quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Arte da saboaria em Ansião?

Prefaciar excerto dos Cadernos de Estudos Leirienses editados em setembro do ano passado
" em 1630 ou pouco antes, um contratador de sabão, de Coimbra, instalou uma saboaria em Ansião. Por sentença deste ano, o Mosteiro de Santa Cruz embargou-lhe o intento, para evitar que, no fabrico deste produto, queimassem os carvalhos com cuja lande se criavam muitos porcos com os quais os caseiros da sua grande herdade lhe pagavam os foros das marrãs."
Facto interessante o indício de indústria.
Apenas dá nota que alguém se instalou em Ansião  para fabrico de sabão, antes de 1630,  sem especular o seu possível local,  bem podia ter sido sediado junto ao Nabão, em terras do couto de Torre de Vale de Todos ou mesmo por Santiago da Guarda, haja alguém que encontre documento para atestar o local.
Informação vaga de matéria insuficiente, deixa mais uma vez a história do passado de Ansião em continuado estado insípido!
O 1º Conde de Castelo Melhor - Rui Mendes de Vasconcelos foi mentor de saboarias em muitas terras; Porto, Lamego, Viseu, Guarda e,...para acreditar que aqui em Ansião seja uma forte probabilidade, porque na região tinha interesses, sobretudo em Santiago da Guarda. Contudo diz-nos que a arte do fabrico de sabão não foi avante em Ansião por os arrendatários apresentarem queixa ao Mosteiro de santa Cruz, sendo arrendatários, tinham de pagar renda, vieram a ganhar a quezília tendo acabado a produção de sabão porque queimavam muitos carvalhos, vitais para a produção de bolota ou lande para alimentar os porcos, o seu rendimento .
As varas de porcos ao que parece continuou  até à primeira década do séc. XX, quando o Sr. Oliveira aqui aporta vindo da Beira para tomar conta de porcos, segundo a oralidade homem abençoado de olho nesta terra vingou a sua riqueza, ao passar a perna ao suposto donatário da quinta, para assim em meados de 40 ser evocado em récita ao comércio de Ansião.
Recordo o meu avô Zé do Bairro de criar porcos pretos em curral, seriam resquícios dessas varas?

Récita ao Comércio de Ansião
Versos da lavra dos irmãos poetas João e Virgílio Valente (pai) do Fundo da Rua.
Virgílio és cantador
Cantas bem ao coração, canta-me lá por favor
O Comércio de Ansião, o Comércio de Ansião
E o Comércio de Ansião, cantas tu, cantas eu
Cantas lá óh Fernanda, não digas que te esqueceu
Fernando José da Silva, Fernando José da Silva
O comerciante afamado, no armazém tudo é bom
E na loja tudo é  do Melado
Ourives de profissão lá dos lados da Tojeira
É um grande calmeirão, o Diamantino Ferreira
José Maria dos Santos é da cor da chaminé
Barrigudo e come tanto, vende solas e caxinés
Comerciante afinado  lá de cima da Beira

Também tem o seu pecado, também tem o seu pecado

O prudente do Oliveira, tem dinheirinho de sobra
Anastácio Gomes Monteiro
É direito, direitinho, que nem um fuso
Quando conserta um relógio, quando conserta um relógio
Sobra sempre um parafuso
Sr. Dr. António Amado de todos és estimado
Alegre sempre na sua chocolateira
Sr. Dr. Adriano irá o Dr. Botelho
Fazer em cima de um telho o campo de futebol?..............
                                                  
Acredita-se que a descoberta  do sabão aconteceu por acidente ao ferverem gordura animal contaminada com cinzas  produzindo  uma mistura - coalho branco a flutuar.Os vestígios mais antigos da produção de materiais semelhantes ao sabão datam de cerca de 2800 a.C.,  numa escavação na Babilónia foi encontrado um  cilindro de argila com a descrição de um produto elaborado de gordura animal fervida com cinzas que se transformava em pasta usada como creme para pentear os cabelos. Conhece-se uma tábua de argila datada de 2200 a.C. na qual foi escrita uma fórmula de sabão contendo água, alcali e óleo de canela-da-china. O Papiro de Ebers (Egito, 1550 a.C.) indica que os antigos egípcios se banhavam regularmente numa combinação de óleos animais e vegetais com sais alcalinos para criar uma substância semelhante ao sabão. Os documentos egípcios mencionam o uso de uma substância saponácea na preparação da lã para a tecelagem. Os antigos egípcios e romanos em geral ignoravam as propriedades detergentes do sabão, quando queriam limpar-se, espalhavam azeite de oliva na pele misturado com cinzas e minerais, que depois eram raspados do corpo com uma lamina de metal chamada estrígil.
A palavra "sabão" 
(sapo, em latim) aparece pela primeira vez com Plínio, o Velho(23-79 d.C.) que discutiu a produção de sabão duro e do mole, partir de sebo e cinzas de plantas, mas o único uso que regista para o produto é numa pomada para o cabelo; em tom de desaprovação, menciona que entre gauleses e germanos os homens costumavam utilizá-lo mais do que as mulheres. O óleo de azeite, como todos os óleos e gorduras, é transformado em sabão quando adicionado e misturado com cinza de salicornia ou soda cáustica.  Ao longo dos séculos o processo de fabricação de sabão a partir de azeite foi sendo melhorado. A partir do século XIII o sabão era recomendado pelos médicos, como benéfico para a pele. Desta forma, a sua utilização no banho generalizou-se.
Foi introduzido pelos romanos e continuado pelos árabes nos banhos públicos.

O ancestral “pai e mãe” de todos os sabões históricos
O sabão de Alepo feito com azeite e óleo de bagas de louro.
A técnica de fazer sabão foi dominada por fenícios, celtas , romanos, e na Península Ibérica julga-se tenha sido trazido pelos mouros. Na Europa medieval as cidades de Marselha, Génova e Veneza se destacaram como centros de manufatura de sabão – até hoje o sabonete marselhês feito à base de óleo de oliveira, é considerado um dos melhores do mundo como o da Grécia que o meu marido me trouxe há uns 20 anos.
O monopólio geral das saboarias em Portugal pertenceu ao Rei D.Manuel (1495 -1521). Desde o século XV, pelo menos, que o povo se manifestava contra este monopólio que até impedia o fabrico caseiro para uso doméstico. Na indústria dos lanifícios a importância das saboarias era grande e por isso a existência do monopólio da fabricação e do comércio do sabão na Covilhã. Em 1766, com as reformas políticas levadas a cabo no reinado de D.José I a coroa incorpora no seu património todas as saboarias.O Conde Castelo Melhor foi detentor do monopólio sendo compensado com o título de Marquês e importantes bens fundiários. O que levanta a questão se este Conde ou seus descendentes, com solar em Santiago da Guarda, é que trouxeram a indústria da saboaria para Ansião , supostamente instalada junto do Nabão? O mais certo a poente da ponte da Cal ,ainda não existia, junto da estrada real ou combrã, numa casita com janela, hoje requalificada para churrasco no jardim (?) .

O sabão
Trata-se de um sal e resulta da reação química entre uma gordura e uma base alcalina cujo processo químico é chamado de saponificação.Enquanto produto artesanal é muito mais eficaz no ponto de vista cosmético, medicinal, por ser mais suave para a pele e biodegradável.
O povo em tempos de antanho em casos de acidentes com carroças, queda de escadas, árvores, doenças e na vida doméstica era frequente pedir graças aos seus Santos devotos, quando recebiam essas graças, em geral faziam um ex voto, um pequeno quadro com uma pintura singela relativa ao caso de fé e milagre com umas palavras a explicar o acontecimento. Existe um ex voto de alguém que caiu numa panela quando se fazia sabão e ficou todo queimado...

Alto Alentejo e Beira Baixa
Aproveitando a abundância das matérias-primas necessárias para a produção do sabão, precisamente em Castelo Branco e concelhos limítrofes, desde a segunda metade do século XVI  tiveram decisiva importância nesta indústria saboeira nacional, ao ser criada a Real Fábrica de Sabão em Belver, no concelho do Gavião. O monopólio do fabrico e venda de sabões só terminou em 1858. Após o encerramento da fábrica, muitos dos operários, os saboeiros, aproveitaram o saber-fazer  adquirido, o (Know how)  do sabão criando as suas próprias indústrias artesanais, chamadas Casas de Sabão Mole, pequenas produções familiares que foram passando de geração em geração.A produção de sabão assumiu uma inegável importância económica e social nesta vila e em toda a região. A alcunha dos habitantes de Belver perdura até hoje – Saboeiros. A distribuição nacional do produto era feita por almocreves, acondicionado em sacas de sarja e  serapilheira, transportado para fora do concelho em burros até ao rio Tejo onde era escoado para a capital e outras cidades do País em barcas pelo Zêzere e Nabão. Uma prática que perdurou até à primeira metade do século XX.
Existe desde 2013 um Museu do Sabão em Belver.

Ansião
Quem ainda se lembra do talhante o "Ti Tereso", vivia nas Lagoas, no barracão ao lado da casa  exalava um cheiro nauseabundo com mil moscas de roda do sebo que de tempos a tempos uma camioneta vinha buscar para fazer manteiga...mas também podia ser sabão!












Tudo o que se aprende a fazer, significa economia para o bolso e prazer em ver o que nossas mãos podem produzir.
Recordar a minha avó materna Maria da Luz Ferreira
A arte de fazer sabão a recordar a minha avó Maria da Luz, viveu na Moita Redonda, freguesia de Pousaflores, no concelho de Ansião.
No dia do meu batizado em agosto de 57 na minha casa de Ansião, sentada numa cadeira  na varanda com a minha mãe e avó (com mais de 70 anos), viúva, sob olhar da prima do meu pai a Tina

A avó fazia o seu sabão
Apesar de parca cultura, nada destituída, viveu em equilíbrio de sustentabilidade e economia. Não sei como aprendeu a fazer sabão teria sido a receita trazida pelo meu avô Zé Lucas, se deslocava sazonalmente na carroça uma vez por ano na volta ao Alentejo passando por Belver, Martinchel, Avis, Casa Branca a Sousel a vender fazenda que comprava em Coimbra,  pelo meio fazia as feiras anuais em Oleiros, Castelo Branco, Abrantes e...
O sabão da minha avó era assim escuro, porque não peneirava a cinza


Recordação de miúda dos períodos curtos de férias na casa desta minha avó materna Maria da Luz na Moita Redonda, de a  ver ir ao fundo da talha tirar uma remeia (no seu falar), no meu uma malga de borras de azeite +- 1 Kg, que punha a derreter ao lume na panela de ferro e noutra punha +- 2,5 Lt de água a ferver com 6 malgas pequenas +- 2,5 Kg de cinza branca de vides ou de oliveira -, no seu dizer a melhor cinza, sem carvões para deixar assentar no fundo da panela, depois coava a água que juntava nas borras de azeite já quentes, misturava  bem e juntava 250 Gr de soda caustica, pozinhos que comprava na farmácia. Continuava a mexer com um pau comprido até se despegar do fundo. O sabão ficava com aspeto de uma bola que punha na tripeça, a mesa de três pés para moldar numa lata velha, o seu molde de barra de sabão. No dia seguinte tirava - o sabão do molde e punha-o ao sol a secar de um dia para o outro. Também fazia barrelas (restos de sabão com água quente onde deixava a roupa branca de linho a desencardir), esfregada na pedra ao ribeiro e a corar na ribanceira sobranceira ao ribeiro da Nexebra, novamente lavada e batida na pedra, a punha a enxugar ao sol na mesma ribanceira do leirão, para brilhar branquinha ao jus das abrigotas florescem pela primavera.

A cinza tem um alto poder branqueador para clarear as toalhas põem-se de molho ensaboadas com uma boa porção de cinza, no dia seguinte a roupa é lavada normalmente. Naquele tempo as mulheres eram muito asseadas com a roupa da casa. Dizia ela que este sabão não dava para lavar a roupa preta, onde a via misturar na água de enxaguar vinagre, para não perder a cor.
Sabão caseiro
Sabão de álcool
Receita: numa bacia  pôr 4 litros de água fria, 4 litros de álcool ( álcool de farmácia ou supermercado)  um 1 kg de soda cáustica e misturar bem. Juntar 2 litros de óleo usado, de soja ou outro que já foi utilizado na cozinha. Juntar 4 kg de sebo de bovino derretido e quente.
Mexer cerca de 40 a 50 minutos com cuidado para não respingar para a cara, pois a soda  cáustica pode causar queimaduras. 
Deixar descansar cerca de 10 horas até ficar sólido.
 Produto de mistura amarelo escuro em contraste com o produto final, parece pudim...
  Receita que trouxe da Adeganha, Trás os Montes em 2011




Sabão artesanal
1 kg de azeite,120 grs de soda caústica,315 grs de água e 5 ml óleo de alfazema.
Em outubro andei em sessões de fisioterapia, uma das técnicas, a Sandra, ia fazer um workshop sobre sabão. Dei-lhe esta receita. Pelo Natal pensei em fazer sabão pela primeira vez , afinal tinha a matéria prima- borras de azeite. Teimei fazer a produção de sabão a frio com receio da soda cáustica libertasse gazes irritantes e de poder respingar para a pele e me queimar. Armada de óculos de sol velhos no chão do terraço, ao ar livre, numa bacia fui juntando os ingredientes a olho, confesso que fui um pouco aldrabona nas medidas das borras de azeite a que fui juntando os demais ingredientes, não segui a receita à letra, lembrei-me da minha avó pôr cinzas, nessa excitação nem me lembrei que era a água das cinzas, fui à lareira, apenas penerei mal um pouco de cinzas... e como não tinha aroma nenhum para lhe juntar inventei raspa de limão e sumo... mexi com um pau , um ramo do plátano que tinha trazido do jardim do Ribeiro da Vide.
A emulsão ficou com um aspeto escuro, feio. Depois de mexido o despejei para um tabuleiro de esmalte antigo que deixei a repousar no chão, resguardado. Passadas horas já estava a começar a solidificar, passados dias parecia sal grosso branco, afinal parece que não o mexi bem porque a solidificação não era homogénea, mais alta ao centro, sendo que o azeite se separou da gordura vindo ao de cima como se vê na foto, sendo que se notam os pontos negros da cinza e da borra do azeite.

O meu sabão feito em vésperas do Natal de 2016
O certo é o tempo de cura em local ventilado ser de 3 a 6 meses para o sabão de azeite.
Para neutralizar a ação da soda cáustica bastam 40 dias.
O sabão de cinzas é um sabão multiusos a usar tanto na cozinha para lavar panelas e superfícies inox, vidro e nos tecidos de grande eficácia para tirar nódoas sem deixar aureola em todo o tipo de tecidos e outras limpezas. 
Cinzas
Numa panela colocar meio por meio de água com cinzas de vides ou de oliveira, as melhores para fazer sabão, previamente peneiradas para lhe retirar os carvões, de verão faz-se ao sol e de inverno no lume . Depois coa-se o líquido que fica de aspeto amarelado, por isso há gente que hoje lhe chama lixívia de cinzas. 
Óleos
Colocar dentro de uma vasilha de plástico ou de vidro pedaços de plantas escolhidas;alecrim, salva, cascas de citrinos etc, para aromatizar cobrem-se completamente de óleo usado e decantado. Revestir o recipiente com papel ou plástico escuro, põe-se ao ar livre ao sol, à janela dentro de casa ou em banho maria umas horas, para que o óleo adquira os aromas e propriedades.
Então o meu sabão?
Pois "saiu-me o tiro pela culatra" até tinha comprado duas folhas de papel de seda em vermelho para fazer os embrulhos que imaginei cortar em quadrados para oferecer pelo Natal. Debalde só pelo Carnaval é que vou verificar o meu sabão!
Pois quando cheguei estava IMENSAMENTE BRANCO, contudo por baixo apresentava-se em líquido, o que revela ter sido a sua produção com os meus cálculos aldrabados no resulto do lixo!
Os valores das recitas são para se respeitar e não fazer a olho!


FONTES
https://estudogeral.sib.uc.pt/jspui/bitstream/10316/32178/1/In%20perpetuam%20rei%20memoriam...pdf
 https://pt.wikipedia.org/wiki/Sab%C3%A3o

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