quinta-feira, 1 de março de 2018

Venda do Negro aldeia de pedra em Ansião

Foto registada em movimento
A aldeia desenvolve-se com parco casario ao longo da estrada no correr do ancestral caminho de Santiago de Compostela na ligação de Alvaiázere a Ansião. Soalheira e abrigada pelo contraforte da serra mostra-se um quadro naturista de inexcedível valor histórico e cultural, a merecer honras e preservação!
Tanta vez passei na estrada ao lado e li a placa toponímica, sem jamais ter entrado...igual me dizia a minha mãe com 83 anos.
Logo no entroncamento o primeiro morador foi  António Fernandes, conhecido pela alcunha da família- Saguim, ganha nos finais do século XIX quando a sua família de Além da Ponte vivia junto da quinta do mesmo nome  comprada por Abel Falcão, regressado de Moçamedes, antiga Namíbia, por certo trouxe um saguim (macaco) que teria ditado a alcunha (?). A primeira pessoa que me recordo de ter falecido com cancro na garganta, por ter saciado a sede com bebida muito fria ...Então não me recordo dele e da família tão conhecida em Ansião!
Convidei a minha mãe que também não conhecia a aldeia. Deixamos o carro na beira da estrada num terreno do Sr. Gomes, tinha acabado de chegar de Lisboa com a esposa D Lucinda Simões, para fazer borralheiras. Depois de dois dedos de conversa partimos em caminhada, a tarde se mostrava muito agradável de sol radioso, a saborear os ares campestres naquela paisagem bordajada de orquídeas e sinos amarelos entalados na sobriedade das fendas da pedra calcária branca pintada de líquenes a negro e ainda vestida por todos os lados de erva verde, aqui e ali salpicos de simbologia judaica no casario dos seus primitivos habitantes, muita ruína imponente de casario e da que foi a estalagem da Venda do Negro, na verdade se chamava "Venda dos Negros"  mouros que fidelizaram a aldeia onde ainda se encontram imensos vestígios da construção ancestral que deveria ser preservada e não adulterada; balcões; pedras em triângulo invertido acima do lintel das portas ou em meia lua. A aldeia merece catalogação por estar em rota de caminheiros do mundo, pelo que a JFP e a câmara deviam encetar forma de a preservar e não permitir aberrações com a construção de novas arquitecturas.
Duvido que quem venha de Alvaiázere encontre  placa com o nome da aldeia - Venda do Negro, a não estar identificada a aldeia é uma perca enorme, pela rota de caminheiros do mundo que aqui passam podendo mais dela vir a falar e partilhar, apenas consta nas cartas, e GPS mas não é a mesma coisa. 
A aldeia formou-se à volta da Estalagem que aqui existiu desde pelo menos a centúria de 500.

Na esquerda a que foi a casa de António Fernandes, o Saguim 
A parte norte da aldeia é mais recente, só nasceu nos finais do século XIX quando foi roteada a nova estrada do S. João de Brito para Pousaflores.
 
 

Encontra-se amiúde esculpido no cimento do reboco do casario  a mistura de simbologia judaica e cristã, adulterada, fruto dos resquícios da cultura ancestral dos seus primeiros habitantes de origem judaica, vindos de Espanha convertidos à força em cristãos novos e também de mouros do Magrebe que por cá ficaram, que lhe ditou a fidelização da toponímia.
A leitora a Cláúdia Santos 
(...) mas não ficou publicado, pelo que me enviou uma mensagem 
"os símbolos fotografados não são judaicos. A origem pode parecer judaica, mas neste caso específico são símbolos utilizados nas aldeias para afastar o mal: um pentagrama e uma cruz. Um judeu praticante nunca utilizaria a cruz! E a estrela mais conhecida é a de David (6 pontas)"
A minha resposta
A simbologia tem origem judaica, disso não há qualquer resquício de dúvida, para em séculos seguintes se vir a fidelizar como bem diz para “afastar o mal” na altura não me lembrei em acrescentar, e aqui acrescento, ainda bem que me recordou. Obviamente que o povo na fuga de Israel, na sua diáspora de séculos acabou por a estrela de David de seis pontas se ter deturpado em oito, mas com intenção em despistar a Inquisição, isto aconteceu durante a reconquista cristã com o recebimento de títulos reais na ajuda a combater sarracenos, alguns com o titulo de nobres passaram a ostentar nos brasões crescentes e estrelas de 8 pontas, alusivos à sua ascendência judaica, para não se perder. Exemplo do brasão do Marquês de Pombal cujo avô paterno era de Pombal de ascendência judaica pelos apelidos "Carvalho e Melo". A Cruz cristã foi muito usada na comunidade judaica para atestar a sua nova fé - cristãos novos, as haviam de deixar em muitas casas onde viveram, aparecendo isolada ou misturada com a estrela de David na corruptela do que foram no passado a que acrescentaram crendices de afastar o mal-, inicialmente o mal da inquisição, uma vez extinta foram outros males, o das colheitas e dos animais, afinal o seu sustento e riqueza, pelo que no 1º de maio ainda em muito lado a tradição das maias, flores campestres em amarelo que se pôem em Cruz nas portas dos currais e nos campos espetadas num pau, uma tradição pagã com raízes na cristandade.
Brasão da quinta do Marquês de Pombal em Oeiras
Simbologia na Venda do Negro
Riscada no cimento pelo pedreiro na sua visão do que ouvia no passado, a sua interpretação!
Casas de dois irmãos de apelido Simões.
A primeira no gaveto da Travessa das Eirinhas, a segunda na beira da estrada para a Portela. Uma boa casa de cariz moderna, que convive atrás com a que foi dos pais, antiga de sobrado, essa sim para mim a que vale a pena vir a  ser preservada pela traça da sua antiguidade que privilegia a história da aldeia.Confidenciou-me a D.Lucinda que os filhos e netos não tem a mesma paixão que eles, o que se lamenta, pois o local é por demais aprazível, belo de encantos tamanhos, agora tem de se trabalhar para se manter as courelas limpas e as casas conservadas, mas quem corre por gosto não cansa. Só tive uma filha que desde pequena foi habituada a gostar das raízes, a perceber que é fundamental preservar o património herdado dos nossos familiares e claro o gozo que nos dá sentir que ali já foi espaço de familiares com histórias que se contam e recontam nas gerações, mas sobretudo as vivências de antanho em dias de Natal e Páscoa, ir à lenha para  acender o forno para fazer o repasto da festa; cozer o pão, preparar a assadeira com as carnes e  batatas, o tacho de barro não vidrado para a tigelada e nas bordas do forno  batata doce para ser comida com mel.E no jardim onde há sempre flores para a jarra, apesar das agruras da invernia e do calor do verão  ainda o rebuliço de abrir a cristaleira para escolher a loiça e os copos de cristal para enfim todos juntos à mesa saborear o repasto e a festa!
De saída confidenciou-me a D Lucinda que viveu na África do Sul que um dia foi ao médico com o filho mais novo e ele perguntou-lhe se não era de descendência judaica, pela mancha negra que o filho tinha na nádega. Diz ela que o marido também tem. De facto não sei nada de manchas. O que sinto sem favor dizer é que este povo que aqui habitou descende de gente com origem judaica e isso ainda hoje depois de tantas gerações ainda é visível em muitos aspectos.
Mais uma pista para a comunidade judaica que viveu nestas terras de Ansião que até hoje nenhum historiador aflorou, e bem o merecia ter reconhecimento.
 
A pedra da janela pintada a cal uma caracterisica da traça antiga beirã em diferenciar a janela, a abertura para o pensamento e liberdade!
Terra semeada a pedra escalavrada erguida da terra a imitar esculturas salpicada a orquídeas  e outras flores silvestres a chamar a Páscoa ...fechada por muros de pedra seca, uma herança ancestral que deve ser preservada, aqui rainha e o será única noutra paisagem no Mundo.
 
 
 

Ao longe avistei uma capoeira com belos exemplares galináceos- galos imponentes pretos e amarelos
Quelho a poente ornado a muros de pedra seca a circundar quintais. Devia ser mantido limpo.
Antigo caminho descrito por viandantes - estreito e pedregoso que fazia a ligação da Venda do Negro para as Gramatinhas onde algures na Barreira seguia para Ansião. Devia haver investimento para o redescobrir e não arranjarem alternativas como encontro na região, sem sentido.
Foto tirada do quelho para nascente onde passa a actual estrada.
Perguntei a razão deste nome, debalde não me souberam responder, ainda questionei se "eirinha" não seria um penedo calcário plano que servia de eira, como em Trás os Montes existem mas em granito...
Ao cimo da Travessa distingui uma casa nova, julgo seja da minha amiga Helena do Casal Soeiro, que conheci criada com a irmã Mariazinha na loja da minha tia Carma em Ansião. Depois de ter vivido em Ansião veio para aqui para a que foi a casa dos sogros, o que me disseram. Sita em local altaneiro, não fotografei  tão pouco outra à saída da aldeia de estrangeiros com piscina, só registo arquitectura antiga.
 
  A beleza da ruína, a boca de um forno debruado a tijoleira
 Outra característica acima do lintel da porta em "V" invertido de origem visigótica
 Reconstrução de casario em pedra
 
 Outra particularidade de antanho na tradição das portas com portinhola
E outra admirável, os balcões, uma caracteristica da habitação tradicional no Maciço de Sicó, e que infelizmente poucos se mantém. Esta aldeia ainda tem bastantes e deviam ser preservados.
Uma bela casa de traça antiga disse-me a D Lucinda que é do Carlos Ventura, que arranja televisões em Ansião. Tenha sido a estalagem da Venda do Negro!

Excerto do Livro Notícias e Memórias Paroquiais de Mário Rui Simões Rodrigues e Saul António Gomes "Em maio de 1568 Segismondo Cavalli, passou nesta estrada cujo secretário Lunardo Otthobon escreveu " assaz duas láguas pedragosas que medeiam Alvaiázere e Ansião se encontravam "tres ou quatro tabernas desagradáveis" (hosterie scontentissime).Estaria certamente a referir-se a vendas, que Rafael Bluteua, no Vocábulo Portuguez, definiu como "taberna de estrada ou estalagem de campo". 
Bartolomé de Villalba y Estana, em 1575, teve a desdita de ir almoçar à Venda do Negro. A verrinosa descrição poética que escreveu sobre esta venda, bem pode ficar perpetuada  na vasta literatura crítica europeia sobre a má qualidade das estalagens ibéricas.Esfomeado como estava, não lhe restou tentar melhor sorte do que ir dormir a uma estalagem de Alvaiázere. Na obra El Pelegrino Curioso celebrizou num poema satírico que aproveita a negritude do nome do estabelecimento para escurecer mordazmente esta "tan negra posada".

A la Venta del Negro hemos llegado
y negro el pan, y negros los manteles,
el caldo negro y el cabron chamuscado,
y negros de la guespeda aranbeles.
En negro punto aqui hemos llegado,
y más tener ventera cascabeles,
puerca, negra, suzia y torojada,librenos Dios de tan negra posada.

A minha simplista tradução
Há Venda do Negro havemos chegado 
E negro o pão, e negros os panos,
o caldo negro e a carne chamuscada,
E negros a santa companhia.
Neste ponto negro aqui havemos chegado,
E má cara cascavel do estalajadeiro,
Porca, negra, suja e desarrumada, livre-nos Deus de tão negra pousada.

Curiosamente seja estranho o poema tão negro à estalagem da Venda do Negro, porquanto a Albergaria ou estalagem teria sido de boas áreas, atendendo à volumetria d'hoje e ao emaranhado ruinal adjacente. Não teriam gostado da cara dos negros ou da comida...
 Não faltam as pedras laterais tão habituais na tradição habitacional noutros tempos
 Varanda virada a sul com alpendre suportado por colunatas em pedra
No complexo ruinal distingui uma pia em redondo, onde os cavalos saciavam a sede (?)...

Uma janela com gradeamento, não sei o que foi no passado...
 Capela de Nossa Senhora do Pranto
 
 
Segunda a estela em mármore a construção data de 1673.
Na parede do telheiro encontra-se uma pedra lavrada com cara de anjo ao centro rodeada de  objetos esculpidos de crucificação. Ao estar aqui colocada reporta a possibilidade de primitivamente tenha pertencido ao interior, e que na remodelação de 1754, antes do terramoto e em 1784 data que existe na verga da porta  "De 1784 Anno"  tenha sido retirada e aqui reposta para não se perder (?).

Na lateral resta a escadaria  com o pedestal onde está assente o campanário do sino e ao lado ostenta um relógio de sol.
Impressionante uma aldeia de parcos habitantes e ainda assim o dono do terreno a sul a entestar com a capela apresenta  couval galego em cima das janelas laterais e ainda feita escada ao lado da antiga, a monumental. Um verdadeiro atentado ao património histórico e cultural!
O normal seria o terreno ser do adro e não couval!
O povo necessita de esclarecimentos em saber destrinçar património e claro as JF devem fiscalizar!

Relógio de Sol. No concelho só conheço este e outro na Granja, no que foi o Paço jesuíta.
O sino. Possivelmente saiu do Engenho da Machuca. A necessitar catalogação antes que seja tarde!

Forte presença no casario de sinais da arquitectura ancestral que devem ser preservados.
Uma bela casa com balcão.
O que foi uma grandiosa e bela casa com balcão

 Pedras com marcas onde encaixaram portas e fechaduras
Esta casa para fazerem a calçada tiraram-lhe o balcão...
 Muita ruína ainda de pé a clamar por ajuda...
 
Um belo exemplar de tranca em madeira, ainda me recordo delas em miúda nos currais.
Nas Memórias Paroquiais de 1758 o padre Silvestre Lopes 
"Refere que a Venda do Negro tem 10 vizinhos."

Quem de direito não se deve descuidar com esta aldeia e outras como Casais Maduros, Casal Soeiro, Ribeirinho, Ameixieira e outras.


Excerto do do Livro do Padre José Eduardo Reis Coutinho 
"no verão de 1717 andou por Portugal um franciscano de Itália, Gian-Lorenzo Buonafede Vanti. Vindo de sul, partiu de Alvaiázere, onde comeu e dormiu bastante mal, na manhã de 17 de julho - aponta outros lugares por onde passou a relevar a importância da famosa estrada real - Ansião, Junqueira, Rabaçal, Fonte Coberta e Alcabideque. Diz que da Junqueira a Fonte Coberta a estrada era "muito bela e larga", particularidade bem notória a partir daquela povoação e contrastante com a das serras a norte e a sul de Ansião, torturosa, estreita e pedregosa." 

Nesta altura a rota que passava pela Venda do Negro era da chamada estrada de Coimbram , curiosamente  o topónimo Venda do Negro na relação de foreiros da Capela de Almoster nunca é referido e sim Albergaria, ao limite das Gramatinhas, onde houve outra estalagem.
 
Muito melhor estão os munícipes que aderiram à preservação das Aldeias de Xisto, falta haver preservação  análoga para as Aldeias de pedra, que felizmente o concelho de Ansião ainda tem bastantes. Não se devia permitir a sua deterioração nem adulteração com a venda de património a estrangeiros, que deviam ser obrigados a manter a traça ancestral. 
Incentivar trilhos para caminhadas; Portela, Ariques e,... com mapas para orientação e quilometragem.
Por favor haja alguém de direito que olhe com olhos de gente e não deixe morrer a aldeia da Venda do Negro, a dignificando como o foi no passado atestada com a passagem de viandantes e de peregrinos ao seu santuário.

Apelidos de antanho naturais da Venda do Negro - Gonçalves ; Simões; Ventura; e,...

Despedimo-nos dos ilustres Sr. Gomes e esposa Lucinda Simões com a cortesia da oferta de limões e de tangerinas, em gesto de grande hospitalidade que esta gente ainda conserva!
Amei te-los conhecido, teria ali ficado a ouvir estórias com história horas...na certeza de não me cansar!
Bem hajam por saber ser anfitriões da sua ancestral e bela terra!


Fontes
Duas fotos da página Facebook da Venda do Negro
Testemunho do Sr. Gomes e esposa D Lucinda Simões
Livro Notícias e Memórias Paroquiais de Mário Rui Simões Rodrigues e Saul António Gomes

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