domingo, 4 de outubro de 2015

Torre de Vale de Todos a mais bela igreja do concelho de Ansião?

Aperaltei-me para dar uma espreitadela na feira de velharias de Ansião, de fraca, quase nenhuma moldura de gente, ainda assim enfeirei no Sr. Pardal; um moinho de café em madeira; uma lanterna em folha de Flandres que servia para à noite fazer a cama aos animais, e uma terrina "cavalinho" em  verde, da Real Fábrica  de Sacavém, partida, sem tampa. Ao sair já arrumava o estaminé de chão, uma vendedora ocasional da Lagarteira, que questionei o porquê de já se ir embora, disse-me que havia pouca gente porque era a  festa  com feira em Torre de Vale de Todos.Ora deu-me o mote para passeio na parte de tarde.
Lembranças desta terra em miúda de ouvir falar,  é gente de Valetodos...Há quase 40 anos num programa da Rádio Renascença, num concurso, na pergunta diga-nos uma terra com o maior número de palavras-, a vencedora foi uma mulher a viver em Lisboa, de TORRE DE VALE DE TODOS, que ganhou o prémio com o nome da terra que a viu nascer.
O primeiro documento conhecido que refere o nome desta localidade, data do reinado de D. Afonso Henriques (1162) em plena luta entre Cristãos e Muçulmanos (Reconquista Cristã), nesta região da Ladeia, onde haveria uma Torre de defesa avançada de Coimbra , a capital do reino nesse tempo. 
Da torre que deu o nome à terra, não se vislumbra rasto, supostamente terá sido levantada no altaneiro sítio onde vieram a construir a igreja no reaproveitamento das pedras, aliás como aconteceu noutras localidades vizinhas.
Segui o caminho que adoro na direção da Lagarteira, passei a primeira tabuleta de indicação e a segunda...
Na ideia tinha de ir primeiro a Aljazede e Ateanha e na volta atalhar ao Sobreiro e Torre. Acontece que na última variante na várzea de Aljazede me perdi com a falta de sinalética e claro fui ter a Trás de Figueiró.
De novo perdida entrei no Freixo, Netos, parei na Fonte Santa, que valeu a pena, e na vez de atalhar à Constantina fui de novo dar a volta para me fazer chegar. Se não fosse determinada em ir, teria desistido!
Adorei na certeza de voltar com calma. Estacionei em segurança, nisto chega um carro com  quatro homens de meia idade, o motorista na dificuldade a fazer a manobra, afinal vinham de papo cheio de leitoa bem aviados de espumante bruto...
Uma eira plantada em terreno de nenhures... estranha forma de falar por a ver assim sozinha, sem a tradicional  casa da eira.
Junto ao adro pouco casario, sendo algum em ruína
Persiste a feira de barros, inox , alumínios e plástico, também feirantes de roupa na envolvente do adro
 Homenagem a um benemérito
Igreja que se supõe de fundação quinhentista-, existe uma pedra com a data de 1613, encastrada numa parede da antiga capela da pia batismal, colocada ao contrário, que registei em foto e foi invertida para a ler corretamente. Ostenta na frontaria a data de 1749, seis anos antes do terramoto, não sei se sofreu derrocada, porque me pareceu de fachada simplista (?) à moda das reconstruções de outras congéneres, após o terramoto. Julgo por via disso foi aflorada nas Memórias Paroquiais de 1758, em que os padres deram conhecimento ao rei se houve danos e mortos nas suas terras.
Dedicada ao orago de Nossa Senhora da Graça. 
O seu interior é de uma só nave, coberta por um teto de três planos.
A sua maior preciosidade é a escultura de Nossa Senhora da Graça, de meados do século XVI.


Atuava o Grupo "Amigos da música popular Amigos da Gaita"
Torre altaneira, quando os eucaliptos estão baixos se vislumbra em Ansião, na Rua da igreja a caminho do Clube dos Caçadores
O homem das vergas e do mel na sombra do coreto
Entrei na igreja e deixei-me deslumbrar pelo imensurável aparato.
Teto em madeira pintado com a imagem central do Sagrado Coração de Jesus
Púlpito de base quadrangular  com pé trabalhado em pedra e balcão entalhado com efeitos marmoreados
A propósito da alteração da Pia Batismal para esta capela dizia a Maria Augusta, vizinha da igreja, a minha mãe também não gostou da ideia de a mudarem do sitio primitivo, na discussão disse-me "filha os padres são andantes". Revela, sendo mulher ao tempo de parca cultura, tinha cultura bastante, para pensar que mais tarde a pia poderia em glória voltar ao local primitivo.E devia a meu ver!
Ao fundo um painel azulejar em azul sobre branco com o batismo de Cristo por S. João na margem do Jordão.De lado uma escultura quinhentista da Santíssima Trindade, no concelho existem várias.
De todas as igrejas que existem no concelho-, seja esta a eleita cujo interior seja o mais rico, com a talha dourada impecável restaurada em 1972, pelo benemérito Guilherme Dias, segundo a Maria Augusta.
O ex libris é a imagem esculpida pelas mãos do grande Mestre conimbricense João de Ruão, segundo a Maria Augusta, à imagem e semelhança de uma das suas filhas, para mim com parecenças à Rainha Santa Isabel. Executada em pedra de Ançã, pesa 300 quilos, policromada-,  peça de grande valor artístico já tem saído para exposições de nível nacional e internacional.Difícil encontrar outra assim  tão bela.
Julga-se que terá sido esculpida em 1537, fato supostamente o mais importante, para atestar que a Igreja seja de fundação quinhentista (?).
Pedra tumular  movida do local inicial sito na esquerda do altar para a direita
Chamou-me a atenção a numeração de sepulturas gravadas nas pedras. 
O artista canteiro que fez o algarismo "8" supostamente foi o mesmo que esculpiu a ombreira da capela de Santa Marta no Escampado de S. Miguel, num intervalo de 40 anos (?).
Adoro compreender coisas aparentemente sem importância, mas que lhes dou importância mayor!
Merece igualmente a atenção do visitante, a escultura em pedra quinhentista da Santíssima Trindade (no Altar-Mor); e as Imagens seiscentistas, também em pedra, de São Gregório e Santo António.
Linda capela do Sagrado Coração de Jesus com retábulo de talha dourada e policromia, profusamente decorado a gesso com motivos vegetalistas e volutas onde se sentam anjos. Os retábulos, datados do século XVIII, foram restaurados em 1990. Os altares que ladeiam o arco triunfal ostentam retábulos com arquivoltas de colunas espiraladas onde se entrelaçam folhas de videira e aves do paraíso

Havia de me deixar completamente arrepiada tamanha beleza aqui encontrada.
Esta Imagem de Nossa Senhora, reporta na semelhança para outras no concelho; da matriz de Ansião, da capela da Constantina e da igreja do Avelar, todas com cabelo, o artista supostamente foi o mesmo, ou da mesma estatuária (?).
Altar em talha dourado lindíssimo, implantado em chão de tijoleira, alternado o motivo floral com o padrão em branco e rosa, o mesmo nas flores pretas e brancas, fez-me reportar à que vi na Igreja do Convento de Cernache de Bonjardim. 
Santa Filomena
O Menino Jesus
Sacristia
A fonte também foi mudada no acrescento a sul da igreja
A fresta que dava para a rua, agora fica na sacristia
A capela primitiva da Pia Batismal. Na ombreira lateral de cada lado existem duas pedras esculpidas encastradas, lamentavelmente o homem que ao tempo aqui as colocou, seria analfabeto, pois estão invertidas, no entanto será de louvar aqui as ter deixado em local claro para serem vistas, em prol de não se perderem.
As fotos foram alteradas para leitura correta 
1613
Almas do Purg (atório) Pad(re) Nosso
Coro com platibanda em madeira
Achei curioso as pias de água benta se mostrem pequenas, em relação às primitivas da Capela da Constantina, de 1623, que eram bem grandes, lamentavelmente as alteraram para novas...
Os azulejos que revestem as paredes devem ser dos meados do século XX(?)
Deixámos a Igreja acompanhados pela Maria Augusta, justa cicerone, ainda nos disse que aqui vem muita gente que faz o circuito da romanização, vindos de Santiago da Guarda. Disso gostei de saber.
Aceitou o nosso convite para ir ao bar, estava um calor de pasmar. 
Fiz companhia ao meu marido num copo de branco fresquinho-, uma pomada, enquanto ela se ficou a saciar um refrigerante.Ainda lhe perguntei como foi aqui viver em miúda-, "olhe a minha mãe tinha eu seis anos punha-me em cima da albarda do burro que sabia o caminho e o taleigo debaixo da ilharga, só parava ao armazém do Sr.Júlio, na volta trazia açúcar, café de cevada, arroz , massa e petróleo. Mais tarde quando fui trabalhar para a CUF deslocava-me de bicicleta, depois comprei mota e agora tenho um carrito".
 
Em redor serranias do Maciço de Sicó com salpico de aldeias
Paisagem onde perdura olival muito antigo, algum plantado no tempo dos romanos em terras onde seria a bifurcação da via romana vinda de Conímbriga, com ligação a Tomar e outra a Lisboa, alguns vestígios  de tegulae, pesos de tear e,... Curiosamente no quintal dos meus pais no Bairro de Santo António há anos também encontrei um fragmento de telha bem  grossa, supostamente desse tempo(?), que ainda guardo.

Fontes
Oral da Maria Augusta
Wiquipédia

2 comentários:

  1. Muito obrigado por essas fotos. Ja não volto a minha aldeia de nascimento desde 2000. Foi um praser ver a igreja onde fui batizada (1983) e tive a minha primeira comunhão (1989).
    Muito obrigada :)

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  2. Claudia Rosa bem haja, eu é que agradeço a cortesia da visita e do elogio.

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