quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Deslindar primórdios da Perucha na Freixianda

Conheço desde miúda o trajeto de Ansião  assinalado a vermelho no mapa abaixo a partir do Arneiro pela antiga estrada real onde ainda existe uma estalagem com data de 17... a caminho da Freixianda, Agroal, Ourém ou Fátima. Há uns bons anos que a Várzea do Bispo foi alcatroada e assim se tornou a variante na direção ao Fárrio, usada em detrimento do traçado pelo centro de curva anicada da Freixianda, onde a minha mãe chegou aqui a vir trabalhar nos Correios, houve dias que a acompanhei. Nesta terra sempre me intrigam nomes de aldeias alusivas à hierarquia da igreja; Várzea do Bispo, Abades, Casal de Abades, e ainda a capela grandiosa de Perucha com a casa abastada que lhe fica a nascente de belas janelas em cantaria.Por certo esta terra deu bons abades e bispos cujos méritos ficaram atestados na toponímia!
Na última quadra natalícia lancei o mote à família com a mítica quinta feira do mercado de Ourém e almoçar nas tascas de mesas corridas. Claro que o mercado perdeu a magia de outrora quando era a céu aberto pelas ruas em redor da igreja. Não gosto em nada do novo espaço por se mostrar enorme, desabrigado, tanto espaço bem poderia ter sido projetado em harmonia no primeiro andar, onde nada existe com alargamento do parque de estacionamento que se mostra deficitário, porque aqui aporta gente vinda de todos os lados. Almoçamos numa taberna na frente da igreja, um bom cozido à portuguesa. Na volta pedi ao meu marido para parar na rotunda do Fárrio, parti desaforada a pé até à Capela da Perucha, a minha mãe acompanhou-me.

Julgo que foi em  maio de 2002 (?) que fiz pela primeira vez a peregrinação a Fátima a pé para cumprir uma promessa de infância. Neste trajeto a uns metros da entrada na Várzea do Bispo, afrouxei a marcha quando vi uma escada de pedra de uma casita à minha esquerda,  onde decidi dar ao dente o que trazia de farnel, para voltamos a parar precisamente na capela da Perucha, onde estivemos sentados na sua frontaria e no tardoz. O espaço era naquele tempo diferente da  recente requalificação.Lamentavelmente não levámos máquina fotográfica. Recordo que me deixei a pensar quem teria aqui vivido na casa , se foi de um bispo que deu o nome à Várzea (?) cuja família aqui  lhe mandou erigir a capela(?) em sua dedicação religiosa. Se atendermos que noutros tempos o número de eclesiásticos era enorme à proporção de locais de culto, não havia igrejas nem capelas que chegassem para todos os padres, assim em famílias abastadas, algumas fizeram capelas para que os seus filhos padres pudessem exercer o sacerdócio, como aconteceu em Ansião, na Capela do S.Mateus aos Matos. 
Perucha a palavra não tem significado em português, contudo o apelido Perucha em Espanha tem 612 pessoas como primeiro apelido, 764 como segundo apelido e 15 em ambos apelidos.
Intriga-me a existência deste nome aqui, seria o nome primitivo da quinta?Seria o primeiro dono de origem espanhola?
 
No adro a poente resta uma parte de coluna circular, interessante, as primeiras que assim conheci existiam num barracão do meu bisavô em Ansião, outra nos Escampados no Lugar de Calados, agora num passeio pela Beira Baixa distingui outra na foto da direita tirada em movimento a servir de suporte a telheiro. O que evidencia serem de um tempo da era de 1600, com muita certeza (?)
 
Citar https://www.geocaching.com/geocache/GC4XZ6R_capela-da-perucha?
"Presume-se que tenha sido erguida entre 1760 e 1810"
Não sou historiadora, apenas curiosa, pelo que me atrevo a contradizer a data exarada no site mencionado, atendendo ao facto que esta capela ter sido mencionada nas Memórias Paroquiais de 1758 o que fatalmente põe por terra tal afirmação.
Citar Memória Paroquial de Freixianda: 1758, Ourém, Câmara Municipal, 2012.
"As ermidas que há nesta freguezia são as seguintes; a ermida de Sam Miguel da Perucha, que pertence ao povo, na qual esta sacrario e tem irmandade do Senhor. A ermida de Nossa Senhora da Natividade que está dentro do lugar de Suymo da qual he administrador Luis Leytam Pereira sargento-mor de Ourém."
Julgo que atualmente o orago da Capela da Perucha seja Nossa Senhora da Piedade(?).
Desconheço a data da edificação da capela da Perucha, apenas será plausível afirmar com muita certeza que é anterior a 1758.O lagar ao cruzamento poderia no passado ter feito parte da quinta  (?) na sua frontaria existe uma lápide com  a data de 1767.
Citar Património Arquitetónico Religioso  de Ourém 2012 pdf
Edificada no século XVIII. Em1945 procede-se ao auto da entrega desta capela.
Não se explica o auto da entrega-, pelo que indicia  a minha teoria de ter sido de origem particular do donatário da casa da mesma época que lhe fica contígua, tendo os herdeiros por altura da implantação da República (1911)  a ter entregue à Igreja ou autarquia(?), porque havia fome e o povo se revoltou e em rebelião houve igrejas profanadas(?).
Num dos janelos exibe um sino de cobre, com a seguinte inscrição: " Fundição de sinos fundada em 1889, de António Alves Ferreira. Boca da Mata. Alvaiázere".
António Alves Ferreira
Nota muito importante para o concelho de Alvaiázere saber mais do seu passado.
Lateral da capela a poente, foto tirada do exterior através de uma janela a nascente distingue-se um teto abobadado do altar mor lindíssimo  esculpido em reservas quadradas com delicadas flores a estuque e outras mais pequenas simples pintadas em policromia azul e vermelho.
A Capela apresenta uma planta de nave longitudinal e capela-mor retangular com cobertura em abóbada de berço, teto em estuque branco com molduras quadradas e medalhão vegetalista ao centro alternado por outros mais pequeno e simples pintados em policromia azul e vermelho.Coro alto com balustrada  em madeira a toda a largura da nave. 
"Fachada principal caraterizada por um frontão triangular recortado, que se estende por todo o alçado, de onde sobressai uma custódia esculpida na pedra. Possui púlpito em pedra, e três altares em talha dourada além de outros valores artísticos. Porém, nos anos oitenta do século passado foi submetida a intervenções que desvirtuaram parcialmente o edifício, nomeadamente foram retiradas as cancelas e eliminadas as escadas de acesso ao púlpito. As lajes com inscrições epigráficas que outrora cobriam as sepulturas no seu interior constituem o pavimento exterior e, nas proximidades, um edifício em ruínas ensombra a pequena e graciosa igreja."
 Altar em madeira pintado a branco com dourados
Olhando o casario alinhado na estrada da capela é nítida a sensação que no passado foi pertença da mesma quinta (Perucha(?) com apenas uma casa nobre e seus barracões para acomodações, porque no tardoz do adro em paralelo à capela avistei um barracão a servir de garagem onde vi uma dobradiça com mais de meio metro de cumprimento numa portada de madeira, e ainda o telhado da nova casa feita atrás de outra no gaveto com o adro quase toca o telhado da capela como se  mostra na foto, revela que no tempo supostamente por heranças se dividiram em quatro casas (?).
 

Seja a casa mais antiga de belas  janelas em cantaria  com ombreiras iguais às da capela. Indicia terem sido na mesma cantaria e na mesma altura(?).
 Janela lateral da capela
 A casa do meio com quatro grandes janelas em cantaria abertas  na frontaria

As últimas casas; a de gaveto com o adro da capela e outra adoçada para o tardoz ambas de cariz atual ainda conheci a da frente antes de ser requalificada.
Na sacristia da Capela da Perucha foi adaptada uma torneira na figura antropomórfica esculpida em alto relevo vulgarmente chamada por carranca, antes saia a água por bica da boca, como existe numa fonte em Alvaiázere e outra em Penela.
Os azulejos em azul e amarelo da segunda metade do século XX com motivos religiosos, não sei a fábrica(?).
Vista panorâmica da estrada. Um fontanário com data de 1934, o ano em que a minha mãe nasceu. Por certo a minha avó materna de seu nome Maria da Luz, aqui saciou a sede a caminho das suas peregrinações a Fátima assim tantas outras pessoas que conheci de Ansião.Ainda me recordo da ruína que aqui existia no tardoz, com a requalificação  perdeu-se história...o mesmo no adro...


Na estrada em frente da capela uma casa que tem na frontaria esta peça de ferro com argola, que achei interessante, supostamente foi usada para nela se prenderem os animais(?).
 Ponte sobre a Ribeira do Fárrio de 1938
Teria sido um lagar(?), dei conta desta lápide na frontaria com inscrição em latim que não decifro datada de 1767 na peregrinação a pé referida anteriormente.
Vista para poente da Quinta do Fárrio com capela erguida em 1600 de orago a Santo António do Fárrio, administrada por António Pessoa de Andrade em 1758 (retirado das Memórias Paroquiais). No lintel da janela do coro está a seguinte inscrição: MDCCLXXXII - 1782.
A quinta esteve à venda, agora com uma grua a vi em obras.Na primeira vez que aqui passei distingui a existência do espigueiro que me deixou perplexa de o ver nestas terras. Anos mais tarde quis conhecer a grande casa em rosa velho em rota de carro onde passei à porta, e atestei a sua antiguidade, com janelas quase a rondar o chão(?) debalde o caminho à frente se atrofia com cavalariças e do outro lado uma grande árvore, tive de sair dali...mais tarde descobri outro espigueiro em Rio de Couros, pelo que me deixei a pensar que era comum nesta região a sua existência, e afinal assim é, pintados a preto.
O da quinta do Fárrio é um grande e comprido espigueiro pintado a preto para guardar as espigas do milho, como é uso no Minho e Galiza. 
Foto retirada http://auren.blogs.sapo.pt/16650.html
 "Também designado por canastro ou caniceiro em função dos materiais empregues na sua construção (cana), o espigueiro constitui um celeiro onde o lavrador guarda as espigas. De posse particular ou comunitária, a dimensão do espigueiro reflete a grandeza da produção como de modo idêntico, a sua ornamentação depende da fantasia do construtor e dos recursos do proprietário.Devem ser preservados como um dos mais ricos elementos do património cultural de interesse etnográfico da região "
Acrescento que deveriam ser objeto de estudo a razão da sua existência aqui nestas terras afinal tão longe onde os mesmos são desde sempre tradicionais.
Recentemente o local de entroncamento de vias com a Ribeira do Fárrio foi alvo de substancial melhoria urbanística com rotunda embelezada com as Mós do Lagar em frente(?) e um pequeno parque de merendas junto da margem da Ribeira com um poço e a tradicional picota ou balanço para tirar a água onde não falta o balde e folha de Flandres, oliveiras podadas com design moderno, de cúpulas pequenas e redondas e o chão vestido a policromia onde foi usado telhos cerâmicos alternados com cascalho e outros materiais.
Local agradável e aprazível para se degustar um piquenique, na rota do caminho de Fátima.

Sempre conheci esta casa em abandono, supostamente teria sido uma venda com taberna (?), atendendo ao interior que me pareceu ser de prateleiras em madeira(?).
Ainda ostenta ao nível da cimalha na frontaria o emblema da Companhia de Seguros, que não identifiquei a Companhia. No início do século XX era usual em famílias que vieram do Brasil e outras segurar as suas casas. Devia haver um bom angariador de Seguros nesta região, porque na aldeia onde a minha mãe nasceu na Moita Redonda, em Pousaflores, Ansião, haviam pelo menos 4 casas com emblemas  de Seguradoras.
 Parece ser igual à primeira placa da Ultramarina (?) lançada em 1902
Breve nota dum passado mais longínquo desta terra Freixianda
Citar http://www.patrimoniocultural.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_5/volume_2/deposito.pdf RAQUEL VILAÇA, CARLO BOTTAINI, IGNACIO MONTERO -RUIZ
304O Arqueólogo Português, Série V, 2, 2012, p. 297-353
" O achado arqueológico terá ocorrido em 1961, conforme se depreende da primeira notícia que se lhe refere: «Foi há cinco anos, quando se procedia ao arroteamento de um terreno de mato para plantar vinha, que o Sr. Manuel Marques Ferreira, do lugar da Granja, encontrou na sua fazenda denominada ‘Cabeço de Maria Candal’ uma coleção de machados, pinças, raspadeiras, todos de bronze, à profundidade de metro e meio» (A Voz da Freixianda, n.º 5, Março, 1967, p. 3). Informa o mesmo texto que, alertadas as autoridades, vieram de Coimbra peritos para investigarem o valor arqueológico do achado, tendo -o então atribuí do a 1500 a. C. Confirmado o interesse, talvez tenha sido também por essa altura que as peças deram entrada no Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC), Coimbra. Infelizmente, pouco mais se pode dizer sobre este aspeto particular, uma vez que não existe qualquer registo do seu ingresso no livro de entradas do museu..".
" Antes das obras de remodelação do Museu, recentemente concluídas, as peças encontravam -se expostas numa das galerias do Criptopórtico identificadas com etiqueta mencionando «Conjunto de peças da Idade do Bronze encontradas na região de Alvaiázere» (fig. 1), o que, sendo pouco preciso e propenso a equívocos, não deixando de ser verdade dada a proximidade geográfica de Alvaiázere e da Freixianda.
"os quais terão sido vendidos pelo valor de 1500$00 (A Voz da Freixianda, Agosto, 1979, p. 4). Informação recolhida, muitos anos depois, por dois antigos alunos do Instituto de Arqueologia da FLUC, que entrevistaram o Padre Jacinto, de Aldeia da Serra, confirmou que o achador vendera as peças a um museu de Coimbra (Silva e Luís, 1995, p. 87)"

Citar excerto da Pagina do Museu Machado de castro em Arqueologia 
"Com origem no Instituto de Coimbra, a coleção foi constituída a partir de 1873, compreendendo «objetos de pedra, bronzes, ferro e barro». As peças pré-históricas – lâminas de silex, machados de pedra e três machados de bronze – devem-se às prospeções de superfície que António da Costa Simões e Augusto Filippe Simões fizeram nos distritos de Coimbra e Évora" Não invoca a fonte que é FREIXIANDA.

Haja alguém com orgulho na sua terra que a ponha no mapa, tomando atitude certa!

Na realidade diz o velho ditado - o seu a seu dono, pelo que o espólio em exposição no Museu Machado de Castro deveria conter informação correta do mesmo, o nome da propriedade onde foi encontrado o depósito e a data.
Interessante reconhecer que o local  se mostra sobranceiro ao Nabão onde viria mais tarde a situar-se o eixo das duas variantes mais importantes que faziam a ligação do vale do Mondego ao vale do Tejo.
Mais um tema apaixonante, andava há anos para o escrever.

FONTES
http://www.academia.edu/1933683/_Mem%C3%B3ria_Paroquial_de_Freixianda_1758_Our%C3%A9m_C%C3%A2mara_Municipal_2012
http://digitarq.adstr.arquivos.pt/details?id=1005117
https://pt.wikipedia.org/wiki/Freixianda
http://www.ourem.pt/index.php/municipio/freguesias/freixianda-ribeira-do-farrio-e-formigais/1600-freixianda-ribeira-do-farrio-e-formigais
http://auren.blogs.sapo.pt/154864.html
https://www.geocaching.com/geocache/GC4XZ6R_capela-da-perucha?guid=258edc66-e928-46b5-8377-e44c35857d42
http://auren.blogs.sapo.pt/16650.html
IV Património Arquitetonico Religioso - Revisão do Plano Diretor Municipal de Ourém 2012.
http://www.patrimoniocultural.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_5/volume_2/deposito.pdf
http://arpourem.blogspot.pt/2009/01/breve-histria-das-freguesias-do.html
http://www.museumachadocastro.pt/pt-PT/coleccoes/ContentDetail.aspx?id=614

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