quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Quem votou ao esquecimento a Quinta da Filipa d'Água na Caparica ?

O que sobrou da Quinta da Filipa d'Água, junto a Alcaniça, na freguesia da Caparica, em Almada.
Encravada entre a via rápida da Costa sem alternativa nem de entrada nem de saída, a bem dizer a escassos 300 metros do interface do comboio da ponte no Pragal e uns 100 do Metro de superfície na paragem Boa Esperança com a avenida a passar-lhe na frente, mas estando a uma cota inferior passa despercebida pelo canavial...

Vista do núcleo habitacional da Quinta Filipa d'Água que se identifica à esquerda visto da avenida com o cruzamento da linha do Metro
Ao limite do canavial do terreno inculto há cerca de 40 anos esta quinta contígua à Filipa d'Água foi vendida em lotes ficando uma grande casa na entrada, que ainda conheci, um desses lotes era pertença de um familiar, onde se vinha anualmente agricultar, ritual de semear e arrancar batatas, cheguei aqui a vir algumas vezes.Com a montagem do estaleiro para as obras do Metro de superfície deitaram a casa abaixo, taparam o poço, que hoje serve de poleiro a jovens no passatempo da droga, segundo o ouvi de moradores, nem de propósito já na saída avistei um de andar apressado tombado para a frente, parecia com ar esganiçado-, sorte a minha que ia adiantada no passo em relação a ele, caso me cruzasse no mesmo caminho dificil seria enfrenta-lo e suster  águas, que por certo escorreriam sem pedir licença ...
Nesse tempo o acesso era feito pela via rápida, hoje cortado, e pela estrada do Casquilho, a única que fazia a ligação de  Almada à Costa de Caparica e em Alcaniça, se dividia noutra estrada de ligação à Sobreda, salpicada as quintas por azinhagas.Hoje a estrada alcatroada apenas até ao largo do poço para  continuar em terra batida, sem saída (?)mas julgo antes da via rápida terá invertido para o Monte de Caparica (?).
Foto de sul para norte onde entronca na avenida
Acesso pela única estrada
Continuação da mesma estrada para sul
Ao caminhar logo na entrada do lado esquerdo restos de um pequeno incêndio no canavial que deixa visível ombreiras e pardieiras de portas da casa que foi demolida e dela já falei acima
 Poço da quinta Filipa d'Água e um ribeiro que corre ao lado
 Lixo no largo, culpa de alguns moradores na falta de respeito pelos outros...
Ao longo dos anos proliferou construção de anexos e barracões  em volta da casa da quinta e nos terrenos adjacentes.
Casa da quinta Filipa d'Água, segundo duas descendentes, a casa foi herdada por outros familiares.
 Rico o ferro forjado da varanda
História desta quinta, encontrei um trecho interessante que passo a citar:
" referência  à quinta Filipa d'Água, que fica em Alcaniça em Almada no Monte de Caparica. "
" O nome vem da sua instituidora, D. Filipa d'Água Leite Pereira, julgo que por volta de 1650."
"Com o nome original, apenas existe uma rua e agora uma rotunda na urbanização a norte da quinta."
"Existem notas sobre uma Capela. "
"Quanto aos edifícios que em tempos faziam a quinta, não me foi possível identificar, a saber: "(documento de 1868)..... arrendada a João Leitão, casas de habitação, adega, oficinas, tudo abarracado, vinha, árvores de fruto e terras de semeadura, a partir pelo Nascente com a estrada publica, Poente com Dona Maria Tomásia, norte com Francisco Nunes, e Sul com João Leitão, avaliada livre que é, em três contos cento e cinquenta mil reis. "
"O testamento de Guedes Pereira, explica a origem:
" Declaro mais que eu possuo uma quinta vinculada em morgado, instituída por João Gonçalves Castelo Branco e sua mulher Filipa d’Água Leite Pereira e meu pai com o dinheiro que havia dado para remissão da divida a que estava obrigada a dita quinta, à qual se anexaram algumas propriedades, a saber quinta grande de Alcaniça de que se pagam 40 réis de foro ao Convento da Rosa dos Paulistas e outra vinha que comprei no mesmo sitio de que se pagam oitocentos réis ao Convento de São Vicente de Fora e outro … juntei mais à dita quinta um quintal que nela tinha Tristão Guedes de Queiroz ; paga-se de foro 80.500 réis ou o que constar na assinatura do aforamento.  Lisboa, ano de 1702"
Capela de Nossa Senhora da Boa Esperança, com data de 1589, porta para o largo e entrada da sacristia para o átrio da quinta. 
O que faz transparecer(?) a capela data de 1589 , sendo o orago da capela, o nome da quinta, porque assim acontecia noutras quintas das redondezas. Agora se a casa é da mesma época(?)...o que não inviabiliza a propriedade já existir antes, uma forte possibilidade, porque estava na extrema com a estrada Almada/Sobreda.
Mas por volta de 1650(?) supostamente  a instituidora Filipa d'Água , na conceçao redutora típica de não conhecer a realidade da antiguidade da quinta, do seu nome primitivo(Nossa Senhora da Boa Esperança) lhe ditou o  ganho de foro na vaidade do seu nome, que perpetuou na oralidade até hoje a ser conhecida pelo seu nome, Filipa d'Água (?).
Em 1868, as confrontações a nascente com estrada pública, no local ainda existe resto do muro da quinta que a delimitava com a estrada.
Restos do muro da quinta que sustenta albergues em jeito de barracões onde senti vozes...
 A janela ao fundo no canto esquerdo e outra que está tapada com um anexo  funcionou uma escola que uma das senhoras hoje com 83 anos, a D.Helena aqui andou e um filho dela também.
O que estranhei?
A capela e a casa ligadas por um pátio com um portão em ferro forjado com data de 1883 e o nome Quinta de Nossa Senhora da Boa Esperança.
Voltando atrás, a quinta em 1589 tinha este nome que o perdeu (?) por volta de 1650 (?) quando aqui morou Filipa d'Agua, para mais tarde em 1883 voltar a ter o nome inicial , apesar de na oralidade do povo continuar  ser conhecida por Filipa d'Água(?).
Disseram-me que a casa da quinta foi pertença da família, e que o Fernão Mendes Pinto ( dizia a D.Helena, aquele da estátua que está no Pragal ) aqui viveu em pequeno (?).
Ora não pode ser verdade, ou pode (?) sabendo que Fernão Mendes Pinto nasceu por volta de1509 em Montemor o Velho e morreu em 1583 , tendo a capela a data de 1589, das duas uma, ou a quinta já existia antes, uma grande probabilidade, que necessita de investigação,  e só mais tarde foi construída a capela, ou então aqui nunca viveu (?). Uma coisa é certa, aqui passou na mesma estrada onde estive a caminho da quinta do Vale Roseiral na Sobreda .
Desde 1978 que recordo esta capela. Sem nada saber...
Horror os fios de eletricidade e telecomunicações que se cruzam nos céus sem ordenamento, nem estética, só a pensar em pôr dinheiro no bolso da empresa!

As primas descendentes desta quinta Filipa d' Água -, A D. Helena e a D. Lurdes, ambas fazem questão de manter a capela arranjada, pois foi a primeira coisa que me chamou a atenção, estar de cara lavada, encimada com a Cruz e a data de 1589 e de lado a Cruz templária (?), antes assim nunca a tinha visto. Sem favor me presentearam numa visita guiada.
Reparei no sofisticado sistema de vigilância, assim é que deve ser! 
Teto abobadado com monograma sobreposto com dois "M" pintado ao centro encimado por uma coroa e um óculo na frontaria para dar luz e renovação de ar.
                               Santo António e  Nossa Senhora do Desterro 
Retábulo em talha branco com filetes a dourado, e altar, ao meio  o oratório fechado por vidro com Nossa Senhora da Boa Esperança e dos lados duas mísulas com Nossa Senhora do Desterro e Santo António. Ao meio do altar um  belo Cristo crucificado na Cruz com uma inscrição que só decifro Jesus de Nazaré...

Bela pia de água benta . Por no tempo  anexos que nela adoçaram a sul provocado infiltrações que  estragaram a tijoleira do chão e as paredes. Tendo por isso sido o chão substituído por mosaico( se fosse em tijoleira artesanal) nem chocava, e as paredes por mural azulejar.
Sacristia pequena com chão em tijoleira primitivo e cómoda para guardar os paramentos da capela. Aqui foi celebrada missa ainda há poucos anos.

No átrio de ligação da capela à casa da quinta dei de caras com uma grande pedra, que do outro lado pode ter um buraco, e ter sido uma pedra de lagar(?), porque aqui havia muita vinha, e esta quinta teve vinhas.

Um horror de anexos e casinhas no suposto lagar (?), adulteram a primitiva quinta, onde ainda se distinguem pelo menos dois arcos virados a sul.
Existe ainda a lembrança de memórias de outras quintas  onde se fizeram as urbanizações; Quinta das Moucas, Quinta do Bicheiro, Quinta das Casadas  de Cima ,  Quinta de Alcaniça, Quinta Nossa Senhora da Boa Esperança, Quinta de Nossa Senhora da Conceição; Quinta de S.Francisco de Borja; Quinta de S.Miguel; Quinta de Santa Rita; Quinta da Bela Vista, Quinta do Olho de Vidro, Quinta de Penajoía, Quinta de Palença, Quinta de Monte Alvão, Quinta de S, Lourenço, Quinta do Raposo(?) e,...restam alguns nomes a perpetuar em placas de toponímia.
Vou falar da  Quinta da Boa Esperança, sita na estrada do Casquilho na frente da quinta de Nossa Senhora da Conceição, ostenta data no portal de 1776 .
Restos de varandim em ferro forjado típico do séc. XVIII
Porque razão falo desta quinta? Pelo seu nome muito semelhante ao da quinta primitiva agora chamava Filipa d'água ... 
Supostamente algum herdeiro desta quinta de 1776 que segundo me informaram se chamar Hortense, em meados do século XX, por volta dos anos 40 (?), mandou fazer na mesma estrada do Casquilho a uns 150 metros desta, uma casa nova, com o depósito elevado de águas onde mandou colocar o nome da quinta, e  ao lado de um portão um  painel em azulejos ,e do outro lado as iniciais do seu nome.
 http://1.bp.blogspot.com/-Jj_JZWa8CME/VI9Aw41C2_I/AAAAAAAAjSg/Vi9npq01kBU/s1600/SAM_3094.JPG

Resta a grande dúvida, quem mandou construir esta casa em 1776?
O que levanta a questão muito anteriormente de um suposto herdeiro da quinta de Nossa Senhora da Boa Esperança, sita a sul (agora quinta Filipa d'Água), que se deslocou para norte da quinta para construir a sua casa na beira da estrada do Casquilho em 1776 (?).
Ou então:
Quinta de Nossa Senhora da Boa Esperança e Quinta da Boa Esperança são nomes distintos(?).
 Voltando à quinta Filipa d'Água
Uma quintinha de uma herdeira com o nome Casal de S.João
Vista de sul para norte

Com as urbanizações adjacentes o jardim e a linha do Metro de superfície a norte  de certa forma em harmonia estética, debalde depois da avenida a sul o total abandono, o que resta da quinta foi deixada ao desleixo, numa moldura entre canaviais de milhentas canas-, canas a dar com um pau, no meio uma parovela de lixo, semeada de anexos e  barracões de madeira onde vive gente ... e na mesma o local do estaleiro do Metro de superfície, ainda assim a medo me aventurei sozinha a redescobri-la, tive a sorte de ter encontrado moradores muito simpáticos e acolhedores.
Silvas com amoras a transpor os muros e bungabílias...
Predominam contrastes na paisagem que se implementaram na década de 60/70 e na década de 90 no crescente abrupto de Bairros Sociais de rendas baixas, fora de portas de Almada, na Caparica-, locais emblemáticos de vistas sobre Lisboa e a Arrábida, semeada de quintas esquartejadas dos seus  terrenos outrora agrícolas, ficando à volta de 1000 metros quadrados em redor do casario com muita ruína, poucas requalificadas, sendo que outras simplesmente desapareceram totalmente para dar lugar a urbanizações...
A estação do Metro chama-se Boa Esperança
Ficaria bem à Câmara, na parceria com a Junta de Freguesia  e dos Bombeiros em proceder à limpeza dos arrabaldes circundantes do que resta da quinta conhecida por Filipa d'Água. As pessoas pagam impostos por isso merecem viver no desafogo de lixo e canas.O que parece foi votada ao total abandono.
E se há algum morador que limpa o quarteirão da sua horta tem de primeiro proceder ao pagamento de uma taxa  a Almada, avisar os Bombeiros e a Proteção Civil a dizer quando vai fazer a fogueira para queimar as canas e ainda tem de estar de prevenção com uma mangueira ligada, e mal acabada a fogueira tem de voltar a ligar aos bombeiros, a dizer que está tudo bem...

FONTES

http://quemencontrei.blogspot.pt/2015/04/a-quinta-filipa-dagua.html
Testemunhos da D.Helena e da D.Lurdes e mais um casal que lamentavelmente não perguntei o nome

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