segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A tia Clotilde Lucas da Moita Redonda

Quem me conhece sabe como sou amante da faiança portuguesa. Quis o acaso encontrar uma almofia (taça ou bacia) produzida na 1ªfornada da OAL em 1927, a imitar a loiça "ratinha" de Coimbra na pintura e cores, o verde cobre transparece no tardoz, com dedicatória na aba  "Para Clotilde Ferreira". Naquele tempo não era uso se dar os mesmos apelidos aos filhos, em geral cada um tinha o seu, a minha mãe é "Ferreira Afonso"  sem o "Lucas" e a tia Clotilde sinceramente não sei, talvez tenha o Ferreira da mãe...Ou não, e tem "Lucas".
  Foto com a tia Clotilde a segurar pelo braço da minha mãe ladeada por duas das suas amigas
Em dia grande-a Festa de Nossa Senhora das Neves em Pousaflores!
A tia Clotilde sempre no mesmo jeito de tomar conta da minha mãe.
Dos seis filhos dos meus avós maternos José Lucas Afonso e Maria da Luz Ferreira da Moita Redonda, a primogénita Titi nasceu em 1911 a que se seguiu um período em que as mulheres naquele tempo ou andavam prenhas ou de leite, para num interregno de 3 anos nascer o tio Carlos em 14, o tio Alberto em 17 e a tia Clotilde em 1920, a quarta a nascer, abençoada de pele trigueira e olhos castanhos a reivindicar heranças de moira morena por parte de mãe, e similar por parte de pai na sua linhagem árabe herdou o temperamento e a veia para o negócio com alcunha " olhão cigano", de todos os irmãos, a que evidenciou liderança para o negócio, angariadora de riqueza, destreza em opinar e se desenrascar pois era mulher de enxergar longe, sabia o que queria e ainda de carater destemida!
Aprendeu costura e bordados nos Cabaços com uma modista ali radicada vinda da Figueira da Foz. Mulher prendada de mãos, bordadeira de mão cheia, lindas as toalhas bordadas que ainda me lembro de haver na casa, e a minha mãe ainda herdou duas, ajudou a aprimorar fatiotas que o pai fazia questão em oferecer o tecido para as filhas brilharem a cada ano por altura da festa no desfile da procissão em manter a tradição de se levar o tabuleiro à cabeça sob rodilha. A foto à La minut de 38/9 (?) , atendendo à minha mãe nascida em 34, sempre foi baixa documenta o dia da festa com o tabuleiro e os irmãos.Do lado esquerdo está o tio Alberto Lucas, seguido da tia Clotilde, que pega no braço da minha mãe que está a olhar o tabuleiro, segue-se a tia Rosária e a mais velha, a Titi (Augusta ou Maria da Luz) no tempo a estudar em Coimbra, menina que naquele tempo se vestia de chapéu e mala, sendo que todas se apresentam vestidas de tailleur , e os irmãos de fato e colete, o irmão Carlos, por já ter casado encontra-se na esquerda de chapéu e mão na algibeira, e a mulher Gracinda atrás com filho ao colo, será o mais velho o António, porque não se vê nenhum na sua roda.
A minha mãe conta um episódio ocorrido na feira anunciada no Borda D'Água no 23 de abril ao Arneiro.Chovia e o Nabão transbordou das margens sem pedir licença, gerou-se aflição para os fanqueiros, na região a alcunha de tendeiro, em protegerem os seus haveres, a tia Clotilde com a fazenda prostrada na banca a tenta resguardar para não se molhar não se dando conta que o criado eleva o pau no oleado a fazer de telheiro,e a água jorra em queda abrupta apanhando a ponta de um fardo de chita da tabela que se molha, e nela gera tamanha arrelia mas resolve de assentada no pregão "quem tem pena da rapariga teve o azar do fardo da fazenda se molhar, quem me quer ajudar, vendo ao desbarato, ao preço de 2$50"...
Na verdade o povo acedeu ao chamamento da rapariga de discurso emocionado, convencido que seria sincero, na volta assim despachado para atingir o alvo, tendeira esperta, pois o povo acabou por a comprar ao preço tabelado, sem qualquer desconto, nem tão pouco prejuízo…E quem a comprou também não, por já levar chita demolhada que o deve ser antes de ser costurada, porque encolhe.
A tia Clotilde chega à noite a casa e sentada à lareira conta aos pais e irmãos o que lhe acontecera e a maneira hábil de não ficar a perder com um fardo da chita ta tabela molhado...
Revelou em momento de prejuízo o virar em lucro!Era sábia!
Por se estar em maré de Carnaval, a minha mãe recorda-se de ela lhe fazer para vestir aos 8 anos à moda de minhota-, saia rodada em preto com corações vermelhos, e blusa branca de punhos altos franzidos, na cabeça um lenço franjado da fábrica do Avelar, e nos pés uns socos de tiras às cores, a peça que mais gozo lhe deu em vaidosar pela policromia das tiras...
Tristeza sentiu a minha avó Maria da Luz quando soube da sua decisão em deixar o namorado - Zezito do Porto, com as casas quase prontas ao Carregal - coisa do diabo - uma menor enfeitiçou-o, a tia já dava cartas na loja dos futuros sogros, mas não lhe perdoou a traição – ele acabou preso em Alvaiázere, cárcere de trinco relaxado ou a troco de pagamento ao guarda o deixou sair para ir à Moita Redonda lhe pedir desculpas e, reatar o noivado…A tia apesar de orgulhosa desculpou-o, mas foi “sol de pouca dura” logo depois voltou a teimar em manter o rompimento, ele outro remédio não teve senão acabar de cumprir prisão e por via da saída noturna, na cadeia de Ansião.
Pior para a minha avó Maria da Luz foi vê-la partir para Angola solteira…
Tamanha tormenta a da minha mãe para a acalmar se socorria em lhe mentir “oh minha mãe, hoje pareceu-me ver uma carta com selo de Angola, seria da Tilde, será que anda a tratar da certidão para se casar com o Américo das Hortas?”...O seria pelas orações de intercessão aos Santos, aquela avó toda a noite a orar, e a filha se casou com ele!
O tio Américo emigrou para Luanda na década de 50, porque o "bichinho" da aventura e de ganhar dinheiro lhe veio do pai, que foi ao Brasil  aos 49 anos.Julgo que seja este o seu passaporte, porque a ideia que tenho é que foi ao Brasil solteiro e quando regressou é que casou (?).

Passaporte de José Fernandes

1904-09-29 
Idade: 49 anos
Filiação: Manuel Fernandes / Joaquina Maria
Naturalidade: Moita Redonda / Pousaflores / Ansião
Residência: Moita Redonda / Pousaflores / Ansião
Destino: Santos / Brasil

Foto da tia Clotilde enviada de Luanda para a minha mãe

Os tios regressaram a Portugal após o 25 de abril para se instalarem na Moita Redonda, na casa herdada dos avós porque a que a minha mãe lhes vendera a sua quota parte. Recordo o dia que os fomos visitar. Era agosto, ao ribeiro debaixo da nogueira estendido numa manta estava um rapaz a ler um livro que se aproximou de nós, que não conhecia, se levanta e como por encantamento nos acompanhou na visita, subiu a escadaria de pedra, andou pela casa como se fosse conhecido de toda uma vida, de tal maneira cativante e cúmplice pediu o carro à minha mãe, o Fiat 128, para nos levar ( a mim e à minha irmã) a conhecer a serra da Nexebra, nem sei como a minha mãe o consentiu, viagem delirante por estrada de terra a fugir dos socalcos, até aí jamais vira tanto eucalipto para descermos ao Furadouro. No dia seguinte acudi ao chamamento ao muro do adro no Bairro de Santo António, estupefacta por ver toda a família-, o Luís, a irmã, os pais e a avó Ti Rosa que abriu a boca para falar - Bela o meu neto depois que te conheceu ontem ficou pasmado com a tua alegria, não fala, passou o tempo deitado na cama a olhar para o teto a pensar em ti...O meu marido!

Para comemorar o êxito de uma intervenção cirúrgica em Coimbra a tia convidou os únicos irmãos ainda vivos para um almoço na sua casa de Ansião; o tio Alberto, a Titi e a minha mãe – para repasto fez um arroz de cabidela – depois da frase "bom apetite" ninguém se pronunciava sobre o paladar, arreliada por não ouvir ninguém a se pronunciar lança o repto se o arroz estava apetitoso, apenas respondeu o que mais tinha confiança com ela-, o tio Alberto, e ainda assim o disse por entre dentes "oh Tilde o arroz tem um traito..." Afinal a tia Clotilde desenrascou-se, por não ter vinagre à mão, aroma obrigatório de se pôr no sangue da galinha, sem meias medidas o substituiu por vinho, e seria "coveiro" dado pela madeira velha do pipo…
A tia teve três filhos: Elisabete, António e Francisco na boca de todos conhecidos por:Betinha, Tó, e Fimé em pequeno e depois Chico, nascidos em Luanda. Poucas recordações da nossa meninice por não ter sido vivida em Ansião. Só mesmo depois do 25 de abril quando tiveram de iniciar nova vida tendo a minha mãe a boa ação em fazer a ligação na tramitação camarária com o Dr.Medeiros então Presidente da Câmara no aluguer do talho, que tinha sido da Ti Olinda.
Simpáticos e calorosos contudo mais novos do que eu, registo boas recordações da Betinha, meiga e doce, a mais velha dos irmãos, comigo estudou um ano e trabalhou nos Correios em Coimbra. Fui assídua ao casamento dos três.

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