terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Moinhos e Munhos de vento e de água do Maciço de Sicó e da Gândara

-Recordar o ditado antigo-
"Quem um fole de milho carrega para o munho tem que trazer de volta outro de farinha" 

Termo "munho" desde miúda em Ansião ouvia sem perceber o seu significado então associado ao Sr. António Bernardino também conhecido por " António dos Munhos" pessoa afável e assídua na nossa casa em tempo longínquo a desentupir os bicos do fogão Singer, na brincadeira com a minha irmã certo e sabido deixar entornar todos os dias o caldo do aferventado ou de cozer o bacalhau...
Moinhos João da Serra
Genealogia - João da Serra. Apelido de Ansião (Josefa Serra casou em 2ªas núpcias com Belchior dos Reis, ela com provável origem na família nobre da Lousã, que se ramificou na Ameixieira, Casais Maduros, Chão de Couce, Aguda , Escampado e pelo Mundo.
Uma tradição da região centro até arrabaldes de Aveiro em chamar munho às azenhas ou moinhos de água, e ainda aos moinhos de vento que rodam à força de um homem, segundo me esclareceu na dúvida a minha mãe. Quanto ao "Sr. Bernardino dos Munhos" que Deus tem,  partiu tão cedo e a sua esposa D.Lucinda foi para sua companhia este ano, ambos com tanto saber sobre Ansião que ficou por perguntar.  Afinal trata-se de alcunha do local que hoje perpetua a toponímia com o nome de Moinhos João da Serra.
A abertura da passagem de água dos munhos mostra-se semelhante a muita boca de fornos de cozer a broa com abertura em "V" invertido pode aventar herança visigótica .
O balogueiro destes dois moinhos, nada mais do que um pequeno ribeiro aberto à força de mãos pelos árabes e depois reaproveitados pelos judeus no aproveitamento da inclinação do terreno da ribeira principal o Nabão. Nalguns casos como na Constantina fizeram três açudes para elevar a água depois de passar pelo moinho voltar à ribeira. Aqui o moinho atrás maior que o da frente mais pequeno junto da ponte em lajeado com uma laje caída, merece melhor sorte em ser reposta.
Ribeira do Açor e a Constantina
A ribeira da Mata aqui denominada Ribeira do Açor para depois não sei se volta a ter nome onde existem ruínas do que foi um lagar e pedras grandes onde as mulheres lavavam a roupa a que o povo chama Serrabino. Interessante deslindar este nome, se era assim escrito possa aventar seria propriedade de "Albino Serra"ou Sabino, um nome que ainda me lembro de existir nos Matos, ou se era escrito "ser-rabino" , um ou outro Serra ou Rabino,aventam comunidade judaica que viveu na região de Ansião.
Característica neste rio Nabão e do afluente a ribeira da Mata e também encontrei no Ribeirinho ao Casal Soeiro a existência de moinhos de água e lagares, actividade muito interessante jamais abordada por investigadores ou historiadores, onde pioneira falar em primeira mão do que apurei no concelho de Ansião, desde há pelo menos uns 5 anos onde distingui além dos Moinhos desactivados e das suas levadas, uns e outras nem sempre em bom estado, também encontrei levadas estranguladas e outras desaparecidas e ruínas de moinhos ou azenhas. Apesar de em Ansião as águas  que alimentam o rio e ribeiras só correm durante o inverno, no verão secam, o que não invalidou  no passado uma vida muito activa até aos meados do século XX, disso é prova o numero extraordinário de lagares e moinhos, que gosto aos últimos de chamar azenhas.Porventura esta tradição seja anterior aos primórdios da nacionalidade, iniciada  pelos romanos a que se seguiram os mouros e povoadores da região de origem franco/francês e  alemão a que se juntaram judeus antes do êxodo de 1492 vindos de de Espanha,  para em 1359 ter havido uma grande  contenda com os almocatés, pela desigualdade dos pesos e das medidas arquivada na Torre do Tombo, prova esta forte actividade em Ansião. E outros judeus se instalaram em Ansião depois de 1492.
Em Albergaria a Velha existe  "um núcleo molinológico fora do comum e a evidenciar uma atividade proto-industrial com relevância, entre o final do século XIX e o início do século XX", com vantagem de terem água todo a ano à volta de 350 em forte contraste com esta região de Sicó, se parca água e pelo menos já em 1359 data a sua existência.
Constantina 
Ao olhar da estrada o açude que dei o nome de véu de noiva deslindei desta vez uma levada para desvio de água que  atravessa a propriedade do "Fernando Paciência" para sul para servir o moinho num percurso a olho medido de 50 metros. De chapéu aberto na ponte privada  deslindei o moinho apesar da frondosa vegetação se mostra difícil de visualizar na esquerda com o leito da ribeira pela frente e a levada que lhe corre  acima vindo da direita com fraga abrupta para desaguar depois abaixo na ribeira.Tenho de lhe pedir autorização para noutro inverno entrar e fotografar!
Prefaciar excerto de http://munho.blogspot.pt/2010/03/os-munhos-sao-moinhos.html "Os munhos foram edificados junto de pequenas ribeiras. No Nabão haviam em paralelo com o rio carreiros de levadas d'água que se encaminhavam para o munho. à medida que a água do rio escasseava o desvio da água fazia-se tapando o curso normal do rio ou ribeiro, obrigando este a tomar a direcção da cale (tubo aberto em madeira), para assim cair dentro do moinho, mesmo por cima do rodízio. O rodízio, situado na parte inferior é a peça fulcral de todo o engenho, é uma roda de madeira que, com a força da água, roda e ao fazê-lo faz movimentar o fuso, também de madeira, que nele está encaixado. O fuso, no seu movimento giratório, fazia, então, mover as pedras (as Mós) fixadas na sua parte superior e estas, por força do movimento imprimido, esmagavam os pequenos grãos que iam caindo muito lentamente da moega.  A moega, um aparelho de madeira em forma de funil cortado transversalmente, era onde se colocava o cereal e tinha na sua parte mais próxima das pedras, e adelgaçada, a quelha onde caía o cereal. Estava suspensa da moega e dela saía a taramela que tinha na ponta uma roda de cortiça, a qual, rodando sobre a mó, agitava o cereal, fazendo-o cair.
O moinho fazia-se parar, impedindo a entrada de água para cima do rodízio, colocando no seu caminho outra peça de madeira: o pejadouro ou pejadoiro. O cereal posto na moega, quase sempre carregado pelos mais novos, era transportado em foles contendo, por norma, entre um a dois alqueires. Os foles eram sacas em pele de carneiro ou de cabra de grande impermeabilidade e resistência, que eram adquiridos aos “matadores” destes animais, quando atravessavam as aldeias, normalmente nas ocasiões mais festivas."

Recordar a ribeira do Nabão na estrada  para o Marquinho
Serpenteada em seu contorno em mais de dois anos de camioneta a caminho de Pombal para estudar depois do 25 de abril, sem jamais me cansar da imagem dos balogueiros de água para os munhos.Deleitava-me com os moinhos que gosto de chamar azenhas, das pontes de pé direito em pedra e dos açudes para reter a água em idílico espectáculo paisagístico inigualável ao fundo do quelho do Caniço aos Mourochões com as tamargueiras floridas em filamentos rosa pálido a beijar agriões floridos e mulheres a lavar as ovelhas para o ganho na venda da lã mais cara ao Ti Raul Borges, ainda assim outras por não a lavarem era um cheiro a cebum na casa onde ele a guardava no Bairro de Santo António na espera do negociante...Igualmente belo para mim o leito do Nabão sem pinga d'água com os agriões ressequidos...
Mourochões 
Marquinho
Outro balogueiro que se encontra em paralelo ao Nabão com algum estrangulamento um pouco antes do Marquinho  servia o grande lagar que ainda lá se encontra.
 Neste último troço antes do moinho o balogueiro sem água com ponte pedonal
 
Jaz hirta no terreiro a Mó...
Outra assim exatamente igual encontrei no tardoz do que foi o lagar dos frades no Vale do Mosteiro
Ponte pedonal e ao fundo o Moinho
Serra da Fonte da Costa aos Escampados
A extrema de uma propriedade  minha e da minha irmã tem como serventia a sul um munho que não enxergava, para o descobrir após valente trovoada de grande estrondo na década de 60 com vontade de trazer um saco de pinhas para comer os pinhões, dando-nos conta de ali tinha havido um pequeno incêndio deflagrado por um raio que partiu um grande pinheiro e deixou o chão desimpedido para se descobrir um morro de terra alto em formato redondo, que estranhei  a razão de ali estar para anos mais tarde o "António Arrebela" homem que conhecia a serra como ninguém, partilhar que em miúdo a corria com as ovelhas  e me dizer que o morro foi feito pela força do homem para nele colocar o munho mais alto, e se acedia por uma escada de madeira, naquele tempo eram dois munhos de madeira assentes em morros. Finalmente percebi a razão do morro quando fui à ilha de Porto Santo onde distingui vários munhos assentes em morros de pedra.
Vila-baleira em Porto-Santo 

Há poucos anos voltei à serra da Costa em Ansião com a minha irmã e deparamo-nos na impossibilidade de caminhar pelo mato e silvas, a opção foi andar por cima de muros de pedra seca onde escorreguei no  musgo que cobre as lajes para vivermos momentos inesquecíveis  pela paisagem maravilhosa onde o verde se fundia com o azul do céu e nada mais se enxergava. Aventura pautada pelo sucesso em reconhecer os limites a poente da propriedade dando conta do palco onde esteve a eira de outro munho, este já não está no nosso chão, lamentavelmente foram roubadas as pedras para algum jardim, nem deve ser difícil saber onde se encontram...Teimosa voltei mais tarde por outro lado mais perto armada com a máquina, debalde nas imediações a queda de um carvalho frondoso seguramente com mil anos, infelizmente sem maleabilidade nem ginástica para  o ultrapassar, com fé  voltarei, e se conseguir aqui acrescentarei.
Local cimeiro da serra da Costa outrora povoado onde havia o que foi uma anta  na ribanceira da serra a nascente onde o meu pai em criança se resguardava da chuva  quando os pais semeavam batatas e pela apanha da azeitona, para depois deixaram crescer carrascos para arder no forno de cozer o pão na padaria onde me recordo de haver muros que foram de casas, o seriam da família dos moleiros dos munhos em sítio abrigado, meus ascendentes judaicos.Aliás na Costa ainda se verificam casas entre os pinhais e não propriamente na beira da estrada o que dita a ancestralidade e vivência de gente aqui.
Costa da Fonte
Onde se avista a vila de Ansião.
Na verdade em Ansião também houveram munhos de vento com exemplares na Costa no lamento de se terem perdido, um pelo menos se houvesse engenho e arte bem o podiam reerguer!

O arco íris na serra da Costa em Ansião

Serranias do Carrascoso em Ansião
Segundo a cortesia de uma amiga Maria Adelaide Mendes Simões que vive no Brasil, nascida no Carrascoso, a sua avó viveu nos Matos - Maria de Jesus Duarte, cujos irmãos tinham apelido Tojo. O seu pai com propriedades no Carrascoso uma das quais de nome alusivo a munhos ou moinhos de vento - Mato das Mós  e outra do seu tio António - Outeiro do Moinho. Seria interessante descobriu os sítios que pelo menos um deles seja de água do ribeiro chamado "Ribeirinho".

Moinho de água afegão
Os há semelhantes no Guadiana.
A energia eólica tem sido usada desde a antiguidade. Os portugueses lançaram-se em oceanos para explorar terras desconhecidas graças à utilização de velas usando a força do vento. Também o vento levou a construção de munhos e moinhos para a moagem de grãos para produzir farinha, e nos leitos de rios outros se fizeram que também se chamam azenhas.Julga-se que os primeiros moinhos de vento surgiram na Pérsia, possivelmente por volta do século 5 D.C. A tamanha semelhança  que existe entre estes moinhos e os da Pérsia dita a sua origem ao êxodo do povo judaico quando atravessou a Ásia na Diáspora de Israel a caminho da Europa que  trouxe consigo artes que acabaram por ficar perpetuadas em Portugal e aqui na região de Ansião. Com a descoberta do Brasil em 1500 muitos judeus embarcaram levando a arte de moinhos de vento horizontais, com eixo vertical longo com seis a doze velas retangulares cobertas de esteiras de junco ou pano utilizados para moagem de grãos, assim como na trituração para o preparo de munições e nas indústrias de cana de açúcar. No Brasil haviam de ficar conhecidos por Engenhos, nome que em Ansião aos grandes também se chamava.

Moinho ou azenha nas imediações da  foz do Ribeiro de Albarrol no Nabão
Moinho com duas entradas de água depois da Foz do Ribeiro de Albarrol  cuja levada  atravessa o caminho para servir o moinho que se encontra do outro lado do Nabão quando o vi há 5 anos estava limpo . 
O caneiro de saída do moinho
Segundo excerto de https://www.ufrgs.br/sieolica/hist.html "Existem controvérsias do início da utilização da força do vento pelo homem. Segundo Marschoff (1992), em torno de 3000 A.C. os egípcios iniciaram o uso do vento como forma de energia para ajudar os escravos na propulsão de seus barcos. Já para Tolmasquim (2003), pelo menos há 5000 anos eram feitas navegações pelo Rio Nilo, no Egito, utilizando velas.
Na idade antiga, os persas construíam moinhos de vento de eixo verticais utilizados para moagem de grãos. O moinho de vento persa era bastante rudimentar pela pouca experiência daquela civilização na prática do uso do vento.

Na Europa, segundo Steadman (1978), até o século XII não se conheciam moinhos de vento. 
Tenha sido o movimento das cruzadas para o Médio oriente que os primeiros moinhos apareceram em Inglaterra, e outros foram aparecendo noutros locais, variando de região para região, de acordo com características geográficas e culturais. Dessa forma, certa evolução pode ter culminado no projeto de moinhos de eixo horizontal."
Moinho persa
Na região do Maciço de Sicó e  na Gândara

A tipologia de moinhos ou munhos rodam pela força de apenas um homem, consoante o vento não se sabe a origem (?). Moinhos rotativos que se distinguem de outros fixos de vento e os de água .A sua origem esteja interligada aos Cruzados e mais tarde aos judeus que se refugiaram em Portugal, nomeadamente nesta região houve uma comunidade.
Alguns exemplos mais antigos de moinhos de vento podem ser vistos na cidade de Nashtifan no Irão a 30 Km do Afeganistão,onde ainda estão em utilização.
A tipologia  dos moinhos ou munhos caracteristicos do Maciço de Sicó são em geral de pequeno tamanho quase totalmente construídos em madeira, de formato irregular em imitar um triângulo isósceles com um lado virado para o vento muito estreito em prol dos demais moinhos em pedra e cal de formato circular. O Moinho é concebido de forma a que a totalidade da sua estrutura possa rodar na horizontal com a força física de uma única pessoa, de forma a ajustar a posição das velas com a direcção do vento, em determinado momento. Característica que o diferencia da maior parte dos outros moinhos, nos quais apenas o mastro no telhado se movimenta para se adequar à direcção do vento. Em geral os munhos foram edificados sobre uma pequena elevação artificial de terra  ou no cimo altaneiro das serras ou em zonas planas da gândara onde se faz sentir a nortada do mar. Para possibilitar a rotação o moinho era construído de forma em que apenas três partes móveis estão em contacto com o solo sobre duas rodas de madeira, ou em pedra as quais se movimentam em rotação na eira, um circulo de pedra calcária .
A Mó, uma grande pedra ao centro do munho serve de base para o eixo de rotação do moinho.
Limite poente do Pessegueiro 
Nabão com um caneiro a nascente que se encontra desmoronado servia o moinho em ruínas
 
Prefaciar Miguel Torga Diário XI " O esqueleto de um moinho de vento a entristecer ainda mais esta paisagem desolada de paredes ressoantes, olivais mirrados e carrasqueiras agressivas. As rodas de pedra em que assentava todo o engenho, que assim podia ser adaptado a qualquer aragem, o ciclópico vigamento de carvalho que as unia, e as duas mós, suspensas no vazio, coladas uma à outra como maxilas defuntas. As velas voaram, o grão deixou de cair da moega, a fome mudou de rumo e da fábrica alada ficou apenas, à margem da estrada da vida, uma caricatura espectral. E é junto dela que penso noutros moinhos, que em vez do pão do corpo moeram pão do espírito, e de que só restam também carcaças semelhantes. Moinhos que, como este, tiveram destino, mas não tiveram futuro." 
Foto e o poema retirados de https://meioseculodeaprendizagens.blogspot.pt/2012/12/a-serra-de-janeanes.html
O moinho na serra de Janeanes no Rabaçal
Quando aqui vim fiquei impressionada com os eucaliptos, árvore recente no Maciço de Sicó , por os ver encerrados em courelas de muros de pedra seca , onde outrora se semeou cereal...
Outra visão do moinho de Janeanes
Moinho do Anjo da Guarda na Serra da Portela em Pousaflores
Local onde houveram vários, alguns foram recuperados há anos.
Lamentavelmente esquecidos mais dois munhos, no Monte das Relvas, a caminho de Maçanicas, que lhe chamavam os Moinhos de Vento, todos os moinhos circundantes vieram deturpar o nome a Pousaflores que outrora se chamaria -,  Pousafoles-, local onde os moleiros descansavam do fardo dos foles pesados de carregar o cereal para o moinho ou na volta de trazer a farinha.
Serra da Portela junto ao moinho e em baixo a minha filha no abrigo do burro do moleiro


 
Moinhos do Outeiro no Alvorge
Troféu uma réplica dos moinhos do Outeiro no Trail Longo e Trail Curto
Santiago da Guarda
Réplica do moinho de vento carateristico da região de Sicó, em madeira, roda sobre eira de pedra, fez parte do cortejo alegórico das Festas do Povo de 2014 em Ansião.
O presidente da Junta de Freguesia de Santiago da Guarda nessa noite na Mata Municipal confidenciou-me que o iria colocar em local público-, promessa cumprida.
Boa escolha do cenário  que favorece a sala de visitas de Santiago da Guarda.
 Melriça - Santiago da Guarda

Monte Vez em Penela
Fotos retiradas de http//azinheiragate.blogspot.pt/ - Alvaiázere 2014 ,foto de um grande moinho em que autor não aborda em pormenor o local . Desconheço como se encontra actualmente.
 
Eira de um moinho em foto de João Paulo Forte
Moinhos de armação
Moinho das Corujeiras em Abiul no concelho de Pombal
Foto tirada em Abril de 2007 de Armando Ferreira
Restam apenas três moinhos nas Corujeiras, datados do século XIX, fazendo parte da história industrial da localidade desde então pela sua forma, que se  crê seja de influência norte americana, conta-se que foi um emigrante regressado dos Estados Unidos da América que construiu dez moinhos, destes apenas restavam cinco com caraterísticas específicas que fazem deles únicos na Europa, actuamente só três sendo um deles propriedade da Junta de freguesia de Abiul.

Segundo excerto de  https://www.cm-pombal.pt/ "Em 10.05.2017  o Executivo municipal aprovou por unanimidade um apoio de 4 mil euros para a Junta de Freguesia de Abiul, verba destinada à compra de um moinho nas Corujeiras.
A recuperação deste moinho será realizada posteriormente ao abrigo de um acordo de colaboração entre a Junta de Freguesia e o Município de Pombal."
Moinho de armação americano
Na região de Sicó só me lembro de ver um na quinta de Moçambique em Pussos nos Cabaços, que deve reportar à década de 30, quando o Arquiteto Raul Lino fez o projecto da casa do avô da deputada Dra Ascensão Cristas. Por não ter a foto mostro um igual que existe na quinta do Conde dos Arcos ou de S.Miguel, na Caparica.
Casal Novo em Quiaios

Na estrada Nº 109 da Figueira na Foz a caminho da Tocha, onde se vai para as lagoas deparamos na beira da estrada  a poente com um moinho gandarez tradicional, tantas vezes me deixei a vê-lo ali a caminho do mercado da Tocha ao domingo, nas vezes que ali passei e foram muitas, de férias na Figueira, saudades...
Inexplicável, durante anos, para mim os moinhos localizavam-se em locais altaneiros, em contraste com o gandarez sito em zona plana, mas que sofre influência da nortada do mar.
Um dos poucos moinhos de vento gandareses tradicionais que restam nesta região
Foto retirada de http://visoesdagandara.blogspot.pt/2016/10/o-moinho-gandarez-do-casal-novo.html
Em agosto de 2018 passei na estrada com  ideia de o fotografar, quando me deparei com a sua quase total vandalização, que a JF devia manter a sua manutenção.
Moinho de Além da Ponte 
Actualmente julgo seja pertença da família Pires da Sarzedela . Teve solar e capela instituída em 1696 com orago a S.João Baptista, segundo as Memórias Paroquiais Setecentistas. 

O bvalogueiro que servia o moinho de Além da Ponte foi estrangulado com o IC8 da ribeira da Mata, assim aparece referenciada nas Memórias Paroquiais, nasce na Fonte do Alvorge e toma a direção de Aljazede, Poço Menchinho, Fonte Carvalho, Ribeira do Açor, Constantina onde aqui vai de leito abundante para desaguar logo abaixo nas hortas de Além da Ponte no Nabão.
Em Ansião o último moinho a laborar julgo foi o dos Olhos d'Água do Ti Eduardo Dias, irmão da Prof. D.Laura Dias do Marquinho, onde também haviam moinhos mais pequenos alimentados pelas suas levadas.Recordo de encontrar o moleiro  na vila, na boleia da sua carroça a fazer a entrega dos taleigos enfarinhados às freguesas da vila.
Olhos d'Água 
No meu tempo de criança este belo local era mais apelativo com a ponte em pedra e as várias levadas que serviam moinhos pequenos e mais abaixo havia um moinho grande com a roda de alcatruzes e um lagar a que se chamava engenho .Hoje após a requalificação apenas foi deixado este moinho...

Foto do saudoso Américo Antunes  retirada da pág Face da irmã Odete Antunes

Cortesia para não se perderem as tradições de Ansião de um homem, verdadeiro amante desta terra pelos testemunhos e fotos deixados, sem os quais seria mais dificil manter viva a saudade e a paixão por Ansião.
Que descanse em Paz e nos sorria do Além com estas iniciativas a beber inspiração na sua obra.

Cortesia para não se perderem as tradições de Ansião
"A foto mais pequena data de 1968/69, em contraste com a foto da pintura do seu cunhado João Silva, também conhecido por "João Ferrero", inspirada no Engenho."
"O Lendário sítio do Engenho, perto do Relveiro e do "Olhinho", referência mítica da sua infância e juventude. O Engenho movida pela água fazia movimentar toda a maquinaria do Lagar do Sr. Fernando, onde brincou horas sem conta...
A ribeira corria cristalina, cantando entre pedrinhas e pequenos desníveis, o lagar fumegava anunciando o aroma jucundo ao azeite novo;nos moinhos ouvia-se o treco treco da pedra alveira moendo os grãos de milho que paulativamente iam caindo da caleira para o olho da Mó, e mesmo ali, junto ao engenho, havia o relveiro, esse local mágico de brincadeira e de sonhos.
Na foto vê-se o lagar do F. J. DA SILVA,que mais tarde foi do Ti Fernando Serralheiro, do lado direito corre a ribeira, e o relveiro começava ali onde o pessoal anda "de roda".

Na roda a Odete Antunes e as amigas que não sei os nomes, de calças, meados da década de 60 quando a CUF abriu em Ansião e começou a globalização...  
Hoje o sitio do antigo moinho e do engenho
Transformado em restaurante. Na requalificação foi demolido o Engenho e o Moinho, bem podiam ter permanecido no espaço a terem sido reabilitados, não chocava, antes engrandecia o local. Em Coja um lagar foi transformado em restaurante  que se mostra absolutamente maravilhoso conviver com mesas abaixo e acima por causa da vara e dos apetrechos... Igualmente assim belo outro requalificado na aldeia de Juízo em Pinhel.
Nos escombros enlameados perdi um chinelo, mas trouxe de souvenir uma pequena grade velha para recordação... A levada de agriões levava a água para a roda tradicional do Nabão com os alcatruzes foi reposta uma reprodução, pelos vistos colocada ao contrário, não funciona...

Foto aos Olhos d'Água
Sr. Chiquinho Veiga de mãos abertas e a esposa atrás, na frente o meu pai Fernando Rodrigues Valente com o irmão o Francisco, os únicos na foto que conheci.
 
No meu tempo do Externato António Soares Barbosa no ano 1973 
Com os meus colegas junto a um "olhinho de água do Nabão"  onde hoje passa o IC8.
Almoster - Maria Marques, Luís Costa
Gramatinha - Fernando Ribeiro Marques
Anacos - Fátima Simões
Mogadouro - Isabel
Pessegueiro -João Carlos
Casal de S.Bras - Silvestre
Ansião - Eu, Fátima Duarte, Alfredo Lourenço,Maria João Valente, José Carlos Simões
Lurdes Carvalho - Sarzedela
Pobral .Vitor
Apesar do IC 8 ter vindo estrangular este local de tamanha  beleza -  Os Olhos d'Água na década de 90 numa tarde de Natal, a vontade em registar fotos com a minha filha, ainda havia a ponte em pedra, a eira e em volta os muros de pedra seca e claro muita água e as grandes pedras que as obras da estrada deixaram ficar na margem...
Moinho das Moitas
Descobri a razão que deu origem ao Lugar do Moinho das Moitas. Nada mais nada menos do que um moinho, ou possivelmente seriam os dois primitivamente pertença da família de apelido "Moita" do Escampado da Lagoa, que era abastada. Conheci a casa, que ainda existe onde moravam as minhas amigas da escola primária, a Arlinda e julgo Gracinda,cujos pais tinham emigrado para a Rodésia, Abílio Moita.
Na verdade havia gente com origem nos Escampados que tinham propriedades na margem do Nabão, e defronte das Lameiras. Ancestralmente o povo de parca cultura ao se referir a uma família usava o apelido do marido no plural , assim se referiam a eles como os " Moitas" que ditou o nome ao Lugar.Estes moinhos sitos às hortas do Nabão eram alimentados por uma levada de grande extensão que recebia água do Olho da Sancha e do Nabão dos Olhos d'Água para servir o Lagar de azeite do Sr. Duarte e ainda julgo três moinhos. 
Beco às hortas do Nabão 
Onde nasceu o Lugar do Moinho das Moitas!
No final do beco um casario que outrora foi um moinho com data de 1864 segundo me confidenciou o meu compadre Fernando Moreira.
No século XX a levada foi entupida parcialmente para ser feita a estrada para a Lagarteira (hoje fechada pelo IC8), na altura a ponte sobre o Nabão era em madeira que se alongava para passar o caneiro mais a sul, ficando depois o balogueiro apenas a servir este Lagar de azeite.
Interessante constatar nesta margem a sul do Nabão foi em grande parte da família de apelido "Duarte" e "Tojo" com a casa dos pais da São Tojo cuja levada lhe passava à porta e no Carrascoso onde também houve munhos de vento eram de gente com os mesmos apelidos. Dita a tradição judaica da sucessão do mesmo ramo de actividade na família.
Lagar de Azeite ao Moinho das Moitas do Sr Duarte
Os moinhos que deram o nome ao Lugar
Julgo de donos diferentes pelas heranças (?). Este mostra-se descaracterizado pelo telhado moderno, ainda assim atitude válida para não ruir.

Saída da água de um moinho no Moinho das Moitas
Igreja velha na requalificação do Nabão
Sempre conheci esta pequena casa sem saber se no passado foi um moinho, porque nunca lhe deslindei o balogueiro, podia ter sido a saboaria que existiu em 1630...não foi avante pela queixa dos foreiros ao Mosteiro de Santa Cruz por se queimar muitos carvalhos cuja bolota era o alimento dos porcos.


Foz do meu Ribeiro da Vide
O Nabão a deixar a Igreja Velha onde aqui foi a estrada real, que devia estar assinalada e até hoje ninguém se dignou em a dignar com honra que bem merece na toponímia.
A uns metros para norte havia um grande tanque em pedra com uma fonte na extrema poente na beira da estrada real a que se chamava (Bica). O que me impressionou quando o conheci foi ter degraus em volta e o fundo todo lajeado, e julguei a sua utilidade para as mulheres lavarem a roupa sem molhar os pés, para hoje com outra visão ao olhar os tanques recentemente descobertos das termas romanas em Chaves pela tamanha semelhança  e sabendo que por aqui também andaram, possa aventar ter sido também um tanque termal? Infelizmente não mereceu honras de preservação e o nó do IC 8 deixou-o soterrado, apenas jorra a nascente...Que deveria ser objeto de análise e no local se for potável haver uma fonte para os caminhantes saciarem a sede.
Moinho de água no Ribeirinho (Ansião)
O ribeirinho que dá o topónimo ao Lugar forma-se com as chuvas e vai desaguar no Ribeiro de Albarrol. É provável que  depois deste moinho entre Vale Penela e Vale Perrim possa no passado ter havido outros moinhos, na toponímia existe o nome de Outeiro do Moinho e Mato de Mós.


Feito onde existe um declive no terreno pedregoso
Ao Ribeiro da Vide 
O ribeiro que se forma ao Cimo da Rua e desagua junto do poço camarário ao largo do Ribeiro da Vide  nele havia uma atafona, estrutura de madeira que servia para fazer mover as mós de pedra, através da tração animal. Eram engenhos construídos propositadamente para esse fim e são raros. Não sei se ainda dela resta alguma ruina, quem a movia era o burro do Ti Miguel, o zelador da Santa Casa de Misericórdia de Ansião, até se dava o nome à quelha chamada do Ti Bernardo Mendes ( porque era dono de uma grande propriedade e ainda me lembro de ser chamada quelha da atafona, e hoje Rua do Ribeiro da Vide. 
Hoje ao Ribeiro da Vide onde são as casas da Lúcia Parolo, antes era um grande barracão mesmo em cima do ribeiro, que em miúda passei várias vezes debaixo dele de lajes imensamente brancas, o que aventa possa ter sido séculos antes também um moinho, com muita certeza.

Conheci outro moinho ou azenha na Ribeira Velha ao limite da freguesia de Pousaflores com Maças de D.Maria, era da família do meu marido. Quando há anos lá fui haviam ainda Mós e as peças de madeira onde se punha o milho para moer. E ao longo da ribeira encontrei outras Mós em xisto, oq ue aventa no passado ali houveram outros moinhos e ainda havia um lagar, que o cheguei a conhecer.

Azenhas de Almoster em Alvaiázere
Já referenciadas em 1220 no Chão d'água a sul do lameiro de Santa Cruz, o único sitio de Sicó depois da seca extrema onde corre água, sem ser aproveitada...Como bem merecia!
Moinhos de água na Ribeira d'Alge aos pés do costado de S.Simão
O meu marido junto da levada (ribeiro artificial) de água da Ribeira d'Alge e a minha querida mãe junto de uma ruína de azenha ou moinho d'água.

 
 
Moinhos de cana
Recordo com saudade o Ti Manuel Maneira, o marido da Ti Olímpia, a mulher que levava o correio a pé borda fora pelo Pessegueiro, viviam no Bairro de Santo António, na frente da casa tinham bancos em pedra corridos onde se sentavam ao sol soalheira da tarde, homem que se entretia a fazer moinhos de cana que dava aos cachopos...


Dia Nacional dos Moinhos a 7 de abril

Deve ser preservada esta tradição ancestral dos nossos antepassados.
A recuperação destes munhos, moinhos e azenhas permitirá potenciar turística e culturalmente todas as regiões do Maciço de Sicó- Lousã, Alvaiázere, Figueiró dos Vinhos, Ribeira d'Alge e na região da Gândara.
No lamento os que se destruíram e das pedras que roubaram!
Segundo o Raul Manuel Coelho amigo das Cinco Vilas havia um grande Moinho na quinta da Várzea, ao Avelar na campina na margem de uma ribeira.Igualmente haviam vários Moinhos (azenhas) na Ribeira Velha ao limite de Pousaflores com  Maças de D.Maria, um deles foi da família do avô do meu marido, onde a minha sogra ia buscar a farinha.E as Mós além de pedra calcária também em xisto, que encontrei uma.
Noutros tempos a broa era o alimento que se comia todos os dias em muita casa, na minha comia-se pão fresco todos os dias da padaria dos meus avós patenos- Piedade e Zé do Bairro, mas via as vizinhas a acender o forno para a cozer com mistura, trigo e milho, gostava francamente do cheiro em fuso a deambular pelos quintais para logo ver a minha tia Maria de passo apressado ao adro da capela a caminho da casa da Ti Maria do Raul Borges para lhe levar o crescente...E muita vez fazia uma merendeira entalada com açúcar amarelo, azeite, uma petinga, chouriça,  o que tivesse à mão para nos dar.
Bacia do crescente da broa da minha coleção


Os carolos da moagem mais grossa, os farelos usados na alimentação sobretudo nos mais velhos sem dentes, comiam papas de milho, regadas com azeite, mel ou leite de cabra, simples ou  com grelos se os houvesse na horta, e para as crianças num tempo que nada mais havia para os alimentar além do leite materno, e na falta dele, o das amas de leite.
Os Munhos, Moinhos e Azenhas produzem farinha o  apanágio associado a qualquer festividade da nossa história e tradições, além de matar a fome em dias de festas fazia-se iguarias;bolos e doces mais tradicionais da nossa terra, entre outros:
Pão-de-ló

Bolo de Noiva

Cavacas da Ti Matilde do Cimo da Rua

Lesmas

Formigos
Torta de Laranja
Filhoses de farinha com laranja que a minha avó Piedade Cruz as tendia no joelho 

Velozes de abóbora
O comer tradicional do concelho de Ansião, serrano do pinhal interior foi durante anos em muita casa - aferventados de couve galega com feijão frade/ chicharo ou de nabos, calde verde e a sopa de carnes com feijão da velha e no verão com feijão de debulhar, que veio a vaticinar a famosa Sopa da Pedra, por influência dos "ratinhos" os beirões que iam para as safras sazonais ao Ribatejo e Alentejo; vindimas, apanha da azeitona e ceifas. 
Quem ainda come a sopa de carnes e nabos aferventados com migas de broa no fundo da bacia ensopadas, as migas, que o meu pai me ensinou nelas a esmigalhar o ovo cozido bem regadas com azeite, que ainda hoje assim faço e me sabem tão bem!
Continuo a cozinhar estes comeres, há 15 dias regressada de Ansião trazia umas sobras de carne do cozido da véspera e couves galegas, mal cheguei a casa em menos de uma hora tinha a sopa feita e só Deus sabe quanto me soube bem!

Seria um tempo de séculos de vida árdua no Nabão debruado a muros de pedra seca a sobressair na paisagem serrana de olival com moinhos de todos os tamanhos a laborar em paralelo com  munhos nas serras, tamanha riqueza ancestral que bem poderia voltar a ser revitalizada para chamar o turismo no inverno.
Há que intervencionar!    
Desconhecia o estudo do geógrafo ansianense Dr. João Paulo Forte sobre esta temática
https://www.academia.edu/30794285/Dos_moinhos_de_vento_%C3%A0s_torres_e%C3%B3licas_contextualiza%C3%A7%C3%A3o_do_aproveitamento_da_energia_e%C3%B3lica_no_%C3%A2mbito_do_patrim%C3%B3nio_natural_e_cultural_na_regi%C3%A3o_de_Sic%C3%B3


FONTES
Miguel Torga Diário XI
https://meioseculodeaprendizagens.blogspot.pt/2012/12/a-serra-de-janeanes.html 
https://www.cm-pombal.pt/ 
http//azinheiragate.blogspot.pt/
https://www.ufrgs.br/sieolica/hist.html 
Foto retirada da página do facebook de Odete Antunes 
Testemunho de Maria Adelaide Mendes Simões
Testemunho da São Tojo e de Fernando Moreira 

4 comentários:

  1. Excelente comentario. Espero que este seu contributo em prol do patrimonio ajude a acordar as mentalidades.

    http://www.academia.edu/30794285/Dos_moinhos_de_vento_às_torres_eólicas_contextualização_do_aproveitamento_da_energia_eólica_no_âmbito_do_património_natural_e_cultural_na_região_de_Sicó

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  2. Caro João Paulo Forte bem haja pela cortesia e pelo elogio ao post.
    Agradeço o envio do link do seu estudo que desconhecia, vou ler para o ano, estou de partida para Ansião, onde não tenho net. Porventura vou encontrar informação de mais valia que acrescentarei. O seu lema e o meu que sou autodidata é dar a conhecer o que gostamos do Maciço de Sicó.Como sou da idade da sua querida mãe, tenho memórias que guardo e junto, para não se perderem.
    Boas Festas e boas pesquisas
    Um abraço
    Isabel

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  3. Gostei muito de todo o artigo. Parabéns ao autor.

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    1. Caro Oceano Pacífico bem haja pela cortesia da visita e pelo elogio à crónica.

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