terça-feira, 30 de março de 2010

Malhoa e o atelier em Figueiró dos Vinhos

Os 50 anos de temporadas do Mestre Malhoa por terras de Figueiró dos Vinhos -, o único pintor português que faz parte do meu manancial de infância.Homem nascido nas Caldas da Rainha em 1855 , falecendo em Figueiró dos Vinhos em 1933.Vivi impressionada a contemplar réplicas de quadros seus. na casa de meus pais, por amiúde a minha mãe me falar que o Mestre teve um atelier em Figueiró dos Vinhos, concelho limítrofe de Ansião, sendo visita no mês de setembro na Quinta de Cima, e falar que os seus quadros retratavam a natureza, e tradições, usos  e costumes das suas gentes nesta região e no norte, que se vestiam de cores garridas.
O Casulo de Malhoa
Autor: Barata Moura
Procedência: Museu José Malhoa (Caldas da Rainha) Data: 1951

Figueiró dos Vinhos começou por se chamar Figueiral- terra de muitas figueiras apelidada nos finais do século XIX - Sintra do norte pela frescura de aveleiras, laranjeiras, limoeiros, limas , videiras e águas no brutal contraste depois do planalto quase desértico de oliveiras raquiticas a mediar o termo de Ansião e Camporês para beijar a Ribeira d'Alge de íngremes costados verdejantes das suas serranias inspiradoras... 
Terra que foi escolha de pintores naturistas - Mestre Malhoa e Henrique Pinto de Cacilhas - muitas telas a evocar as gentes daqui e suas tradições e ainda os escultores Simões de Almeida, Tio e Sobrinho.  Malhoa mandou construir um corpo mais pequeno térreo em 1893 que depois foi acrescentado em graciosidade ao jus de chalet de bonecas.... Aqui viveu Malhoa 50 temporadas, o mês de setembro passava em Chão de Couce na Quinta de Cima onde tinha o seu quarto no torreão, o inverno na casa de Lisboa e não sei se nas Caldas da Rainha de onde era natural.
Malhoa morreu em 1933 sem descendência, praticamente tudo foi roubado de utilitário do seu casulo, ficaram os azulejos Bordalo Pinheiro da fachada, na primeira vez que conheci o casulo em 60 recordo a cimalha de madeira com flores tipo vitorianas à volta da sala, (pétalas em tons rosa pálido), a imitar as frondosas camélias do jardim Bissaya Barreto, e ainda  esculpiu magnificamente em madeira um lambril na sala alto cujo pormenor do traço  intenso a imitar couro. Após a sua morte sem deixar descendência as pessoas  nada ou pouco percebiam de arte, roubaram quase tudo.
No pequeno jardim resite a pérgula e o tanque de água uma tradição nestas terras beirãs. Felizmente a câmara a tempo preservou o que foi possível para não se perder o que não acontece noutros concelhos, por isso se lamenta a falta de sensibilidade sobre o património edificado, sem ser dignificado como bem o merece culturalmente no capítulo da história de cada terra, herança e legado que se devia deixar escrita e preservada para os vindouros.
Malhoa
Casulo
 Na fachada azulejos Bordalo Pinheiro
 A pérgula a desafiar as serranais e os bons ares
Malhoa viveu algum tempo em Figueiró dos vinhos com a mãe da Beatriz Costa, ficou conhecida como atriz. "Nasceu Beatriz da Conceição, no lugar da Charneca, perto de Mafra, a 14 Dezembro 1907. Os pais separaram-se tinha ela 4 anos. Assim, cerca de 1912, vem com a mãe para Lisboa. Conta ela que a mãe arranja trabalho como costureira, presume-se que entre outras casas, na de Malhoa. Ainda a crer no que nos diz, Malhoa pinta-lhe o retrato, e ela e a mãe terão chegado a passar uma temporada em Figueiró. (Pela lógica, tudo isto se terá passado entre os anos de 1912 e 1913). Logo depois (e aqui a própria Beatriz Costa nos dá versões contraditórias – ou por conhecimento em Figueiró, ou por encontro no Casão Militar para onde a mãe terá ido depois trabalhar) a mãe arranja novo marido. Ao que parece, o padrasto era originário das bandas do Casal de S. Simão e militar em Tomar. «Eu fui criada em Tomar dos cinco aos doze anos, que ele era militar e era do 15 de Tomar» - dirá. (Isto supõe os anos de 1913 a 1920). Por volta de 1920/21, «ao termo de seis anos de vida provinciana, meu padrasto obtinha transferência para o segundo batalhão de infantaria 16...», a família volta a Lisboa. Em 1923, tinha ela 15 anos, estreia-se como corista em «Chá e Torradas». Em 1924 integra a companhia do Teatro Avenida. Em 1927/28, na revista «Sete e Meio», usa pela primeira vez a característica franja. Em 1930 estreia-se no cinema, em «Lisboa, Crónica Anedótica». E em 1933 é a estrela de «A Canção de Lisboa»."
O modelo inspirador do retábulo da igreja de Chão de Couce
Por volta de 1930 o Mestre Malhoa não encontrava o rosto inspirador que tanto procurava para o retábulo da igreja de Chão de Couce - obra que tinha em mãos. Naquele contesto de procuras, quase desesperado, ainda houve uma que se negou dizendo-lhe " como se ajoelharia na sua frente " até que encontrou uma amiga da Beatriz Costa, menina com 18 anos de rosto angélico, que o encantou naquele instante - a modelo para a Nossa Senhora da Consolação, foi Maria Augusta Mesquita, a musa inspiradora faleceu há coisa de 2 anos - linda mulher de candura e olhar doce, em azul que a minha filha ainda conheceu no Lar no Avelar e falava do orgulho se ter sido a musa inspiradora do Mestre. A notícia em jornal.

Beatriz Lacerda, discípula de Malhoa , gerou alguma confusão com o nome da Beatriz Costa, como amiga da modelo Maria Augusta, o texto descrito revela que não podia ser ela, pois era muito pequena ao tempo. Desfeito o equivoco!
O Mestre Malhoa passava o mês de Setembro na Quinta de Cima na vila de Chão de Couce no concelho de Ansião. A quinta data dos primórdios da nacionalidade, embora hoje algo descaraterizada, mantêm no entanto a simplicidade de semblante ténue e delicado sobranceira aos pés do souto de castanheiros e das nascentes de boa água. Desde sempre se manteve na quinta o seu quarto, na torre do outão, altaneira, se ainda o têm hoje, com a venda da quinta, não sei.
Contam-se rocambolescas cenas de belos repastos. Um belo dia num desses jantares de mesa farta com leitão assado, eis que o mestre entusiasmado a deleitar-se com um naco de pele estaladiça o mesmo lhe resvala para o chão...
Do livro "Crónicas dum Tempo"
Doou para a posterioridade a Chão de Couce o retábulo da igreja, por si pintado e azulejos. Foi a sua última obra em 1932 - morreu em 26 de outubro desse ano.


Gazeta das Caldas, nº501. 22 Set. 1935...Umas flores da Quinta de Cima.
O Mestre pintou muitas tradições rurais... procissão, embraçar cebolas, descamisada, sesta e,...
A Camponesa de Figueiró de 1929

"Ai, credo"1923
Embraçar cebolas 1896 Coleção particular 
A descamisada 1903 Coleção particular
A SESTA
1909 Proprietário: Museu Nacional de Belas-Artes no Rio de Janeiro
A cesta feita em cana é artesanato ainda hoje típico destas terras de serranias, tal como a bacia de faiança de onde picavam o aferventado , um uso em desuso.
Há poucos anos um meu professor antes do 25 de abril, alentejano, de Montargil, Dr Prates Miguel, radicado em Ansião, decidiu em boa hora ser membro fundador da Associação dos Amigos da Sesta, já de renome nacional.Quanto a mim foi o único professor que guardo boas memórias até hoje!

Feira canastras de pão
O homem do burro
As papas
O quadro representa uma camponesa idosa, desdentada, a comer ou a mexer, com uma colher de pau, um prato de papas, aparentemente de milho, também chamadas papas de carolo. Alimento destas gentes ao tempo.
O fogueteiro

  
Fado
Patente no Museu do Fado
O S. Martinho ou os bêbados
O outono
O rapaz do tambor

Grávida...na dor em dar a notícia, pela pobreza, mais uma boca para alimentar...
O Barbeiro da aldeia
O emigrante 
Paisagem fluvial
Paisagem rural 
Contraste do vermelho a fazer eco aos barretes feitos nos teares artesanais das fabricas em Pêra
"Quadros encomendados pelo Comendador Seabra , pessoa abastada da região de Aveiro, que os levou para o Brasil para o seu palacete. Em meados dos anos 80, o palacete foi demolido tendo sido adquiridos pelo antiquário Jaime Afra ao Príncipe Real, que os vendeu para a coleção do antigo Banco BCP, atual Millenium"
Pintura no Minho A Desfolhada
A Caminho da Romaria
Volta da feira com a chegada do Zé P'reiras à Romaria
Obra da coleção Millennium bcp

Clara pintado em 1918
Varanda Florida
As promessas
Seca de espigas de milho
O latoeiro
Praia com barracas
Praia das Maças
A corar a roupa

Cócegas

Retrato do Dr Egas Moniz pintado por Malhoa

Alguns quadros pintados pelo Mestre ofertados aos donos da Quinta de Cima foram à pouco tempo vendidos em leilão no Palácio do Correio Velho.
Fontes
Fotos do Google
http://bloguedelisboa.blogs.sapo.pt
https://www.google.pt/search?q=coleção+de+obras+de+mestre+malhoa
Facebook cinco vilas, Rui Batista

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