sexta-feira, 16 de março de 2018

As estalagens do Vale Mosteiro ao Bairro em Ansião.

As Estalagens na vila de Ansião

Citar o Livro de Notícias e Memórias Paroquiais Setecentistas
"Em 14 de fevereiro de 1444, D Pedro, regente na menoridade de D Afonso, concedeu a Lançarote Afonso, "morador em Ansiam, o "privilégio de stalajadeiro na forma costumada. Em 13 de julho de 1445, o mesmo regente, considerando que Gil Afonso, "morador em Ansiam por quanto"tinha ai uma estalagen E or novamente" queria "acrescentar em ella E manter a dicta estalagem" concedeu-lhe a ele ou a quem por ele aí estivesse "por estalajadeiro" que não fosse obrigado ao transporte de presos ou de dinheiro e que não fosse "titor nem curador de algumas pessoas que sejam nem"pagasse "nenhumas petas fintas talhas pididos Enprestidos serviços nem em outros nenhuns encarregos" que poe el rei ou pelo Conselho fossem lançados.Mandou também o regente "que as bestas que elle"tivesse "per sy ou per sseus mançebos E lhe "acarretassem "pam ou vinho E carne e pescados E palha e lenha E outras quaeesquer viandas. E cousas necessarias aa dicta estallagem que lhe nom" fossem " tomadas pera nenhumas carregas nem serujdões de alguumas pessoas. Mais mandou o regente "que nas coussas que asy "tivesse"pera mantijmentos da dicta estallsgem que lhe nom" fosse "em ellas posta almotaçaria alguma Elhas "deixassem "vender aa ssua vontade a quem elle"quisesse "e pelo preço que lhe "aprovesse. O mesmo Gil Afonso, enquanto fosse estalajadeiro ficava dispensado de "serujr aa guerra per mar nem per terra a nehumas partes", tanto em tempo de paz como em tempo de guerra, e não seria "posto por besteiro do conto", nem "na vintena do mar".
A sua estalagem não podia ser "dada nem tomada de poussentadaria a nenhumas pessoas que "fossem, de modo que quem aí pousasse pagasse "as camas E pousada E cousas que lhe asy" tomassem "pera sseu mantimento". O estalajadeiro ficava obrigado "de teer pam e vinho E carnes e pescados Ceuada e palha E todallas outras coussas que aa dicta estallajem conprir e fezer mester pera quaeesquer pessoas que hi chegarem. E camas as quaes coussas" o regente mandou "que lhe sejam dadas por sseus dinheiros", O estalajadeiro podia trazer "vinho de fora nom embargando o previlégio E custume do dicto lugaar" e vende-lo " em a dicta estallajem. No mesmo dia e ano, o regente concedeu outra carta de privilégio de estalajadeiro a Jorge Dominguez, igualmente "morador em ansiam" com o mesmo teor da carta anterior. 
A 16 de julho de 1449, reinando DAfonso V  que atingira a maioridade a 15 de janeiro de 1446, o privilegiado com outra carta de estalajadeiro foi João Dominguez, igualmente "morador em ansiam", que então fez e acrescentou "humas suas casas que "eram "no dicto logo pera seerem staaos, cujos direitos eram identicos aos que constavam da carta de previlégios dada poucos anos antes a Gil Afonso."
O sitio da estalagem da Ti Maria da Torre  no Bairro
A última que funcionou até anos 20/30 da "Ti Maria da Torre" mulher da Torre de Vale Todos que aqui se radicou na sua exploração, depois da sua morte com mais de cem anos veio a ser dividida em três casas, com a primeira na esquerda da Ti Laurinda e do Sr Inácio, ao meio apenas com paredes, vazia  por dentro onde tinham sido as cavalariças com um arco de volta perfeita para o largo para entrada dos cavalos com grandes cabides onde se penduravam os arreios e selins e no chão havia uma pedra sepulcral branca sem inscrição. No tardoz havia uma cisterna onde os animais saciavam a sede, mas também se dizia deitavam viandantes depois de espoliados das suas riquezas...suposto ter ditado ou não o aziago adágio "Ansião terra de 30 moradores e 31 ladrões" na ligação para  a estalagem havia uma porta debaixo da escadaria para o sobrado da estalagem  onde eram cómodos com o salão no r/c onde se comia e no tardoz uma grande cozinha e no quintal o poço.No sobrado onde se dormia.Veio a ser vendida ao casa do "António Trinta"  o que resta da estalagem.
 Testemunho da "Ti Augusta do Tarouca" "o seu pai levava o estrume das cavalariças em grandes galeras puxadas por mulas , e no meio punham os homens mortos, perguntei-lhe que homens-, respondeu os que morriam na estalagem, digo eu ou por fatalidade ou por serem espoliados das suas riquezas, na certa a razão ao ditado acima mencionado... iam descarregar para lá do Casal das Peras numa fazenda dele antes da casa do Ti Jacinto e da Ti Margarida..."

Onde foi a estalagem da Ti Maria da Torre
Vista do largo em obras
A estalagem de caras para o largo na beira ad estrad medieval vinda de norte


A estalagem do Bairro mais antiga
Na esquerda do largo na entrada de quem chegava vindo de sul junto da prisão, que resta desta  parte do casario em pedra  com a porta,  portão e a casa alta da Elisa que foi reconstruida há anos.
O portão  que logo se distingue à frente escuro foi a cadeia dos homens sediada na beira da estrada para os presos pelas grades suplicarem esmolas aos viandantes.

Mas também para norte a escassos metros na beira da estrada real no meu tempo houve uma taberna explorada pelo Ti Moreira e esposa, ela já em 2ªas núpcias que bem podia ser já continuada tradição e logo abaixo na quinta do Atalho onde ainda existe uma bela casa em pedra que sempre a conheci assim com balcão, para agora se fazer luz na possibilidade de ter sido também uma estalagem.
Casa que foi do Ti Moreira
A conheci como taberna  que o seria já vindo de trás (?).A Ti Maria era natural da Costa do Escampado.
 Quintal da casa do Ti Moreira e da Ti Maria


Atendendo aos estalajadeiros referenciados de apelidos judaicos na ligação à existência da comunidade judaica nos Escampados para a sua deslocação para a beira da estrada real sendo verossímil dizer que João Freyre também tenha sido estalajadeiro.

Incorrecta atribuição na toponímia
Se devia chamar Estrada Real, porque o Hospital jamais teve entrada por esta estrada.
Sempre estranhei o traçado da estrada real ao entroncamento com a estrada para os Escampados ter no seu trajecto curva contra curva com a casa que foi do " Ti Parolo"  num tempo de carruagens e de cavalos se mostrar de dificil acessibilidade, sendo que eram naquele tempo muito estreitas em relação a hoje.Em tempos supus que a estrada fosse a direito por haver uma casa de sobrado que foi da família "Serra" recentemente intervencionado. Hoje a casa branca com janela foi o sitio da antiga casa, que os meus pais tinham uma foto onde ele estava com uma folha de couve lombarda na não, então usada para cobrir o pão de coroa para não crestar no forno da padaria dos avós e dos pais. Tinha uma janela com um pequeno janelo em madeira de caixilho minúsculo, uma carateristica no casario antigo, que ainda se encontra.
Para declinar esta possibilidade agora que me posicionei defronte da casa, que conheço desde pequena, na frente tinha uma pedra com o fuso onde íamos fazer a água pé, num caminho de barro com buracos e pedras, e ali parada a olhar o quintal na direção à estrada do Vale do Mosteiro, percebi que noutros tempos a estrada seria a direito passando defronte da casa, por isso o nome da quinta do Atalho quando foi comprada pelo "Ti Parolo" depois de regressado do Brasil  no inicio do séc. XX e o rasgo de novas acessibilidades ao Ribeiro da Vide para os Escampados na possibilidade deste troço ter sido anulado para se manter o quintal maior onde veio a ser construída a casa do filho Carlos a entestar o gaveto com o caminho a passar-lhe pela frente curvando a direito para o Largo do Bairro de Santo António.
Na verdade no meu tempo de criança a Cerca a norte e a poente não tinha muros.
A foto é visível o que teria sido no passado a estrada real a passar pela estalagem na direção do casario branco na direção ao Vale Mosteiro. No seu entroncamento existe um poço em formato de lajeado quadrado, antigo, devia servir os viandantes e a estalagem.E mais acima no quintal havia um poço de chafurdo.
Entroncamento vindo do Vale do Mosteiro dando a perspectiva do seguimento da estrada real  que teria sido em frente pelo actual quintal da Tina Parolo e não como actualmente a contornar a sua casa.
Quinta do Atalho onde avento outra estalagem vista de norte
Com balcão em pedra tendo ao lado um barracão no passado seriam as cavalariças.
Ao lado existe um aglomerado antigo que  foi a casa da mãe da Carmita do Bairro com o forno e o alpendre a poente, atualmente em venda.
 
Foi a minha prima Júlia Silva que me falou que a casa tinha um oratório e claro fiquei com a pulga atrás da orelha e graças à cortesia da sua dona a Tina Parolo, apesar das poucas forças teve a gentileza de me mostrar a casa no sobrado que me deixou verdadeiramente fascinada.Esta casa fazia parte da quinta do Atalho que o avô da Tina que foi de Albarrol depois de regressar do Brasil com dinheiro a comprou. 
Janelas viradas a poente
Pela antiguidade da casa  caiada por dentro com oratório e as buracas  foi de gente importante. Quem teria sido a família que aqui morou na beira da estrada medieval? Teria sido João Freyre, o que instituiu a capela a Santo António?Se fosse ele teria instituído a capela de Santo António no promontório defronte onde veio no séc. XIX construído o Hospital.E a ter sido construida no outro promontório mais baixo defronte da quinta do Bairro, seja verossímil dizer que ali morou, até porque a capela era mais pequena e com frontaria para nascente, para a quinta.Porque a porta ainda existe e na sua frente o lajeado com numerações a evidenciar que são sepulturas.
 As típicas prateleiras de pedra nas paredes
 Um lintel em madeira curvado, julgo já foi o pai que aqui o pós, o anterior devia estar estragado

Impressionada de ver escavado na parede um pequeno oratório ao tempo comum nas estalagens haver uma Imagem dedicada a um Santo. E ao lado uma concavidade em quadrado possivelmente para se por a arder candeias de azeite (?).
Na parede da frente outra prateleira quadrada e abaixo dela duas concavidades, meti a mão e senti ser o fundo em redondo em cerâmica.Serviriam para guardar coisas frescas (?).
Na que foi a primeira estalagem no largo do Bairro há uns 70 anos o Zé Maria Marques Reis,  confidenciou-me que era chão do pai onde tinha uma vinha e aqui inha trabalhar com um vizinho Simões, dos lados do Martim Vaqueiro que emigrou para o Brasil,  faziam alguma coisa para comer ao almoço no que foi a cozinha dessa estalagem onde havia uma buraca na parede que parecia ser uma panela que o deixou impressionado e nunca mais se esqueceu julgando seria onde guardavam o dinheiro, por estar partida...tinha sido assaltada?...
 

 
A Tina além de uma boa pessoa amiga de partilhar saberes exibe com delicadeza belas flores no seu jardim.
 
E pedras que o marido Fernando Luís nascido para os lados do Mogadouro se mostrou um ferveroso amante que as foi trazendo de vários locais onde ia à caça.
Um belo exemplar de " pudim" por ser constituído por detritos de calhaus rolados arredondados se fosse constituído por detritos chamava-se "brecha", como a famosa pedra, a brecha da Arrábida . 
Aprendi em Mineralogia e jamais esqueci.
 
 
Logo a seguir no Alto a casa que foi do meu bisavô Elias da Cruz pelo aspecto sob o comprido onde na ponta norte veio a fazer a padaria, pela chaminé enorme da cozinha, o alpendre a poente para o pátio abrigado e fechado com grande barracão com colunas em redondo, outras casas em pedra ,o poço e a eira a indiciar que foi palco de uma estalagem.
Actualmente alterada 
Foi retirada a porta da frente  entre as duas primeiras janelas
Vista de norte 
A estrada medieval na sua frente vinda de norte a caminho do Bairro 


 Vista da outra estrada a poente
Mais uma crónica despretensiosa a partilhar cultura dando a conhecer património do passado de Ansião e das suas gentes, com espaço para acrescentar, num papel que muito orgulho me confere, pelo tempo em horas e dias a compilar pesquisas.

Fontes
Livro das Noticias e Memórias Paroquiais Setecentistas de Mário Rui Simões Rodrigues e Saul António Gomes
Testemunho da Tina Parolo, que muito agradeço.

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