outros uma vida inteira, ainda por cima sem preceitos de educação. Não gosto!
O Cruzeiro erguido em 1976 oferta do benemérito, o Comendador Guilherme da Silva Dias e esposa D Joaquina dos Santos Silva Dias, da Torre de Vale de Todos, gente que fez fortuna no Brasil, os doarem por todo o concelho.
Divirto-me sempre que faço este  caminho a lembrar a minha infância e as tropelias na escadaria...
Que descanse em Paz a senhora Albertina, mulher simpática e amável, que deixa saudade por saber comunicar e gostar das Coisas da nossa terra-, sendo que ficou tanta Coisa para perguntar, mulher que adorava o seu Bairro, o seu Senhor do Bonfim, e claro do Santo António.
Um dia ainda gostaria de enxergar a telha que guardou da estalagem...No seu dizer "ainda sei fazer o desenho como ela era"...
Emano carinho especial para os seus filhos com quem brinquei em miúda, o Zé Manel, quase da minha idade e mais nova uns 9 anos a  irmã Cristina. Recordo o  Volkswagen preto, dos primeiros, que o pai conduzia.
Igualmente  saudade o muro em argila alto que mediava a  quinta na frontaria da casa das irmãs; Laurinda e Ermelinda que fechava ao alto com uma sebe de rosinhas de Portugal em cor carmesim...

2 comentários:

  1. Muito interessante. O meu bisavô esteve nessa estalagem da Maria da Torre em Julho de 1866!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro José Norton muito obrigado pela cortesia da visita e pela partilha de informação. Se mais souber, quiser partilhar, e autorizar que acrescente na crónica, que só a enriquecia, sobretudo avivar memórias de outros tempos a gentes de Ansião,praticamente ninguém se lembra que existiram estalagens, hoje dela apenas resta a parte norte, transformada em casa.Se não for incomodo pode comunicar comigo via email ISACOY@HOTMAIL.COM. Vou estar uma semana ausente em Ansião e ando com pouco tempo a tomar conta dos netos, mas será um prazer receber mais notícias. Bem haja. Cumprimentos Isa

      Excluir

Seguidores

Arquivo do blog