quarta-feira, 21 de março de 2018

O associativismo amador do teatro em Ansião em 1956



A Casa do Ensaio
A primeira sala em Ansião de teatro amador e sede da Filarmónica Santa Cecília.
A minha mãe contava-me que aqui assistiu a teatro com gente de Ansião, actores amadores, Artur Paz, "Júlio do 29" com a irmã Fernanda , César Nogueira e,...
Num dos últimos espectáculos que aqui assisti, o ilusionista solicitou um voluntário, apressou-se um rapaz da Sarzedela-, sentado no palco, num instante o vi a comer uma batata crua com pele..
Imóvel deixado em total abandono foi vendido. Em agosto de 2014 começaram as obras de requalificação do edifício para a restauração. 
 Citar excerto de http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt
A Regeneração nº 0909 de 15 de outubro de 1956
«Grupo de amadores do teatro ansianense Artur Paz actor e ensaiador . 
Fernando de Araújo Miranda, Armindo Simões Rodrigues, João Monteiro, Fernando Silva, Álvaro Rodrigues Carvalho, Armando da Veiga Cardoso, Germano Simões Pires, e ainda os componentes da orquestra do mesmo Jaime Freire da Paz. 
Abílio Duarte da Silva , António Duarte da Silva, e António Maria Coutinho, que está chegada a época propicia para dar inicio aos ensaios daquele Grupo cénico, afim de poderem este ano mais umas récitas que continuem o brilhante prestigio naquelas que levaram a efeito no ano transacto e já no principio deste.Daqui se pede a todo os elementos do Grupo que não desanimem , pois que , da união , boa vontade e espírito amador de todos , se fará mais e melhor pelo Grupo de Amadores do Teatro ansianense»

A crónica  pretende realçar esta gente e o seu talento abençoados de genes com ascendência judaica para várias artes; escrever e declamar poesia, veia musical, actores e ainda o associativismo, amigos para a vida, que hoje deixa inveja aos demais, essa alegria que sentiam e viveram na sua amada terra de Ansião.
A mãe da Anabela Paz tinha um baú com as roupas e acessórios para o teatro. Julgo que a esta arte apenas a família Valente ao Fundo da Rua deu continuidade no gosto do teatro amador com rábulas ocasionais por altura de festas em família ou com amigos, tive o privilégio de assistir no cinquentenário da minha irmã, no seu salão, a uma rábula para crianças e adultos com a Anabela Paz, vestida a preceito e no final de rosa vermelha na boca, com a minha irmã a fechar a cena que havia de me deixar a mim e ao público de boca aberta, no atrevimento em deslizar no corrimão de inox da mezanine, envolta em grande pano de cetim azul clarinho que a tia do Brasil lhe trouxera para fazer um fato em voo esvoaçante, mágico, de autentica princesa!

Récita ao Comércio de Ansião
Início década de 40 pelo verso do campo de futebol , prende-se com a doação do terreno pelo Dr. Adriano Rego
Versos da lavra dos irmãos poetas João e Virgílio Valente (pai) do Fundo da Rua.
 
Virgílio és cantador
Cantas bem ao coração, canta-me lá por favor
O Comércio de Ansião, o Comércio de Ansião
E o Comércio de Ansião, cantas tu, cantas eu
Cantas lá óh Fernanda, não digas que te esqueceu
Fernando José da Silva, Fernando José da Silva
O comerciante afamado, no armazém tudo é bom
E na loja tudo é  do Melado
Ourives de profissão lá dos lados da Tojeira
É um grande calmeirão, o Diamantino Ferreira
José Maria dos Santos é da cor da chaminé
Barrigudo e come tanto, vende solas e caxinés
Comerciante afinado  lá de cima da Beira
Também tem o seu pecado, também tem o seu pecado
O prudente do Oliveira, tem dinheirinho de sobra
Anastácio Gomes Monteiro
É direito, direitinho, que nem um fuso
Quando conserta um relógio, quando conserta um relógio
Sobra sempre um parafuso
Sr. Dr. António Amado de todos és estimado
Alegre sempre na sua chocolateira
Sr. Dr. Adriano irá o Dr. Botelho
Fazer em cima de um telho o campo de futebol?
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Incompleta, ainda assim graças à Sra D.Piedade Lopes, minha vizinha em Ansião, com mais de 90 anos que a cantou  para eu escrever.                                                
Casa com mansarda na esquerda que foi do Sr. Rodrigues e da esposa "Sra D.Augusta do 29" 
Onde nasceram os irmãos actores e trabalharam no estabelecimento do pai.

A casa comercial de miudezas e tasco da família com alcunha "do 29" viria a ser alugada e mais tarde vendida ao Alexandre e Helena, que a exploraram no meu tempo de cachopa, como taberna e mais tarde acrescentaram um Café, onde fui amiúde, e mais tarde acabou por vir novamente parar às mãos dos antigos proprietários.
O "Sr Júlio 29" 
Falei com ele algumas vezes, foi bancário. Muito amigo do Dr. Travassos que visitava amiúde.Julgo que deixou alguns escritos, que deveriam ser reeditados igualmente como os livros do César Nogueira, com estórias de um passado de geração anterior à minha, lacuna que falta reviver de novo sobre Ansião.

Livro da irmã "Sra D Fernanda 29"
Editado pelo filho Alfredo Lopes
A D.Piedade Lopes, sua cunhada, emprestou-me foi uma delicia a leitura com relatos do dia a dia que aconteciam sobretudo com os filhos.

Maria Fernanda Rodrigues Lopes nascida em Ansião no mês de julho de 1928 podia ter sido uma grande atriz, pela carateristica "fogo" do seu signo, e pelos papéis desempenhados com brio, no palco do Ensaio. "Fernanda 29" é a alcunha familiar herdada do bisavô. Não faço a mínima ideia desta alcunha, talvez ganha no Brasil (?), sem saber o seu ofício...
Família Freire da Paz
Os irmãos Freire da Paz moravam na Praça do Município: Artur, Ilídio, António, Adolfo e Jaime . O Ilídio tocava violino acompanhado pelos irmãos à viola, davam concertos no sobrado da casa de gaveto no tardoz do fontanário de ferro na Praça Adolfo Figueiredo.
 
Ilídio Paz a tocar violino
Perdida a tradição em Ansião de envolver os cidadãos no teatro amador, onde nada faltava, desde o ensaiador, a orquestra e os actores e ainda o desfrutar de uma sala acolhedora de varandim suportado em ferro forjado ...Mantendo-se o prazer da música vivo na orquestra ligeira e filarmónica.Mas julgo violino não se toca (?).

Quantos bons actores e actrizes se perderam depois deste grupo amador? Recordo a minha filha na pré  adolescência fazer teatros no colégio , no papel de encenadora, actriz e ainda do guarda roupa,pois levava sacos com roupas para as colegas vestirem.Quando a instigava a razão de levar os sacos dizia-me que as colegas não tinham a mesma responsabilidade que ela, sempre se esqueciam...Para no fim de semana passado assistir a uma cena teatral com os meus netos Vicente e Laura  com apenas 3 e 2 anos e uns picos prostrados em cima do sofá, o seu palco, onde tudo foi demais perfeito, bem sei que os pais os levam ao teatro, seriam resquícios do que viram e os estimulou, com tanto àvontade e graça me envolveu na sua cumplicidade teatral para me deixar francamente emocionada!

FONTES
http://www.bmfigueirodosvinhos.com.pt  
Testemunho de D.Piedade Lopes

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